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Buscas no Araguaia terá militar simpatizante da ditadura

Operação Tocantins do Ministério da Defesa para as buscas dos corpos de guerrilheiros do Araguaia gera protestos dos Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos
por thiagodomenici publicado 24/06/2009 20h17, última modificação 24/06/2009 22h15
Operação Tocantins do Ministério da Defesa para as buscas dos corpos de guerrilheiros do Araguaia gera protestos dos Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos

Guerrilha aconteceu entre as regiões do Tocantins, Pará e Maranhão (Mapa ilustrativo: Júlia Lima)

Segundo informou à Rede Brasil Atual, a vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais (RJ), Victória Lavínia Grabois Olímpio, o Grupo de Trabalho criado pelo Ministério da Defesa para coordenar a localização, recolhimento e identificação dos corpos dos guerrilheiros e militares mortos na Guerrilha do Araguaia chamará Operação Tocantins e terá no comando das buscas general simpatizante da ditadura.

Victória foi uma das 14 representantes presentes na reunião com o ministro da Defesa Nelson Jobin, no dia 3 de junho, em Brasília, realizada a pedido da Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos Políticos. Ela é filha de Maurício Grabois, dirigente do PC do B, desaparecido aos 61 anos em 1973, na região dos conflitos.

Segundo seu relato, durante a reunião o ministro Nelson Jobin informou que o comando da Operação Tocantins será do militar general Mario Lúcio Alves de Araujo, promovido a general em 2008.

“Ele deu a seguinte declaração para o jornal O Norte de Minas (01/04/2008), está na internet: ‘indagado quanto à importância do dia 31 de março, para todo o país, com entusiasmo, salienta que há exatos 44 anos o exército brasileiro atendendo a um clamor popular foi às ruas contribuindo substancialmente e de maneira positiva impedindo que o Brasil se tornasse um país comunista’ É esse o general que vai comandar as tropas da operação Tocantins”, afirma Victória que também criticou a presença de outro militar na reunião.

“Achei uma afronta a presença do General Brandão, chefe do Serviço de Inteligência do Exército, porque os familiares estavam lá, ele (Nelson Jobim) levar um general todo paramentado na reunião para sentar ao nosso lado é uma afronta”, diz.

Ainda segundo Vitória a reunião com Nelson Jobim aconteceu a pedido da Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos que, segundo ela, é quem por Lei deveria realizar as buscas.

"Caráter fundamentalmente militar"

Em nota assinada pelo presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Marco Antônio Rodrigues Barbosa, o ministério da Defesa é acusado de não ter consultado nem a Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH) da Presidência da República, nem o Ministério da Justiça, "causando profundo constrangimento à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, por invadir sua área de competência legal".

Em outra nota, o Ministério da Defesa contestou as queixas, ao afirmar que convidou familiares de mortos e desaparecidos políticos a participar dos trabalhos.

Por determinação judicial o Exército se prepara para, no mês que vem, iniciar as buscas dos corpos de guerrilheiros nos possíveis locais de sepultamentos, clandestinos e oficiais.

A Guerrilha do Araguaia foi o movimento armado organizado durante a ditadura militar no Brasil pelo PCdoB, na região do Bico do Papagaio, entre o atual território do Tocantins, Pará e Maranhão. A ação foi severamente reprimida pelas Forças Armadas em 1974 com cerca de 5 mil agentes, entre homens das polícias Federal, Rodoviária Federal, Militar e Civil. Foram 84 mortes, das quais 69 guerrilheiros ou apoios da guerrilha, 11 militares e quatro camponeses.