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'Estados estão sendo atacados pelo neoliberalismo', afirma sociólogo

No Fórum Social Temático de Porto Alegre, Boaventura de Sousa Santos aponta crises de representatividade surgidas a partir das intervenções do capitalismo na política
por Redação RBA publicado 20/01/2016 16h47, última modificação 20/01/2016 17h03
No Fórum Social Temático de Porto Alegre, Boaventura de Sousa Santos aponta crises de representatividade surgidas a partir das intervenções do capitalismo na política
Caroline Ferraz/Sul21
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Boaventura: "A democracia representativa perdeu a luta contra o capitalismo"

São Paulo – “Os Estados estão sendo atacados pelo neoliberalismo e a truculência das polícias. Passamos por um processo sem precedentes em que houve alguma distribuição de renda que permitiu políticas sociais em todo o continente. Esse processo esgotou-se”, afirmou hoje (20) o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, acerca da diferença entre o momento atual e do primeiro Fórum Social Mundial, em 2001. Ele participou, pela manhã, de debate que abriu o dia de atividades do Fórum Social Temático de Porto Alegre. A influência crescente do capital na política foi apontada pelo pensador como aspecto fundamental em uma crise da “democracia representativa”.

Para o sociólogo, é necessário reaver a esperança e a união na esquerda. No início dos anos 2000, disse, uma onda de governos progressistas, como de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil e Hugo Chávez na Venezuela, culminaram de uma forte aliança entre movimentos sociais e a sociedade civil para o enfrentamento do modelo neoliberal de globalização e acumulação de riquezas.

“Dói um pouco ver que quem me ensinou esqueceu das lições”, disse Boaventura ao recordar que, em 1999, no governo de Olívio Dutra (PT), o Rio Grande do Sul instaurou o Orçamento Participativo. “Se fez um trabalho notável totalmente ignorado nesse país. A esquerda brasileira tem pouca memória, e por isso é tão facilmente manipulada pela direita”, argumentou.

Em tom crítico, o sociólogo chamou a esquerda para se unir em um movimento coeso visando avanços na democracia. “Como continuam (as forças de esquerda) com tanta discussão interna, por que divergem sobre tão pouco? E ao mesmo tempo, com que facilidade alguns partidos de esquerda se unem com setores da direita. Não podemos nos chamar de esquerda e assassinar indígenas e quilombolas”, disse.

Questão global

O combate à crise do capitalismo, que o sociólogo engrossa o coro dos que veem sinais a cada ano mais evidentes, por meio de políticas de austeridade e de privilégios com ótica de livre mercado, vem se mostrando ineficaz, continuou.

Além de não tratar os problemas criados pelo próprio modelo neoliberal, essa estratégia enfraquece a representatividade. Boaventura citou a situação atual das economias europeias, fragilizadas, com altos índices de desemprego e pressionadas por exigências do mercado (representado pela troika, termo que reúne o Banco Mundial, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional), para comprovar a tese. “Os detentores do dinheiro já não se contentam em controlar os políticos, querem que executem sua própria agenda e que seus candidatos tomem conta da política desses países”, disse.

O problema se estende para a esfera social e acaba eclodindo em manifestações em diferentes nações. “A democracia representativa perdeu a luta contra o capitalismo. É por isso que vimos a Primavera Árabe pedir democracia e os Indignados pedirem democracia real, por exemplo”, disse o sociólogo. A crise na representatividade, para Boaventura, foi o que desencadeou também as manifestações no Brasil em 2013. “A crise da representação é a ideia que os cidadãos têm de que os partidos não os representam.”

Contudo, o sociólogo apontou uma possível armadilha contida no contexto das manifestações em razão da crise de representatividade. “A rua não é propriedade da esquerda, pode ser apropriada pela direita reacionária e golpista. Pensamos que a rua é uma forma de aprofundar a democracia, e assim foi, mas não é necessariamente”, afirmou, relembrando que as manifestações brasileiras em 2013 eclodiram com uma visão esquerdista a princípio, mas rapidamente sofreram uma forte guinada à direita.

Uma saída

Boaventura declarou que enxerga a possibilidade de fortalecimento da democracia participativa por meio de uma “profunda reforma política”, que assegure direitos e impeça abusos de certos setores. “É muito difícil dizer para os povos indígenas, por exemplo, que há uma democracia no Brasil, porque eles vivem na violência”, disse.

A importância de um Estado eficaz também foi citada pelo sociólogo ao mencionar que a reforma política deve vir atrelada a uma reforma econômica. “Há um certo controle ideológico sobre a cidade, uma ideia de que os povos se habituaram ao consumo, de que os direitos sociais não são propriamente direitos, que podem cessar sempre que a economia estiver com problemas.”

Outro aspecto, presente nos fóruns desde sua primeira edição, apontado por Boaventura, é a necessidade de regulamentação da mídia. “Temos que regular no sentido de permitir igualdade de oportunidades à opinião pública, à diversidade. Não é para limitar o sentido das opiniões, mas sim para que haja mais opiniões. A produção das mídias alternativas é profundamente importante nessa época.”

Com informações do Sul 21