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Especial

Dezesseis anos depois, Alckmin repete Maluf ao construir metrô na região da Água Espraiada

Para construir monotrilho, tucano promoveu grande remoção de pessoas para os extremos da cidade, comparável ao expurgo malufista dos anos 1990, durante construção de avenida
por Rodrigo Gomes, da RBA publicado 13/11/2013 14h04
Para construir monotrilho, tucano promoveu grande remoção de pessoas para os extremos da cidade, comparável ao expurgo malufista dos anos 1990, durante construção de avenida

São Paulo – Joana Pereira dos Santos carrega na sacola um paradoxo. Aos 55 anos, na hora do almoço paulistano, sob o sol forte, distribui folhetos de lançamentos imobiliários no cruzamento das avenidas Jornalista Roberto Marinho, Chucri Zaidan e Luís Carlos Berrini, bem embaixo da alça de acesso da ponte estaiada Otávio Frias de Oliveira, na zona sul da cidade. "Eu morava bem aqui", aponta para o córrego Água Espraiada, espremido entre as muitas faixas da avenida, onde ficava a favela Jardim Edite.

Joana passou a vida mudando. Primeiro, em 1975, para fugir do desemprego em Bom Jesus da Lapa, na Bahia. Depois, para encurtar a grande distância para o trabalho, quando vivia no bairro Piraporinha, na região do Jardim Ângela, em São Paulo. Em 1982, chegou ao Jardim Edite. "A gente veio e fez um barraco de madeira, meu marido e eu, com a nossa filha de dois anos", relata.

Treze anos depois, teve de deixar o lugar quando o então prefeito Paulo Maluf decidiu construir uma avenida no local. "Quando o Maluf tirou o povo daqui eu recebi os mil e quinhentos reais da indenização e fui morar de aluguel no que restou da favela, do outro lado da Berrini", relata. "A gente vai assim, daqui pra ali, com fé que um dia tudo melhora."

Meses depois, incapaz de manter o pagamento do aluguel, "que mesmo na favela é caro", peregrinou por outras bordas de córrego em São Paulo. "O último foi no Jardim Vergueiro, de onde o prefeito Gilberto Kassab (PSD, 2009-2012) nos tirou em 2011. Desde então estou no auxílio-aluguel, esperando uma chance de ter uma casa própria."

A história de Joana é um resumo da trajetória de muitas outras pessoas removidas para a construção da avenida Água Espraiada, hoje Jornalista Roberto Marinho, na gestão do prefeito Paulo Maluf (1993-1996). Na época, cerca de 30 mil pessoas foram retiradas da mesma região, com indenizações de até R$ 1,5 mil, passagens para o Nordeste ou encaminhamento para moradias construídas em Cidade Tiradentes, no extremo leste da capital.

Com essa política, milhares de pessoas acabaram por ocupar regiões de mananciais, no extremo sul da cidade, onde hoje se configura um grave problema habitacional e ambiental, com adensamento de regiões próximas às represas Billings e Guarapiranga, e a criação de programas para a remoção de moradores que se estabeleceram muito próximos das represas ou em áreas de preservação ambiental, como Parelheiros. Outras perambulam até hoje de favela em favela, sem terem sido efetivamente atendidas por programas habitacionais.

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O local onde Joana vivia é hoje um dos pontos mais valorizados da cidade, com o valor  do metro quadrado construído próximo de R$ 11 mil, no bairro do Brooklin.

A Água Espraiada é o exemplo vivo da história como repetição de tragédias e erros. E, pior, tem no Estado o agente que prejudica milhares de vidas. A implementação do monotrilho da Linha 17-Ouro do Metrô paulistano, que vai ligar o Jabaquara ao Morumbi, passando pelo aeroporto de Congonhas, faz o governador Geraldo Alckmin (PSDB) repetir o prefeito Paulo Maluf. Desde junho de 2012, as obras já provocaram a remoção de 400 famílias das comunidades Buraco Quente e Comando, na esquina da Jornalista Roberto Marinho com Washington Luís, no Campo Belo. Porém, isso foi só o começo. Outras 11 comunidades estão no caminho do monotrilho, até sua parada final.

O principal problema não é a remoção das comunidades, mas o destino dado às famílias. Segundo o assistente social Geilson Sampaio, de 27 anos, ex-morador da favela do Comando, a gestão do PSDB não realizou qualquer estudo sobre as comunidades afetadas pela obra. “Eles chegaram às cegas. Não conheciam os 50 anos de história, muito menos a dinâmica da comunidade. Não tinham projeto habitacional para oferecer e a política de indenização estava fora da realidade.”

