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Convencimento

Irracionalidade de manifestantes antipartidos capturada num diálogo

Depois de presenciar expulsão de organizações políticas, membro do Passe Livre explica a jovens que hostilizaram bandeiras por que foram violentos em ato em São Paulo; grupo demonstra ter agido sem pensar
por Tadeu Breda, da RBA publicado 21/06/2013 18:23, última modificação 24/06/2013 16:31
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Depois de presenciar expulsão de organizações políticas, membro do Passe Livre explica a jovens que hostilizaram bandeiras por que foram violentos em ato em São Paulo; grupo demonstra ter agido sem pensar
Danilo Ramos/RBA
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Multidão raivosa cercou, hostilizou e agrediu militantes partidários no ato de quinta-feira (20), em São Paulo

São Paulo – Após presenciar – e tentar evitar, sem sucesso – a agressão de militantes de esquerda por uma multidão ensandecida ontem (20) na avenida Paulista, em São Paulo, um membro do Movimento Passe Livre (MPL) conhecido como Bahia, de 21 anos, passou mais de meia hora tentando convencer alguns jovens do quão violentamente haviam se comportado no episódio. E conseguiu.

“É doentio. É assustador. É a barbárie. As pessoas agem como animais”, dizia o jovem militante à RBA quando foi questionado por um grupo de pessoas que participara das hostilidades – embora sem partir para a agressão física nem lançar objetos contra as pessoas que portavam bandeiras de partidos, movimentos sociais e sindicatos. Então, começou um diálogo entre Bahia e um rapaz chamado Davi, de 26 anos. Uma garota chamada Mariana e outro jovem também participaram da conversa. O debate foi acompanhada por algumas outras pessoas.

Ouça o áudio completo do diálogo, de cerca de 11 minutos, gravado durante a manifestação do último dia 20, em São Paulo

 

A reportagem acompanhou o bate-papo, em que o integrante do MPL desconstruiu todos os argumentos apresentados pelo grupo, que tentava justificar o acosso contra os militantes de esquerda. No final, vendo que a discussão não avançava, o repórter fez uma pequena intervenção. O resultado do debate foi que ao menos um jovem, Davi, que havia incitado a ação de pessoas mais violentas, com gritos de “Abaixa essa bandeira”, convenceu-se da irresponsabilidade de seus atos. Confira o diálogo:

Davi: As pessoas que queimaram as bandeiras têm um instinto, não têm? Você não tem instinto?

Bahia: Não, eu tenho cérebro.

Davi: Você não tá puto agora? Não tá com raiva? Você tem sentimento...

Bahia: Eu tô, mas não bati em ninguém.

Davi: Exatamente. As pessoas agem de diversas maneiras. Dói em cada um da maneira que dói. E não tô justificando atos de violência. Mas é o seguinte: quando todo mundo fala... Você é do Passe Livre, você sabe que não foi permitida a presença de partidos.

Bahia: Não foi permitido? Quem é que permite o quê?

Davi: Mas todo mundo tá pedindo. Não é preconceito...

Bahia: Cara, deixa eu só fazer um comentário pra você. Essa bandeira do Brasil que você tá usando nas costas, em nome dessa bandeira mataram dezenas de milhares. Em nome dessa bandeira destruíram nações. Em nome dessa bandeira mataram mulheres, oprimiram negros...

Davi: Mas aqui é diferente, cara. A gente tá lutando porque brasileiro não acredita mais em partido.

Bahia: Cara, quem é você pra falar pelos brasileiros?

Davi: O povo tá gritando aqui: “Sem partido, sem partido”. É só escutar. Não sou o único que está reclamando não.

Outro jovem: A gente respeita seu ponto de vista, mas ninguém mais aguenta partido.

Bahia: É, vocês dizem respeitar o ponto de vista dos outros, mas queimaram a bandeira deles.

Davi: Se eles tivessem abaixado antes...

Bahia: Gente, vocês estão exigindo que eles abaixem algo que é direito deles.

Outro jovem: É lógico! É lógico!

Bahia: Cara, que direito eu tenho de exigir que você tire a bandeira do Brasil?

Outro jovem: O direito de que todo político é uma merda. É por isso que esse país tá assim. E também porque a bandeira do Brasil representa todo mundo que tá aqui.

Bahia: Não me representa.

Outro jovem: Então o que você tá fazendo aqui?

Davi: Ué, mano, você não é brasileiro?

Bahia: Deixa eu falar uma coisa: eu sou negro.

Davi: Não tem nada a ver você ser negro ou não.

Bahia: Essa bandeira escravizou meu povo.

Davi: Mas você é brasileiro, você nasceu aqui, meu irmão. Você tá falando uma asneira muito grande.

Bahia: Não acho que é uma asneira. Acho que cada um aqui tem o direito de defender suas posições. Eu discordo de as pessoas usarem várias coisas que estão aqui. Mas nem eu nem ninguém que estava com as bandeiras foi brigar com ninguém. Camarada, eles estavam numa rodinha de 15 pessoas e jogaram coisas pegando fogo neles. Eles não revidaram. Estavam numa boa cantando as palavras de ordem deles.

