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Pela Copa, PM amplia batalhão e desaloja biblioteca comunitária em Guarulhos

Polícia, vizinha de muro da biblioteca, concretou entradas de espaço dedicado a atividades culturais, que pode virar estacionamento ou alojamento para efetivo
por Diego Sartorato, da RBA publicado 04/04/2014 09h17, última modificação 04/04/2014 15h18
Polícia, vizinha de muro da biblioteca, concretou entradas de espaço dedicado a atividades culturais, que pode virar estacionamento ou alojamento para efetivo

São Paulo – A única biblioteca do bairro Parque Cecap, no Clube Comunitário do Cecap, em Guarulhos, na Grande São Paulo, tinha planos ousados. Estava inscrita em um edital de patrocínio do Aeroporto Internacional de Cumbica para ações culturais e buscava parceiros privados para alcançar o objetivo de transformar a área externa, um pátio de cerca de 250 m², em espaço para cursos e atividades com arte-educadores. “Meu sonho é criar aqui um circo-escola”, resume Marieta Dutra de Jesus, administradora voluntária da biblioteca comunitária, que também oferece saraus e aulas de alfabetização de jovens e adultos, há três anos.

Mas os projetos podem não sair do papel, já que não têm mais endereço: na última sexta-feira (31) o 44º Batalhão da Polícia Militar, vizinho de muro da biblioteca, fechou a entrada principal do terreno com blocos de concreto e abriu uma nova porta em um dos muros para conectar o pátio a suas instalações.

O espaço que seria destinado à expansão das atividades culturais da biblioteca, agora, pode servir para a ampliação do estacionamento das viaturas ou para a construção de uma sala de aula a outro público: os novos soldados que chegarão ao batalhão para reforçar a segurança durante a Copa do Mundo. “O terreno é do governo do estado, mas o antigo comandante da polícia nos dizia que não tinha planos para ocupá-lo. Aí houve a troca de comando do batalhão, vão vir mais policiais para a Copa do Mundo e o novo comandante decidiu tomar o espaço”, conta Marieta.

O capitão Redcliff Sierra dos Santos, que comanda o 44º BPM desde dezembro de 2013, foi procurado pela reportagem da RBA para comentar a decisão, mas não foi localizado na base.

Cerca de 500 jovens participaram de atividades no local, organizadas entre a biblioteca e parceiros, como a Ecoficina, que utiliza materiais recicláveis para produzir arte e educar crianças e adolescentes sobre a necessidade de preservar o ambiente. Os adultos também aprovam as atividades da biblioteca. “Quando vim para cá, era tímida, insegura. No primeiro dia de aula, quase não entrei. Mas fiz amigas aqui, melhorei meu português e minha autoestima”, conta Luzia da Silva, de 72 anos, que faz reforço de leitura no local.

A mudança na postura das alunas em relação à vida emociona Marieta: de acordo com ela, nas primeiras semanas, era comum vê-las chorando na sala de aula por ter dificuldade para ler e compreender palavras relativamente simples. “Nós precisamos não só que este espaço continue, mas que cresça. É muito importante para a vida das pessoas. Um tempo atrás, sofri de depressão e meus filhos passavam o dia todo mandando eu sair de casa. Agora acham que saio até demais”, ri Lourdes, de 61 anos, companheira de sala de Luzia.

No entanto, a cultura e os espaços comunitários vêm perdendo a batalha no Parque Cecap há alguns anos: o local onde está hoje o batalhão era, até 2012, o Clube de Mães do bairro. Um acordo entre governo estadual e prefeitura desalojou o clube, que não reabriu até hoje. Havia ainda um Ponto de Cultura no Clube Comunitário, mas que, por conta das dificuldades financeiras da associação de moradores, foi fechado para dar lugar a uma academia de musculação privada – que teve de ser fechada logo depois, por estar localizada em terreno público.

A biblioteca de Marieta foi a última vitória dos equipamentos públicos de cultura, uma vez que ocupou espaço que antes era de um salão de cabeleireiros, que também teve de fechar por se tratar de estabelecimento privado em terreno público. Mas o princípio do voluntarismo de Marieta partiu de uma derrota para o poder econômico dos bancos: “Comecei com estandes em supermercados, onde levava livros gratuitos para as pessoas. Era uma ótima forma de trabalhar, porque atingia quem normalmente não iria até a biblioteca só para ler, mas que tem interesse. Infelizmente, começaram a instalar caixas eletrônicos em todos os mercados aqui e o espaço onde meus estandes ficavam foi destinado a eles.”

O vereador Geraldo Celestino (PSDB), que participou da construção do Clube Comunitário e intermediou tanto a cessão do espaço da biblioteca para Marieta quanto da entrega do terreno do Clube de Mães, do qual o pátio disputado pela biblioteca e pela PM faz parte, afirma que a ação é “irreversível”. “Temos de ver que o batalhão é uma demanda do bairro. As pessoas cobraram muito a instalação e gostam de sua presença ali, além de que o aumento do número de soldados, embora tenha sido apressada pela realização da Copa do Mundo, também é demanda antiga e será permanente”, conta. Hoje, o batalhão conta com cerca de 100 soldados para patrulhar uma área com 150 mil quilômetros quadrados.

A esperança para os planos de expansão da biblioteca é uma reunião marcada para a próxima segunda-feira (7) em que o comandante Redcliff, o secretário de juventude de Guarulhos, Wagner Hosokawa, Celestino e Marieta se encontrarão para discutir a possibilidade de que um novo espaço público seja cedido à biblioteca, mas o diálogo está difícil.

De acordo com Marieta, o local precisa estar diretamente ligado à biblioteca para garantir que ela, que atende sozinha das 9h30 às 12h, possa dar conta de tudo. O vereador, em nome da direção do clube, ofereceu espaços mais distantes, que Marieta recusou. “Aí ela reclama que onde queremos colocar a biblioteca é onde o pessoal vai para tomar cachaça. Mas é um clube, né? Tem de dividir o espaço”, afirma.