A derrubada das casas começou com muitas famílias ainda na comunidade, o que provocou revolta nos moradores que tiveram de conviver com escombros, ratos, insetos e insegurança.

À época a aposentada Euzina do Rosário, de 58 anos, questionava a ideia de progresso e valorização do bairro. “Quando viemos morar aqui não tinha prédios, não tinha mercado, a Washington Luís era uma pista só. Agora que o bairro cresceu, ficou chique, veio o progresso, vem o Metrô, os pobres atrapalham e têm de sair?”, protestou. Ela viveu 50 anos na comunidade e, removida, acabou indo para o bairro Vargem Grande, em Parelheiros, extremo sul.

As comunidades surgiram da ocupação de terrenos que foram desapropriados e entregues ao Departamento de Estradas e Rodagem (DER), após a aprovação do projeto de construção de uma avenida na região pelo prefeito Prestes Maia, em dezembro de 1964. Eram chácaras pertencentes aos Vieira de Morais, donos de grandes extensões na região de Campo Belo e Santo Amaro, onde algumas famílias já viviam desde os anos 1960.

Nos anos que se seguiram, as muitas comunidades ali surgidas ocuparam um espaço que ia, pelo menos, uma quadra para cada lado da Roberto Marinho, atravessando o córrego com pontes de madeira improvisadas entre os barracos que se equilibravam sobre o Água Espraiada. As favelas ainda se espalhavam pelo caminho do riacho, sentido Jabaquara, cortadas apenas pela avenida Washington Luís, que ainda não tinha o viaduto Deputado Luís Eduardo Magalhães.

Essas favelas cresceram como alternativa habitacional para a população pobre, que nessa época enfrentava a falta de moradias para alugar, em virtude da inflação que consumia o investimento, ou preços extremamente altos, por conta também da pouca oferta.

Destino sul

“Eu vim de Campina Grande, na Paraíba, em 1981. Fomos morar no Capão Redondo, mas o aluguel era absurdo. Uns amigos do meu marido disseram para ele comprar um barraquinho aqui, que ficava mais perto do trabalho”, conta a auxiliar de limpeza Celina Lira Rêgo, de 56 anos, 31 deles vividos no Comando.

Celina trabalhou no aeroporto de Congonhas, em casa de família e no supermercado Jumbo, hoje Extra, seu emprego atual. “Toda a nossa vida foi organizada naquele lugar. Apesar dos problemas, todo mundo se conhecia e se ajudava. Se você não saísse de casa por conta de uma dor de barriga, logo tinha um vizinho batendo na porta para saber o que estava acontecendo”, lembra.

A primeira casa era um barraco de madeira. Após os incêndios em junho (Comando) e agosto (Buraco Quente) de 2004, a então prefeita Marta Suplicy (PT, 2001-2004) determinou que as novas moradias fossem construídas de alvenaria. E entregou R$ 2,5 mil como auxílio para cada família. Com os filhos Silvino, Iraildo, Vânia, Wesley trabalhando, a família conseguiu construir uma casa com três andares, em um total de 12 cômodos, separando os que já estavam com família constituída: Silvino e Iraildo.

No final de 2012, Celina e a família foram comunicados que teriam de sair da favela. O filho Silvino, a esposa e a filha foram considerados núcleo familiar separado. E foram para o bairro Santa Catarina, com auxílio-aluguel. A filha Vânia foi viver com o irmão, por se considerar em condições de viver numa casa alugada com o salário de professora, ajudando a completar os R$ 400 do auxílio. Iraildo e a filha de oito anos ficaram no Comando tentando obter o reconhecimento de núcleo familiar distinto, como contado em reportagem da RBA publicada no último dia 3 de outubro.

Celina optou pela indenização porque achava que não conseguiria alugar uma casa para morar com o filho Dinho, que sofre de esquizofrenia. “As pessoas não conseguem alugar com filhos pequenos, imagine no meu caso. Quando ele tem crise, quebra o que estiver na frente. Ele não pode ficar sozinho”, explica. Porém, a indenização não foi suficiente para que a família continuasse a viver no Campo Belo, onde o metro quadrado construído custa R$ 8,5 mil.

“Minha casa era tão linda, bem acabada. Olha só onde eu vim parar. Tudo rachado, o telhado torto, o quintal é aberto. Água, tem de pedir para o vizinho, que liga a bomba do poço e ajuda a gente”, lamenta Celina. A nova casa fica no Parque Florestal, região de Parelheiros, depois do Rodoanel Mário Covas, a 25 quilômetros da favela do Comando.

A rua onde Celina mora começa na avenida Sadamu Inoue, com asfalto, mas sem calçadas. Logo o asfalto vai ficando ralo até dar lugar à terra batida. Os intervalos entre as casas vai crescendo na mesma proporção em que as árvores vão adensando. Em frente à entrada das casas os vizinhos colocam frutas, pois é comum a presença de saguis, tucanos e outros animais silvestres.

