Você está aqui: Página Inicial / Cidadania / 2014 / 02 / Passe Livre teme que criminalização e falta de foco minem manifestações durante a Copa

mobilização

Passe Livre teme que criminalização e falta de foco minem manifestações durante a Copa

Movimento que encabeçou jornadas de junho promete voltar às ruas com outros movimentos sociais, não para inviabilizar torneio, mas para garantir conquistas sociais
por Tadeu Breda, da RBA publicado 22/02/2014 09h33
Movimento que encabeçou jornadas de junho promete voltar às ruas com outros movimentos sociais, não para inviabilizar torneio, mas para garantir conquistas sociais
Nelson Antone/Folhapress
agressao coronel 2013 sao paulo Nelson Antone Folhapress.jpg

Sem provas, jovem foi processado após agressão ao coronel. Para MPL, querem afastar manifestantes das ruas

São Paulo – É apenas uma questão de tempo para que o Movimento Passe Livre (MPL) volte às ruas de São Paulo. Novas mobilizações estão sendo planejadas para 2014, em conjunto com outros movimentos sociais, organizações populares e grupos políticos. Contudo, é impossível saber se tanta gente atenderá às convocações, como no ano passado. “É uma questão de trabalho e organização”, responde, otimista, Marcelo Hotimsky, 20 anos, membro do Passe Livre desde 2010. “Tem toda a chance não só de acontecer de novo, mas de garantir conquistas maiores.”

O militante não ignora, porém, a mudança de conjuntura dos últimos meses. E manifesta que o movimento está preocupado especialmente com duas questões. A primeira delas é a criminalização do protesto social, que, prevê, será ainda mais intenso durante a Copa do Mundo. “Existe um processo de judicialização cada vez mais frequente em manifestações”, avalia Hotimsky, ao dizer que as intimações da Polícia Civil já chegaram aos membros do Passe Livre. “As pessoas são cada vez mais presas e processadas. É uma forma de afastá-las dos protestos.”

Leia também:

A segunda preocupação do movimento é a possível falta de foco das mobilizações contra a Copa do Mundo, que pode colocar a perder a “grande oportunidade” de garantir conquistas sociais quando o megaevento futebolístico lançar o país sob os holofotes da opinião pública mundial. “Seria importante que os movimentos sociais, em conjunto com a população, conseguissem dialogar, elencar suas pautas e de fato aproveitar o momento.” Os surtos de violência durante os protestos, continua Hotimsky, cumprem o mesmo papel de desvirtuar as pautas.

Confira a terceira e última parte da entrevista (leia a primeira e a segunda) concedida à RBA pelo militante do MPL, que aborda ainda as tentativas do movimento de furar o bloqueio midiático, a morte do cinegrafista Santiago Andrade no Rio de Janeiro e os conflitos policiais durante as manifestações.

Alguns membros do MPL estão sendo convocados para prestar depoimento na polícia?

A gente foi chamado depois do ato de 25 de outubro. Naquele dia, um grupo muito grande de pessoas foi preso sem acusação. Outras pessoas sofreram acusações que se mostraram equivocadas, como foi o caso do Paulo (Henrique Santiago dos Santos, 22 anos), menino que apareceu na primeira página dos jornais ao lado do coronel espancado. Conseguiram provar por vídeo que ele não tinha se envolvido naquela situação. Mas, originalmente, tinha sido preso por tentativa de homicídio. As outras pessoas foram presas sem acusação – que é o famoso preso por averiguação, o que é ilegal. Após as pessoas serem presas, elas foram liberadas e começou um inquérito pedindo para que fossem depor no Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). Nesse inquérito estava escrito que elas estavam participando de uma manifestação que atacou a polícia. Por isso, como membros da manifestação, essas pessoas deviam ir lá e expor o ocorrido.

