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Manifestantes de BH revelam incoerência sobre golpe e situação econômica do país

Maioria dos que foram ao centro da capital mineira no domingo era de classe A e B. Metade já votou no PT, maioria votou em Aécio Neves no segundo turno de 2014, mas menos de metade votaria de novo
por Rodrigo Gomes, da RBA publicado 18/08/2015 12h05, última modificação 18/08/2015 13h19
Maioria dos que foram ao centro da capital mineira no domingo era de classe A e B. Metade já votou no PT, maioria votou em Aécio Neves no segundo turno de 2014, mas menos de metade votaria de novo
Willian Marques/Photo Press/Folhapress
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Apesar do apelo de que o país está afundando na crise, dois terços dos manifestantes não têm conta atrasada

São Paulo – Pesquisa realizada pelo grupo Opinião Pública, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), durante os protestos pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, no último domingo (16), em Belo Horizonte, revela, por exemplo, incoerência dos manifestantes quando se posicionam sobre um golpe militar para tirá-la do poder ou quanto à piora nas condições de vida. Como em abril, a pesquisa de agora constata que é grande a aversão aos programas sociais do governo federal, como o Bolsa Família, as cotas raciais e o Mais Médicos. Novos dados trabalhados foram os sentimentos de aversão, raiva e tristeza relacionados ao PT.

Embora o discurso mais aguerrido de defesa de uma intervenção militar tenha se reduzido em relação às primeiras manifestações, apenas 13% dos manifestantes entrevistados ainda dizem que esta seria "a melhor saída" neste momento. Porém, quando questionados sobre qual seria a melhor ação para livrar o país de uma situação de desordem social, 46,8% são favoráveis à intervenção militar – demonstração de que, embora não defendam diretamente, muitos também não se opõem a um golpe de Estado para tirar o PT do poder.

A mesma incoerência é registrada quando o assunto é a crise econômica: 93,1% dos entrevistados consideram que a situação do país está ruim ou péssima. Perguntados sobre como está a situação financeira pessoal, comparada com dez anos atrás, 66,6% responderam que está pior. No entanto, quando questionados se têm alguma conta em atraso, há pelo menos 30 dias, 67,5% dizem não ter nenhuma dívida atrasada.

"O que percebemos é que, apesar da alta renda e do grau de instrução, os manifestantes não têm coerência ao apontar problemas ou soluções. Está tudo ruim, mas as contas estão em dia. Não aceitam a pecha de golpistas, mas são favoráveis a intervenção militar se houver 'desordem'", destacou a professora Helcimara de Souza Telles, do programa de pós-graduação em Ciência Política da UFMG.

Os manifestantes também se mostraram indecisos quando o assunto é o direito à terra rural. Quando questionados sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), os defensores do impeachment foram majoritariamente avessos à entidade: 78,6%. Ao mesmo tempo, 57,7% se disseram favoráveis à reforma agrária, principal objetivo da luta do MST. Para a professora, o que pesa neste caso é que os sem terra são frequentemente associados, pela mídia tradicional, ao PT e à baderna, representada no imaginário dos entrevistados pela ocupação de propriedade privada, sem considerar o fim social da terra. "Mas a reforma agrária ampliaria a possibilidade de obter propriedade, o que é bem visto por eles", explica a professora.

Perfil

Os pesquisadores realizaram 434 entrevistas durante todo o dia, na Praça da Liberdade, centro da capital mineira, onde pelo menos 7 mil pessoas realizaram um dos protestos pelo impeachment da presidenta Dilma.

O recorte socioeconômico medido foi semelhante ao da manifestação de abril, com 56,6% dos manifestantes com renda superior a cinco salários mínimos, enquanto 30,6% têm renda superior a dez mínimos. Quanto ao grau de instrução, 52,3% tinham ensino superior completo e 12,2% ingressaram neste nível sem terem completado os estudos.

Pelo menos um terço deles participava pela primeira vez de uma manifestação organizada pela direita após as eleições do ano passado. Do total, 29% disseram protestar contra a corrupção e 41,7% tinham como alvo direto o governo petista. Para 77,2% dos manifestantes, a melhor saída para o país seria a renúncia ou o impeachment de Dilma. Outros 73,3% consideram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva "um dos maiores malfeitores do Brasil".

Embora a manifestação fosse claramente contra o PT, Helcimara destacou que 53,7% dos manifestantes declararam ter votado no partido de Lula pelo menos uma vez. E uma proporção muito próxima, entre 53% e 56%, dão nota máxima, em uma escala de zero a dez, aos sentimentos de "aversão", "raiva", e "tristeza" em relação à legenda.

A mesma relação se aplica quando o questionamento envolve a presidenta Dilma. "É possível que muitos tenham votado em Lula para presidente. Isso me parece um alerta ao PT. As pessoas demonstram se sentir traídas", afirma a professora.

De acordo com a pesquisa, os principais motivos de oposição ao PT entre os manifestantes de Belo Horizonte são os programas sociais. Para 74,5% deles, o Bolsa Família deixa as pessoas preguiçosas. Outros 61,3% são contra a vinda de médicos cubanos ao país. E 64,7% defendem a extinção das cotas raciais.

Além disso, os pesquisadores observaram um sentimento de superioridade quanto a outras classes ou regiões do país. Para 52,1%, "os nordestinos têm menos consciência política na hora de votar do que as pessoas de outras regiões do país" e para 74% "os pobres são mais desinformados na tomada de suas decisões políticas".

Apesar do perfil conservador, os manifestantes também se mostraram divididos quando perguntados sobre porte de armas para "cidadãos honestos" (53% favoráveis), legalização do aborto (46,5% favoráveis), pena de morte (41,5% favoráveis).

Os itens em que o posicionamento foi mais definido entre os manifestantes mineiros foram a redução da maioridade penal (74,5% favoráveis), a liberação do consumo de maconha (67,5% contrários) e casamento entre pessoas do mesmo sexo (61,1% favoráveis).

Já em relação à reforma política, houve expressivo apoio ao fim do financiamento privado de campanhas eleitorais (61,3%) e ao fim da reeleição (73,9%). Quanto à chamada Agenda Brasil, 60,3% se mostraram contrários ao aumento do tempo de trabalho para a aposentadoria, mas 43% se disseram favoráveis à cobrança no Sistema Único de Saúde para os mais ricos.

Mesmo estando presente na manifestação – também pela primeira vez –, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) já não encanta tanto os manifestantes mineiros, segundo dados colhidos pelos pesquisadores.

Dos entrevistados, 78,6% dizem ter votado no tucano no segundo turno da última eleição, mas somente 48,6% afirmam que votariam nele hoje. Entre os demais, 6% disseram que votariam no ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa e outros 6,7% no deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ). E 19% não têm candidato.