Ônibus, só de hora em hora. Não há Unidade Básica de Saúde, farmácia ou escola próxima. O filho Wesley, que trabalha na Berrini, leva, em média, duas horas no trajeto casa-emprego, pegando dois ônibus e o trem da linha 9-Esmeralda (Grajaú-Osasco). Celina gasta uma 1 hora e 15 minutos, com dois ônibus, até o Extra Cidade Dutra, para onde conseguiu ser transferida. “Não precisava ter tirado a gente de lá, o monotrilho não passa em cima de onde a gente vivia. Foi só para sumir com os pobres mesmo”, indigna-se.

A casa de Celina tem sérios problemas estruturais. As rachaduras estão por toda parte, assim como os fios da instalação elétrica. A caixa d'água fica equilibrada em uma árvore, com um cano que precisa ser encaixado todo dia para abastecê-la com a água do vizinho.

Um pouco mais de sorte teve a família da copeira Severina Pereira Araújo, de 53 anos. Vinda de Pernambuco com apenas dez, foi viver na favela do Comando com os pais, Luíz Pereira Araújo e Maria Leandra das Neves Araújo, mais os irmãos Gilmar e Cida. Morou na comunidade por 42 anos. “Quando chegamos ainda tinha pouca gente, pouco barraco. O terreno vizinho era um sítio, com bichos e plantação”, conta.

“Meus pais pagavam um dinheirinho, bem menos que um aluguel, para o caseiro, o senhor Morais. Ele deixava a gente ir ficando. Com o tempo o caseiro não veio mais. E começou a vir gente de todo lugar viver aqui. Cada família que tinha chamou os parentes, os amigos, outros ficavam sabendo e vinham também”, relembra Severina. Hoje, removida pelas obras da linha Ouro, foi viver no Grajaú, extremo sul, próximo ao terminal de ônibus e trem, a 15 quilômetros da antiga casa.

A melhor localização, apesar da distância, foi conseguida com a união das indenizações recebidas por ela, os pais, a irmã Cida, e Elton, filho mais velho de Severina, nascido no Comando. “Deu R$ 180 mil. Mas foi difícil achar uma casa mesmo assim. Rodamos pelo Campo Limpo, Capão Redondo, Jardim Miriam, Parque Cocaia”, conta. Neste último, viveram dois meses de aluguel, até encontrar as duas casas de amplo quintal, com quatro cômodos cada, mais um quarto separado, na rua Nicola Roseli. Para lá, foram 16 pessoas, contando os oito netos e dois bisnetos de Maria Leandra e Luiz.

“Pelo menos a nossa família não foi desmontada”, disse, aliviada, Severina. Única exceção nessa história é sua nora, Crislaine, esposa de Elton. A mãe dela, a copeira Ana Cristina Ramos, foi viver em Cidade Tiradentes, no extremo leste, com os filhos Juan (14) e Dafine (11), para onde foram também os removidos por Maluf, entre 1994 e 1996, muitos dos quais são agora seus vizinhos.

Destino leste

Ana Cristina passou pelas duas experiências. Moradora da favela do Piolho, para onde foi em 1968 com a mãe, vivia bem na beira do córrego Água Espraiada, de onde foi removida na construção da avenida. “Como muita gente achava que a obra ia remover todo mundo, algumas pessoas venderam seus barracos nas áreas afastadas da avenida com medo do futuro. Eu recebi mil e quinhentos reais e comprei um na favela do Comando”, relembra. A mãe dela morreu há dois anos.

“No tempo do Maluf não tinha nem conversa. Eles chegavam e diziam: 'Tem tantos dias para sair - mil e quinhentos reais ou moradia?'. No dia marcado, ficavam uns funcionários da prefeitura na porta, acelerando a gente”, conta. Lá ainda era um barraco de madeira. Como também era a primeira casa no Comando. As coisas mudaram também após o incêndio em 2004, quando levantou a casa de alvenaria, que foi aos poucos chegando à versão final, com sala, cozinha, dois quartos e dois banheiros.

Foi quando chegou a Linha 17, com as alternativas de conjunto habitacional da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) ou a indenização de até R$ 110 mil. “Depois de tanto tempo, eu não teria condições de empenhar até 15% da minha renda no pagamento de um apartamento da CDHU. Tive de aceitar a indenização. E só consegui uma casa mais ou menos parecida com a minha aqui na zona leste”, relata.

