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Na Rede

por publicado , última modificação 22/11/2014 10:57

são paulo

Mídia esconde greve nas universidades

por Altamiro Borges, do Blog do Miro publicado 14/07/2014 17:17, última modificação 14/07/2014 17:26
mídia ninja/cc
usp

Professores e servidores das universidades públicas de SP estão parados há 40 dias por reajuste e investimentos

Os professores e servidores das universidades públicas de São Paulo estão em greve há 40 dias. Eles reivindicam aumento de salário e maiores investimentos no setor. O governador Geraldo Alckmin, porém, não aceita negociar com as entidades sindicais da categoria e ainda sinaliza que deseja privatizar as instituições de ensino. Já o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), reunido na semana passada, argumentou que a “folha de pagamento das três instituições passou do patamar prudencial adequado”. Na mídia paulista, totalmente vinculada aos tucanos, a greve não existe, não é notícia. Quando se refere à longa paralisação, os jornalões babam seu ódio contra os grevistas.

Em artigo editorializado publicado na sexta-feira (11), o Estadão acusou os sindicatos do setor de intransigentes por se recusarem a participar de uma falsa rodada de negociação. “A Cruesp propôs uma reunião com as entidades sindicais dos docentes e funcionários administrativos na próxima semana, mas com a condição de que a questão salarial não seja incluída na pauta. Já os líderes dos grevistas continuam afirmando que os ganhos da USP, da Unicamp e da Unesp com as aplicações de suas reservas técnicas no sistema financeiro permitem a concessão do reajuste pleiteado. Também reivindicam aumento de 9,57% para 11,6% na cota do ICMS a que as três universidades têm direito.”

Para o jornalão, que sempre bajulou as universidades paulistas pessimamente administradas nos governos tucanos, a reivindicação salarial é absurda. “Atualmente, a Unesp e a Unicamp consomem, respectivamente, 95,42% e 97,33% de seus orçamentos com salários. Na USP, esse gasto é de 105,3%, o que tem obrigado a instituição a recorrer às reservas técnicas. É por isso que o Cruesp decidiu não conceder qualquer reajuste salarial em 2014. Já o governo estadual resiste ao aumento do porcentual do ICMS destinado às três universidades públicas paulistas, alegando que os problemas financeiros por elas enfrentados decorrem não de falta de verbas, mas de má gestão.”

O Estadão ainda critica as táticas usadas pelos grevistas. “Diante do impasse, as corporações sindicais apelaram para os mais variados artifícios, propondo aos estudantes, docentes e servidores que debatam ‘as concepções da Reitoria sobre a universidade pública’, busquem apoio político de ‘entidades científicas, movimentos sociais, personalidades e mídia alternativa’ e peçam audiência ao governador Geraldo Alckmin. Apoiados pela bancada do PT na Assembleia Legislativa, os grevistas alegam que o partido de Alckmin (PSDB) quer privatizar as universidades públicas, por ser ‘neoliberal’”. O jornalão, a exemplo do restante da mídia, gostaria que a categoria morresse à mingua – de preferência em silêncio!

pressão de mercado

Os abutres da crise e as raízes das tensões na Argentina

Decisão judicial obtida nos EUA favorece especuladores financeiros e ameaça ainda mais a já fragilizada economia do país vizinho
por Emir Sader, para a Rede Brasil Atual publicado 14/07/2014 12:31
cc / wikipedia
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Cristina e Néstor Kirchner em campanha eleitoral. Estabilidade ameaçada por decisão judicial favorável ao mercado

A eclosão da crise argentina em 2001 era mais que anunciada. Diante de duas crises de hiperinflação – de que o Brasil se safou pela indexação – Carlos Menem, que havia anunciado um choque produtivo, fez exatamente o contrário. Chamou economistas liberais que terminaram impondo a resposta mais drástica possível: a paridade entre a moeda argentina e o dólar.

Uma solução mágica contra a inflação. A Argentina renunciava a ter uma política cambial, em troca do controle da inflação. Os argentinos passavam a ter um poder aquisitivo alto, dentro mesmo do país podiam comprar em prazos longos sem juros. Quando depositavam dinheiro no banco, consideravam que tinham o correspondente em dólares.

Era uma bomba de tempo, que mais cedo ou mais tarde explodiria. A divida pública acumulada era gigantesca. Carlos Menem foi derrotado, mas seu sucessor, o radical Fernando de la Rua, manteve a paridade e a bomba acabou explodindo no colo dele. A pressão desatou quando ele decretou o fim da paridade – e ele acabaria renunciando.

Da noite para o dia os depósitos dos argentinos nos bancos ficaram reduzidos a um quarto. Com o fim da paridade, a cotação passou de 1 dólar a 1 peso, para 1 a 4. Foi a maior crise da história da Argentina, com um empobrecimento radical de amplos setores populares e de classe média. Surgiram vários movimentos e protestos, o mais conhecido deles – o dos piqueteiros – consistia em bloquear as estradas e impedir a circulação da produção, como forma de se fazerem ouvir em sua principal reivindicação: a criação de empregos.

Em uma única semana se sucederam vários presidentes, até que nas eleições Carlos Menem, prometia dolarizar definitivamente a Argentina. Ele foi vencido no primeiro turno, diante das alianças em torno do segundo colocado, Néstor Kirchner – um até ali desconhecido governador do interior.

Os piqueteiros não participaram do processo eleitoral, propondo a orientação “que se vayan todos”. Não acreditavam que algum governo conseguiria sobreviver. Foi um erro. Se tivesse sido Menem o vencedor, teria havido a dolarização na Argentina e a inviabilização de qualquer processo de integração latino-americana.

