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Peça 'Palácio do Fim' retrata, sem heróis, atrocidades da Guerra do Iraque

por guibryan1 publicado 08/03/2012 15h15, última modificação 12/03/2012 09h20

Vera Holtz é uma ativista iraquiana em "Palácio do Fim" que encerra temporada em São Paulo (Foto: ©Guga Melgar/Divulgação)

O espetáculo “Palácio do Fim”, que encerra temporada no Teatro Anchieta, em São Paulo, no próximo final de semana, deve ser visto como modo de se compreender a história recente e para ser utilizado como uma bandeira da luta pela paz. Não se trata, porém, de algo panfletário. Muito pelo contrário.

A crueza dos relatos certamente o fará sair do teatro emocionado, talvez assustado e bastante pensativo. Dirigida por José Wilker, a partir de texto da dramaturga canadense Judith Thompson, a peça conta com atuações arrasadoras de Antonio Petrin, Camila Morgado e Vera Holtz.

Uma estrutura de madeira com diferentes níveis de altura do palco, um telão ao fundo e algumas cadeiras. Esse é o cenário criado pelo craque Marcos Flaksman, que possibilita que os três atores permaneçam o tempo todo sendo observados pelo público e que as histórias verídicas que interpretam, em três monólogos, mantenham conexões entre si, principalmente pelo viés do horror de guerra.

Numa época marcada por grandes produções, atores voando em cena e diversas outras pirotecnias, “Palácio do Fim” se apoia exclusivamente na qualidade do texto, em interpretações marcantes e na cuidadosa iluminação de Maneco Quinderé. Trata-se, portanto, como defende José Wilker no programa da peça, da busca pela essência do teatro de antigamente.

Camila Morgado interpreta Lynndie England, oficial do exército norte-americano acusada de abusar de prisioneiros em Abu Ghraib. Grávida, ela começa reclamando pelo fato de estar sendo ofendida pela internet e de ter aparecido nos jornais numa foto horrível. Aos poucos, no entanto, ela revela ter torturado animais e um deficiente físico na infância. 

Há relatos de Lynndie que dificilmente deixarão as lembranças de quem assiste a peça. São exemplos da crueldade atroz dos vários presentes nesse monólogo, incluindo várias escatologias. Camila Morgado mostra estar completamente entregue em cena e se vale bastante das expressões faciais.

Antonio Petrin faz um inspetor de armas britânico, que relatou à emissora de TV BBC que não havia armas de destruição em massa no Iraque. Demonstrando sinais de arrependimento e num gesto de mea culpa, ele começa defendendo Tony Blair e George W. Bush, mas, aos poucos, relata também as cenas terríveis que presenciou, como o estupro e o assassinato cruel de uma garotinha, filha de um amigo dele. Mais uma vez Petrin prova porque é um dos mais importantes e marcantes atores dos palcos paulistanos e, claro, brasileiros.

Uma ativista iraquiana que pertence ao Partido Comunista e se chama Nehrjas Al Saffarh é a personagem de Vera Holtz, que aparece de turbante e relata os horrores aos quais foi submetida no Palácio do Fim. Ela sobreviveu às atrocidades praticadas pela polícia secreta de Saddam Hussein, mas, obviamente, não consegue apagar o horror de ver os dois filhos serem assassinados. Mesmo assim, conseguiu encontrar beleza e força no olhar deles. O grito de dor dela ecoa pela sala e cala fundo. 

Portanto, será impossível deixar o teatro não refletindo a respeito de tudo o que se acabou de ouvir e que não é restrito ao ambiente da guerra e do Oriente Médio. Se os fatos parecem cruéis de modo completamente desmedido, dói sabermos que são verídicos e foram praticados por seres humanos. Depois, não há bonzinhos nessa história e nem a clássica divisão entre heróis e bandidos. Algo que cala fundo por estar muito presente no nosso dia a dia e traçar um retrato bastante ácido, mas verdadeiro da história recente, com a magia que só o teatro é capaz de criar.

Serviço
Peça Palácio do Fim - sexta-feira (9) e sábado (10), às 21h; e domingo (11), às 18h
Ingressos de R$ 8 a R$ 32
Teatro Anchieta - Sesc Consolação
Rua Doutor Vila Nova, 245. Vila Buarque, São Paulo/SP. T: (11) 3234-3000

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