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Fiscal do trabalho conta que se sentia desprotegido em áreas rurais de Unaí

por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 27/01/2011 17h42, última modificação 28/01/2011 00h51

São Paulo – A tensão na fiscalização das condições de trabalhadores em área rural do noroeste de Minas Gerais era constante, revela o agora aposentado vice-presidente da Associação dos Auditores Fiscais do Trabalho de Minas Gerais, João Coelho Frazão de Barros. Ele diz que nunca gostou de fazer fiscalização em áreas rurais, por se sentir desprotegido.

Em 28 de janeiro de 2004, Nelson e mais três pessoas a serviço do Ministério do Trabalho e Emprego foram assassinados em Unaí, a 600 quilômetros de Belo Horizonte. Eles fiscalizavam lavouras de feijão, para averiguar as condições de trabalho nessas áreas. Em função da tragédia, a data tornou-se o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo.

“Mas não é só lá (que há tensão). Muitas vezes a gente sofre ameaças em região urbana”, afirma Frazão. Ele mesmo, durante fiscalização numa padaria, via uma arma que o proprietário fazia questão de exibir numa gaveta.

Frazão conhecia bem três dos servidores mortos. “O João Batista era um cara alegre, de bem com a vida, gostava de curtir o sítio dele. Tote era uma pessoa esforçada, de origem humilde, trabalhadora. O Ailton era extremamente educado. Senti como colega e como amigo. Sinto até hoje.”

Segundo o vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Unaí, Manoel José de Faria, após a morte dos servidores a fiscalização “ficou um pouco distante” da região e foi retornando aos poucos. Ele conta que em meados do ano passado o trabalho de fiscalização foi reforçado. “Eles se equiparam, e deu uma melhorada.” O principal problema, diz, ainda é o da falta de registro dos trabalhadores em carteira.

A presença de “gatos”, os agenciadores irregulares de mão de obra, ainda existe, principalmente na lavoura do feijão, conta Manoel. “O sindicato não tem dificuldade de entrar em qualquer propriedade. Às vezes, o patrão nos trata bem, mas tem o gerente que vai lá e contrata um gato. Às vezes, o patrão nem fica sabendo e o gerente pega um caminhão de boias-frias”, relata. A situação melhorou com as cooperativas formadas pelos produtores. “Nos condomínios, não trabalha clandestino.”

Manoel assumiu a presidência do sindicato apenas 28 dias antes da chacina de 2004. “Aquilo foi muito triste. Cabeça de gente, a gente não sabe o que passa dentro.”