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“Socialismo é quando a liberdade não é apenas um slogan”, diz Aleida Guevara

por Luiz Carvalho publicado 17/03/2010 16h35, última modificação 17/03/2010 16h40

Aleida Guevara, filha de Che Guevara, participou da Marcha nessa terça (Foto: Dino Santos)

Oito dias e mais de 90 km após deixar o município de Campinas, a 3ª Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) chegou na manhã desta terça-feira (16) ao distrito de Perus.

As mais de duas mil manifestantes que seguem juntas caminhando já passaram por Louveira, Jundiaí, Várzea Paulista, Cajamar e Jordanésia. Nesta quarta (17), o destino será Osasco, penúltima parada da mobilização que termina na quinta (18) com um ato público diante do Estádio do Pacaembu, em São Paulo.

Desde o dia 8 de março, logo ao amanhecer, elas colocam o pé na estrada e seguem por cerca de 14 km, lideradas por uma delegação de um estado brasileiro a cada dia. No período da tarde, participam de atividades de formação com painéis sobre temas como economia solidária e feminista, mercantilização do corpo e da vida das mulheres e educação não-sexista e não racista. Tudo temperado por manifestações culturais promovidas pelas próprias companheiras.

São pessoas como a trabalhadora doméstica aposentada Domingas Cunha, de 54 anos, que apesar de aparentar cansaço, prossegue porque sabe exatamente o que lhe motiva a estar ali. “Ainda hoje vemos muitas mulheres sendo espancadas e mortas, tendo seus direitos desrespeitados. Além disso, temos outro problema, realizamos as mesmas funções que os homens e recebemos um salário menor. Sei que em um dia não vamos mudar tudo, mas temos sair às ruas para chamar a atenção e dar passos importantes rumo à igualdade”, comentou. Casada e mãe de dois filhos, a campineira está presente na marcha desde o primeiro dia.

Com o tema “Seguiremos livres até que todas sejamos livres”, a caminhada de 10 dias comemora uma década de MMM, entidade que conta com a CUT em sua direção executiva, e defende o o fim da violência contra as mulheres, acesso irrestrito a bens comuns e serviços públicos, autonomia econômica e paz e desmilitarização.

Aumentar segurança não é aumentar o número de armas

Foi justamente o último eixo que marcou as mesas de debate da tarde dessa terça. Embaixo de uma grande lona branca, Bernadete Monteiro e Miriam Nobre, a primeira da executiva nacional e a segunda do secretariado internacional da Marcha Mundial de Mulheres, abordaram a questão da militarização como mecanismo para manter a sociedade em silêncio.

“Trata-se de uma forma coerciva de fazer com que os descontentes fiquem calados em casa ou em outras casas que arrumam para a gente, que são as prisões”, criticou Bernadete.

Em sua participação, ela destacou a expansão da intervenção dos Estados Unidos na América Latina e ilustrou isso lembrando de dois episódios importantes: o golpe militar em Honduras, no ano passado, e o aumento das bases militares na Colômbia.

Bernadete apontou ainda os ataques constantes aos movimentos sociais como exemplo de opressão e ressaltou a importância de ter um olhar crítico sobre os monopólios de comunicação. “Qual a reação da polícia quando saimos às ruas para alguma manifestação? Devemos ficar atentas porque para alterar a ordem capitalista e patriarcal, precisamos deixar de reproduzir o discurso da grande mídia. Mesmo com toda nossa formação política, ainda acreditamos que Folha, Estado e Globo estão falando a verdade”, criticou.

Ao final, ela acrescentou que “aumentar a segurança não é aumentar polícia e armamento, mas sim o investimento em saúde, educação, alimentação para promover a inclusão e não expandir a criminalização da pobreza.”

Já Miriam alertou sobre o aspecto financeiro do avanço bélico dos EUA. “Eles já não são mais o único mpério econômico, porque a China tem crescido em todo o mundo. Por isso, tentam compensar com a presença militar cada vez maior. O presidente Obama, que ganhou o Nobel da paz em 2009, propôs o maior orçamento da história para as forças armadas, justamente no momento em que se fala sobre crise econômica”, avaliou.

Ela também aproveitou para defender a retirada das tropas da Organização das Nações Unidas (ONU) dos países em que permanecerem por longo período. “Em lugares como o Congo há um clima de que contam com uma tropa de ocupação, já que estão por lá há cerca de uma década. A organização das mulheres é fundamental para que participemos no processo de resolução de conflitos e na reconstrução dos países. Não queremos aumentar o número de mulheres nas missões da ONU, mas sim fortalecer a soberania desses povos”, indicou.