São 40 quilômetros da antiga casa, na esquina das avenidas Washington Luís e Jornalista Roberto Marinho. E essa distância é o que mais pesa para Ana Cristina. “Não foi só a casa, o convívio e os amigos que a gente perdeu. Tem também a sobrevivência. Tive de sair do emprego, porque a distância tornou inviável ir até lá, quase ao lado do Comando”, explica. Hoje, ela é copeira em uma unidade da Caixa Econômica Federal, na avenida Brigadeiro Luís Antônio, no centro.

Para entrar às 8h no serviço, ela sai de casa às 5h. E na volta o tempo é mais elástico. Saindo às 17h, chega em casa por volta de 20h30, 21h. “Lá a gente tinha uma qualidade de vida que não tem aqui. Muita gente acha que por ser favela, haver criminalidade, não pode ser bom. Pois você não sabe a falta que eu sinto de lá”, suspira Ana Cristina, que agora vai estudar pedagogia junto com a filha, na busca do novo sonho de trabalhar mais perto de casa.

O problema é um remake do vivido pelos removidos na gestão Maluf. “Esse homem acabou com a nossa vida. Ele destruiu tudo que a gente tinha. Perdemos nossos empregos, passamos necessidade. Eu nunca mais fui a mesma”, conta a dona de casa Rita Barbosa da Silva, de 60 anos, 24 deles vivendo no Buraco Quente. Rita foi viver na Cidade Tiradentes, em 1996, com o marido, um filho e duas filhas – grávidas –, todos desempregados. E agora tem Ana Cristina como vizinha.

Segundo Rita, as estreitas ruas do bairro ainda eram de terra e as casas não tinham nenhum acabamento. Ônibus era a dois quilômetro dali, unidade de saúde e creche não tinha. “Foi feito a toque de caixa para colocar todo mundo. Muitas casas eram de quatro cômodos e foram divididas para caber todo mundo, porque eles nem faziam ideia de quanta gente vivia lá”, conta.

Rita chegou ao Buraco Quente em 1972, com 17 anos. Lá casou, teve as filhas e o filho. Trabalhava em casas de famílias como faxineira, e o marido era jardineiro. “Ele não gosta de falar de lá, ficou deprimido muito tempo, passou a beber. Nós tínhamos tudo lá e até hoje não entendemos por que nos mandaram para tão longe”, pergunta-se. Há alguns anos o marido voltou a trabalhar como jardineiro no Brooklin e agora sai de casa às 3h30 da manhã, para chegar lá às 7h.

Um alento surgiu quando a filha de Rita, Fabiana, então com 16 anos e grávida, começou a cuidar dos filhos dos vizinhos que não tinham onde deixá-los. Ela também havia perdido o emprego em uma copiadora na rua Joaquim Nabuco. “Em nada melhorou tirar a gente da favela. A comunidade tinha comércio variado, tinha escolas próximas, unidade de saúde, transporte. Aqui era um imenso vazio”, conta.

Outra preocupação para os moradores é que, até hoje, nenhum deles tem o certificado de propriedade das casas. “Não viemos para cá de graça. Pagamos as moradias até 2001, 2002. Os carnês pararam de vir na gestão da Marta Suplicy. Nunca recebemos escritura ou qualquer outro documento”, relata Rita. “Fica uma insegurança. Será que um dia vamos viver o pesadelo do despejo de novo?”, questionou.

A Secretaria Municipal da Habitação informou que está realizando a regularização fundiária de toda a região e que os moradores do bairro devem receber os documentos em breve.

Ao lado da viela, na rua Sete G, a auxiliar de limpeza Maria das Graças Gouveia, de 51 anos, também se preocupa com a falta dos documentos. Apesar de tudo, ela se considera com sorte. Maria vivia em um único cômodo na favela Brooklin há apenas oito meses, vinda da Paraíba, quando a remoção chegou. “Não é que tenha sido fácil. Mas acabei saindo de um barraco de madeira para uma casa de blocos”, conta. Os irmãos, que tinham ido viver na favela muito antes dela, em 1981, voltaram para o Nordeste.

Ela também perdeu o emprego que tinha no bairro do Morumbi, por conta da distância. “Hoje eu saio de casa 3h30 para entrar às 6h no trabalho na Câmara Municipal”, relata Maria. O despreparo da gestão Maluf na remoção deu a ela uma companhia nada familiar. “Como o número de famílias não foi calculado, uma outra que eu nunca tinha visto veio morar na parte de cima da casa. E assim estamos até hoje.”

O vizinho não quis conversar com a reportagem e disse apenas ter vindo do Jardim Edite, que anos depois se tornou a única história de vitória da população pobre na elitização da região, contada pelo líder comunitário Gerôncio Henrique Neto e outros moradores, em mais uma reportagem da série.