Como não tentaram disputar hegemonia, esses movimentos deixaram o espaço livre para ser ocupado por Kirchner. Diante da provável derrota no segundo turno, Menem renunciou à disputa e Kirchner foi empossado presidente.

Entre tantas heranças malditas que recebeu, uma foi a imensa dívida, contraída pela ditadura e pelo governo de Menem. Néstor Kirchner conseguiu articular uma complexa renegociação da dívida, pagando bem abaixo do valor de face dos papéis da dívida.

Conseguiu que 93% dos credores aceitassem os termos da renegociação, mas 7% rejeitaram e, dentre eles, 1% comprou papéis restantes por um preço irrisório. Mas esse fundos – com razão chamados de fundos abutres – colocaram em prática o que já haviam feito com outros países, entre eles o Peru: com vínculos estreitos com setores do Judiciário dos Estados Unidos, conseguiram decisão de um juiz pela qual a Argentina teria que priorizar o pagamento dos credores que não haviam aceitado a renegociação.

Esse mesmo juiz bloqueou o pagamento feito pela Argentina aos demais 93%, colocando o país à beira do calote, porque se pagar o 1% prioritariamente, terá que fazer o mesmo com os restantes 6%, mais os montantes da renegociação, o que consumiria metade das já reduzidas reservas do país.

A economia argentina já havia entrado, pela primeira vez, desde o começo do governo dos Kirchner, em recessão. Qualquer que seja o processo de renegociação da decisão do juiz norte-americano, o país vai ter de desembolsar dólares. Certamente aprofundará ainda mais a recessão, afetará a já elevada inflação – mais de 30% –, assim como o preço do dólar.

Essa situação difícil se dá num momento político desfavorável para o governo, em que Cristina Kirchner não pode se candidatar de novo e, com apoio popular baixo, não tem condições, até aqui, de eleger um sucessor que dê continuidade direta às orientações de sua administração. Em agosto haverá eleições internas nos partidos, e em outubro de 2015, eleições presidenciais. Será um período tenso daqui até lá para a Argentina.

Marcio Pochmann

Desenvolvimento, pobreza e democratização de oportunidades

Alguns 'especialistas' questionam as políticas sociais e econômicas no Brasil do século 21. O sucesso de alguns arautos do neoliberalismo seria o retrocesso do país a um passado que está a superar
por Marcio Pochmann, para a RBA publicado 11/07/2014 09:18
agencia.ac.gov.br
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Opção por superar a pobreza extrema leva a iniciativas para ampliar acesso a bens e serviços públicos

A questão social no Brasil permaneceu por longo tempo sujeita à ação de um poder público que foi, na maioria das vezes, indiferente às necessidades do conjunto de sua população, especialmente nas camadas mais pobres. Na história do país há diversas passagens que ilustram bem essa constatação, contrastando com a experiência recente de enfrentamento exitoso da pobreza e desigualdade social.

Na década de 1890, por exemplo, o enfrentamento do trabalho escravo, que se constituiu num dos principais elementos conformadores da questão social contemporânea, teve importância o alerta de Joaquim Nabuco a respeito das insuficiências da simples abolição da escravatura. Sem a superação simultaneamente das instituições que auxiliavam a própria escravidão, como o monopólio das grandes propriedades rurais e a monocultura da produção agrária, a exigência do trabalho forçado a qualquer preço e condição se manteria fundamental aos brasileiros paupérrimos.

Um século depois, a complexa caminhada em torno da questão social conviveu com governos neoliberais que aprisionaram as políticas sociais ao contingenciamento dos ajustes fiscais em prol do pagamento da dívida pública. No ano de 2002, por exemplo, os recursos públicos comprometidos com juros da dívida equivaleram a 14,2% do Produto Interno Bruto (PIB), o que tornou viáveis os programas e ações sociais focalizados, de menor custo e abrangência, em contraponto às políticas universais estabelecidas pela Constituição Federal de 1988.

Como se sabe, somente a partir da primeira década de 2000 que a economia brasileira voltou a ganhar maior dinâmica, acompanhada que foi por uma melhora social generalizada, sobretudo na base da pirâmide social. A manutenção do enfoque universalista nas políticas públicas não impediu o Estado de tratar diferenciadamente os desiguais, como no caso do reforço ao poder aquisitivo do salário mínimo, à ampliação do crédito à baixa renda, à unificação e elevação real dos valores dos benefícios e universalização dos programas de transferência de renda ao conjunto dos segmentos vulneráveis, entre outras ações.

Mas para isso o programa de ajuste fiscal foi revisto, permitindo que em 2013, por exemplo, o gasto com juros da dívida pública respondesse por 5,7% do PIB, ou seja, 8,5 pontos percentuais do PIB a menos que em 2002. Assim, mais recursos puderam ser comprometidos com as políticas públicas orientadas ao enfrentamento da questão social no Brasil.

Os resultados dessa opção política foram evidentes e muito positivos, pois o país se transformou num dos poucos a frequentar o seleto grupo de nações que atualmente conseguem simultaneamente manter a estabilidade de preços, crescer e reduzir a pobreza e a desigualdade da renda. Tudo isso, é claro, afiançado pelo contexto favorável da economia nacional e pela reorientação das políticas sociais existentes.

Na sequência desses acontecimentos e procurando validar o entendimento alargado da questão social no país é que entrou em campo uma importante sofisticação das políticas públicas brasileiras. Por intermédio do compromisso governamental de superar a pobreza extrema, um conjunto de iniciativas governamentais convergiu com o pressuposto de que a superação da miséria requerer o combate às condições auxiliares da reprodução do processo de empobrecimento.

