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Violência

Protestos na abertura da Copa deixam ao menos 37 feridos e 47 detidos em São Paulo

Dados são parciais e foram compilados por grupos de socorristas e observadores legais. Polícia e Secretaria Estadual de Segurança Pública se negam a divulgar informações oficiais
por Tadeu Breda, da RBA publicado 13/06/2014 17:44, última modificação 13/06/2014 18:46
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Dados são parciais e foram compilados por grupos de socorristas e observadores legais. Polícia e Secretaria Estadual de Segurança Pública se negam a divulgar informações oficiais
Midia Ninja
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Repórter da CNN foi uma das pessoas feridas em primeira manifestação durante a Copa

São Paulo – Ao menos 37 manifestantes se feriram e 47 acabaram detidos pela Polícia Militar na zona leste de São Paulo na manhã de ontem (12), durante protestos convocados por organizações políticas e sindicais para criticar realização da Copa do Mundo no país. A repressão policial foi tão intensa e prematura que as pessoas sequer conseguiram sair em passeata pela região, como haviam planejado.

Os números são resultado de compilações realizadas pelos socorristas voluntários do Grupo de Apoio ao Protesto Popular (Gapp) e pelos observadores legais organizados pelos Advogados Ativistas, que saíram às ruas para monitorar possíveis violações de direitos cometidas pela PM ao longo da jornada. Mais de 30 horas após o ocorrido, nem a corporação militar nem a Secretaria Estadual de Segurança Pública de São Paulo disponibilizaram dados oficiais sobre o operativo.

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Os dados sobre feridos têm como base atendimentos realizados diretamente pelo Gapp, cujos integrantes socorrem vítimas de balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo com rapidez muito maior do que ambulâncias ou bombeiros. “Atendemos 37 pessoas ontem”, afirma Dalton Martinho, um dos dez voluntários que atuaram nas primeiras manifestações realizadas em São Paulo durante a Copa. “Desta vez, felizmente, não tivemos nenhum ferido com gravidade.”

De acordo com Martinho, as lesões foram provocadas por cassetetes, quedas, tiros de balas de borracha, estilhaços de bombas e sufocamento por gás. “Foram lesões de média gravidade”, aponta, relatando que três voluntários do Gapp também se feriram – dois deles, atingidos pela polícia enquanto assistiam manifestantes machucados. “Uma parte das lesões foi provocada diretamente pela repressão policial. Outra, pelo desespero e corre-corre das pessoas, o que acaba provocando acidentes.”

Em sua primeira atuação durante manifestações, os observadores legais registraram 47 detenções durante os protestos de ontem. O grupo composto por 40 voluntários saiu às ruas da zona leste equipado com câmeras e formulários para registrar eventuais abusos da PM. De acordo com o grupo, muitos policiais incorreram em infrações corriqueiras, como falta de identificação nas fardas, revistas corporais sem justificativa legal e porte de arma de fogo – alguma de grosso calibre, como metralhadoras.

Os observadores constataram ainda impedimento à atuação de advogados – ao menos quatro deles foram agredidos pela polícia. Jornalistas também sofreram ataques diretos das tropas de choque. Ao menos uma delas, repórter da rede de televisão norte-americana CNN, feriu-se com estilhaços de bomba. O grupo viu ainda manifestantes sendo detidos para averiguação, o que é ilegal. Segundo os voluntários, a PM voltou a utilizar bombas de gás lacrimogêneo com data de validade vencida.

“Cada dupla de observadores carregava uma prancheta com 30 folhas, e não sobrou folha para ninguém”, afirma André Zanardo, membro dos Advogados Ativistas, ilustrando a quantidade de violações de direitos compilada pelo grupo. O coletivo divulgou na manhã de hoje (13) um relatório inicial de abusos, que será complementado com mais dados ao longo dos dias. “Tudo o que consta do levantamento possui provas documentais, por fotos e vídeo, ou testemunhais.”

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), elogiou a atuação da PM durante os protestos de ontem. “A polícia evitou situações mais graves porque estávamos na abertura da Copa, 60 mil pessoas indo para o estádio, muita gente na rua”, justificou, segundo o jornal O Estado de S. Paulo. “Imagine se a Avenida Radial Leste é fechada, o caos que poderíamos ter tido, com graves consequências até para a integridade física das pessoas.” Para Alckmin, “a polícia agiu, como é seu dever agir no sentido de preservar a ordem pública, evitar vandalismo”.

A Anistia Internacional considerou que a PM fez “uso desproporcional da força” para reprimir uma “manifestação pacífica” na zona leste de São Paulo. “Diversas pessoas ficaram feridas. Houve detenção de manifestantes”, disse a ONG, em nota publicada nas redes sociais, instando os brasileiros a aderir a uma campanha para convencer o governador e o secretário de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, de que “a liberdade de expressão e manifestação pacífica são direitos humanos, inclusive durante a Copa do Mundo”.

A ONG Conectas Direitos Humanos publicou hoje (13) nota avaliando que as forças de segurança paulistas suspenderam, na prática, uma longa lista de liberdades individuais para garantir o sucesso da abertura da Copa do Mundo. “Embora não tenha sido decretado estado de exceção, agiram como se vários direitos tivessem sido suspendidos, entre eles a liberdade de expressão e o direito a manifestar”, analisa. “A polícia foi incapaz de individualizar condutas, diferenciando atos infracionais do simples exercício do direito ao protesto.”

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