O MPL, em conjunto com outros grupos, optou por não depor, por acreditar que é um inquérito completamente inconstitucional. A princípio, é uma prisão que não aconteceu. Na hora da prisão, essas pessoas não foram acusadas por nada. Então, a gente resolveu não se apresentar, inclusive para denunciar essa judicialização que tem acontecido cada vez mais em manifestações. Nos atos recentes, em que houve repressão policial, as pessoas são cada vez mais presas e processadas. É uma forma de afastá-las dos protestos. O caso do Paulo é exemplar. O processo acabou, ele não vai ser preso, está solto, o juiz o proibiu de participar de manifestações políticas por dois anos. Além disso, há uma cláusula completamente obscura, que diz que ele não pode participar de agrupamentos ou reuniões de caráter subversivo. É uma tentativa de fazer com que as pessoas parem de se manifestar. A gente precisa denunciar essa situação para que procedimentos como esse não passem a ser aceitos.

Há condições para termos em 2014 um novo 2013?

Acho que sim. É uma questão de trabalho e organização. Tem toda a chance não só de acontecer de novo, mas de garantir conquistas maiores.

Mas em São Paulo, por exemplo, não haverá aumento em 2014. Não teríamos a faísca que desencadeou tudo isso no ano passado.

Mas já existe uma luta nos bairros pela volta de linhas, e que pode desencadear outras lutas. E a tarifa continua existindo. A gente pode lutar para a tarifa diminuir, para que seja zero. Vai depender da nossa organização e dos movimentos sociais.

Tendo como fato que o espaço privilegiado de atuação do MPL, e levando em conta o que ocorreu no Rio de Janeiro, com a morte do cinegrafista, vocês estão preocupados com o nível de conflito nas manifestações? E a cobertura da mídia?

Em relação ao que a mídia transmite ou deixa de transmitir, o MPL, enquanto movimento, sempre tenta publicizar suas ideias. Temos uma produção de notas muito grande. Tentamos colocar um pouco daquilo que não é abordado pela mídia. Um exemplo é o 7 de setembro do ano passado. Houve atos pelo Brasil inteiro. A gente não participou devido ao jeito como as coisas estavam sendo feitas aqui. Não parecia ser um espaço interessante politicamente. Mas houve repressão muito pesada, mas só saiu na imprensa que os black blocs foram para a rua. A gente viu repressão tanto a meninos mascarados quanto ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), em que uma mulher grávida foi acertada pela polícia.

A gente tenta quebrar essa distinção que a mídia começou a fazer no pós-junho, de “manifestante bom” e “manifestante ruim”. O que existe é uma criminalização sobre determinados grupos. Quem continua preso após as manifestações é sempre um setor específico da população. Três meses depois da luta contra o aumento, em junho, a única presa em São Paulo era uma mulher que tinha sido pega roubando material higiênico, enquanto tinha vídeo de um rapaz quebrando a porta da prefeitura, que saiu em todas as redes, todas as mídias, e ele foi solto no dia seguinte. Existe um aparato policial e judicial que, em conjunto com um certo setor da mídia, tenta criminalizar os manifestantes para não perder o poder que têm nas mãos.

A violência nas manifestações preocupa vocês de alguma maneira? Isso que está ocorrendo agora, por exemplo, em cima da morte do cinegrafista?

A violência faz com que se percam os focos da manifestação. Uma parte importante da manifestação é a midiatização dela, o que as pessoas que não puderam estar presentes na rua veem nos meios de comunicação. Incidentes fazem com que se perca o foco. No caso, a morte desse jornalista fez com que praticamente se apagasse o fato de que está acontecendo no Rio de Janeiro uma luta contra o aumento das tarifas de ônibus. Aqui em São Paulo, em 25 de outubro, um conflito que acabou com a agressão do coronel também fez com que deixasse de se noticiar que era um ato por tarifa zero com mais de 5 mil pessoas no centro da cidade. Também é importante entender que o conflito normalmente não se dá por conta de uma ação determinada. Quando é um ato que está de fato confrontando certos interesses de setores muito poderosos, é muito comum que ele dê conflito sem que nada esteja acontecendo. Ou que a polícia crie motivos para que se crie conflito.

