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Segundo estudo da USP

Três em quatro homens que revelam orientação sexual sofrem algum tipo de violência

Além de igrejas, escolas e faculdades, discriminação e violência são grandes também nos círculos sociais mais próximos e até mesmo no contexto familiar
por Cida de Oliveira, da RBA publicado 03/05/2014 10h43
Além de igrejas, escolas e faculdades, discriminação e violência são grandes também nos círculos sociais mais próximos e até mesmo no contexto familiar
San Diego Shooter/CC
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Pesquisa revela que rapazes com mais de 30 anos têm mais dificuldade em revelar a orientação sexual

São Paulo – Será realizada neste domingo (4) a 18ª edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. O evento enseja reflexões sobre conquistas do movimento em todo o mundo, como a visibilidade dessa população e o reconhecimento da união homoafetiva. E também sobre desafios que permanecem, como vencer a discriminação e a violência.

Um relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), divulgado em fevereiro, aponta que 312 gays, travestis e lésbicas foram assassinados em 2013, o que em média equivale a um assassinato a cada 28 horas. Para a coordenação do GGB, a União e os governos estaduais falham na garantia de segurança a essa comunidade. Há ainda a impunidade: de cada dez assassinatos, somente três tiveram os autores identificados.

Segundo o documento, o Brasil segue na liderança do ranking dos chamados crimes homo-transfóbicos, concentrando, em 2013, 40% dos assassinatos de transexuais e travestis. Pernambuco e São Paulo são os estados onde mais LGBT foram assassinados. Roraima e Mato Grosso são os mais perigosos para essa população. Manaus e Cuiabá, as capitais onde registraram-se mais crimes homofóbicos, sendo o Nordeste a região mais violenta, com 43% de “homocídios”.

A discriminação, que dá início à violência, não está somente nas praças e nas ruas. Tampouco é praticada somente por desconhecidos. Está nos ambientes religiosos, nas escolas, faculdades, nos círculos sociais próximos, entre amigos e vizinhos e, principalmente, no contexto familiar.

De acordo com o psicólogo Luiz Fabio Alves de Deus, que entrevistou homens que fazem sexo com homem para sua pesquisa de mestrado pela Faculdade de Saúde Pública da USP, os dados são preocupantes: ao revelarem sua orientação sexual, quase três quartos dos entrevistados foram agredidos verbalmente – justamente pela sexualidade;  21% sofreram violência física; e 42% receberam ameaças de agressão por não serem heterossexuais. Assim como a violência, a discriminação era maior entre aqueles que assumiam sem reservas e para mais pessoas a sua sexualidade.

"Há um discurso de aparente tolerância. Em muitas famílias, é comum aceitarem desde que a pessoa não torne pública a sua orientação sexual, numa vida clandestina", diz Luiz Fabio. Segundo ele, revelar a orientação sexual é ainda mais difícil para aqueles que já sofrem algum outro tipo de preconceito na sociedade, como os negros, daí o fato de eles, proporcionalmente, se assumirem menos.

Dados do estudo mostram que os jovens, com até 30 anos, têm mais tendência a revelar a orientação sexual. Isso provavelmente porque os mais velhos amadureceram em uma época em que comportamentos sexuais diferentes da heterossexualidade eram menos aceitos.

Os dados fazem parte de uma pesquisa mais abrangente, feita em 2012, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, em parceria com o Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS, e com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Luiz Fábio, que participou da pesquisa inicial, conta que o objetivo era estudar o comportamento e práticas sexuais de gays, bem como a prevalência de infecção por HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis entre homens que fazem sexo com homens.

“A discriminação e a violência são vistas com naturalidade, vivenciadas pela população não heterossexual em todos os contextos sociais em que circulam. Esperamos que esses resultados possam influir em políticas públicas. A exclusão e as violências sistemáticas a que está submetidas essa parcela da população afetam também a saúde, a educação e comprometem o exercício da cidadania destas pessoas, com implicações na igualdade de direitos em outros segmentos também, como entre homens e mulheres”, diz o pesquisador.