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Haddad e os rumos de São Paulo
Haddad elegeu mobilidade e moradia como prioridades na campanha para a Prefeitura de São Paulo (Foto: Maurício Morais/Rede Brasil Atual
O candidato do Partido dos Trabalhadores à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, concedeu ontem uma entrevista coletiva para veículos da imprensa sindical e independente, realizada pela Rede Brasil Atual. Nela, o ex-ministro da Educação versou, ainda que superficialmente, sobre as ideias que pretende seguir se eleito prefeito da cidade. Ele lamentou que o bom desempenho econômico do país não tenha sido traduzido em melhoria nas condições de vida da população paulistana. O candidato lembrou ainda que a prefeitura abdicou completamente de seu papel regulador da ocupação do solo.
Haddad ofereceu um diagnóstico conciso, porém preciso, do que vem acontecendo com São Paulo nos últimos anos. Ele afirmou que, ao contrário do Brasil, a cidade de São Paulo não figura entre as detentoras de soluções inovadoras para seus problemas. De fato, são poucas as iniciativas de monta que a São Paulo adotou nos últimos anos. Entre elas está a instalação de um sistema de geração de energia com a queima do gás metano do lixo, no Aterro Bandeirantes. A tecnologia proporciona a possibilidade de vender créditos de carbono no mercado internacional. Que uma cidade tão poluída como São Paulo possa vender créditos de carbono parece uma insanidade, mas nem sempre os mecanismos de proteção ao meio ambiente fazem sentido. De qualquer forma, essa foi uma das boas ações da atual administração municipal, e deveria ser ampliada.
Outra iniciativa positiva, essa mais popular, foi a criação da Virada Cultural, evento que ocupa as ruas da cidade com shows, performances e atividades que duram 24 horas. Apesar de concentrada na zona central e de sua curta duração, o evento é uma possibilidade de lembrar aos paulistanos que é possível ocupar as ruas e usá-las como lugar de lazer, em vez de corrermos todos para os shoppings e suas enormes filas de cinema a cada final de semana. Infelizmente, a Virada é anual. A impressão que tenho é que esse é um evento-vitrine: serve para colocar imagens bacanas nas propagandas político-eleitorais, mas não muda de fato a relação dos moradores com a cidade.
É interessante também lembrar que houve um aumento do número de parques na cidade, especialmente na periferia. Na maior parte dos casos, os parques eram áreas - privadas ou públicas - que já possuíam algum verde, o que praticamente anula qualquer efeito positivo em termos ambientais. Mas são áreas abertas à população, o que é sempre uma ação positiva. Em 2005 havia, de acordo com informações da própria prefeitura, 34 parques na cidade. A meta é chegar ao final desse ano com 100. Hoje, constam no site da prefeitura 77 parques.
São essas as três boas ideias da administração Serra/Kassab que consigo listar. Pode ser que haja outras - evidentemente há - mas é inegável, até para o eleitorado conservador, que a cidade está muito pior do que no final da administração Marta Suplicy. A lista de problemas é gigantesca, mas entre os mais óbvios estão o aumento progressivo e consistente do trânsito, péssimo transporte coletivo, com o flagrante abandono da política dos corredores de ônibus, poluição do ar, limpeza urbana entre outros, muitos outros. A falta de ideias dá a sensação de que os problemas são ainda piores. Não há nada no horizonte que ofereça ao paulistano a sensação de que algo pode melhorar.
Propostas
As propostas de Haddad na área de planejamento urbano estão focadas em mobilidade e moradia. Ele citou a volta do investimento em transporte público intermodal e o incentivo à criação de empregos em áreas longe do centro como ações para melhorar o trânsito. Na questão da habitação, ele ofereceu mais uma avaliação do que propostas. "Nunca se produziu tão pouco nesse sentido. E não há projeto ambiental de sustentabilidade sem um plano habitacional que dialogue com a questão das áreas verdes, do transporte e do saneamento básico. Temos de ter uma agenda de desenvolvimento urbano", afirmou.
Os assuntos abordados por Haddad são importantes, mas é pouco, muito pouco para uma candidatura à esquerda. Ele não tocou naquela que é provavelmente a questão mais importante nas questões de mobilidade e moradia, que é a questão fundiária urbana. A posse da terra é o problema central quando se trata de ocupação da cidade. O trânsito é ruim porque os pobres são expulsos para a periferia e têm que realizar longos deslocamentos diários. O centro, por sua vez, está desocupado e não há qualquer movimento significativo para mudar essa tendência. É esse o nó que deve ser desatado para que a cidade comece a ser mais generosa para seus habitantes.
É importante lembrar que esse assunto é tabu em qualquer ambiente político. As construtoras, grandes financiadores de campanha - de quase todos os partidos - não querem nem ouvir falar em controle da posse e uso da terra, como explica aqui a urbanista Ermínia Maricato. Portanto, é natural - e trágico - que os candidatos não toquem nesse assunto. Cabe aos cidadãos e aos movimentos sociais a cobrança aos candidatos. É verdade que a campanha em si ainda não começou e as propostas de governo ainda estão sendo traçadas. Isso só faz ser mais importante a pressão em relação a assuntos importantes. Qualquer proposta de agenda urbana que não tocar no ponto da propriedade da terra será falha e estará fadada ao fracasso. Que Haddad e todos os candidatos tenham coragem de se impor a esses interesses.






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