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Dia Mundial do Refugiado

ONU: Brasil dá exemplo de acolhimento humanitário de refugiados

País tem hoje 7,7 mil pessoas refugiadas de 81 nações. A maior parte deles vem da Síria (23%)
por Sarah Fernandes, da RBA publicado 20/06/2015 19:09, última modificação 20/06/2015 19:17
País tem hoje 7,7 mil pessoas refugiadas de 81 nações. A maior parte deles vem da Síria (23%)
E. Byun/ ACNUR
Refugiada síria

'Deixei minhas bonecas na Síria quando viemos para o Líbano e meu pai me fez esta com madeira. Eu gosto dela, mas sinto falta dos meus brinquedos e dos meus amigos na Síria', diz criança refugiada

São Paulo – O representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), Andrés Ramirez, afirmou que o Brasil dá um bom exemplo de como elaborar e manter políticas humanitárias e generosas de acolhimento de refugiados. “São os países ricos, em geral, que têm que aprender com o Brasil a como implantar ações receptivas, principalmente porque essas pessoas não vêm para tentar uma vida melhor, mas para salvar suas vidas. O Brasil está oferecendo um bom exemplo”, disse, em recente debate em São Paulo. Hoje (20) é comemorado o Dia Mundial do Refugiado.

Ao todo, o Brasil tem hoje 7,7 mil pessoas refugiadas de 81 países, de acordo com o último levantamento do Comitê Nacional para os Refugiados, ligado ao Ministério da Justiça, que reuniu dados até maio. A maior parte deles vem da Síria (23%) – país cujos habitantes somam a maioria dos refugiados do mundo – seguida por Colômbia, Angola e República Democrática do Congo. O número de solicitação de refúgio ao governo brasileiro aumentou 22 vezes entre 2010 e 2014, passando de 1.165 para 25.996, de acordo dados do Ministério da Justiça, o que soma mais do que os pedidos feitos à Austrália e quase o mesmo que os do Canadá.

“O Brasil está preparado, mas as coisas estão mudando drasticamente. Fica claro que desde 2013 os números do Brasil estão aumentando muito. O país não está isolado das tendências mundiais de refúgio. Cada vez mais está diante de uma situação complexa e precisa se fortalecer mais, sobretudo a estrutura do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), para estar preparado para o desafio. A tendência é só piorar”, disse Andrés Ramirez. “Os refugiados se deslocam para tentar salvar suas vidas. São vítimas de alguma tragédia humana que os forçou a deixar seu país. Essa é, para eles, a última opção.”

São Paulo é o estado com o maior número de pessoas solicitantes de refúgio, um total de 3.809. A capital paulista é, por sua vez, a cidade com mais solicitantes (3.276), seguida por Campinas (218) e Guarulhos (178). O número de solicitações de refúgio no estado aumentou mais de 1.000% entre 2010 e 2014, saltando de 310 pedidos para 3.612. A maioria dos solicitantes é da Nigéria (1.075), seguida por grupos da República Democrática do Congo (28), Líbano (245) e Gana (185).

“A distância do Brasil dos países em conflito explica por que, apesar do aumento, o número de refugiados ainda é pequeno se comparado com outros focos de refúgio”, avalia o representante da ONU. “Precisamos de diálogo entre estado, União, município, entre as universidades, a sociedade civil e o Acnur (agência da ONU para refugiados). O governo está ciente, está trabalhando e tem que dar resposta a esse fenômeno.”

Amistoso para Copa dos Refugiados hoje, em SP

O Acnur promove hoje o primeiro evento da segunda edição da Copa dos Refugiados, no Sesc Interlagos (Avenida Manuel Alves Soares, 1.100, zona sul de São Paulo), que reunirá pelo menos 100 refugiados de diferentes países – além de representantes da ONU, da Caritas Arquidiocesana de São Paulo e autoridades dos governos estadual e municipal. Serão sorteados os grupos que disputarão a Copa, marcada para agosto, e será realizada uma partida amistosa entre Nigéria e Camarões (as equipes campeã e vice-campeã do torneio do ano passado).

No mundo

O deslocamento forçado no mundo no ano passado foi o maior já registrado, atingindo 59,5 milhões de pessoas, mais do que a população da Inglaterra. Só em 2014, 13,9 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas cidades pela primeira vez, muitas vezes fugindo de conflitos, desastres naturais ou epidemias.

De acordo com o Acnur, em 2010 pelo menos 10,9 mil pessoas eram obrigadas a deixar suas casas por dia. Em 2014, esse total atingiu 42,5 mil pessoas. Os países que mais recebem pedidos de refúgio são, na ordem, Rússia, Alemanha, Estados Unidos e Turquia.

Mais da metade (53%) dos refugiados do mundo se dividem em três nacionalidades: sírios (3,88 milhões, ou um em cada cinco refugiados), afegãos (2,59 milhões) e somalis (1,9 milhão). “A grande maioria dos sírios está indo para os países da vizinhança, como Turquia, Líbano, Jordânia e Iraque. Imagine que para as pessoas fugirem para o Iraque é porque a situação está muito complicada”, disse Ramirez. “Ao todo, 86% dos refugiados estão nos países em desenvolvimento e 14% nos países ricos.”