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SEM VIOLÊNCIA

Sem PM, multidões protestam pacificamente e ganham ruas de São Paulo

Após repercussão negativa de repressão policial, manifestantes encontram vias livres para protestar. Grupo força portão do Palácio dos Bandeirantes. Novo ato será nesta terça
por Gisele Brito e Tadeu Breda, da RBA publicado 18/06/2013 02h44, última modificação 18/06/2013 11h16
Após repercussão negativa de repressão policial, manifestantes encontram vias livres para protestar. Grupo força portão do Palácio dos Bandeirantes. Novo ato será nesta terça

São Paulo – Com reduzidíssima presença de apenas seis policiais militares, segundo os coordenadores do Movimento Passe Livre (MPL), mais de 100 mil pessoas fizeram ontem (17) em São Paulo uma das maiores manifestações populares das últimas décadas. E tudo pacificamente. A quinta marcha consecutiva contra o reajuste da tarifa do transporte público na capital começou no Largo da Batata, na zona oeste, e tomou várias avenidas da cidade, incluindo a Marginal do Rio Pinheiros e a Ponte Estaiada.

Os protestos inicialmente cobravam apenas que o prefeito Fernando Haddad (PT) e o governador Geraldo Alckmin (PSDB) recuassem na decisão de reajustar os preços da passagem de ônibus, trem e metrô, que no último 2 de junho passaram de R$ 3 para R$ 3,20. Hoje, porém, o ato ganhou um caráter maior: sem abdicar do motivo que lhe deu origem, a mobilização multiplicou suas pautas conforme recebeu a adesão de paulistanos de diferentes classes sociais e posições políticas.

“Nos preocupa difundir a nossa pauta com qualidade. E nossa pauta é o transporte público, é a tarifa. Mas, com tantas pessoas, às vezes isso fica difícil”, afirma o estudante Matheus Preis, 19 anos, um dos porta-vozes do Movimento Passe Livre (MPL), que convocou o protesto. “Mas esse também é um jeito de passar a pauta para mais gente.” Preis esteve lado a lado com o major Wilhelm, negociador da PM, para informar a autoridade sobre os trajetos. “Nunca a relação com a polícia esteve tão boa”, avaliou.

Sem PM, sem violência

"Que coincidência. Não tem polícia, não teve violência", celebraram os manifestantes com um grito que conseguiu resumir o espírito da jornada. A ação policial da última quinta-feira (13) deixou centenas de feridos e 232 presos, e suscitou críticas grupos de defesa dos direitos humanos. Hoje, o governo estadual decidiu deixar os policiais longe dos manifestantes, que puderam se deslocar livremente pela capital.

Os pouquíssimos PMs que puderam ser vistos durante a passeata não estavam armados com equipamento antidistúrbio, e se limitaram a impedir o trânsito para que a coluna de manifestantes pudesse avançar sem maiores problemas. O resultado foi uma manifestação multitudinária na qual o grande destaque foi o pacifismo: ao contrário do que sugeriam as autoridades estadual e municipal desde o início da mobilização, dia 6, os manifestantes avançaram por dezenas de quilômetros sem violência.

A marcha saiu do Largo da Batata, em Pinheiros, zona oeste da cidade, ai cair da noite. Por volta das 18h, os manifestantes chegaram ao cruzamento das avenidas Faria Lima e Rebouças, onde então se dividiram em duas: uma parte seguiu pela Faria Lima, rumo à Avenida Berrini, e a outra, tomou a direção da Rebouças, com destino à Marginal do Rio Pinheiros. Algumas horas mais tarde, ambas voltariam a se encontrar na Ponte Estaiada – megaobra sobre o Rio Pinheiros inaugurada pelo ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD) em 2008. Normalmente, a circulação sobre a ponte é vetada a pedestres e ônibus. Um terceiro grupo ainda partiu para a Avenida Paulista, tradicional ponto de concentração de protestos, e de lá chegou à Avenida 23 de maio, importante via de ligação do centro com outras regiões da cidade.

Hesitação

Uma vez na Ponte Estaiada, houve indecisão: os manifestantes permaneceram longos minutos sem saber para onde ir. Então os organizadores do protesto, encabeçados pelo Movimento Passe Livre (MPL), decidiram marchar para o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do estado. Outra coluna, puxada por partidos políticos de esquerda e organizações estudantis, preferiram rumar para a Avenida Paulista, vencendo a pé um trajeto de aproximadamente 20 km, que passou pelas avenidas Jornalista Roberto Marinho, Santo Amaro e Brigadeiro Luis Antônio até terminar, por volta das 23h50, no vão do Museu de Arte de São Paulo (Masp). A esta altura, a Avenida Paulista estava completamente tomada por manifestantes, que circulavam sem ser incomodados pela PM.

