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Procurador pede ação da Globo por fala de participante do "Big Brother" sobre aids

Declarações sobre transmissão do vírus foram ao ar no reality show. Para procurador, emissora deve falar sobre prevenção ainda na atual edição do programa
por João Peres, da RBA publicado 24/03/2010 16h53, última modificação 24/03/2010 18h06
Declarações sobre transmissão do vírus foram ao ar no reality show. Para procurador, emissora deve falar sobre prevenção ainda na atual edição do programa

São Paulo - O Ministério Público Federal em São Paulo espera uma decisão rápida da Justiça Federal para que a Rede Globo seja obrigada a veicular esclarecimento sobre as formas de contágio do vírus HIV. Uma medida cautelar foi movida porque um dos participantes do Big Brother Brasil (BBB) 2010 afirmou que homens se contaminam com o vírus apenas em relações homossexuais.

Marcelo Dourado, integrante do reality show televisivo, declarou que “hétero não pega aids” e que um homem portador do vírus “em algum momento teve relação com outro homem”. Lutador de artes marciais, ele se envolveu em uma discussão com outros participantes. Disse ainda que “um homem transmite para outro homem, mas uma mulher não passa para o homem”.

Depois de apresentar as imagens, no dia 9 de fevereiro, o apresentador Pedro Bial avisou que as afirmações dos participantes do programa não eram responsabilidade da emissora e que mais informações sobre HIV e aids poderiam ser encontradas no site do Ministério da Saúde.

Para o procurador Regional dos Direitos do Cidadão em São Paulo, Jefferson Aparecido Dias, o alerta não é suficiente. “Como se tratava de um programa gravado, a Globo tinha a opção de ter editado e não colocado no ar. Ela optou por fazer a exposição da informação equivocada e depois falou para pesquisar na internet. A emissora precisa fazer uma contrapropaganda e deixar claro como se faz a transmissão”, explica.

Antes de ingressar com o pedido de liminar, o Ministério Público Federal pediu que a emissora fizesse a devida explicação sobre os fatos a seus telespectadores, mas a resposta foi de que o Big Brother Brasil não tem roteiro e, portanto, as manifestações são espontâneas e de responsabilidade dos participantes.

O procurador, por entender que a explicação não é suficiente e que a informação equivocada de Dourado gerou um desserviço à prevenção ao HIV no país, espera que a decisão judicial saia até o fim da atual edição do programa, nesta próxima terça-feira (30).

Reações

Enquanto isso, organizações que lutam pela prevenção à doença se mobilizam para pressionar a emissora a divulgar rapidamente uma explicação. “Cabe à Rede Globo manifestar responsabilidade por aquilo que foi dito dentro de seu espaço. A pressão do MPF pela retratação é correta para que se passe uma informação que diminua esse prejuízo em termos de reforço de preconceitos e estigmas”, avalia Veriano Terto, coordenador-geral da Associação Brasileira Interdisciplinar de aids (Abia).

A leitura é de que a afirmação de Marcelo Dourado não apenas prestou uma desinformação como reforçou a imagem de que há “grupos de risco”, um pensamento comum há vinte anos, quando o debate sobre o vírus estava apenas começando e era parte do senso comum achar que se tratava de uma doença apenas transmissível entre homossexuais.

“Essa é a representação da cultura, mas isso, do ponto de vista de prevenção, não ajuda. Só causa mais exclusão e afasta as pessoas de uma prevenção correta, clara, que deve ser responsabilidade de todos”, afirma Veriano Terto.

O procurador Jefferson Aparecido Dias entende que a afirmação do participante do Big Brother, isoladamente, não foi fruto de preconceito, mas de falta de informação. Por outro lado, ele confirma que está analisando outras denúncias que recebeu a respeito de declarações preconceituosas de vários integrantes do programa e pode mover ações após o término da atual edição.