Nesse sentido, foi reforçada a transferência direta de renda aos miseráveis, principalmente nas famílias mais vulneráveis, ao mesmo tempo em que se articulou um conjunto de ações fundadas no desenvolvimento das habilidades e capacidades humanas. Para isso se tornou estratégico fazer chegar as políticas públicas a todos, na forma do acesso digno à renda, ao saneamento, à habitação, ao transporte coletivo, à eletricidade, é educação, à saúde, à capacitação, ao trabalho; enfim, ao conjunto de oportunidades que geralmente se encontravam disponíveis aos não pobres no Brasil.

Neste início do século 21, o desenvolvimento nacional passa pelo movimento maior de democratização das oportunidades geradas pelo país, que vão deixando de estar circunscritas a apenas uma parcela do universo da população. Na medida em que todos passam a ter o direito de participar diante da maior atenção das políticas públicas, o desenvolvimento significa também o fim da pobreza extrema e a redução da desigualdade.

Talvez por isso que alguns arautos do neoliberalismo sigam questionando medidas e critérios adotados pelas políticas sociais e econômicas no Brasil. Nesse caso, o seu sucesso poderia coincidir com a questão social retroagindo ao passado que se quer abandonar.

Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas

Time reforçado

Pochmann estreia na rádio e amplia equipe de colunistas da RBA

por Redação RBA publicado 09/07/2014 13:59, última modificação 15/07/2014 16:33
Colunistas

Pochmann, Sader, Santayana, Lalo, Flávio, Vannuchi, Betto e Mouzar. RBA reforça equipe de colunistas

São Paulo – O economista Marcio Pochmann estreou hoje (9) sua participação semanal na Rádio Brasil Atual. Pochmann é professor do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), preside a Fundação Perseu Abramo e tem mais de 40 títulos publicados em sua área.

Na rádio, sempre às quartas-feiras, o pesquisador responderá a perguntas dos ouvintes e internautas com análises econômicas e do mundo do mundo do trabalho, em uma perspectiva de construção de ideias para o Brasil. Ouça o programa de estreia, que teve a participação do presidente dos Correios, Vagner Pinheiro, e de Juvandia Moreira, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo.

O Jornal Brasil Atual, vai ao ar diariamente das 7h às 9h da manhã e pode ter sua programação alcançada também pela internet. O programa completa 10 anos nesta quarta (9),

A estreia de Pochmann vem se somar à recente chegada do sociólogo Emir Sader ao time de colunistas da RBA. Ambos escreverão ainda artigos para as edições mensais da Revista do Brasil e semanais para o portal. Sader escreve às segundas-feiras para o site e Marcio Pochmann às sextas. Sader é especialista em política externa e relações internacionais, com destaque para assuntos da América Latina.

Na emissora, eles se somam ao escritor Flávio Aguiar, correspondente em Berlim, comentarista de Internacional com foco na Europa e autor do Blog do Velho Mundo, na RBA; ao escritor Frei Betto, que promove reflexões sobre cidadania e direitos humanos; à médica Maria Maeno, especialista em Medicina do Trabalho; ao escritor Mouzar Benedito, cronista e contador de causos; e a Tuca Munhoz, especialista em temas ligados à mobilidade e inclusão de pessoas com deficiência.

A rádio tem também participações diárias do diretor-técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, sobre o dia a dia da economia, e do cientista político Paulo Vannuchi, ex-ministro da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e representante brasileiro na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos.

Na RdB, farão companhia aos colunistas Mauro Santayana e Laurindo Lalo Leal Filho.

Jornal Brasil Atual: dez anos de história e um futuro a construir

Programa da Rádio Brasil Atual completa neste 9 de julho uma década de experiência pioneira e premiada de radiojornalismo alternativo, criada pelo movimento sindical
por Redação RBA publicado 09/07/2014 10:40, última modificação 10/07/2014 12:47

São Paulo – O Jornal Brasil Atual faz história neste 9 de julho. O programa mantido por entidades de trabalhadores – com os sindicatos dos Bancários de São Paulo e Metalúrgicos do ABC à frente – completa dez anos de uma experiência pioneira de radiojornalismo no país.

O projeto foi ao ar pela primeira vez em julho de 2004, então com o nome de Jornal dos Trabalhadores. Na época, com suporte da CUT, a equipe comandada pelo jornalista Oswaldo Luiz Colibri Vitta ocupava um hora diária das manhãs de segunda a sexta-feira, na Rádio Nove de Julho AM.

Em 2006, o programa passou a fazer parte de uma plataforma de mídias empreendida por dezenas de entidades sindicais ligadas a diversas categorias – além de bancários e metalúrgicos, químicos, professores das redes pública e privada, profissionais de saúde, do setor de energia, editores de livros. Esse grande projeto de comunicação passou a incluir a Revista do Brasil (2006), o portal Rede Brasil Atual (2009), a TV dos Trabalhadores (TVT, em 2010), além dos jornais impressos ABCD Maior (hoje um dos principais a circular na região do ABC paulista) e das edições regionais do Brasil Atual em algumas cidades do interior de São Paulo.

No ano seguinte, ainda por meio de locação de horário em emissora privada, o programa migrou da faixa AM para a FM, já com a nomenclatura atual. E em 2012 passou a ter duas horas de duração, das 7h às 9h, e tornou-se o carro-chefe da programação jornalística da Rádio Brasil Atual.

A novidade é que a partir daí a rádio ganhou “casa própria” em três regiões importantes do estado: a FM 98,9, com sede em Mogi das Cruzes e alcance na Grande São Paulo, podendo chegar até São José dos Campos; FM 93,3 de São Vicente, sintonizada na Baixada Santista desde Bertioga, no litoral norte, até Praia Grande, no litoral sul; e FM 102,7, irradiada de Pirangi, a 370 quilômetros da capital paulista, para cidades do noroeste do estado, como Catanduva, São José do Rio Preto, Barretos e Bebedouro.

