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Crise de civilização não será resolvida com “retoques”, diz sociólogo italiano

Marco Deriu, que defende o “decrescimento” econômico, considera que passo mais difícil é reverter imaginário de que felicidade é igual a acumular bens
por João Peres, da RBA publicado 01/04/2010 13h48, última modificação 01/04/2010 13h50
Marco Deriu, que defende o “decrescimento” econômico, considera que passo mais difícil é reverter imaginário de que felicidade é igual a acumular bens

O sociólogo italiano Marco Deriu espera que a sociedade contemporânea aprenda rapidamente a “desaprender”  no que diz respeito aos modelos de civilização que guiam o atual imaginário econômico, político e cultural. Especializado em processos culturais, o professor do Departamento de Ciência Social e Política da Universidade de Parma entende que é preciso deixar de lado a palavra “desenvolvimento”, que, embora tenha gerado riqueza para alguns, provocou a ampliação das desigualdades e o esgotamento dos recursos naturais do planeta.

Em entrevista à Rede Brasil Atual, ele aponta que o conceito dos povos andinos sobre Bem Viver, ao romper com a ideia do desenvolvimento que não contempla o pleno respeito à natureza, contribui para reverter o imaginário desenvolvimentista e, de alguma maneira, entra em consonância com as correntes europeias que pregam o “decrescimento econômico”, com uma vida desapegada de consumo excessivo e que elimine as desigualdades sociais.
Confira a seguir a entrevista.

RBA - Quais suas impressões sobre os conceitos de Bem Viver?

Acredito que seja um conceito interessante porque pela primeira vez se propõe uma palavra que nos ajuda a sair do imaginário do desenvolvimento. Por 50 anos, seja os países mais ricos, seja os países do sul do mundo, foram colonizados por esse imaginário, que foi, podemos dizer, a religião da nossa modernidade, no sentido de que todos recursos econômicos, sociais, culturais e políticos foram destinados ao desenvolvimento e ao crescimento econômico.

Isto naturalmente criava muita riqueza, muitos proveitos, muito lucro, mas não uma condição de bem-estar real para todas as pessoas e, portanto, grande desigualdade, também novas formas de pobreza, grandes danos sociais e a exploração, seja do trabalhador, seja dos povos de outros territórios. O conceito de Bem Viver nos ajuda a repensar a possibilidade de uma forma de bem-estar, de uma forma de convivência através da melhora, sem dúvida, das nossas possibilidades, da educação, da saúde, mas não em uma “moldura” que é aquela do crescimento para o crescimento. Porque muito provavelmente é necessário pensar em uma ideia de riqueza que una diferentes aspectos: aquela material, (aquela) ecológica, (aquela) social, (aquela) espiritual, (aquela) cultural. Portando, eu acho que a ideia do Bem Viver nos ajuda a repensar os nossos objetivos sociais com uma ótica mais aberta, portanto mais nobre.

RBA - Há algum país que esteja tentando alcançar este conceito?

É difícil, acredito que muitos países do mundo estão à procura de formas alternativas de transformação social e econômica e, portanto, acho que em cada país podemos encontrar práticas políticas cotidianas que vão nesta direção, mas não acredito que exista um país que tenha assumido integralmente este objetivo.

Certo, alguns países da América Latina, o Equador e a Bolívia, fizeram algumas alterações também constitucionais, como os direitos da Mãe Terra, da Pachamama, os direitos dos animais. A pesquisa para um viver bem tem estado no centro de um projeto político, por isso acho que esses países estão tentando uma transformação neste sentido.

Talvez possamos citar um outro caso que é interessante porque provém não de uma escolha espontânea, mas de uma necessidade: Cuba, desde 1989, com o fim do apoio da União Soviética, isto é, quando acabou a possibilidade de receber petróleo, gasolina e muitos produtos, teve de reinventar uma forma de economia, de produção mais sóbria, menos baseada em fontes fósseis, menos baseada nas grandes riquezas, mais baseada em formas de autoprodução, de partilha, de reorganização social.

RBA - Como surgiram as discussões do conceito de decrescimento?

O movimento para o decrescimento nasceu na Europa. E é lógico que seja assim porque é uma teoria, digamos, reflexiva da parte dos países mais ricos, mais consumistas e com maior impacto ecológico.