Por exemplo, no ano passado, a gente fez uma luta pela volta de linhas no Grajaú, na zona sul da cidade, também pedindo extensão do metrô pra região. Foi um ato bem grande, com gente de lá, e estava muito tranquilo. Um típico ato que chamariam de “ato pacífico”. Mas, a partir de um certo momento, como não tinha tido nenhuma brecha para conflito, a polícia que estava atrás do ato abriu um espaço e um carro, que depois foi se descobrir que era o carro de um coronel, foi lá e se jogou no meio da manifestação. Ele inclusive chegou a bater em manifestantes. O pessoal obviamente ficou indignado e bateu no carro. Depois de cinco minutos, a polícia começou a reprimir. No dia seguinte, estava noticiado que aconteceu uma repressão por conta dos manifestantes que tentaram quebrar o carro de uma pessoa que estava tentando passar. Nesse caso, é muito óbvio: o Grajaú é uma grande região das máfias do sistema de transportes. Desde o começo, os perueiros estavam querendo impedir a realização do ato com bate-paus. É uma demonstração clara de que se busca o conflito quando se quer acabar com a legitimidade de um ato, quando se quer que se pare de se manifestar por um determinado motivo.

Como vocês estão vendo o cenário para 2014?

Duas coisas nos afligem. Uma delas é a criminalização, que é uma promessa que você vê pela lei antiterrorismo, pela proibição de protestos ao redor dos estádios, pela Lei Geral da Copa, enfim, por todo esse processo de judicialização que temos sofrido, prisões preventivas etc. Isso pode ser um fator de desmobilização muito grande. Além disso, tem a questão do foco político, que é superimportante para as lutas. Assim como a morte do cinegrafista tira o foco da luta no Rio, o momento da Copa do Mundo pode ter muitos desses reveses, inclusive porque as pautas que se opõem ao torneio são as mais diversas. Acho que neste momento era importante que os movimentos sociais, em conjunto com a população, conseguissem dialogar, elencar suas pautas e de fato aproveitar para ter conquistas durante a Copa. É um momento político importante, em que muitas câmeras estarão voltadas para o Brasil, para São Paulo, Rio e diversas outras cidades-sede. Temos que aproveitar o momento para obter conquistas reais. Convocar atos com pautas claras, com reivindicações que sejam relevantes. Não podemos nos perder nessa difusão de pautas. Seria um desperdício.

Então, vocês planejam atos para a Copa.

Ah, a gente planeja.

Com a pauta dos transportes?

Com a pauta dos transportes. Você ainda vai ver.

Qual será a estratégia de mobilização?

Estamos tentando dialogar com outros movimentos sociais para pensar em como atuar em conjunto. A gente ainda está numa época de planejamento. Com certeza, continuaremos tocando a luta contra o corte de linhas.

O que vocês acham do slogan “Se não tiver direitos, não vai ter Copa”?

A gente ainda não incorporou esse slogan. E acho que também não temos tendência em incorporá-lo. A questão não está tanto em se vai acontecer ou não a Copa. A gente tem trabalhado mais com a ideia de que, sim, a Copa é uma violação enorme aos direitos humanos, que precisa ser denunciada. É um gasto absurdo de verbas públicas que deveriam estar sendo usadas em transporte, saúde, educação, moradia. Mas a gente prefere fazer a crítica ao modo como a Copa está sendo incorporada. Pensar que, se os governos dizem que não têm dinheiro para transporte público gratuito, poxa, pega esse dinheiro da Copa e vai investir em transporte, e você vê que pelo menos daria para baixar bastante a tarifa no Brasil inteiro. Ou construir novas linhas. São R$ 30 bilhões.

Como vocês lidam com essa paixão que o brasileiro tem com o futebol, e com o fato de que há muita gente feliz com a realização da Copa no país? Como vocês pretendem dar a volta por cima disso e mobilizar?

Na verdade, a gente já não tem a sensação de que o Brasil é o país do futebol e que por conta disso a Copa vai ser uma época de grande estagnação política. Ano passado já mostrou que o clima para a Copa do Mundo não será esse. Se as grandes manifestações pelo Brasil começaram com a luta contra o aumento em São Paulo, elas também ganharam muita força com as manifestações contra a Copa das Confederações, principalmente nas cidades-sede, por conta dos números de despejos, gastos que foram feitos na Copa. As pessoas podem adorar futebol, podem achar o esporte incrível, mas ninguém quer perder a casa para ter a Copa do Mundo no seu país. Até porque é uma Copa que você não vai poder assistir, que não é feita pra você. Uma das notícias mais cômicas dos últimos tempos é que as prefeituras de algumas cidades vão dar passe livre para os turistas que vieram assistir à Copa.