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Na Rede

levante

Dos indignados a Syriza e Podemos; do grito à perspectiva de poder

A passagem dos indignados e dos movimentos “ocupe” para Syriza e Podemos representa o amadurecimento da resistência ao neoliberalismo e a luta pela construção de alternativas à Europa contemporânea
por Emir Sader, para a Rede Brasil Atual publicado 15/02/2015 13:26, última modificação 16/02/2015 16:50
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Occupy

Movimentos Grécia e Espanha representam avanços em ausência de projeto de protestos do início da década

O modelo neoliberal promoveu um profundo processo de mercantilização das nossas sociedades e do próprio Estado. Tratou de transformar os direitos em temas de mercado. Busca que tudo tenha preço, que tudo se venda, tudo se compre

Atacou a esfera pública, que é a esfera dos direitos, dos cidadãos, buscando impor a centralidade da esfera mercantil, a esfera dos consumidores, das mercadorias. A centralidade do mercado significa conversão de direitos em mercadorias, enfraquecendo o papel dos cidadãos em favor do consumidores. Compram-se educação, saúde, cultura, que deixam de ser direitos. O império do dinheiro é o responsável pelo aprofundamento das desigualdades no mundo contemporâneo.

Na América Latina a luta antineoliberal também começou pela resistência diante da avalanche ideológica, econômica, social e política do neoliberalismo. Era indispensável conter essa ofensiva, defendendo os direitos das pessoas, o papel do Estado, a proteção do mercado interno, do emprego, dos salários.

Assim se deu a luta, especialmente nos anos 1990, até que começaram a surgir governos que se propunham a superar esse modelo, governos pós-neoliberais. O que caracteriza a esses governos, que conseguiram fazer com que vários países da região – a mais desigual do mundo – tenha diminuído a desigualdade, a pobreza, a miséria, mesmo no meio da mais profunda e prolongada crise que o neoliberalismo gerou em escala mundial?

Países como Brasil, Argentina, Venezuela, Uruguai, Bolívia, Equador, têm em comum, antes de tudo, a centralidade das políticas sociais. Mesmo quando são necessários ajustes das contas publicas, para controlar a inflação, por exemplo, isso não é o centro das políticas desses governos que implementam a prioridade das políticas sociais. Desenvolvem modelos de desenvolvimento econômico com distribuição de renda, ampliando o mercado interno de consumo de massas.

São políticas de diversas características, mas nenhuma distribui mais renda que a extensão dos empregos formais e o aumento dos salários acima da inflação. Mas como muita gente está fora do mercado formal de trabalho, políticas como as do bolsa família no Brasil se estenderam e têm um papel complementar importante no resgate social de grande parte da população.

Além disso, resgataram o papel ativo do Estado, como indutor do crescimento econômico, de garantia a direitos sociais recuperados e como ator político internacional. Porque o terceiro aspecto dos governos pós-neoliberais foi a prioridade dos processos de integração regional e os intercâmbios Sul-Sul, em vez dos Tratados de Livre Comércio com os Estados Unidos.

A partir desses três aspectos, as forças antineoliberais conseguiram passar da resistência à construção de alternativas, da oposição à construção de forças hegemônicas de superação do modelo neoliberal. O processo que vive a Europa, com a vitória eleitoral do Syriza na Grécia, com o fortalecimento do Podemos na Espanha, parece atuar de maneira similar – com um amadurecimento das forças sociais de resistência em direção à construção de alternativas concretas ao neoliberalismo, disputando a hegemonia em nível nacional nos seus países.

mais diálogo

O Estado não é uma máquina, é uma entidade política

Divulgação dos casos de melhoria social das pessoas e do sucesso das políticas sociais do governo convence e fortalece as convicções de quem está convencido. O silêncio do governo é um erro gravíssimo
por Emir Sader publicado 08/02/2015 15:42
mds/divulgação
bolsa família

Políticas sociais se consolidaram e se estenderam, sendo o marco mais importante do primeiro mandato da Dilma

Há uma tendência no governo a considerar o Estado como uma máquina para implementar políticas. Se uma peça não funciona, ela é trocada, mas não se altera nada o caráter que uma certa visão tecnocrática tem do Estado como coisa, como administração, mas não como entidade política, de direção geral da sociedade.

O aspecto mais determinante do resultado das últimas eleições foi o de que o governo perdeu – e feio – na disputa da opinião pública, mas venceu – bonito – nas políticas sociais, e isso lhe deu a vitória. Mas quanto mais o resultado se deu perto dos setores mais influenciados pelo monopólio privado da mídia – e sua atuação como partido político da oposição – melhor foi o resultado da oposição e pior o do governo.