Nasceu na França, se difundiu na Itália, Espanha, Dinamarca e aos poucos está se difundindo em diversos países, e devo dizer que é um movimento que está tendo muito sucesso. Nasceu em 2003, mais ou menos como um movimento, e agora se estão criando ocasiões de encontro e confronto, e portanto uma rede transnacional, que não diz respeito somente aos países singularmente.

Deste ponto de vista me parece que, obviamente, é um movimento até o momento extremamente minoritário, também porque, talvez, seja o primeiro movimento que diz coisas com certa sinceridade e radicalismo, isto é, não podemos continuar a nos iludirmos como fizemos até agora, chamando o desenvolvimento por sustentável. Existe um problema efetivo de diminuição da retirada de recursos das formas de produção e forma de consumo, portanto não se pode dizer que queremos aumentar o consumo, a produção, a extração de recursos, mas de modo sustentável, é uma “lorota”.

Naturalmente deve-se procurar uma união em torno das formas de produção e de consumo ao sustentável, mas não com o objetivo de crescimento, mas sim com objetivo de autolimitaçao. Portanto é um tema que está sendo difundido a nível dos movimentos sociais, mas é ainda quase um tabu a nivel de partidos políticos.

RBA - Temos um longo ano de discussões até chegar à COP-16, a reunião mundial que tratará de mudanças climáticas. Levando em conta a experiência da COP-15, que expectativas tem em relação a isso?

É difícil. Eu acredito que em termos gerais a questão fundamental é aquilo que eu disse antes, isto é, nos iludimos se pensamos em resolver o problema da crise ecológica atual, do aquecimento climático, o esgotamento dos recursos, a drástica queda da biodiversidade, simplesmente introduzindo qualquer inovação ou qualquer retoque, ou colocando alguns limites, sem enfrentar a necessidade de um radical “repensamento” do modelo econômico e social, que é construído sobre um crescimento contínuo. Portanto, a minha expectativa deste ponto de vista é pequena.

Vejo um percurso muito difícil porque eu concordo plenamente com aquilo que dizem os movimentos indígenas quando falam de crise de civilização. É este o problema, aqui não é apenas uma questão de introduzir alguns limites a mais, o que naturalmente é bem-vindo, mas de enfrentar a necessidade de uma maior transformação social. Por isso, espero que esses temas sejam novamente propostos, aprofundados, e é algo no qual é preciso muita coragem, porque objetivamente somos chamados hoje a desaprender muitos dos hábitos de vida, de consumo que temos construído nas ultimas décadas. Um personagem histórico, conhecido também aqui na América Latina, Bartolomeu de Las Casas, dizia que “desaprender é mais difícil que aprender”. Eu acredito que hoje nos encontramos nesta situação, isto é, deixar de ter nossos hábitos, nossa maneira de pensar, neste momento é a coisa mais difícil.

RBA - Governos como os de Silvio Berlusconi, primeiro-ministro de seu país, mostram o quão distante estamos de um novo modelo?

Eu acho que a Itália é um bom exemplo de que as pessoas estão ainda dentro do imaginário do desenvolvimento e do crescimento. Penso que muitas pessoas na Itália votam em Berlusconi porque representa a ideia de um homem rico, um homem que teve sucesso, e de um homem que pode subjugar todas as coisas, a justiça, a política, a cultura, aos seus interesses particulares.

E então há um tipo de adesão simbólica, embora talvez as políticas deste governo também estejam contra os interesses dessas pessoas que o votam. A Itália vive uma situação um tanto paradoxal, mas que acho que é paradigmática, isto é, as pessoas ainda sonham em se tornar mais ricas, a fim de aproveitar as suas posições, mesmo que a realidade social seja exatamente o oposto, ou seja, o desemprego crescente, aumento da precariedade, do isolamento, cada vez mais medo dos outros e da imigração. Enquanto nós não tivermos essa capacidade de reconhecer que a melhoria das condições de vida do nosso “bem viver” passa por um percurso coletivo, e não através de pesquisas individuais, competições, da maior vantagem possível para cada individuo, será difícil dar um passo à frente. Neste sentido, requer-se maior humildade, mas também uma maior capacidade de confiar no trabalho que está sendo construído com os outros.

Tradutora do áudio da entrevista: Carla de Oliveira Barros

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