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Por falta de 'contato antecipado', PM reprime novamente ato contra aumento das tarifas

“Foi um massacre. Uma guerra contra jovens desarmados”, disse o padre Júlio Lancellotti. Secretário da Segurança Pública, Alexandre de Moraes, apoiou comando da PM e disse que não houve abuso
por Rodrigo Gomes, da RBA publicado 13/01/2016 00:52, última modificação 13/01/2016 09:35
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“Foi um massacre. Uma guerra contra jovens desarmados”, disse o padre Júlio Lancellotti. Secretário da Segurança Pública, Alexandre de Moraes, apoiou comando da PM e disse que não houve abuso
Jornalistas Livras
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Ninguém entra, ninguém sai. Polícia fecha acesso da Praça do Ciclista para Av. Paulista e bloqueia Av. Rebouças

Tiago Mazza/FramePhoto/Folhapress MPL
PM usou todo arsenal disponível para impedir manifestantes de seguir para o Largo da Batata

São Paulo – “Não houve nenhum tipo de contato antecipado com a gente”, explicou o tenente-coronel André Luiz, da Polícia Militar (PM), argumentando que os manifestantes não respeitaram os “preceitos legais” para justificar por que o segundo ato contra o aumento das tarifas do transporte coletivo em São Paulo, organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL), não poderia realizar o trajeto da Avenida Paulista até o Largo da Batata, em Pinheiros, zona oeste paulistana. Sob essa premissa, a PM reprimiu brutalmente os ativistas que tentaram seguir este caminho, utilizando cassetetes, balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta.

Dezenas de manifestantes e mesmo pessoas que apenas passavam pela região ficaram feridos com estilhaços de bombas, balas de borracha e pancadas de cassetete. Uma jovem que pediu para não ser identificada quebrou o pé e foi levada ao hospital pelo Corpo de Bombeiros. “Nós não fizemos nada. Entramos em um prédio e fomos cercados. Levantamos as mãos e pedimos para deixar a gente sair. Mas quando deixamos o prédios fomos atacados com bombas e cassetetes, sem ter pra onde correr”, relatou o técnico em eletrônica Pedro Alexandre de Brito.

Durante pelo menos 30 minutos o bombardeio foi constante na Avenida Paulista. A PM perseguiu os manifestantes pelas ruas do entorno, que também estavam cercadas. Os ativistas alcançados eram agredidos. “A polícia promove o ódio, reprimindo os jovens com tanta violência”, afirmou o ativista Gabriel Feitosa.

Na Rua Sergipe, próximo ao Cemitério da Consolação, um grupo de aproximadamente 200 manifestantes foi emboscado pela PM e atacado com bombas de gás lacrimogêneo. Entre eles, havia alguns mascarados, que depredaram lixeiras e atearam fogo. Pelo menos dez pessoas foram detidas e encaminhadas a delegacias da região, mas segundo informações que circulam nas redes sociais o número deve ser bem maior. O ato reuniu cerca de 5 mil pessoas, menos do que o primeiro, na última sexta-feira (8). Porém, muitos manifestantes nem sequer conseguiram chegar à Avenida Paulista.

Jornalistas também não foram poupados. Um grupo de profissionais que tentou se aproximar do local onde a repressão teve início, na Praça do Ciclista, foi repelido pela PM com bombas de gás lacrimogêneo, arremessadas a uma distância de cerca de dois metros. Fotógrafos foram agredidos e um repórter da Central de Mídia Independente (CMI) foi detido.

MP ausente

O palco para a repressão foi montado horas antes. Desde o meio da tarde a Polícia Militar iniciou uma operação de guerra na Avenida Paulista. Centenas de policiais da Tropa de Choque, da Força Tática, das Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas (Rocam) e das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota) – portando metralhadoras – faziam parte do cerco à Praça do Ciclista, no encontro da Avenida Paulista com a Rua da Consolação. Motos da Rocam foram enfileiradas para impedir a passagem para a Avenida Rebouças.

“Suspeitos” de serem manifestantes que chegavam ao local pelas estações de Metrô Consolação (Linha 2-Verde) e Paulista (Linha 4-Amarela) eram parados e revistados. Um jovem não identificado foi detido por estar de posse de uma corrente de ferro. O acesso só era possível pela Rua da Consolação. As avenidas Paulista e Rebouças foram fechadas. Outras ruas da região também tinham grupos de policiais de prontidão.