Olhada retroativamente a dinâmica da apuração de votos – de que o fuso horário do Acre nos salvou o coração, percebemos que na primeira parte os votos das grandes metrópoles do centro sul – especialmente São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, levavam a um resultado próximo a dois terços para a oposição, um terço para o governo. Foram as políticas sociais, no Nordeste, mas também em lugares como o interior de Minas, que permitiram a virada do governo.

Tivesse sido um mau governo, se poderia explicar o resultado apertado mas, apesar das dificuldades no plano econômico, que levaram a praticamente uma estagnação, as políticas sociais se consolidaram e se estenderam, sendo o marco mais importante do primeiro mandato de Dilma. Mesmo os índices que poderiam ter sido afetados pela retração econômica não o foram: o desemprego continuou a diminuir e a inflação – um dos cavalos de batalha da campanha da oposição – se manteve nos patamares programados.

A vitória apertada do governo se deveu então à projeção da imagem do governo que a mídia promoveu na opinião pública. Antes de tudo, a marca de corrupção, que desde 2005 é o tema maior da mídia, calou profundamente no PT e, por extensão, no governo. O objetivo da oposição é o da desqualificação do Estado, como fonte de todos os males do Brasil, a começar pela corrupção. Desalentada pelo sucesso dos governos do PT no resgate do Estado, principalmente na implementação das políticas sociais, a direita se voltou para outro plano –  o da corrupção, para atacar.

Duas referências da esquerda foram os alvos maiores: o PT e a Petrobras. O PT, como partido que buscava resgatar a política, desqualificada pela ofensiva neoliberal, encarnada na vitória de Fernando Collor e no discurso do FHC. Em contraposição aos partidos e ao Estado, à política, emergia o mercado, como ente todo poderoso, contraponto da ineficácia e da corrupção estatal.

A vitória de Lula e seu governo resgatou a política, o PT e as estatais, a começar pela Petrobras. Daí a sanha da direita contra Lula, o PT e a Petrobras. A política, mais diretamente representada pelos parlamentos, sempre foi alvo frágil para desqualificar a atividade política, mas o resgate da ação dos governos e do Estado foram golpes duros dados ao receituário liberal e neoliberal.

A reversão da imagem do PT e da Petrobras – as duas maiores vitórias ideológicas e políticas da direita nestes 12 anos – se deram pela via das denúncias de corrupção. O terrorismo econômico contribuiu para gerar um clima negativo em relação ao governo, mas quando chegou o horário eleitoral, esse clima foi desarticulado, até porque o terrorismo econômico não bate com a vivência das pessoas. Mas o da corrupção veio, ficou e, reatualizado pela Petrobras, não tem hora para acabar.

Diante desse quadro, a divulgação dos casos de melhoria social das pessoas e do sucesso das políticas sociais do governo, convence e fortalece as convicções de quem está convencido. O silêncio do governo é um erro gravíssimo.

Quando Dilma falou da Pátria Educadora, dizendo que era uma tarefa transversal, para todo o governo, parecia apontar para preencher esse vazio. Mas já na primeira reunião do ministério, quando se poderia esperar que um dos temas centrais seria o de como colocar em prática esse orientação, de forma decepcionante houve silêncio total sobre o tema. Como se tivesse sido um enunciado geral, sem implementação prática, um enunciado de vontade, sem consequências práticas.

O governo se mantém ainda sob forte influência tecnocrática. Acredita que, realizando boas políticas para a população, esta reconhecerá o governo. As eleições foram um desmentido rotundo dessa visão ingênua, pré-gramsciana, que não leva devidamente em conta o peso da mídia monopolista na formação da consciência das pessoas. Entre os programas concretos do governo e a cabeça das pessoas, entra a fabricação da visão da população pelas campanhas partidárias da mídia.

O governo e, em particular, a presidenta, tem que falar, o tempo todo, por todos os canais existentes e criando novos canais. É uma obrigação do governante prestar contas o tempo todo, explicar, denunciar as mentiras sobre o governo e sobre o país. A presidenta tem que ter um programa semanal, pela rede pública de rádios e TVs, para quem quiser retransmitir, onde presta contas do que está fazendo, dos problemas que está enfrentando, levando os ministros para dialogar com a cidadania.

O Estado não é uma máquina, é uma entidade política, de direção política da sociedade. A presidenta deveria ser a primeira professora da Pátria Educadora.

