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Autoridades divergem sobre repressão policial a manifestação em Porto Alegre

por Rachel Duarte, do Sul21 publicado 05/10/2012 18h48, última modificação 05/10/2012 19h05

Porto Alegre – Um total de oito pessoas presas e inúmeras feridas, incluindo cinco policiais militares. Este foi o resultado numérico do que era para ter sido um manifesto que pedia mais alegria em Porto Alegre. Um ato necessário, segundo o comando da Brigada Militar e autoridades como o secretário estadual de Segurança, Airton Michels. Abuso de força, segundo a Ouvidoria Estadual de Segurança Pública. Ouvir a versão dos agredidos por policiais militares durante a madrugada desta sexta-feira (5), após conflito generalizado no largo Glênio Peres, quando os presentes dançavam no entorno do mascote da Copa erguido há cerca de 20 dias, só foi possível pela manhã. As ocorrências no momento das detenções foram registradas pela própria Brigada Militar (BM), no Palácio da Polícia.

Alguns detidos foram liberados na hora, após assinar Termo Circunstanciado por rixa e lesão corporal a brigadianos. Outros saíram mediante pagamento de fiança, sob pena de irem para o Presídio Central. Dos cinco que foram liberados, o estudante da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Ray Barcelos, de 20 anos, registrou ocorrência por agressão na 17ª Delegacia de Polícia. Acompanhado da mãe, Rosane Barcelos, ele contou que foi acusado de ter quebrado uma viatura. “Eu estava apenas assistindo a roda de capoeira. Estava próximo aos músicos que tocavam no manifesto. Cheguei lá por volta das 22h30, depois da aula”, conta.

Quando o grupo se movimentou da frente da prefeitura para o largo Glênio Peres, Barcelos conta que acompanhou a roda que dançou no entorno do mascote. “E, quando eu vi, recebi uma cacetada na cara. Revidei para me livrar da agressão e me afastei. Fui perseguido até a rua da Praia. Quando me pegaram, me deram bastante com o cacetete na cabeça. Fui ameaçado e me levaram”, disse.

A mãe, residente em Viamão, foi acordada no meio da madrugada com a ameaça da condução do filho ao Presídio Central, caso não chegasse em duas horas no Palácio da Polícia para pagar fiança de R$ 620 reais para liberação do filho. “Eu fiquei apavorada. Este é o dinheiro do meu mês. Ele já mora na Casa do Estudante porque não temos muitas condições. O que sobra eu dou para ele almoçar na universidade. Pedi para o meu chefe emprestado no meio da noite”,  afirmou dona Rosane.

Por parte da Brigada Militar, o major do 9º Batalhão de Polícia Militar André Luiz Córdova informou que cinco policiais foram atendidos com ferimentos no Hospital de Pronto Socorro (HPS). Um deles teve o capacete quebrado no paralelepípedo e levou oito pontos na cabeça. Uma viatura teve o pára-brisa quebrado e as portas de vidro do banco Santander na esquina das ruas Uruguai e Sete de Setembro também foram quebradas após perseguições de policiais aos manifestantes. Materiais como pedras, pedaços de madeira e cacos de vidros, que segundo o major foram utilizados pelos manifestantes para reagir no conflito, foram recolhidos pela Brigada Militar.

Testemunhas que viram o confronto dos policiais com os manifestantes enviaram depoimentos ao Sul21. Segundo a jornalista Anelise de Carli, “alguns intencionados a atacar o boneco foram orientados por demais manifestantes a não o fazê-lo. Após esta combinação, a ideia foi dançar em volta do tatu-bola. Todos foram. Assim que as pessoas chegaram de mãos dadas ao redor do boneco, os policiais ficaram assustados e começaram a intimidar, empurrando pessoas. Então, manifestantes revidaram e começou o tumulto, com a invasão do cercadinho do mascote e tudo mais”, disse.

O professor de História da Escola Monteiro Lobato, Ricardo Santos Soares, disse que após a aula foi participar da manifestação com amigos e colegas professores. “O que vi foi uma barbárie. O mais absurdo foi a Guarda Municipal armada correndo as pessoas com arma e porrada, subindo a Rua Uruguai e entrando na Sete de setembro do mesmo jeito”, informou.

Os depoimentos complementam as imagens gravadas por manifestantes na hora das agressões e que também são claras no vídeo das câmeras que controlam a segurança do Largo Glênio Peres. Muitos materiais gravados no local foram apreendidos ou quebrados pela Brigada Militar.

