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Livro sobre ditadura provoca 'encontro' entre algoz e famílias de vítimas

Depoimento de ex-delegado reaviva dores, mas militantes defendem que ele seja protegido para "falar mais". Para jornalista, Cláudio Guerra tem de ser "sugado" pela Comissão da Verdade
por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 27/05/2012 00:53, última modificação 28/05/2012 09:12
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Depoimento de ex-delegado reaviva dores, mas militantes defendem que ele seja protegido para "falar mais". Para jornalista, Cláudio Guerra tem de ser "sugado" pela Comissão da Verdade

São Paulo – O lançamento em São Paulo do livro “Memórias de uma Guerra Suja” proporcionou, indiretamente, o encontro de um algoz com familiares de algumas de suas vítimas. Baseada no relato do ex-delegado do Dops Cláudio Guerra, a obra fez reviver antigas dores. A assistente social Rosalina Santa Cruz participou do lançamento, no último sábado (26), e se emocionou ao falar com os jornalistas Rogério Medeiros e Marcello Neto, que colheram o depoimento do ex-agente da ditadura. Seu irmão Fernando Santa Cruz teria sido uma das vítimas jogadas no forno da usina Cambaíba, em Campos dos Goytacazes (RJ), local apontado como crematório de presos políticos assassinados. “Me veio novamente aquela dor da época que Fernando desapareceu. Este é meu irmão e isso é o que aconteceu no nosso país. Fiquei pensando, não ele (Guerra), mas como a ditadura usou as pessoas da forma mais cruel”, disse Rosalina durante o evento, no Memorial da Resistência, antiga sede do Dops paulista.

O presidente do Núcleo de Preservação da Memória Política, Ivan Seixas, disse que houve certo incômodo com a realização do ato, por dar voz a um “assassino, ocultador de cadáver assumido”. O mal-estar deve ter aumentado durante a apresentação de vídeos com Cláudio Guerra. Num deles, o ex-delegado conta que o delegado Sérgio Paranhos Fleury foi quem disparou contra Pedro Pomar na chamada chacina da Lapa, em São Paulo, em 1976, que resultou na morte de três dirigentes do PCdoB. Em outro, Guerra fala do uso da usina Cambaíba, de produção de cana-de-açúcar, como local para queimar corpos de desaparecidos.

“Este ato é importante fundamentalmente para conhecer a história. É tudo que nós falávamos que tinha acontecido”, afirmou Ivan Seixas, que conversou duas vezes com Guerra, via Skype. “Não parece provocador ou alguém que esteja querendo conturbar a história. É nossa obrigação ouvi-lo e protegê-lo para ele falar mais.”

Ex-subsecretário de Direitos Humanos do governo Lula, Perly Cipriano fez os primeiros contatos com Cláudio Guerra, quando este ainda estava na cadeia (por sua atuação no chamado crime organizado do Espírito Santo). “Ele não tinha o que ganhar. Está correndo perigo de vida, apontando pessoas vivas”, comentou Cipriano. “Tenho quase certeza que outras pessoas vão aparecer para falar.”

Despreparo

“Ele é um agente da direita brasileira”, define Rogério Medeiros. “Começou a matar para as elites rurais do Espírito Santo e de Minas Gerais. Então, ele não é um matador ocasional. Não é um ilustre desconhecido”, afirmou. Para o jornalista, o depoimento de Cláudio Guerra revelou também o despreparo dos militares para o que eles pretendiam fazer. “Quem matava era a Polícia Militar, a Polícia Civil.”

Repórter veterano, ele já ouvira falar em Guerra 30 anos antes, quando fez uma matéria para o Jornal do Brasil sobre crimes de “queima de arquivo” no Espírito Santo. Ao ser convidado em 2009 para uma conversa com o ex-delegado em um hospital, chegou a pensar que esse seria o tema do encontro. Começaria ali uma série de conversas durante as quais Guerra, convertido à Assembleia de Deus (hoje é pastor), falou sobre os crimes cometidos na ditadura.

Para o outro autor do livro, Marcello Neto, o ex-delegado não faz parte de nenhuma lista de algozes por sua eficácia e discrição. “Tenho absoluta certeza que ele (o livro) é todo verdadeiro. Mas ele é incompleto”, afirmou.  “Esse livro é uma boa, uma imensa pauta. É uma vergonha o que a imprensa nacional está fazendo”, acrescentou, dizendo que a mídia não vai atrás das “pistas” deixadas pelo depoimento. "É um grande ponto de partida. Agora é pressionar as autoridades, a Comissão da Verdade, os procuradores, a Polícia Federal."

Informante

O jornalista disse que Guerra tem de ser "sugado" pela Comissão da Verdade. "Não vai aparecer outro informante desse porte", acredita. "Ele acha que outros corpos foram queimados lá (na usina)." Outros dois, lembrados após a publicação do livro, seriam de Thomaz Antonio da Silva Meirelles Neto (desaparecido desde 1974), da Ação Libertadora Nacional (ALN), e de Armando Frutuoso, do PC do B.

O deputado estadual Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão da Verdade de São Paulo, comparou o depoimento de Guerra ao livro do jornalista argentino Ceferino Reato escrito com base em relatos do ex-ditador Jorge Rafael Videla, presidente da Argentina de 1976 a 1981. No livro "Disposição Final", Videla admitiu ter ordenado até 8 mil mortes. "Se fosse um livro de ficção baseado em fatos da história real, já se justificaria sua existência", comentou Diogo, sobre o livro brasileiro. "Temos de nos transformar todos em procuradores, procurar a história do Brasil", acrescentou o parlamentar, em referência às ações feitas pelo Ministério Público Federal, por meio do grupo de trabalho "Justiça de Transição", oferecendo denúncias a agentes da ditadura.

"Há uma posição institucional do Ministério Público sobre o dever do Estado brasileiro de promover a investigação e a responsabilização de quem cometeu ilegalidades", afirmou o procurador da República Sérgio Suiama. Por enquanto, foram apresentadas – e rejeitadas – denúncias contra o ex-militar Sebastião Curió, no Pará, e contra Carlos Alberto Brilhante Ustra e Dirceu Gravina, em São Paulo. Ele lembrou ainda que já foram abertos 67 procedimentos criminais (para apuração) em todo o país, sendo 58 em São Paulo – cinco foram arquivados e há 62 em andamento.

Sobre julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que em 2010 ratificou a Lei da Anistia, de 1979, Suiama lembrou que o mesmo tribunal concedeu extradição para militar argentino acusado de crime de sequestro qualificado. Essa foi a base da argumentação do MPF nas duas denúncias, ao acusar militares de sequestro, já que os corpos das vítimas continuam desaparecidos. "Enquanto não for localizado o corpo dessa pessoa, não é possível dizer que ela está morta, para fins penais."

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