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O fim da era de aquário do jornalismo

por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 23/08/2010 23h17, última modificação 23/08/2010 23h20

São Bernardo do Campo – Na cerimônia que marcou a transmissão do primeiro sinal da TV dos Trabalhadores, na noite da segunda-feira (23), o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Franklin Martins, citou a TVT como exemplo de novos tempos para o jornalismo, tanto para quem produz como para quem recebe a informação.

Ele usou a expressão "jornalismo de aquário" para falar da estrutura de poder predominante nas redações – manda quem está no "aquário", ou seja, a sala normalmente usada pela direção de redação.

O termo é usado porque normalmente os diretores ficavam, ou ainda ficam, em salas envidraçadas, separadas dos repórteres. Para o veterano jornalista, esse tipo de situação tende a mudar. "Vejo o momento do jornalismo com extremo otimismo. Não pelo que se faz, mas pelo que se pode fazer", afirmou o ministro.

"Os dirigentes sindicais também não podem achar que sabem de tudo. É preciso se abrir para o novo" Franklin Martins

Ainda hoje, acrescentou Franklin, o mais comum é existir "um núcleo ativo de produção da informação e uma massa passiva de consumidores".

Mas isso aos poucos vai se transformando, observou, à medida que o receptor participa mais do processo de produção, seja por meio de sugestões, críticas ou outros tipos de manifestação. A era do aquário dá lugar à era da rede (a internet), que não permite ao aquário ficar isolado. "Sai uma notícia e essa notícia pode ser discutida, debatida, verificada, consolidada. Pode também ser negada. Ou seja, não temos mais centro ativo produtor de informações e uma massa passiva de consumidores de informação. Isso é uma revolução, isso é muito bom. É bom para nós, jornalistas, que podemos fazer um jornalismo melhor. Mas é muito bom para a população, que podemos ter acesso a um jornalismo melhor e pode contribuir com um jornalismo melhor."

Segundo o ministro, isso vale também para a TVT e seus responsáveis. "Os dirigentes sindicais também não podem achar que sabem de tudo. É preciso se abrir para o novo", defendeu. "A TVT é um típico exemplo de comunicação pública."

Ele citou as greves dos metalúrgicos no final dos anos 70 como exemplo da importância da conquista de uma emissora, concretizada ontem. "Muitas vezes, nas assembleias, eles não tinham sequer um grande aparelho de som. Os discursos eram repassados pelos próprios trabalhadores, em ´ondas´ de voz. Agora, eles têm uma TV. É uma tremenda conquista, mas que também mostra como as conquistas são lentas no Brasil."

 

O prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (ex-presidente do sindicato e da CUT e ex-ministro do atual governo), disse que a entrada da TVT no ar não deve ser motivo de 'preocupação' para ninguém, referindo-se principalmente à mídia atualmente dominante.

"O que queremos é o direito de dar voz a quem constroi este país", afirmou, acrescentando que muitas vezes os movimentos sociais foram "massacrados pelo poder econômico por trás dos meios de comunicação".

"Não queremos uma TV dos metalúrgicos, uma TV sindicalista. Nossa preocupação é refletir a realidade dos movimentos sociais, das pessoas comuns". Valter Sanches

A presidente da Empresa Brasil de Comunicação, Tereza Cruvinel, como outros, citou o artigo 223 da Constituição, que estabelece ser responsabilidade do Poder Executivo outorgar e renovar concessões, "observado o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal".

Mas desde o início das transmissões de televisão no Brasil, há quase 60 anos, que serão completados em 18 de setembro, praticamente apenas o modelo privado funcionou. "Nesses 60 anos, a televisão foi basicamente um negócio, teve natureza comercial. Uma série de vozes não se expressa na televisão. Foi no governo Lula que a comunicação pública foi resgatada", afirmou.

Durante o ato de lançamento da TVT, a presidente da EBC e o presidente da Fundação Sociedade Comunicação, Cultura e Trabalho, Valter Sanches, assinaram acordo de parceria. Os períodos em que não houver programação própria da TVT serão complementados com conteúdo da TV Brasil.

"Não queremos uma TV dos metalúrgicos, uma TV sindicalista", lembrou Sanches, afirmando que a preocupação é “refletir a realidade dos movimentos sociais, das pessoas comuns”. "Queremos convidar todo mundo a construir essa TV conosco", acrescentou, citando o site www.tvt.org.br.

No momento de pôr a TV no ar, foram chamados o presidente Lula, o prefeito Luiz Marinho, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sérgio Nobre, Sanches e a menina Nicole de Souza Soares, atendida pelo projeto do Centro Cultural Afro-Brasileiro Francisco Solano Trindade, voltado para crianças e adolescentes em situação de rua. "A Nicole representa, para nós, o futuro da televisão", disse Sanches.

Lula, por sua vez, ganhou uma camiseta da TVT. Ao lembrar que o seu mandato termina à meia-noite de 31 de dezembro, ele prometeu se tornar um telespectador assíduo e ativo da nova emissora. "Estou pronto para assistir, fazer críticas e dar palpites."