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'descomemoração do golpe'

Porto Alegre restitui mandatos de prefeitos e vereadores cassados durante a ditadura

por Fernanda Morena, do Sul 21 publicado 28/03/2014 11h35
leonardo contursi/sul21
porto alegre

Sem aquisição de poder ou de direitos, a devolução dos mandatos serve como reconhecimento do trabalho de políticos

Porto Alegre – Em cerimônia emocionada realizada na Câmara Municipal de Porto Alegre ontem (27), líderes políticos que foram cassados pelo regime militar receberam restituição simbólica de seus mandatos. Sem nenhuma aquisição de poder ou de direitos, a devolução dos mandatos serve como reconhecimento do trabalho de políticos como os ex-vereadores Marcos Klassmann, Índio Vargas e Glênio Peres, além do prefeito Sereno Chaise, eleitos de forma democrática pelo povo porto-alegrense.

Um dos proponentes da homenagem, o vereador Pedro Ruas (PSOL) salientou a importância de honrar a eleição dos líderes e de promover a lembrança daqueles que “sofreram nas garras da ditadura”. “Temos obrigação de dizer o que a ditadura fez: ela matou, torturou, cassou, exilou e impôs o que quis. Esta é a descomemoração do golpe”, ressaltou. Para Ruas, o caráter essencial da homenagem é aquele da luta travada no país para expor o golpe que instalou um governo ditatorial em 1º de abril de 1964: “Precisamos mostrar que houve uma ditadura cruel, sanguinária, a qual não aceitamos e com a qual não compactuamos”.

O vereador  Alberto Kopittke (PT), outro proponente da láurea, explicou a ideia da homenagem em dois sentidos. O primeiro, honrar aqueles que “dedicaram suas vidas para que hoje tenhamos a liberdade de falar o que pensamos”. O segundo, a relevância histórica da memória do golpe como uma forma de educação das gerações futuras. “As novas gerações precisam saber do que aconteceu neste país. Não porque se queira vingança, retaliações, mas porque quem se esquece da história também incorre em crime”, ponderou.

Os laureados

O ex-prefeito Sereno Chaise, que assumiu a capital gaúcha em 1964 para logo depois ser cassado, entendeu a homenagem como uma forma de honrar Porto Alegre também.  “Sempre tratei de olhar para frente. Tenho convicção que, em 64, quem perdeu não fomos nós, quem perdeu foi a cidade com a cassação desse conjunto de homens públicos de melhor qualidade.”

Sereno começou sua trajetória política uma década antes do golpe: em 1952, tornou-se vereador, cargo que ocupou até 1955. Ele participou ativamente dos movimentos da Legalidade e da eleição de Brizola quando estava no Poder Legislativo. Conforme o ex-prefeito, atualmente com 86 anos, a ideia do golpe estava já sendo formada durante o governo de Getúlio Vargas, em 1954,“quando os generais decidiram que o presidente Getúlio Vargas entraria em licença e não voltaria mais”.

Ajadil de Lemos, vice de Chaise na época, também foi lembrado. Já falecido, foi uma carta do filho Ivan de Lemos, lida pelo seu irmão, Elói Lemos, que serviu como um discurso do pai. Na carta, o herdeiro da história do ex-vice-prefeito relata um fato pouco conhecido. “Meu pai foi preso ao lado de seus companheiros e mandado ao 3º Quartel do Exército. Depois de um tempo de interrogação e revisão de conduta, os militares disseram que ele poderia ser liberado. Meu pai agradeceu, disse que já tinha dito a eles que não tinha problemas, mas que só sairia da prisão quando todos os seus colegas fossem liberados. E ele deixou o quartel ao lado de Índio Vargas, o último a sair.”

Glênio Peres e Marcos Klassmann foram os dois vereadores cassados pelo AI-5 em 2 de fevereiro de 1977, dois dias depois de tomarem posse do cargo ao qual foram eleitos, formando a maior bancada de oposição à ditadura. O bipartidarismo reinava no país: de um lado o MDB de Peres e Klassmann contava com 14 cadeiras; do outro, a governista Arena comandava sete postos.

Foi ao proferir o Discurso na Terra do Silêncio, em sua posse, que Peres “assinou” sua cassação. O vereador Kopittke lembrou da fala de Peres em seu pronunciamento: “Essa casa é uma casa para falar sim dos buracos da rua. É para falar da falta de luz que nós temos em uma determinada avenida. Mas jamais pode deixar de falar da liberdade. É uma casa para proclamar também os grandes buracos nos direitos humanos”. O diploma de restituição de cargo de Peres foi recebido por sua esposa, Lícia Peres (PDT).

Klassmann, líder dos movimentos estudantis e um dos mais jovens vereadores da história do país – ele assumiu aos 23 anos –, foi cassado junto com Glênio Peres. Ao assumir a liderança na bancada, Klassmann discursou em favor do colega, reiterando as denúncias feitas por ele no histórico discurso. Foi cassado pelo AI-5 em 15 de fevereiro do mesmo ano – seis dias depois de sua posse.

Maria Isabel da Silva Klassmann, mãe do ex-vereador – falecido em 2005 –, foi quem recebeu a láurea em nome do filho. Ela contou que o pior não foi o momento pós-cassação, mesmo com a perda do salário do filho, e sim antes. “Ele havia sido preso muitas vezes, mas era um forte, não desistia”. Questionada sobre a láurea concebida ao filho que perdeu em 2005, Dona Maria Isabel responde emocionada: “É uma forma de honrar a história e a coragem do meu filho”.

Outros líderes não conseguiram ver a restituição de seus cargos ainda em vida. Os irmãos Alceu, Anderson e André Machado e a esposa Lea Machado receberam o documento em nome do ex-vereador Dilamar Machado; o fotógrafo Kadão, filho de Hamilton Chaves, representou o pai; e Eloí Flores, em nome da família de Ajadil de Lemos.

O ex-vereador Índio Vargas esteve presente para ser homenageado pelas mãos de sua esposa, Marlene. Ao receber o diploma, Índio foi ovacionado pela plateia. Um dos presentes gritou, do fundo do plenário: “Obrigado, Câmara, por devolver o meu voto”. Foi a culminação de uma cerimônia que durou cerca de duas horas e reuniu 30 dos 36 atuais vereadores.

Volta à Câmara

Nem mesmo a sanção da Lei da Anistia pelo presidente João Figueiredo em 1979 garantiu que os direitos políticos de líderes do país fossem retomados sem intromissão militar. Poucas horas depois da assinatura da legislação, Klassmann e Peres retomaram suas cadeiras na Câmara Municipal de Porto Alegre – mas não sem intervenção.

Em Brasília, o Ministro da Justiça na época, Petrônio Portella, teria entendido o retorno dos parlamentares como um “ato de violência”. Em terras gaúchas, a Arena se defendia contra a associação dos vereadores cassados ao governo estadual: “Que eles sejam ou não reintegrados é um assunto que não está em nossas cogitações”, afirmou na época o deputado Rubi Diehl.

E a resposta militar teria sido um pouco mais sutil, porém igualmente desafiadora. Eles teriam sido reassimilados à Casa enquanto ela era cercada por membros do Exército. Quem lembrou do evento foi Kopittke. “É preciso que tenhamos coragem de ver quão maus podemos ser ao se torturar irmãos brasileiros, jovens que lutavam pela liberdade.”