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Para Stédile, juventude irá pressionar por mudança no modelo econômico

por Jorge Américo publicado 12/08/2010 19h19, última modificação 12/08/2010 19h28

São Paulo - A taxa mundial de desemprego entre os jovens de 15 a 24 anos atingiu o maior índice desde o ano de 1991. Um relatório apresentado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), nesta quinta-feira (12), revela que no final de 2009 mais de 80 milhões de pessoas nessa faixa etária estavam fora do mercado de trabalho.

Além do desemprego, outro perigo ronda a juventude. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos estima que ocorram 69 homicídios para cada 100 mil jovens na América Latina e no Caribe, um dos maiores índices do mundo.

Neste mês, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) organizará uma jornada de lutas da juventude. Um dos principais pontos da pauta é falta de escola e oportunidades de trabalho para os mais de 500 mil jovens que vivem nas áreas de reforma agrária.

Em entrevista à Radioagência NP, o integrante da coordenação nacional do MST, João Pedro Stedile, analisa a situação em que vivem os jovens do campo da cidade. Ele afirma que essa parcela da população pode ter papel decisivo no processo eleitoral, além de possuir as condições necessárias para cobrar mudanças estruturais no modelo econômico.

Em 2008 o Encontro Nacional da Juventude do Campo e da Cidade reuniu, no Rio de Janeiro, 1.2 mil jovens de 20 estados. Qual a importância dessa aproximação?

João Pedro Stedile: Sempre nos preocupamos em desenvolver atividades que envolvessem uma articulação entre as várias formas de expressão e organização da juventude da cidade com o campo. E aquele encontro foi um marco porque conseguimos, pela primeira vez, unir as duas características. Sua composição era de jovens trabalhadores que têm atuação na vida social. Foi importante porque criou raízes que se desdobraram em outras iniciativas.

O MST agrega aproximadamente 500 mil jovens. É possível manter esse contingente no campo e ao mesmo tempo garantir condições de acesso à educação e ao trabalho?

Não basta apenas criar oportunidades de educação. Nós temos que garantir renda para esses jovens. As agroindústrias que geram empregos mais qualificados, que exigem maior conhecimento. É onde a juventude do campo se sente mais motivada. Lá haverá espaço para bioquímicos, veterinários, médicos, administradores e cooperativistas. A nossa luta é justamente essa: educação e agroindústria para gerar renda para a juventude. Assim, ela pode permanecer no campo, tendo as mesmas condições ou até melhores do que se migrasse para as periferias das cidades, onde ela só vai encontrar violência, pobreza e discriminação.

A repressão policial e a ação de grupos de extermínio nas grandes cidades são direcionadas a grupos específicos?

Para essa população que está excluída do modelo, a única resposta que as classes dominantes têm é usar o Estado para reprimi-los. Seja a repressão ideológica, discriminando a sua condição de pobre, mulato e negro, seja a repressão policial – a mais violenta – que mata as pessoas. As estatísticas indicam que estão morrendo 40 mil pessoas por ano nas cidades brasileiras. Isso é um genocídio. Não há nenhuma guerra, depois da Segunda Guerra Mundial, que tenha matado tantas pessoas. Nem mesmo na Colômbia, que vive uma guerra civil há 40 anos.

No atual momento, é uma ilusão falar em educação pública, gratuita e de qualidade em todos os níveis?

Eu acredito que nos próximos anos seja possível criar um movimento de massas da juventude trabalhadora das periferias que possa pressionar por mudanças no modelo econômico. O Estado recolhe dinheiro de todo mundo e depois repassa para os bancos. É um processo de concentração de renda violentíssimo. Esses R$ 200 bilhões, nós deveríamos aplicar em educação pública, moradia e geração de emprego. O orçamento do Ministério da Educação está em torno de R$ 30 bilhões.

No caso das eleições que se aproximam no Brasil, quais as perspectivas para os jovens?

Espero que a nossa juventude nos ajude a votar para derrotar a candidatura Serra. E que com a vitória de governos mais progressistas, seja a nível federal ou a nível dos estados e, também, elegendo parlamentares de esquerda, se possa criar um novo clima político para um melhor exercício da política. Nisso, eu estou otimista. Embora a população esteja apática e silenciosa, eu acho que vamos avançar nas próximas eleições e criar, a partir de 2011, uma nova correlação de forças. Inclusive, melhor que no Governo Lula.

A ausência da juventude no processo eleitoral que está em curso deve ser motivo de preocupação?

Nós devemos compreender isso não como uma situação permanente ou que não tem mais jeito, mas como o resultado de um período histórico que estamos vivendo desde a derrota da classe trabalhadora para o neoliberalismo na década de 1990. Mas isso é passageiro. Haverá um novo reascenso do movimento de massas. E certamente esse reascenso terá na juventude a sua parcela principal de mobilização.

Quais as alternativas para esse período de desmobilização?

Devemos aproveitar esse período difícil para dedicar nossas energias para estudar, reproduzir o maior número possível de cursos de formação e fazer debates. Temos que aproveitar para construir os nossos meios de comunicação, seja através de rádios comunitárias ou jornais alternativos. Seja fortalecendo a imprensa popular existente, como a revista Caros Amigos e o jornal Brasil de Fato.

Fonte: Radioagência NP