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50 anos do golpe

Frente de Esculacho acusa Fiesp e Itaú de financiar a repressão

Ato em frente à sede da federação da indústrias em São Paulo reúne familiares e ex-presos políticos. 'Documentos produzidos por eles mesmos atestam essa relação', diz assessor da Comissão da Verdade
por Gisele Brito, da RBA publicado 09/04/2014 17h34, última modificação 09/04/2014 18h20
Ato em frente à sede da federação da indústrias em São Paulo reúne familiares e ex-presos políticos. 'Documentos produzidos por eles mesmos atestam essa relação', diz assessor da Comissão da Verdade

São Paulo – A Frente de Esculacho Popular (FEP) realizou escracho hoje (9) em frente à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na Avenida Paulista, região central da capital. É a primeira vez que uma instituição civil, e não um militar ou agente do Estado, é alvo do grupo, que usa a estratégia para expor envolvidos em crimes cometidos contra opositores da ditadura brasileira.

O grupo, munido de baterias e cartazes, informava aos pedestres que a Fiesp e o Banco Itaú financiaram a tortura durante o regime autoritário. Manifestantes empunharam cartazes com o nome do ex-prefeito biônico de São Paulo (1975-1979) Olavo Setúbal, um dos fundadores do Itaú, e explicaram que o banco foi escolhido como alvo em razão de um brinde distribuído no início do ano aos clientes referindo-se ao golpe como revolução: "Na página do dia 31 de março, a instituição descreve a data como 'aniversário da Revolução de 1964, como o golpe militar é chamado por seus apoiadores", diz a FEP, em comunicado.

"Esse escracho é para deixar claro que essas instituições não só apoiaram e legitimaram como deram dinheiro e se beneficiaram da ditadura", afirma o cientista social e membro da FEP Rafael Pacheco. "O que a gente quer mostrar é que essa ditadura não foi só militar, foi civil também."

O grupo afirma que na sede da Fiesp ocorriam reuniões organizadas pelo então ministro da Fazenda, Antônio Delfim Netto, em que se recolhia uma “caixinha” entre representantes de empresas para financiar a construção de centros de tortura e a manutenção de operações de espionagem. Entre esses empresários estariam Henning Boilesen, da Ultragaz, e Gastão de Bueno Vidigal, do Banco Mercantil. Outras empresas, como Ford, Volkswagen, Camargo Corrêa, Chrysler e Folha de S.Paulo, foram lembradas como prestadoras de apoio logístico a operações, fornecendo carros blindados, caminhões e marmitas.

Boilesen, segundo relatam os membros da FEP, teria trazido dos Estados Unidos uma máquina de eletrochoque. A atuação do empresário é tema de documentário Chaim Litewski, premiado em 2009 no festival É Tudo Verdade. O filme é farto em depoimentos, até mesmo de pessoas ligadas à Operação Bandeirante (Oban) – organização da repressão financiada por empresários –, que atestam a conduta do empresário, que chegava a assistir a sessões de tortura e a emprestar carros da Ultragaz para os órgãos militares. Boilesen acabou morto em uma emboscada feita por guerrilheiros em 1971.

Os militantes, apoiados por familiares de desaparecidos e ex-presos políticos, afirmam que, para fazer as acusações, se baseiam em vasta bibliografia, incluindo a obra do jornalista e escritor Elio Gaspari, além de documentos oficiais. Em fevereiro do ano passado, o assessor da Comissão Nacional da Verdade Ivan Seixas encontrou no Arquivo do Estado de São Paulo os livros de controle de entrada do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de São Paulo, um dos principais centros de tortura do período, mostrando que diversos empresários frequentavam o espaço.

“Esse documento é importantíssimo porque não é um documento produzido por nós. É um documento produzido por eles mesmos e que demonstra essa relação”, afirma Seixas.

“A Fiesp é símbolo da ditadura porque as classes empresariais foram beneficiárias da ditadura. Era uma ditadura contra os trabalhadores, que sofreram com o arrocho salarial, com as listas que faziam com que fossem discriminados e passassem fome sem conseguir emprego. Não é à toa que um funcionário deles, o senhor Geraldo Resende Mattos, ia todos os dias até o Dops”, bradou Seixas em frente ao prédio da federação. A Fiesp nega que Mattos tenha sido seu funcionário. Mas era dessa forma que ele se apresentava no Dops, onde esteve mais de 50 vezes em 1971, em um período de dez meses.

Para o deputado estadual Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão da Verdade da Assembleia Legislativa de São Paulo 'Rubens Paiva', onde os documentos foram analisados, é preciso apontar os envolvidos na ditadura para que a população possa optar por boicotar seus produtos. “A Ford americana foi uma das principais apoiadoras do nazismo. Por isso, judeus de nenhuma parte do mundo compram carros dessa marca”, detalhou o deputado.

Empresa nega

Procurado pela reportagem para comentar a manifestação, o Itaú negou genericamente que defenda alguma posição política, sem comentar o episódio específico. “O Itaú respeita manifestações pacíficas, diversidade de pensamentos e ideias e a democracia, mas reitera que nunca defendeu qualquer posição política”, diz a nota.

A Fiesp, também em nota, defendeu a apuração dos eventos denunciados: "A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo tem se pautado pela defesa da democracia e do Estado de Direito, e pelo desenvolvimento do Brasil. Portanto, eventos do passado que contrariem esses princípios podem e devem ser apurados".