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Plano de Doria para morador de rua pode ser mais do mesmo, dizem ativistas

Para o presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua, a principal mudança deve ser em relação ao tratamento dado aos usuários dos albergues
por Sarah Fernandes, da RBA publicado 10/01/2017 12h00, última modificação 10/01/2017 13h09
Para o presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua, a principal mudança deve ser em relação ao tratamento dado aos usuários dos albergues
ABr/ Marcelo Camargo
Morador de rua

Prefeitura não soube detalhar qual será contrapartida dada às empresas privadas

São Paulo – O presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua do Estado de São Paulo, Robson César Correia de Mendonça, vê com desconfiança um projeto para pessoas em situação de rua não finalizado, pela prefeitura de São Paulo. Segundo a secretária municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Sonia Francine, a ideia é firmar parcerias com empresas privadas do ramo de hotelaria e construção para revitalizar albergues para moradores de rua e oferecer cursos de capacitação profissional. Mendonça afirma que a principal mudança deve ser em relação ao tratamento dado aos usuários dos albergues. "Colocar pessoas despreparadas para lidar com a população de rua e ela ser maltratada, como ocorre na maioria dos albergues, não vai dar certo", diz.

Além do tratamento dos funcionários, o ativista afirma que muitos dos moradores de rua se recusam a ir para os albergues porque devido a problemas de infraestrutura e roubos. Além disso, a impossibilidade de deixar os animais de estimação em algum local ou de poder estacionar carrinhos de coleta de materiais recicláveis em lugares seguros também afasta os moradores de rua dos albergues.

A ideia, segundo Soninha Francine, é transformar os maiores abrigos em repúblicas de moradia – onde ocorreriam os cursos e atividades de geração de renda – e criar albergues emergenciais menores, com capacidade para pelo menos 10 pessoas. A secretária, porém, não soube detalhar qual será contrapartida dada às empresas privadas.

"Para a empresa por um lado é uma doação, mas tem perspectiva de ser investimento e não uma despesa, porque quando a economia melhora, gera empregos, pessoas entram no mercado de trabalho e ninguém sai perdendo. Elas querendo ajudar não vou nem perguntar se têm segundas intenções. A gente tem segundas intenções: quero que os moradores de rua sejam capacitados e trabalhem", disse à RBA.

A secretária também não soube detalhar como seria o processo de remodelação dos albergues, porém a tendência é que os locais sejam reformados com materiais e tintas doados por empresas privadas. Os grandes albergues da cidade, como Complexo Prates e o Centro de Acolhida Oficina Boracea podem ser readequados para funcionarem também como repúblicas de moradia, com espaços de trabalho e geração de renda, enquanto a acolhida emergencial seria feita em casas menores, para cerca de 10 pessoas.

"Em vez de ter um único lugar para 700 pessoas poderíamos ter vários lugares para 10 pessoas, o que não é uma novidade em assistência social. Esse modelo é mais barato: a média gasta por indivíduo em um albergue por 16 horas é de pelo menos R$ 600. Em uma república é R$ 350", compara a secretária. "A prefeitura é uma grande consumidora de serviços, por exemplo de lavanderia industrial e de cozinha. A rede de educação serve produtos orgânicos, compramos pão. Se tiver, por exemplo, uma escola de panificação dentro do albergue a gente pode consumir o pão de lá e tornar o local um espaço de produção, geração de renda e empreendedorismo".

Coordenador da Pastoral do Povo de Rua, o padre Julio Lancellotti afirma que só quando o projeto estiver finalizado é que se poderá concluir sobre sua efetividade como política pública para pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, caso dos moradores de rua. "É preciso 'aterrissar' mais para entendermos o que a prefeitura está propondo. Até agora são só coisas gerais. Eu acho sobretudo temos que ouvir a população de rua. Temos que ouvir deles o que eles pretendem e não vir algo de baixo para cima, é preciso construir com eles. Tem uma série de coisas para serem trabalhadas."

Mendonça concorda e diz que espera que o projeto proporcione reais oportunidades para que a população de rua construa suas próprias opções. "Tenho um pouco de medo da palavra ‘revitalização’ porque se fala muito e, no fim, não se faz nada. Não é com albergue que vai tirar morador da rua, mas com autonomia. Pessoas capacitadas para o mercado de trabalho, com lugar para ficar, é que têm autonomia para sua autogestão."