Reforma política

'É preciso chacoalhar o Congresso'

Ana Cláudia Teixeira, pesquisadora premiada por seus estudos sobre mobilização popular, diz que o parlamento “finge que não é com ele”
por Isaías Dalle, da CUT publicado 08/02/2015 11:34
reprodução
ana claudia teixeira

Ana Cláudia: "Talvez uma tática de curto prazo com o Congresso fosse reduzir a pauta"

As dificuldades para fazer avançar a proposta de reforma política no Congresso Nacional continuam as mesmas de antes da posse dos novos parlamentares e da eleição de Eduardo Cunha para presidente da Câmara. Um caminho possível para romper as resistências é voltar a expor o Congresso, atualmente “blindado” e “fingindo que não é com ele”, mostrando suas responsabilidades nos problemas do país, que com a ajuda da mídia, parecem caber só ao governo.

A opinião é de Ana Cláudia Teixeira, autora da tese de doutorado “Para além do voto: uma narrativa sobre a democracia participativa no Brasil (1975-2010)”, apresentada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, no ano passado, e vencedora do Prêmio Capes de Tese em Sociologia.

“Eu acredito na capacidade de articulação da sociedade. Acho que continua possível haver reforma política. Há todo um campo se mobilizando pela reforma”, diz a pesquisadora, que em 2004 engajou-se na construção da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma Política – integrada, entre outras entidades, pela CUT.

“Sei que isso não é um consenso, mas talvez uma tática para o curto prazo com o Congresso Nacional fosse reduzir a pauta. Colocá-los diante de uma agenda mais específica. Por exemplo, insistir no fim do financiamento empresarial de campanha. Algum ponto da ampla agenda da reforma política que chacoalhasse o Congresso, para obrigá-lo a se posicionar”, complementa.

Confira trechos da entrevista

A atual configuração do Congresso, especialmente após as eleições realizadas no dia 1º, implode as possibilidades de construir a reforma política?

Está muito complicado. Quando você diz implodir você quer dizer que não há nenhuma possibilidade de reforma? Desde o início, mesmo na outra legislatura, eu não nutria expectativa de que o Congresso ia se autorreformar. Por isso, considerei muito apropriada a estratégia de propor um plebiscito popular. Evidentemente, que com o Eduardo Cunha presidente da Câmara, as possibilidades de reforma diminuem.

Entretanto, eu entendo que as possibilidades e as dificuldades de agora são as mesmas de antes. O que talvez nos desanime um pouco seja a composição do Congresso e de alguma forma a postura do próprio Executivo. Ainda não é possível saber se o Executivo de fato vai priorizar a reforma política, como disse que faria. E, além disso, qual reforma política será feita? O termo é amplo, e qualquer coisa cabe nele. O risco sempre é que tenhamos uma reforma que piore nosso sistema, ao invés de melhorá-lo.

Assim como no mandato anterior, eu continuo botando fé na capacidade de articulação da sociedade. Acho que continua possível. Há todo um campo se mobilizando pela reforma, a CUT, o MST, a OAB, CNBB, todas as entidades do campo da Associação Brasileira de ONGs, entre muitas outras.

Você enxerga algum momento em especial, ou uma manobra, da parte do governo, que tenha precipitado essa relação conflituosa com o Congresso, que já dura meses?

Não sei avaliar bem este ponto. Eu acho que o problema está nesta ideia de que para manter a governabilidade é preciso fazer concessões.

Eu não sei se concordo que o governo provocou conflito. Alguns conflitos são extremamente importantes. Talvez até precisássemos que outros conflitos viessem à tona. E que fossem resolvidos com mais participação e não apenas numa relação estreita entre Executivo e Legislativo. A questão é que esse Congresso é tão conservador que tem dificuldade de entender políticas sociais, além de, ideologicamente, se colocar contra. O Executivo tem feito esse papel de pautar políticas mais progressistas, mas o Congresso é sempre contra. No entanto, não dá para ter menos conflito do que agora.

Em seu diagnóstico, há correlação de forças para avançar?

No curto prazo parece que não. Mas não tenho bola de cristal. Devemos lembrar que nos últimos anos vêm acontecendo mobilizações surpreendentes, como as mobilizações de junho de 2013, e as que vieram posteriormente.

Desde o início das mobilizações, o Congresso tem fingido que os problemas de falta de representação não são dele. Os problemas parecem ser todos do governo federal, do governo do PT, como se deputados e senadores não tivessem nada com isso. E a mídia não ajuda. O Congresso e o Judiciário ficam meio blindados, como se o problema de falta de representação não fosse do conjunto do estado brasileiro.