“E desde sempre, mantendo sua identidade editorial que tem como pilares a  prestação de serviços, assuntos de interesse da cidadania, do consumidor, e com abordagens da cultura, dos direitos humanos, do mundo do trabalho e dos movimentos sociais impossíveis de se encontrar nos veículos comerciais”, explica Colibri.

“Além de lutar pela democratização da comunicação no país, estamos criando nossos próprios meios”, afirma o diretor de Comunicação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Valter Sanches, presidente da Fundação Sociedade, Comunicação, Cultura e Trabalho, mantenedora das emissoras.

No ano passado, as repórteres Marilu Cabañas e Anelize Moreira figuraram entre os vencedores da 35ª edição do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Marilu pela série de reportagens “Voz Guarani-Kaiowá”, sobre a luta das comunidades indígenas do Mato Grosso pelo direito à sua terra de origem, e Anelize pela série “Dores do parto”, sobre violência contra mulheres e a valorização do parto humanizado. “A premiação representou o que é praticado na Revista do Brasil, no portal da RBA, nos jornais, na TVT e no ABCD Maior: informação de qualidade, que tem os direitos humanos como matéria-prima”, disse o diretor da RBA, Paulo Salvador.

“Ainda é um grande desafio do movimento sindical e social criar uma plataforma de mídia com posição relacionada ao mundo do trabalho, à cidadania, que seja protagonista na construção de um Brasil inclusivo e mais justo”, defende Salvador. “Já temos muito as comemorar, e ainda temos um longo caminho a percorrer na disputa pela audiência e pela formação de opinião.”

Como lembrou recentemente o professor Laurindo Lalo Leal Filho, colunista da Revista do Brasil, o rádio integra o conjunto de meios de comunicação ainda muito influente. “É o segundo meio de comunicação mais utilizado pela população (61% fazem isso), como mostra uma pesquisa do Ibope, realizada a pedido da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Só perde para a TV, que é vista regularmente por 97% dos brasileiros”, observa Lalo, em recente artigo na RdB.

chagas

As oportunidades perdidas do México

Superposição de problemas fazem o país ser a maior ferida neoliberal no continente. E se nos perguntamos como está a esquerda mexicana, as notícias tampouco são boas
por Emir Sader, para a Rede Brasil Atual publicado 07/07/2014 10:53, última modificação 07/07/2014 11:08
edinchiapas.org
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Criança mexicana em acampamento zapatista. País resiste a definir rumos políticos e econômicos que priorizem o social

O México deu início ao extraordinário século 20 latino-americano com sua maravilhosa revolução, que moldou o imaginário do continente durante muitas décadas – até a Revolução Cubana

Como Zapata e Pancho Villa protagonizavam uma épica revolução um século depois da gesta de independência, seria de supor que novo século mexicano traria boas e novas esperanças. Não é o que acontece, infelizmente. Ao contrário, o país é uma ferida aberta no continente, antes de tudo para o seu próprio povo.

O que parecia o final do longo ciclo do PRI, em 2000, não foi sucedido por um governo de esquerda – depois de PRI ter se encarregado de introduzir o neoliberalismo no México –, mas pelo PAN, que alguns iludidos acreditavam que pudesse desmontar o Estado priista de 70 anos.

Os dois mandatos do PAN não só representaram a continuidade do regime e da política econômica herdada, como terminaram definitivamente com as marcas minimamente progressistas de sua política externa, com o México somando-se à política norte-americana de hostilidade a Cuba.

Esgotados os dois governos do PAN, o PRI volta ao governo. É certo que, pelo menos em duas ou três eleições, houve fraudes contra Cuahutémoc Cárdenas e contra López Obrador, mas esse não é um fenômeno apenas mexicano. Em outros países do continente a esquerda soube superar esse obstáculo para finalmente ganhar e governar.

Ao contrário de outros países latino-americanos, o México segue o caminho do neoliberalismo, com todas as dramáticas consequências sociais desse modelo. Enquanto países como o Brasil e a Argentina diminuem as desigualdades, o México as intensifica. Enquanto os salários aumentam, assim como os empregos formais nesses países sul-americanos, o salário mínimo mexicano perdeu 66% do seu poder aquisitivo em três décadas.

Apesar das tentativas frustradas de órgãos da mídia internacional de projetar o México como modelo a ser seguido pelo Brasil, nenhuma análise séria consegue sustentar essa afirmativa para além de slogans de propaganda neoliberal. O México continua a ser o paradigma de país que optou pela continuidade da aliança subordinada com os EUA, pelo modelo liberal de livre mercado e com seus efeitos trágicos.

Única fronteira mundial entre um país da periferia e um do centro, tendo ao maior império como seu vizinho do norte, o México também sofre as consequências do corredor do narcotráfico, que vai dos países produtores da América do Sul – basicamente Colômbia e Peru – passando pela devastada América Central, até o maior mercado consumidor de drogas do mundo: os Estados Unidos.

Se já não bastassem as consequências do modelo econômico aplicado por algumas décadas e o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Alca), o México sofre a desagregação social e política de vários estados do norte do país, como pontos de passagem da droga e de ação dos cartéis do narcotráfico na direção dos Estados Unidos. O que somente aumenta o drama dos imigrantes – mais de 10 milhões de indocumentados – no vizinho rico.

Pela superposição de todos esses problemas, o México é a maior ferida neoliberal no continente. E se nos perguntamos como está a esquerda mexicana, as notícias tampouco são boas.

