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Manifestações

Papa chega ao Brasil em meio a beijaço LGBT, bombas e prisões

PM atira contra manifestantes na frente da Igreja Nossa Senhora da Glória. Horas antes, beijaço LGBT questionou interferência da igreja do papa Francisco em direitos individuais
por Carla Santos, especial para a RBA publicado 23/07/2013 10h17, última modificação 23/07/2013 12h03
PM atira contra manifestantes na frente da Igreja Nossa Senhora da Glória. Horas antes, beijaço LGBT questionou interferência da igreja do papa Francisco em direitos individuais
Mídia Ninja
Papa Francisco

Beijaço LGBT e outras manifestações marcaram chegada do papa Francisco ao Rio de Janeiro

Rio de Janeiro – Às 15h de ontem (22), o Largo do Machado, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, parecia uma Torre de Babel. De um lado da praça, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (LGBTs) cantavam: “Eu beijo homem/ Beijo mulher/ Tenho o direito de beijar quem eu quiser!”. De outro, ouvia-se os sinos da Igreja Nossa Senhora da Glória e o coro de peregrinos, freiras e padres: “Esta é a juventude do Papa!”

Por volta das 20h, no entanto, o clima era completamente outro. Bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha foram lançadas pela Tropa de Choque da Polícia Militar contra os manifestantes. Pelos menos dez pessoas foram detidas e levadas para a 9ª Delegacia de Polícia Civil. O jovem Rafael Rêgo Caruso deu entrada no Hospital Souza Aguiar, no Centro, com ferimento de tiro de arma letal na perna esquerda.

Entre os dois eventos, o papa Francisco, em sua primeira visita ao Brasil, foi recebido pelo governador Sérgio Cabral e pela presidenta Dilma Rousseff no Palácio da Guanabara. Para lá também rumaram, em passeata, os manifestantes que realizaram um Beijaço LGBT em frente à Igreja Nossa Senhora da Glória. Nas proximidades da sede do governo, a PM agiu minutos depois que o papa e o governador se retiraram do palácio.

Um pouco de tensão

Enquanto o sol ainda brilhava, o clima era de confraternização no Largo do Machado, como atestou Ângelo Mendonça de Castilho, 29 anos, participante da Jornada Mundial da Juventude (JMJ). “Você vê que tem vários católicos aqui e, ao mesmo tempo, tem pessoas de uma outra ala, de uma 'esquerda radical' lá do outro lado e tudo está correndo de forma civilizada. A chegada do Papa tem uma simbologia diferente pelo que está acontecendo no Brasil e mostra uma nova face da nossa democracia”, disse. “Agora, também tem um pouco de tensão envolvendo tudo isso.”

Apesar de não se considerar um exemplo de cristão, Ângelo bem que poderia ser profeta. Foi falar em tensão para minutos depois centenas de beijos homoafetivos e uma mulher nua – outras fantasiadas de bruxas e de diabas – subirem as escadas da igreja em direção aos peregrinos. Diante da cena, algumas beatas se assustaram. “Fechem a igreja!”, pôde-se ouvir. Mas a igreja não fechou.

“É um momento simbólico de levantar a causa LGBT para poder contestar a repressão que a Igreja, enquanto instituição se propõe”, explicou Francisco dos Santos, 29 anos, do coletivo LGBT Minerva Queer. “Porque a gente entende que não é só o advento de fé que está sendo colocado em questão. É também a influência que este advento coloca na sociedade. É isso que nós queremos questionar”, explica.

“O problema não é com o papa novo, se ele é bom ou não é. A questão é que ele simboliza uma instituição que historicamente reprime as pessoas”, explica Letícia Peçanha, 21 anos, ativista do grupo Colorir, da UERJ. “A igreja tem uma influência muito grande sobre os nossos corpos. Estamos vivendo um momento de questionamento do Estatuto do Nascituro. O maior desafio do movimento LGBT é a legalização do casamento homoafetivo e a criminalização da homofobia”, conclui.

Para Joubert Assunção, 22 anos, do Coletivo Diversitas, o beijaço teve como objetivo “dar visibilidade para políticas públicas LGBTs que não estão sendo contempladas e às agressões que as pessoas LGBTs sofrem todos os dias; não só agressões físicas, mas agressões na sua subjetividade”.

Contradições

Segundo a lésbica Tássia Mendonça, 23 anos, estudante de Antropologia, “a Igreja Católica, para além de uma força religiosa, é também uma força política”. “E quando líderes religiosos vem a público fazer determinadas declarações eles dão, de alguma maneira, um insumo discursivo para o tipo de violência que nós [os LGBTs] vivemos nas ruas.”

Tássia cita o caso do arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, que excomungou médicos e parentes de uma menina de 9 anos que, após ter sido violentada pelo pai, engravidou e precisou fazer um aborto devido ao risco de morte caso a gestação continuasse. Já o estuprador não foi excomungado porque não matou ninguém.

Ela também lembra que o “kit peregrino", à venda nas lojas da JMJ, inclui um manual com "reflexões éticas" sobre assuntos como aborto, reprodução assistida, eutanásia e homossexualidade. A publicação apresenta perguntas como:"Todos os modelos familiares seriam válidos, desde que a criança seja amada?".

Logo abaixo, vem a resposta, que desconsidera a ideia de famílias formadas por homoafetivos: "Naturalmente, é essencial ser amado pelos pais, mas não basta. (...) Sejamos realistas: nascemos menino ou menina. A procriação necessita de pai e mãe. A criança precisa de pai e mãe para se desenvolver".

A manauara Thais Caroline Lopes, 18 anos, da Geração do Ministério Jovem Filhos do Trovão, da Renovação Carismática, concorda plenamente, desconsiderando a condenação imposta pela religião, que prega o amor incondicional ao outro, quando o afeto se manifesta entre pessoas do mesmo sexo: “O homem nasceu para amar a mulher e eu acredito nisso, eu não consigo ver um homem com outro homem, até para que a relação possa ter uma continuidade, no caso, filhos.”

Durante o protesto, o pároco da Igreja Nossa Senhora da Glória, Ionaldo Pereira, disse estar às voltas com o alojamento de 1.300 pessoas e, por isso, diz não ter visto as manifestações que ocorreram em frente à sua igreja. Mesmo assim, ele acha que as manifestações são válidas desde que “não atrapalhem quem busca a paz”.