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Araguaia: “informações são divulgadas quando há interesse”

Em entrevista à Rede Brasil Atual a presidente do grupo Tortura Nunca Mais fala dos arquivos sobre a Guerrilha do Araguaia revelados pelo Major Curió, o oficial vivo mais conhecido do regime militar
por thiagodomenici publicado 23/06/2009 11h31, última modificação 23/06/2009 13h30
Em entrevista à Rede Brasil Atual a presidente do grupo Tortura Nunca Mais fala dos arquivos sobre a Guerrilha do Araguaia revelados pelo Major Curió, o oficial vivo mais conhecido do regime militar

A presidente do Grupo Tortura Nunca Mais (RJ) Cecília Coimbra considera que as informações divulgadas na mídia dos arquivos sobre a Guerrilha do Araguaia não são novidade para os que acompanham a história há mais de 20 anos. O material divulgado era mantido por Sebastião Curió Rodrigues de Moura, o major Curió, considerado o oficial vivo mais conhecido do regime militar (1964-1985).

A versão militar de que 67 guerrilheiros mortos estavam armados não se sustenta segundo as informações dos arquivos em posse do Major, que tem registros de 41 pessoas executadas a sangue frio.

“Alguns desses documentos entregues a jornalistas e jornais são informações divulgadas quando há algum interesse político", critica Cecília Coimbra à Rede Brasil Atual. "Sabemos que os documentos existem. Não há revelação ou surpresa. Essa história tem a ver com o contexto que estamos vivendo”, afirma.

O referido contexto, segundo ela, é a ação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) contra o governo brasileiro na Corte Interamericana de Direitos Humanos pela “detenção arbitrária, tortura e desaparecimento” durante a ditadura militar (1964-1985) de 70 pessoas ligadas à Guerrilha do Araguaia e camponeses que viviam na região.

Segundo a CIDH, desde 1982 parentes tentam obter sem sucesso da Justiça brasileira dados sobre desaparecimento e morte de guerrilheiros e camponeses, assim como a recuperação dos corpos. “O Brasil corre sério risco internacional. Somos dos mais atrasados da América Latina a entrar num processo efetivo de reparação”, pondera.

Para ela, os documentos mantidos pelo Major Curió são oficiais e não deveriam ser tratados como pessoais e nem estar em sua posse. "Isso é roubo", diz. “O exército sempre quis manter o Araguaia como uma coisa sigilosa, secreta, sempre negaram sua existência, que houve morte e extermínio."

A Guerrilha do Araguaia foi o movimento armado organizado durante a ditadura militar no Brasil pelo PCdoB, na região do Bico do Papagaio, entre o atual território do Tocantins, Pará e Maranhão. A ação foi severamente reprimida pelas Forças Armadas em 1974 com cerca de 5 mil agentes, entre homens das polícias Federal, Rodoviária Federal, Militar e Civil. Foram 84 mortes, das quais 69 guerrilheiros ou apoios da guerrilha, 11 militares e quatro camponeses.

"O exército vai ter que responder por isso", ameaça Cecília. "Não somos pela punição e nem (pela) prisão. A gente quer que história seja contada, que o povo brasileiro saiba o que aconteceu efetivamente", defende.