O Partido da Revolução Democrática (PRD), representante tradicional da esquerda mexicana, se dividiu. Um setor, liderado por quem foi seu candidato a presidente duas vezes, Andres Manoel López Obrador, fundou um outro movimento (Morena, Movimento de Regeneração Nacional), diminuindo a força do partido, sem conseguir constituir um polo alternativo com mais força.

Em 2014 se cumpriram 20 anos do grito de Chiapas, a rebelião no estado mais ao sul e o mais pobre do México, que fundou o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). Mais além das saudações pelo surgimento do movimento, a situação em Chiapas não foi substancialmente melhorada, nem o ELZN se projetou como força alternativa nacional.

Considerando-se que o sistema político mexicano não tem segundo turno, as possibilidades de que a esquerda chegue a triunfar eleitoralmente diminuem ainda mais com a divisão entre PRD e Morena, que certamente terão candidatos próprios nas próximas eleições presidenciais – previstas para 2018. Os zapatistas, por seu lado, não intervém no processo eleitoral, em que não acreditam, sem conseguir desenhar uma via alternativa para a esquerda.

Marcio Pochmann

‘Medianização’ ou polarização. O que muda no cenário social?

O conjunto de manifestações e conflitos em curso desde o ano passado abriu um novo ciclo de debates acerca da atual conformação da sociedade brasileira
por Marcio Pochmann, para a RBA publicado 04/07/2014 05:00, última modificação 04/07/2014 09:11
Danilo Ramos/RBA (20/6/2013)
Paulista Junho 2013

Manifestantes anti-partidos hostilizam ativistas de movimentos tradicionais e legendas de esquerda durante protesto na Avenida Paulista, em junho do ano passado

Nos últimos anos, ganhou destaque a hipótese a respeito da existência de um processo de “medianização” social, sustentado pelo surgimento de uma nova classe média. Ao ser justificado pela ascensão social dos segmentos de baixo rendimento, a crença de um movimento acelerado de camadas intermediárias da população fazia sentido, inclusive pela apresentação de indicadores que buscavam medir o grau de felicidade dos brasileiros. Assim, reduzir-se-iam as tensões entre os extremos sociais representados por ricos e pobres, consagrando a “medianização” da sociedade brasileira.

Contudo, as manifestações sociais de 2013 e os conflitos trabalhistas deste ano parecem apontar em outra direção explicativa. Dois aspectos contribuem para o entendimento da polarização social. De um lado, as tensões internas da classe média assalariada que se encontra pressionada frente ao acirramento da competição por empregos de até três salários mínimos mensais e ao desgaste do tradicional status de demandante dos serviços de baixo custo, como o trabalho doméstico, piscineiro, segurança pessoal, personal trainning, motorista, entre outros.

A escassa geração de postos de trabalho de mais alta remuneração dificulta também a reprodução da classe média. Além disso, a qualidade dos serviços justifica a relevância das reivindicações mais fortes desde o ano passado em defesa de mais e melhor educação, saúde pública, transporte coletivo e do melhor uso dos recursos orçamentários. Disso sobraram, inclusive, as reações inimagináveis até então à Copa do Mundo de futebol.

De outro lado, há o avanço do novo proletariado brasileiro. Ao se fundamentar na expansão das ocupações no setor de serviços, o perfil do trabalhador atual se apresenta distinto da velha classe laboral movida, sobretudo, por condições e relações do trabalho assentada na indústria. Na última década, por exemplo, mais de 80% do saldo de 22 milhões de empregos criados no país dependeu do setor de serviços, que paga por remunerações de até dois salários mínimos mensais e mantém alta rotatividade no trabalho, que dificulta progressão funcional e ampliação da qualificação profissional.

Essa perspectiva aberta pelo proletariado de novo tipo não tem sido muito bem compreendida pelas atuais instituições democráticas de representação de interesses, como as associações estudantis e de moradores, os sindicatos e partidos políticos. Tanto assim que acordos coletivos de trabalho firmados num determinado momento podem perder a validade diante do levante espontâneo de movimentos paredistas, especialmente nos segmentos de serviços (transporte, limpeza, educação, saúde, entre outros).

Na década de 1970, fruto da mobilidade social promovida pela forte expansão econômica, assistiu-se à explosão das greves que enunciaram o novo sindicalismo de base industrial. A renovação na forma de atuação das entidades de representação dos interesses e no quadro dirigente da época se mostrou substancial para transformar as contradições vividas pelo movimento de ascensão social em reivindicações concretas de políticas públicas, como nas lutas pela redemocratização e aprovação da nova Constituição durante os anos 1980.

Nos dias de hoje, percebe-se que o país passa pela emergência de um novo proletariado nos serviços que não identifica nas instituições atuais a capacidade desejada de transformar os seus anseios e contradições em respostas concretas de políticas públicas. Conforme pesquisas realizadas, somente dois a cada dez novos empregados afiliou-se ao sindicato. Da parcela restante dos trabalhadores, a não associação decorre tanto da crítica consciente à postura sindical como do distanciamento da presença do local de trabalho e da fragmentação. Existem pouco mais de 10 mil entidades de trabalhadores no Brasil.

Diante disso, cabe indagar se a desconexão apontada entre a emergência dos novos movimentos sociais e as instituições de representações de interesses atualmente existentes se revela como um problema de direção dessas mesmas organizações ou como certo anacronismo de suas tradicionais formas de atuação. Mais cedo ou mais tarde, a realidade vai se estabelecer, respondendo melhor a essa questão a respeito da “medianização” ou da polarização no interior da sociedade brasileira atual.

Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas. Escreve às sextas-feiras na RBA

FUTEBOL & POLÍTICA

Observatório da Imprensa: a bola e as urnas, tudo a ver

por Luciano Martins Costa, do Observatório de Imprensa publicado 03/07/2014 12:23, última modificação 03/07/2014 15:20

O Instituto Datafolha conclui que o ambiente festivo da Copa do Mundo melhora as chances de reeleição da presidente Dilma Rousseff. Os dados coletados na última pesquisa de intenção de voto, publicados na quinta-feira (3), mostram basicamente uma interessante oscilação no humor do eleitorado, mas demonstram principalmente que essa volatilidade do espírito afeta escolhas importantes. Eis aí uma oportunidade de ouro para a imprensa.

Na primeira página da Folha de S.Paulo é apresentado em destaque o gráfico que mostra a intenção de voto para presidente da República, onde Dilma Rousseff (PT) aparece com 38%, Aécio Neves (PSDB) tem 20% e Eduardo Campos (PSB) conta com 9%. Ao lado, três textos curtos acrescentam que 76% das pessoas consultadas desaprovaram os xingamentos à presidente na abertura da Copa do Mundo, 60% afirmaram que a organização do Mundial no Brasil provoca orgulho e 65% disseram que os protestos durante a Copa causaram vergonha.

Comentário feito para o programa radiofônico do Observatório da Imprensa nesta quinta-feira (3)

Num resumo superficial, pode-se dizer que o futebol afeta diretamente a política, e que o brasileiro tende a mostrar mais satisfação com o contexto geral do País quando uma paixão nacional como o jogo da bola oferece motivo para contentamento. As multidões de turistas que se movimentam atrás de suas equipes têm produzido nos brasileiros uma sensação esfuziante de pertencimento, de integração com o resto do mundo, a que a maioria dos cidadãos não tem acesso em suas duras rotinas.

Nas análises dos especialistas citados pelo jornal, afirma-se que a Copa mudou o humor da população, e isso beneficiou a presidente que tenta se reeleger. De modo geral, essa constatação estava presente na pesquisa feita pelo Ibope Inteligência sob encomenda da Confederação Nacional da Indústria e divulgada no dia 19 de junho.

A coleta de opiniões do Ibope, feita logo após a abertura oficial da Copa, mostrava uma recuperação ainda mais marcante da presidente, com a percepção geral de que o evento seria um sucesso, desmontando as previsões alarmistas divulgadas pela imprensa nos longos meses que antecederam a festa na arena do Corinthians.

Uma chance para a mídia

A Folha chama de “maracanazo social” a perspectiva de conflitos constatada antes do início da Copa do Mundo e, em sua principal análise, observa que não é principalmente o desempenho da seleção nacional, mas a organização da festa, que tem resgatado o “orgulho de ser brasileiro”. Essa reversão de sentimentos, que acua num canto do quintal os que faziam o coro dos vira-latas, não apenas reduz o negativismo na política, mas principalmente altera para melhor as expectativas com relação à economia.

Um dado interessante, também citado pelo analista, dá uma dimensão mais clara do fenômeno provocado pelo esporte: na intenção de voto espontânea, Dilma Rousseff ganha seis pontos porcentuais em relação à pesquisa anterior do Datafolha – e isso a coloca, em termos proporcionais, num patamar de apoio próximo ao que recebia há um ano. Numa eventual disputa em segundo turno, ela venceria com relativa folga qualquer um de seus potenciais adversários.

Mais do que um conjunto de indicadores sobre a perspectiva das urnas, o resultado da pesquisa Datafolha, analisado em conjunto com a consulta feita pelo Ibope Inteligência, oferece elementos instigantes para quem se interessa em estudar o comportamento coletivo sob influência da mídia.

Como a mudança de humor do brasileiro está mais relacionada à capacidade demonstrada de organizar um evento complexo como uma Copa do Mundo do que ao desempenho da seleção nacional de futebol, tem-se claramente a constatação de que essa reversão não estará oscilando muito no futuro próximo, a depender dos resultados no campo de jogo.

Por que se diz que essa circunstância representa uma oportunidade de ouro para a mídia tradicional? Porque os indicadores revelam que o brasileiro se mobiliza mais rapidamente e com mais efetividade no sentido da esperança e do otimismo do que na direção do pessimismo.

A Copa do Mundo oferece à imprensa a chance de se reconciliar com o povo brasileiro não apenas na torcida de futebol, mas principalmente no campo político, onde a mídia tem estimulado rancor e radicalismo nos últimos anos.

análise

Quem atirou na Argentina?

Ao sabotar acordo entre país e seus credores, e favorecer fundos-abutres, Suprema Corte dos EUA arrisca-se a incendiar relações financeiras internacionais
por Mark Weisbrot, no Outras Palavras publicado 28/06/2014 20:37, última modificação 28/06/2014 20:45
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Quando Cristina Kirchner concorreu à presidência da Argentina pela primeira vez, em 2007, havia um anúncio de campanha em que crianças pequenas respondiam à pergunta: “O que é FMI (Fundo Monetário Internacional)?” Elas davam respostas engraçadinhas e ridículas, tais como “FMI é um lugar com muitos animais”. O narrador, então, dizia: “Conseguimos fazer com que seus filhos e netos não saibam o que significa FMI.”

Até hoje, não há nenhum caso de amor entre o FMI e a Argentina. O Fundo articulou o terrível colapso econômico de 1998-2002 no país, bem como numerosas políticas fracassadas nos anos anteriores. Mas quando a Corte de Apelações para o Segundo Circuito dos EUA decidiu em favor dos fundos-abutres*, que tentam receber o valor integral da dívida argentina, que compraram por 20 centavos o dólar, até mesmo o FMI foi contra.