Mas eu continuo otimista por dois motivos. De um lado, porque a mobilização da sociedade civil mais estruturada em movimentos, associações, sindicatos e ONGs e igrejas progressistas permanece e conseguiu organizar, por exemplo, um plebiscito popular muito bem sucedido. E, de outro lado, porque fomos surpreendidos nos últimos anos por novos atores. Há atores novos surgindo, e essa é uma possibilidade de virada. Inclusive gente que ainda não está organizada em lugar algum, mas que quer se engajar.

Espero que isso respingue no Congresso, para que ele saia de sua zona de conforto.

O jurista Fabio Konder Comparato defende que, diante da inflexibilidade dos poderes, o caminho seria uma guerra jurídica, cujo foco seria a regulamentação do artigo 14 da Constituição. Uma luta jurídica teria mais chances de vitória, segundo ele. Você concorda com essa visão?

Talvez uma tática de curto prazo com o Congresso fosse reduzir a pauta. Colocá-los diante de uma agenda mais específica. Por exemplo, insistir no fim do financiamento público de campanha, ou até este ponto do jurista Comparato, regulamentar o artigo 14. Não tenho certeza, mas parece interessante provocar, chacoalhar o Congresso no curto prazo, para obrigá-lo a se posicionar.

Porém, sabemos que isso não é suficiente. Seria algo só de curto prazo. Existem duas iniciativas mais de médio prazo que são importantes, uma é a campanha por um plebiscito para a escolha de uma assembleia exclusiva da reforma política. E a outra é a iniciativa popular de lei pela reforma política. Ambas são de médio prazo.

Eu entendo que esta proposta do jurista Comparato é por uma mobilização pontual, para alcançar uma vitória simbólica que vá abrindo caminho. E me parece fundamental. Essa é a questão agora: ter alguma vitória pontual no Congresso.

Nos anos recentes, após a eleição de Lula, quais momentos da luta dos movimentos sociais que você destacaria, seja pela intensidade da batalha, seja pela qualidade da conquista?

Não conheço a fundo todas as agendas de todos os movimentos. Foram anos difíceis, mas de conquistas importantes.

Eu destaco o conjunto de propostas que vieram dos movimentos sociais e que foram levados para dentro do Estado. Tenho estudado recentemente o programa Minha Casa, Minha Vida Entidades, que garantiu espaço numa política pública para os movimentos de moradia, que, do contrário, estaria toda nas mãos das construtoras. Mas há muitas outras, como a Política Nacional de Agroecologia e o Programa de Aquisição de Alimentos no campo da segurança alimentar, ou as políticas de cotas, ou o programa de coleta seletiva pelos catadores, os pontões de cultura, e muitas outras. Ou seja, agendas que se transformaram em políticas públicas, e que vieram desta aproximação dos movimentos com os partidos de esquerda e com governo federal.

Isso não teria acontecido em outro governo. E isso se deu muito mais pela construção histórica dos militantes (que muitas vezes militaram ao mesmo tempo em movimentos e em partidos) do que pela pessoa que está lá na presidência, seja o ex-presidente Lula ou a presidenta Dilma. Não houve só derrotas, por isso muitos movimentos e organizações ainda estão mais próximos do PT do que de outros partidos.

conjuntura

Seis anos após início da crise, economia mundial segue fragilizada

Consequências sociais não deixaram de se manifestar, como o aprofundamento das desigualdades entre pobres e ricos, pobreza, desemprego e redução da qualidade de vida, inclusive da classe média
por Marcio Pochmann publicado 06/02/2015 16:03, última modificação 06/02/2015 16:19
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Protesto contra o desemprego reuniu, em 2013, jovens alemães nas ruas de Berlim

A crise de dimensão global instalada a partir de 2008 nos países capitalistas avançados terminou por rebaixar a capacidade de crescimento do conjunto das economias no mundo. E, com isso, as consequências sociais não deixaram de se manifestar, como o aprofundamento das desigualdades entre pobres e ricos, pobreza, desemprego e redução da qualidade de vida, inclusive da classe média.

O mundo se prepara para algo inédito. Segundo estimativas existentes, possivelmente o conjunto de pessoas que compreendem o 1% mais rico do mundo deverá deter mais riqueza que a soma dos 99% da população do planeta.