A primeira leva de manifestantes que foi à sede do governo paulista chegou ao Portão 2 do palácio, na Avenida Morumbi, por volta das 21h30. Quarenta minutos depois, outro grande grupo chegou por lá. Apesar do desgaste depois da longa caminhada, e sem orientação dos coordenadores do ato, alguns manifestantes começaram a chutar um dos portões de entrada. Alguns minutos depois, a grade de aço veio abaixo. Em seguida, as primeiras bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas de dentro dos muros do Palácio em direção à massa que se aglomerava do lado de fora. Os manifestantes não chegaram a entrar. Assim que as bombas caíram houve dispersão. Toda a ação foi filmada por policiais.

Segundo Matheus Preis, do MPL, a marcha até o Palácio não havia sido planejada. Depois da ação, muitos manifestantes criticavam a escolha do local. Além de ser distante e não ter oferta de transporte público, não havia um plano concreto de ocupação. “A gente ia entrar e fazer o quê só com a roupa do corpo?”, questionava, em meio a uma avaliação informal, um estudante do curso de Ciências Sociais da USP que não quis se identificar.

“Foi muito simbólico. Além da quantidade de gente em todos os atos, foi muito importante ter vindo em direção ao Palácio, uma ação em relação ao governador Geraldo Alckmin”, avaliou Arthur Sales, estudante de 20 anos.

Partidos e Globo

Além da ausência da PM, a marcha de ontem foi marcada pela crítica dos próprios manifestantes à tentativa de alguns partidos políticos em se autopromover às custas da mobilização. Cada bandeira erguida provocava reações dos demais: “Abaixa essa bandeira”. "Eu acho que isso é um anseio de democracia direita, de democracia de verdade”, avalia Fábio Nassif, de 27 anos, militante do Psol. Para ele, o sucesso do movimento está relacionado com onda mundial de protestos e com o a diminuição de direitos sociais. “Tivemos políticas assistenciais, mas nenhum incremento de políticas sociais”, afirma.

A Rede Globo também foi bastante criticada. “Isso é muito forte”, continua Nassif. “São as pessoas de certa forma dizendo: vocês não nos manipulam mais. Nós temos outra forma de entender o mundo.” Quando viam um repórter da emissora, facilmente identificável pelo microfone, os manifestantes arremetiam verbalmente: “O povo não é bobo, pau no cu da Rede Globo” ou “Globo fascista” foram insígnias que tentaram resumir a insatisfação dos pessoas com a cobertura jornalística do canal. Alguns repórteres da tevê se intimidaram tanto que retiraram o logotipo dos microfones.

Outra marca do protesto foi a repressão dos manifestantes às poucas tentativas de vandalismo. Logo no começo da marcha, um jovem que começara a escrever com uma chave no vidro de um ônibus foi coagido a parar. Pessoas que se aglomeravam sobre um ponto de ônibus ainda no Largo da Batata também tiveram que descer por iniciativa dos companheiros. “Sem vandalismo” e “sem violência” foram gritos constantes – e que conseguiram conter os mais exaltados.

Após o sucesso da marcha, o MPL decidiu convocar uma nova manifestação para hoje (18), com concentração marcada para às 17 horas na Praça da Sé, região central da cidade. Também hoje, às 9 horas, ocorre uma reunião pública do Conselho da Cidade, convocada pelo prefeito Fernando Haddad para discutir a reação popular ao aumento. Representantes do Movimento Passe Livre estão convidados para apresentar suas críticas e propostas. E já confirmaram presença.

Reações

Também ontem, protestos semelhantes se espalharam por 11 capitais. Além de São Paulo, brasileiros foram às ruas em Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador, Belém, Fortaleza, Porto Alegre, Maceió e Vitória. Em cidades de porte médio, como Bauru (SP) e Juiz de Fora (MG), também houve protestos. As marchas denunciavam o preço abusivo do transporte público, mas não só: miravam ainda a violência policial e os investimentos públicos na realização da Copa das Confederações e da Copa do Mundo. “Copa o caralho: educação, saúde e trabalho”, escutou-se durante a passeata paulistana.