De modo que muitos observadores surpreenderam-se, na segunda-feira passada (23/6), quando a Corte Suprema dos EUA recusou-se até mesmo a rever a decisão do tribunal. A Corte Suprema precisa de apenas quatro juízes para conceder petição para “certiorari”, ou rever a decisão de instância inferior, e este era um caso extremamente importante. A maioria dos especialistas concorda que ele tem sérias implicações para o sistema financeiro internacional. Ainda mais importante: a Corte de Apelações decidiu que, se a Argentina pagar os mais de 90% dos credores que aceitaram um acordo de reestruturação da dívida, entre 2005 e 2010, ela está obrigada também a pagar os fundos-abutres.

O que significa isso? No final de 2001, em meio a uma recessão profunda e incapaz de financiar enormes pagamentos da dívida, a Argentina entrou em moratória. Foi a decisão certa; a economia do país iniciou uma recuperação robusta, apenas três meses depois. Quatro anos mais tarde, 76% dos credores aceitaram uma reestruturação da dívida, que incluiu a redução de cerca de dois terços do valor de seus créditos. Por volta de 2010, mais de 90% dos credores havia aderido, aceitando novos títulos no lugar dos anteriores.

A decisão do tribunal norte-americano significa que um fundo-abutre, ou qualquer credor “resistente”, pode impedir ou destruir um acordo anterior, negociado com o resto dos credores. Como não existe algo como uma lei de falências para os tomadores de empréstimo do governo, a decisão pode limitar severamente a capacidade de credores e devedores chegarem a acordos civilizados, em casos de crise da dívida soberana. Esta é uma grande ameaça ao próprio funcionamento dos mercados financeiros internacionais.

Então, por que a Corte Suprema dos Estados Unidos decidiu não julgar o caso? Talvez porque tenha sido influenciada por uma mudança de posição do governo norte-americano, que o teria convencido de que o caso não era tão importante. Ao contrário da França, Brasil, México e do Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, o governo dos EUA não entrou com um Amicus Curie** na Suprema Corte, apesar de ter feito uma apresentação, no caso. E – aqui está o grande mistério – tampouco o fez o FMI, embora tenha manifestado publicamente preocupação com o impacto dessa decisão.

Em 17 de julho de 2013, a diretora do FMI, Christine Lagarde, anunciou que o Fundo apresentaria um Amicus curie na Suprema Corte norte-americana. Então o Conselho do FMI reuniu-se e, de forma um tanto constrangedora, decidiu em sentido contrário, devido às objeções dos EUA. Essa poderia ser a razão pela qual a Suprema Corte não convidou o procurador-geral dos EUA para uma exposição e, ao final, não reviu o caso. Mas quem seria o responsável pela reviravolta de Washington?

Como em uma novela de Agatha Christie, há numerosos suspeitos de ter cometido a ação. O lobby dos fundos-abutres – um grupo bem relacionado, liderado por ex-integrantes do govenro Clinton –, conhecido como Grupo Americano de Ação Argentina, gastou mais de 1 milhão de dólares no caso, em 2013. Além disso, há os suspeitos usuais no Congresso, principalmente os neo-conservadores e a delegação da Flórida, que querem mudar o partido político no poder na Argentina após as eleições de outubro de 2015.

*Fundos-abutres (“vulture-funds”, em inglês), são fundos que investem em “papéis-podres” – ou seja, títulos que perderam quase todo seu valor, nos mercados financeiros. O fundos-abutres compram estes títulos por uma parcela insignificante de sua cotação original, esperando lucrar mais tarde, quando o devedor se recuperar e a cotação de sua dívida subir.

**Amicus Curie (“Amigos da Corte”, em latim) é intervenção feita, num processo judicial, por uma pessoa ou entidade julgada representativa e que, não sendo ligada diretamente na disputa, tem interesse em influenciar seu desfecho.

aposentadoria

'Sarney é o misto de um Brasil que fica para trás e de um Brasil que quer nascer'

Ele continua vivo e ainda pode surpreender, como o fez agora, anunciando que abandona a carreira política, provavelmente, a mais antiga do Brasil
por Paulo Vannuchi publicado 25/06/2014 16:43, última modificação 25/06/2014 17:15
Antônio Cruz/Abr
sarney

A própria decisão de abandonar a política é por conta de perceber que talvez perdesse a eleição para senador

Em jornalismo, a gente chama a notícia sobre a morte de uma pessoa de necrologia. Às vezes, a gente prepara isso com meses e até anos de antecedência e deixa na gaveta porque a pessoa demora a morrer. No caso do senador José Sarney, não se trata disso. Ele continua vivo, e muito vivo como sempre, e ainda pode surpreender, como o fez agora, anunciando primeiro à presidenta Dilma e depois à imprensa, que abandona a carreira política, provavelmente, a mais antiga do Brasil. Deve ter uns 60 anos de carreira continuada. Ele tem 84 anos de idade.

Ser presidente da República em uma democracia política institucional é algo que implica que os ex-presidentes tenham respeito, quaisquer que tenham sido seus governos, orientação, como a de Fernando Henrique Cardoso com o neoliberalismo, Collor de Melo com a corrupção, Itamar com seus vai-e-vens. Ditadura é outra coisa. Então, não pode acontecer o que aconteceu no Itaquerão com a presidenta Dilma, porque mostra a face de uma direita carcomida, odienta e que não suporta conviver com as instituições da democracia republicana. Querem mandar e pronto. Quando não mandam, eles não respeitam.

Nós discordamos de Sarney ao longo de décadas e temos aqui o dever de fazer uma análise informando as contradições dessa personagem. Não é o jornalismo que ocorre hoje nos jornalões, que só sataniza o Sarney, esquecendo completamente os longos anos em que esses mesmos veículos compactuaram com ele, endeusaram-no.