Aleida: sobrenome Guevara

Recebida aos gritos de “sou feminista, não abro mão do socialismo e da revolução”, Aleida Guevara pode ser apresentada como médica, como lutadora cubana ou, como denuncia o sobrenome, a filha de Che Guevara.

Sua primeira frase destacou que nem sempre a guerra é feita com helicópteros e baionetas. “Não há nenhuma batalha franca na América Latina, mas vivemos um conflito muito pior que é o da miséria e da exploração a que somos submetidas. Aos países com grandes mesclas sociais se acrescenta o problema das negras, muito mais exploradas”, iniciou.

Após afirmar que mesmo depois dos 51 anos de revolução cubana ainda há machismo por lá, tanto quanto no Brasil, Aleida falou sobre a responsabilidade da educação. “Nós, mulheres, na maior parte das vezes as responsáveis pela criação dos filhos, precisamos formar uma nova geração com valores humanos. Temos também que dar exemplo. Não basta dizer que venham, temos que nos converter naquilo que defendemos. Che Guevara já dizia: “é mais fácil que lhe sigam do que ter que empurrar”. Devemos aprender a nos comunicar, nos apoiarmos mais e buscarmos objetivos comuns para unificar nossa força.”

Socialismo, licença parital e parlamento

Aleida arrancou aplausos do público ao mostrar porque a definição de socialismo assusta a tantas pessoas. “Socialismo é quando transnacionais não usam nossas riquezas para aplicar nas bolsas de valores e encher o bolso de pessoas de outros lugares. Quando temos direito à terra onde pisamos e ela se converte em tesouro que usamos para alimentar nossos filhos. Quando homens e mulheres caminham juntos em igualdade de direitos. Quando liberdade não é somente um slogan.”

“Não podemos dizer a vocês como resolver seus problemas, apenas como resolvemos os nossos”. Para isso, ela enumerou pontos importantes em relação ao avanço das mulheres cubanas, como a conquista da licença maternidade de 12 meses, que pode ser dividida em seis meses para a mãe e outros seis para o pai, – tal qual projeto que a CUT defende para o Brasil – apesar de concordar que na maior parte das vezes é a mãe quem fica todo o período com o filho.

Lembrou ainda que Cuba é o segundo parlamento do mundo em quantidade de mulheres – 43,6% das cadeiras. Questionada sobre aborto, disse que a prática não é proibida, frisando, porém, que o País cuida da educação sexual e dialoga sobre a prevenção da natalidade precoce e o uso do preservativo. Não deixou ainda de citar o investimento na formação de médicos – um para cada 158 habitantes. “Certa vez uma jornalista perguntou se o socialismo tinha chance real de sobreviver após queda da Rússia e do  Leste Europeu. Respondi que hoje podemos mandar 400 médicos para o Haiti porque nossa sociedade nos ensina desde pequenos a respeitar e dar valor ao ser humano.”

Sobraram críticas também para a imprensa, quando indagada sobre o preso cubano Orlando Zapata Tamayo, que morreu no dia 27 de janeiro após 85 dias de greve de fome. “Fico muito irritada ao ver como atuam maus profissionais do jornalismo. Por que ao invés de repetir como papagaios o que dizem os EUA, não buscam informações, não pedem explicações? Esse senhor era um preso comum, que jamais adotou uma postura política até passar a exigir fogão, televisor e telefone em sua cela e não ser atendido. Ora, economicamente não temos condições de dar isso a cada médico e professor, como premiaremos alguém que prejudicou seu povo?”

Sem perder a ternura e o carisma consanguíneos, Aleida Guevara finalizou com um esperançoso alerta. “Lutemos para que nossos filhos tenham um mundo melhor do que o nosso. Lutemos até a vitória, sempre.”

Programação:

17/03 (quarta–feira) - Osasco: Integração dos povos como alternativa e o papel do Estado. Local: Sindmetal – Rua Luiz Rink, 501 - Rochdale - Osasco - SP  - Tel./Fax: 3686-7401

18/03 (quinta–feira) - São Paulo: Encerramento com ato público. Local: Estádio Pacaembu – Rua Capivari, 213
Programação cultural: ao longo dos dias, articuladas às atividades de formação, haverá exibição de filmes, música, poesia, teatro e apresentações culturais dos estados.

Texto originalmente publicado no site da CUT

Fonte: CUT

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