Autoridades do governo federal, a começar pela presidenta Dilma Rousseff, se manifestaram ontem (17) sobre os protestos. “As manifestações pacíficas são legítimas e próprias da democracia. É próprio dos jovens se manifestarem”, afirmou Dilma, segunda nota divulgada pelo Planalto.

Durante entrevista coletiva, o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, disse que o governo quer estabelecer diálogo com os grupos que têm se manifestado. “O nosso projeto político cresceu no país fazendo mobilização. Mobilização é muito bem-vinda. Por isso que nós estamos preocupados em fazer uma discussão, uma aproximação, um diálogo, e elevarmos o nível dessa discussão porque esses jovens têm alguma coisa a nos dizer.”

Para Carvalho, os jovens estão querendo demonstrar uma espécie de angústia. “E se alcançam uma grande repercussão de mobilização é porque corresponde ao anseio de muita gente”, justificou. “Então é próprio da nossa atitude ouvir e valorizar isso.” No último sábado (15), o ministro havia se reunido com representantes de grupos que se manifestaram em Brasília durante a abertura da Copa das Confederações.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu os protestos. “Ninguém em sã consciência pode ser contra manifestações da sociedade civil porque a democracia não é um pacto de silêncio, mas sim a sociedade em movimentação em busca de novas conquistas”, afirmou, em seu perfil no Facebook. “Não existe problema que não tenha solução. A única certeza é que o movimento social e as reivindicações não são coisa de polícia, mas sim de mesa de negociação.”

Histórico

As passagens de ônibus, trem e metrô subiram de R$ 3 para R$ 3,20 no último dia 2, graças a um acordo entre os governos estadual e municipal. O reajuste, de 6,67%, ficou abaixo da inflação, como Haddad havia prometido em sua campanha eleitoral. Entre janeiro de 2011, quando do último aumento, e junho de 2013, a inflação foi de 15,5%. A “conquista” do poder público foi possível porque o governo federal, preocupado com o impacto do aumento da tarifa sobre os índices de inflação, pelos quais vem sendo duramente criticado, escolheu zerar a alíquota de PIS e Cofins que é paga pelas empresas de transporte.

Ainda assim, quatro dias depois, dia 6, uma quinta-feira, ocorria a primeira manifestação pública contra o reajuste. A segunda foi marcada para o dia seguinte, sexta (7). Novas marchas aglutinaram milhares de paulistanos na terça-feira (11) e na quinta-feira (13). Conforme a mobilização cresceu em força e número de manifestantes, incrementou-se a repressão policial. O número de PMs enviados para dispersar o protesto mais que dobrou entre terça e quinta-feira: foi de 400 para 900 homens – nos quais estava incluído um destacamento da cavalaria.

O endurecimento havia sido anunciado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) no dia anterior. Como resultado, 232 pessoas foram detidas, segundo a Secretaria de Segurança Pública, e, de acordo com o MPL, mais de 150 acabaram feridas com maior ou menor gravidade. Demonstrando descaso com o bem-estar da população, a Tropa de Choque utilizou bombas de gás lacrimogêneo vencidas há mais de dois anos – o que poder trazer riscos à saúde, segundo o próprio fabricante dos artefatos.

Até os trabalhadores da imprensa sofreram com o peso dos cassetetes. Uma repórter da RBA foi agredida no rosto e na nuca pelos porretes da PM enquanto cobria a repressão na Avenida Paulista. Uma jornalista da Folha de S. Paulo e um fotógrafo da Agência Futura Press foram atingidos no olho por tiros de bala de borracha. Assim como dezenas de manifestantes, um repórter da revista Carta Capital foi levado à delegacia para averiguações apenas por trazer uma garrafinha de vinagre na mochila – líquido que, além de temperar saladas, serve para amenizar os efeitos do gás lacrimogêneo.

A operação policial da última quinta-feira (13) – desatada logo no início do protesto e sem que houvesse qualquer arroubo de vandalismo por parte dos manifestantes – sensibilizou a sociedade paulistana. Alguns meios de comunicação que até então criticavam as mobilizações e pediam mais rigor policial contra os arruaceiros passaram a dar mais destaque à atuação descabida da PM.

Alguns políticos também amainaram seus discursos. Um deles foi o prefeito de São Paulo. No início dos protestos, Haddad tentou repetidas vezes deslegitimar a mobilização, que classificava como minoritária e violenta. Agora, o prefeito passou a criticar a ação policial e abriu canais de diálogo com representantes do Movimento Passe Livre.