Por exemplo, no Plano Cruzado, a CUT e os movimentos populares foram uma força política crítica aos aspectos populistas daquele plano. A mídia toda, Globo, Folha, Veja, Estadão, que hoje satanizam Sarney, endeusaram a medida. Ninguém fala, quando ataca as corrupções de Sarney, que ele é o detentor da transmissão da Globo no Maranhão. O que acontece com a figura do Sarney é que ele representa muito bem uma espécie de esquina entre o Brasil que está desaparecendo, o velho Brasil do caciquismo político. Ele é o grande cacique maranhense, assim como ACM na Bahia, Maluf em São Paulo... esses caciques estão morrendo de morte política. Alguns já morreram fisicamente, outros ainda não, mas é um fenômeno político que está desaparecendo.

O que é preciso lembrar de Sarney é que além da sua vocação, desde jovem estudante, até uma certa participação em eventos da UNE, ele também, desde muito cedo, foi metido a literato, a poeta. E em um estado que é de grandes poetas, como Gonçalves Dias, Ferreira Gullar, crítico mordaz de Lula e Dilma, mas nem por isso deixa de ser um importante poeta brasileiro. Nessas ações de juventude, Sarney foi preso em uma manifestação contra o Estado Novo, a ditadura de Vargas.

Depois ele se elegeu em 1965, um ano depois do golpe, derrotando o caciquismo tradicional anterior, nascendo aí um novo caciquismo, o de Vitorino Freire. Ele derrotou dois vitorinistas, um deles Renato Archer, que ele chamou para ser seu ministro depois, e teve um governo populista, cheio de contradições, convivendo com a elite maranhense, fazendo sinalizações para o povo mais pobre.

Na própria campanha, ele contratou ninguém menos do que Glauber Rocha para fazer um filme da sua campanha. Ele acabou não sendo usado... Glauber aproveitou mais tarde cenas desse filme para fazer o clássico Terra em Transe.

Depois de ter sido uma pessoa hesitante com relação à ditadura, ele se filiou à Arena e foi presidente nacional do partido por muitos anos. Mas, por exemplo, nos dias do ato de 5 de dezembro de 1968, aconselharam ele a não participar de uma homenagem, em São Luís do Maranhão, ao ex-presidente Juscelino Kubitschek. Ele foi, participou, fez um discurso de homenagem à JK, que dias depois foi cassado. Ele, sobretudo, é importante na história do Brasil pelo episódio trágico que impediu a posse de Tancredo Neves. Ele tinha migrado da Arena para o PMDB para compor a mesma chapa, e era uma figura daquela frente intermediária e liberal que nasceu rachando a antiga Arena.

A pergunta que fica é: o que teria sido melhor? Ele fazer essa migração que marcou esperteza, fisiologismo ou ele permanecer como um político reacionário, carcomido, antirredemocratização? A mesma coisa vale para um período mais recente, em que ele é parte de um conservadorismo de forças da direita que decidiram aderir ao governo Lula. Mais sendo apoiados pelo Lula do que o apoiando, na verdade. E apoiando Dilma, como faz agora. O que teria sido melhor: ele fazer o que fez e reconhecer esse novo que busca nascer no Brasil ou ele permanecer o velho defensor da Arena do regime militar? É um personagem contraditório.

Uma vez empossado presidente, seus primeiros atos foram a convocação da Constituinte, ele é o presidente da Constituinte, é responsável pela emenda que garantiu o voto de analfabetos, pela emenda que legalizou o PCB, ele reconheceu Cuba, que é uma sinalização muito importante de abertura à esquerda. Em dezembro de 1985, seu primeiro ano, assinou em Foz do Iguaçu, com o presidente argentino Raúl Alfonsin, a declaração que dá início à criação do Mercosul.

No seu governo teve como ministro da Justiça Fernando Lyra, um homem de esquerda, ao mesmo tempo em que seu governo foi um festival de concessões de rádio e de televisão com seu ministro Antônio Carlos Magalhães. Isso marcou o cenário hoje do Brasil que coloca a reforma dos meios de comunicação ao lado da reforma política como os dois grandes nós para decidir se o país vai seguir adiante no sentido democrático, ou se vai estacionar.

A própria decisão recente de abandonar a política é por conta da sua esperteza, de perceber que talvez perdesse a eleição para senador. Ele é pelo Amapá, o que é, em si, um escândalo político que ninguém levou a sério. Como que você vai respeitar instituições republicanas tendo como senador do Amapá uma pessoa que todo mundo sabe que é maranhense, que não tem nada a ver com o Amapá? É o Brasil velho que ainda não morreu.

Por último, ele poderia perder a eleição, assim como, eu não tenho dúvidas de que, no Maranhão, a melhor candidatura é a de Flávio Dino, não é a da família Sarney, que, no caso, é apoiada pelo PT pelas razões de análise nacional. Fiz uma audiência com ele quando era ministro dos Direitos Humanos envolvendo o tema dos direitos da pessoa com deficiência. 'Presidente do Senado, eu vim aqui porque o senhor é a primeira pessoa que criou a primeira instância de defesa das pessoas com deficiência. Agora, 20 anos depois, eu quero que o senhor seja o senador que vai promulgar a convenção da ONU para pessoas com deficiência'. E ele me surpreendeu dizendo: 'É, não foi só isso que eu fiz. Eu também assinei a Convenção Interamericana dos Direitos Humanos, que é da OEA, eu assinei também o Pacto dos Direitos Civis e Políticos'.

Estava ali o velho Sarney, o homem da Arena e da ditadura, dizendo para mim: 'Veja como eu também tenho uma folha de serviços prestados aos direitos humanos'. Bom, a crônica que faço hoje registra na figura do Sarney esse misto de um Brasil que fica para trás e de um Brasil que quer nascer, mas ainda não nasceu.

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