O militante do MPL Matheus Preis e o tenente-coronel André Luiz não chegaram a um entendimento sobre o trajeto. “A PM não aceita o trajeto que nós definimos, de descer a Avenida Rebouças, pegar a Avenida Faria Lima, até o Largo da Batata. Eles querem decidir o trajeto do ato e só aceitam que desçamos a Rua da Consolação até a Praça da República”, afirmou. Nesse caminho havia vários grupos de policiais e um bloqueio pouco abaixo do Cemitério da Consolação. A proposta foi recusada pelo movimento, que informou isso durante um jogral.

A partir do informe, os policiais da Tropa de Choque formaram duas fileiras para impedir a passagem dos manifestantes. Estes tentaram romper o cerco empurrando os agentes e após algum tempo de tensão, palavras de ordem e bate-boca, os policiais jogaram spray de pimenta contra os ativistas. Logo explodiu a primeira bomba e os manifestantes correram sentido Paraíso, onde estava outro grupo da Tropa de Choque e policiais da Rota. Bombardeados e perseguidos, alguns ativistas tentaram se esconder em prédios da região, mas acabaram expulsos e agredidos.

Depois da primeira onda de repressão, cada pequeno grupo que tentava se recompor era atacado com mais bombas e balas de borracha. Viaturas e motos da PM desceram a Rua da Consolação caçando manifestantes. Houve relatos de repressão na Barra Funda, na Avenida Angélica e no Teatro Municipal. “Foi um verdadeiro massacre. O que vimos aqui foi uma guerra contra jovens desarmados”, afirmou o padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua.

Logo após o fim da ação policial, o secretário Estadual da Segurança Pública, Alexandre de Moraes, convocou uma coletiva de imprensa em que reafirmou a posição do tenente-coronel André Luiz, de que sem informar o trajeto do ato antecipadamente não vai ocorrer manifestação, e que não houve abuso por parte da PM. “Se for comprovado, vamos investigar”, afirmou.

Embora solicitado pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), o Ministério Público Estadual de São Paulo não enviou nenhum representante para acompanhar o ato, segundo informações da assessoria de imprensa do órgão. Fernando Haddad pediu a mediação do MP para garantir que a manifestação transcorresse sem violência. O prefeito teria conversado com o secretário Moraes, e este aprovado a participação da Promotoria.

O representante do MPL Vitor Quintilliano disse no início da manifestação que esperava que a PM permitisse que o ato tivesse começo, meio e fim e que não fizesse como na sexta-feira (8), reprimindo a mobilização. “É evidente que a PM veio para sufocar e intimidar as pessoas que participam do ato”, afirmou. Apesar da repressão, um grupo de manifestantes conseguiu bloquear o sentido centro da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, na altura da Avenida Paulista.

O Passe Livre reafirmou que vai se manter mobilizado até que haja revogação do aumento e já marcou um novo ato para a próxima quinta-feira (14), em duas frentes: no Teatro Municipal, no centro da cidade, e no Largo da Batata, em Pinheiros.

Na última sexta-feira, a PM reprimiu o ato após um grupo de manifestantes tentar ocupar o sentido centro da Avenida 23 de Maio. Como hoje, os policiais abusaram do uso de bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e cassetetes. E também perseguiram manifestantes pelas ruas do centro. O coletivo Jornalistas Livres flagrou policiais plantando um suposto explosivo na mochila de um manifestante detido.

Desde o último sábado (9), as tarifas de ônibus, Metrô e trem foram reajustadas de R$ 3,50 para R$ 3,80, um aumento de 8,57%. Segundo as secretarias Municipal de Transportes e Estadual dos Transportes Metropolitanos, o reajuste ficou abaixo da inflação acumulada desde o último reajuste, ocorrido em 6 de janeiro de 2015. A inflação acumulada neste período (Fipe) foi de 10,49%. A integração entre ônibus e trilhos (metrô e trens) passa de R$ 5,45 para R$ 5,92. Já os bilhetes temporais 24 horas, madrugador, da hora, semanal e mensal não terão seus preços aumentados.

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