Davi: Então por que quando a maioria pediu democraticamente para eles abaixarem a bandeira vermelha, que pra muita gente ignorante que está aqui representa o PT...

Bahia: A bandeira vermelha representa o PT?

David: Pergunta pras pessoas aqui pra você ver se elas acham que não.

Mariana: As pessoas não admitem a participação de partidos, porque, na cabeça da maioria das pessoas que estão aqui, essa é uma luta do povo. Infelizmente, os partidos políticos não fizeram nada até agora. Por isso a revolta. Não vou dizer que não fizeram nada, mas muita coisa deixaram de fazer. A maioria das pessoas não são pacíficas. É um momento que a gente está passando, e não admitimos a participação de política. É o povo.

Bahia: Mas isso aqui é política. Tudo é política.

Mariana: Dos partidos políticos, digo.

Bahia: Gente... O PSTU, partido que queimaram a bandeira aqui, teve 12 mortos por lutar contra fazendeiros que matavam índio. Teve 15 presos no Rio de Janeiro por lutar pelo passe livre. Por que você fala que eles não estão fazendo nada?

Mariana: Mas a grande maioria não faz nada.

Bahia: Pode ser, mas, desculpa, a grande maioria não somos nós. Se eu perguntar pra maioria das pessoas aqui, talvez a maioria seja contra o casamento gay. Por isso eu vou ser a favor deles? Nosso dever não é estar sempre com a maioria. A maioria, em vários momentos da história, defendeu barbaridades. Democracia não é só pra você, é pra ele também. O cara tem direito de estar com a bandeira dele. Vocês podem discordar da bandeira vermelha, mas jogaram coisas pegando fogo neles. E vocês incitaram. As pessoas gritavam “Fora partido”. Não achem que a única violência é bater. Quando vocês começaram a gritar em círculo “Fora partido”, vocês incitaram a pessoa que jogou fogo neles. Vocês agiram, infelizmente, igualzinho à Tropa de Choque que tentou calar a minha boca uma semana atrás. E uma semana atrás não tinha 200 mil na rua. Tinha 5 mil apanhando. E eles estavam no meio desses 5 mil. Eles estão no meio há anos, apanhando. Há anos eles se fodem, há anos! Daí, pela primeira vez que o povo vai pra rua, depois desses caras terem lutado tanto, vocês viram pra eles e queimam o símbolo em que eles acreditam. Cara, tô quase chorando. É muito triste. Não tem como vocês, que fazem isso, depois exigir que a polícia não bata nas pessoas. Vocês bateram em gente que luta. Pelo amor de deus, é bestial. É assustador. Eu não concordo com um monte de cartazes que estão aqui, não concordo. Mas eu não derrubei nenhuma bandeira. Eu não derrubei o PEC 37...

Davi: Você não viu bandeira, cara, você viu cartazes, é diferente.

Bahia: O símbolo de um partido representa um programa. É um direito deles, camarada.

David: Não acho que eles têm direito porque, sabendo que iriam encontrar resistência muito grande aqui, eles poderiam ter evitado o conflito. Eu tô aqui e não tô levantando bandeira nenhuma.

Bahia: Tudo bem, é um direito seu, é sua escolha. Há dois sentimentos em relação aos partidos. Um deles é bastante compreensível: muita gente acreditou nos partidos e viu alguns deles, como o PT, virarem a mesma coisa que o PSDB. Daí o sentimento é justo.

Davi: E quem garante pra esse mar de gente... O que tá na mídia é que foi chamada a militância vermelha para se juntar à manifestação pra defender o governo da Dilma Rousseff. Cara, isso aqui não tem partido. Se é democrático e a galera tá pedindo, abaixa, respeita.

Bahia: Cara, não é democrático exigir que as pessoas abaixem suas bandeiras. Não é que eles estavam, por exemplo, pedindo morte aos gays. Se fosse, você teria direito de pedir que abaixassem.

Davi: Mas a partir do momento em que você tem a massa pedindo...

Bahia: Um dia, nos anos 1960, a massa pediu pra matar gays. Cuidado com o que a massa pede.

Davi: Mas agora é um protesto diferente. A gente tá pedindo pra matar alguém?

Bahia: Eu não acho diferente. Jogando coisas pegando fogo nas pessoas? Deixa eu falar uma coisa: enquanto vocês gritavam contra os partidos, sabe quem batia neles lá atrás? Skinheads. Você não acha nenhuma coincidência? As pessoas foram tão solidárias com o pessoal dos partidos contra os skinheads... Elas sabiam que tinha gente apanhando lá atrás e não fizeram nada, nem deixaram com que saíssem andando para escapar.

Davi: Mas, se eles estavam apanhando, por que não abaixaram as bandeiras?

Repórter: Cara, vou tentar explicar o que o Bahia está tentando dizer: se você levanta um cartaz com uma mensagem em que você acredita, por exemplo, a PEC 37, daí vem um grupo de pessoas e exige que você abaixe o cartaz, e rasga o cartaz. Você não acha violento?

Davi: Acho violento sim.

Repórter: Pois foi exatamente isso que aconteceu aqui.

Davi: É violento, é violento. Eu concordo com ele que é violento.

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