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Documentário mistura linguagens para realçar valor histórico de Marighella

por guibryan1 publicado 07/08/2012 18h50, última modificação 07/08/2012 19h52

O ativista político e guerrilheiro Carlos Marighella, emblema da resistência à ditadura militar, tema de documentário dirigido pela sobrinha (reprodução)

A cineasta Isa Grinspum Ferraz começa anunciando que, na sua infância, havia o tio Carlos, que sempre aparecia e sumia sem deixar vestígios, declarava morar num lugar sem endereço, e o qual só depois de um tempo seu pai contaria tratar-se de Carlos Marighella. 

Com alma de documentarista, ela partiu, então, para realizar uma longa pesquisa a respeito dele, cujo resultado pode ser conferido em “Marighella”, que chega aos cinemas nessa sexta-feira (10), com depoimentos de personalidades como o pensador Antônio Cândido e música-tema composta especialmente por Mano Brown. 

"Esse tio Carlos..." Leia reportagem sobre Isa Ferraz, sobrinha do guerrilheiro e diretora do filme, na Revista do Brasil

A narração é do ator Lázaro Ramos, que transmite a emoção necessária para envolver o espectador e apresentar um dos personagens mais aguerridos e pouco investigados da história do Brasil. O documentário passeia, então, pela juventude do personagem na Bahia, quando ingressou no Partido Comunista Brasileiro (PCB), passando pelas prisões durante o Estado Novo, do presidente Getúlio Vargas, até chegar à opção pela luta armada e o seu assassinato por parte da repressão militar, que o tinha como a “caça mais cobiçada”. 

Carlos Marighella nasceu em Salvador, em 5 de dezembro de 1911, e morreu em 4 de novembro de 1969, em São Paulo (SP), vítima de uma emboscada preparada pelos militares. Filho de um operário, ele estudou, sem concluir, o curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica da Bahia; foi um dos nomes mais conhecidos do Partido Comunista Brasileiro e, depois, tornou-se um dos mais importantes nomes a aderir à guerrilha como única forma de resistência ao regime militar. 

O documentário encanta pela qualidade da pesquisa, que encontrou documentos secretos da CIA, gravações de rádio inéditas feitas por Marighella, em Cuba, durante a década de 1960, além de milhares de fotos, recortes de jornais e trechos de filmes de ficção. Há também alguns poemas escritos pelo militante que são declamados de modo bastante emotivo por Lázaro Ramos. 

A maior qualidade de “Marighella” pode ter se tornado um de seus maiores problemas. O filme mistura muitas linguagens e torna-se um pouco fora de foco, em alguns momentos. Não ficamos sabendo se o relato é o ponto de vista da sobrinha que parte em busca da memória do tio brutalmente assassinado, se trata de algo mais jornalístico no sentido exato do termo, ou se a diretora procurou fazer algo mais alegórico, com poemas, trechos de outros filmes etc. 

Quando um caminho começa a envolver e a interessar o espectador, a obra muda de rumo e parece embaralhar tudo novamente. Mesmo no final, que poderia ter se tornado algo dramático e comovente, levando o espectador à reflexão, parece perder parte do impacto ao ser seguido pela canção composta e interpretada por Mano Brown, que procura transformar Marighella num herói nacional. 

Aliás, a própria emboscada que resultou na morte do guerrilheiro não fica muito bem explicada. Nem essa aparente falta de foco e confusão no uso de diferentes linguagens enfraquece e desmerece o excelente trabalho realizado por Isa Grinspum Ferraz. Portanto, “Marighella” é um documentário a ser visto e revisto muitas vezes por quem deseja conhecer a história do Brasil e não deixar que uma das páginas mais tristes dela caia no esquecimento. 

As escolas de ensino fundamental e médio deveriam organizar caravanas para levar as crianças e adolescentes aos cinemas para que conheçam uma realidade que foi durante tanto tempo omitida dos currículos.

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