Origem do manifesto não era derrubar mascote da Copa

O manifesto organizado por entidades culturais e ambientais da capital gaúcha, chamado de Defesa Pública da Alegria, reuniu jovens, professores e estudantes universitários a partir do final da tarde desta quinta-feira (4). O objetivo do grupo era criticar as políticas públicas da administração municipal, desde as remoções de famílias para a construção de obras voltadas para a Copa do Mundo de 2014, as ações repressoras em bares e espaços de convívio coletivo e também a privatização de espaços públicos, como a Orla do Guaíba, o largo Glênio Peres e o auditório Araújo Viana.

Para defender o boneco de sete metros representando o mascote da Copa 2014, derrubado durante a manifestação, foram deslocados cerca de 60 policiais militares do Pelotão de Operações Especiais (POE) do 9º Batalhão de Polícia Militar, além de tropas da Guarda Municipal. A presença do efetivo foi constante, desde o começo da manifestação. Quando o protesto ainda era pacífico, quatro homens já estavam posicionados em frente ao boneco inflável por volta das 17 horas. No meio da noite o número já era de 20 policiais.

Em nota, a prefeitura de Porto Alegre lamentou o episódio, que qualificou como “vandalismo e depredação do mascote da Copa do Mundo de 2014 desenvolvido pela Fifa, o tatu-bola”. Segundo a prefeitura, o boneco fabricado na Itália seria levado a outros pontos da cidade, para permanecer até 25 de novembro, quando receberá o nome oficial. O mascote também é exibido nas demais capitais subsedes da Copa de 2014. No texto enviado pela assessoria de imprensa do prefeito José Fortunati, a prefeitura informa que a Secretaria Extraordinária da Copa contatou a empresa Vonpar, responsável junto à Fifa pela divulgação do mascote, solicitando informações sobre a possibilidade de recuperação ou substituição do tatu-bola.

De acordo com o major André Luiz Córdova, a postura dos policiais foi dentro das normas constitucionais e em preservação do patrimônio público. “Toda ação gera uma reação. Fizemos uma reação técnica e proporcional à violência que acontecia com os policiais e outras pessoas. Não usamos armas de fogo. Utilizamos instrumentos que impedem riscos de violência contra terceiros e granada de efeito moral para criar condições de coibir a ação baderneira”, qualificou.

Para o major, as imagens do vídeo não são claras e “fica difícil comprovar quem começou o conflito primeiro”, se foram os policiais ou os manifestantes. “Todos acabam sendo autores da ocorrência. Mas, só teve contato com a polícia, os que se aproximaram a ponto de ameaçar violência”, disse. Porém, quando explica as detenções e prisões, o major assegura que se tratava de um grupo conhecido da Brigada e que promoveu outro protesto em frente à Prefeitura no começo do ano. “Dois tinham histórico de injúrias, depredação ao patrimônio público, perturbação da ordem, arrombamento de residências. Outros dois fizeram agressões aos policiais. Um deles era chileno”, relatou Córdova.

Lamentável, diz ouvidora

A Ouvidoria Estadual de Segurança Pública que fiscaliza os abusos dos agentes da segurança pública do RS solicitou cópia das imagens e irá analisar se houve abuso de força. À primeira vista e com base no divulgado pela imprensa, a Ouvidora de Segurança, Patrícia Couto, lamenta a postura dos policiais. “Abriremos expediente para acompanhar. Mas, pelos vídeos é possível identificar tudo que aconteceu de fato. É preciso analisar bem. Porém, a Brigada Militar tem que aparecer para agir nas ocorrências e não ficar esperando um conflito. Parece mais uma preocupação com um boneco de plástico do que com a vida das pessoas”, avalia.

Segundo ela, a pergunta que merece resposta por parte das autoridades é se havia necessidade de tamanho aparato de segurança para acompanhar o manifesto. “É difícil atuar em conflitos, mas a BM tem que ter aperfeiçoamento. Uma orientação de mediação de conflito prévio para que ninguém perdesse o controle poderia ter sido feita. A escolha nunca pode ser a prática mais dura. Só o fato de ficar aquele efetivo esperando algo acontecer já é uma provação aos manifestantes. O que posso qualificar por enquanto é que é lamentável usar a polícia para conter professores e estudantes no Centro da cidade”, disse.

Leia a reportagem completa no Sul21.