Se comparar os períodos anterior (2000-2008) e posterior (2009-2014) à crise de dimensão global de 2008, percebe-se claramente como houve queda importante no patamar de expansão das economias no mundo. No período pré-crise, por exemplo, a economia mundial crescia 4,1% como média anual, ao passo que no período posterior à crise reduziu para 2,9% ao ano, em média. Com isso, a taxa média de crescimento no período após o ano de 2008 passou a ser cerca de 70% do que vinha registrando até a crise.

Nos países ricos, o retrocesso no ritmo de expansão apresenta-se ainda mais evidente. A partir de 2009, o ritmo médio de expansão anual do conjunto de países representados pelos Estados Unidos, Japão e da União Europeia passou a ser de apenas 38% do observado na fase anterior à crise de dimensão global.

A situação mais grave ocorre no conjunto dos países constitutivos da chamada zona do euro, que em 2014 ainda não conseguiu retornar ao nível da produção estabelecido em 2008. Os Estados Unidos, por exemplo, registram crescimento médio anual de menos da metade do apresentado até 2008, enquanto o Japão apontou para apenas 33% do que se contabilizou no período anterior à crise.

Mesmo nos países que constituem os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), houve também influência negativa da crise de dimensão global. Antes de 2008, o crescimento médio anual era de quase 8%, ao passou que decaiu para quase 5% a partir de 2009. Isto é, 60% da taxa de expansão verificada no pré-crise.

O melhor desempenho dos Brics entre os períodos considerados ocorreu na Índia, que registra após 2009 o crescimento médio anual equivalente a 89% da taxa de expansão da produção verificada até o ano de 2008. Na sequência, constata-se o caso da China, com variação média anual de 8,6% entre 2009 e 2004 ante 10,4% registrada no período de 2000 – 2008. Ou seja, 17% menor na fase pós 2008 do que o período imediatamente anterior.

O pior desempenho desde o ano de 2009 foi verificado na Rússia, que apresenta ritmo de crescimento médio anual de somente 16% do verificado entre 2000 e 2008. Na sequência da Rússia, observa-se a África do Sul, cujo crescimento médio anual foi 60% inferior desde 2009 se comparado ao estabelecido entre os anos de 2000 e 2008.

Por fim, a situação brasileira, que se apresenta numa posição intermediária à Índia e China e à Rússia e África do Sul. Entre os anos de 2009 e 2014, o Brasil registra taxa de expansão média anual do Produto Interno Bruto (PIB) equivalente a 59% do verificado no período pré-crise de dimensão global.

Isso, considerando que em 2014, a variação do PIB tenha sido de 0,1%, o que significaria taxa média anual de expansão econômica de 2,2% desde 2009. Entre os anos de 2000 e 2008, a taxa média anual de crescimento foi de 3,7%.

Diante disso, percebe-se que nos seis anos após a instauração da crise de dimensão global, em 2008, a economia do mundo segue fragilizada, com baixo potencial de crescimento e piora nos indicadores sociais. Para países considerados “baleia”, que possuem extenso território e grande população, como no caso do Brasil, a defesa do mercado interno se transforma no principal ativo, capaz de permitir maior grau de autonomia para a ativação e sustentação do ritmo de expansão econômica com menores consequências sociais.


campanha contra

Manifestações iradas e estapafúrdias guiam os canalhas que querem destruir a Petrobras

É preciso tomar cuidado com a desconstrução artificial, rasteira e odiosa da estatal frente à especulação sobre suas perdas com corrupção; a especulação não é apenas econômica, mas também política
por Mauro Santayana publicado 03/02/2015 13:41, última modificação 03/02/2015 17:17
Petrobras/ABr
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Petrobras tem valor simbólico, permanente e intangível, e papel estratégico para o desenvolvimento

O adiamento do balanço da Petrobras do terceiro trimestre do ano passado foi um equívoco estratégico da direção da companhia, cada vez mais vulnerável à pressão que vem recebendo de todos os lados, que deveria, desde o início do processo, ter afirmado que só faria a baixa contábil dos eventuais prejuízos com a corrupção, depois que eles tivessem, um a um, sua apuração concluída, com o avanço das investigações.

A divulgação do balanço há poucos dias, sem números que não deveriam ter sido prometidos, levou a nova queda no preço das ações. E, naturalmente, a novas reações iradas e estapafúrdias, com mais especulação sobre qual seria o valor — subjetivo, sujeito a flutuação, como o de toda empresa de capital aberto presente em bolsa — da Petrobras, e o aumento dos ataques por parte dos que pretendem aproveitar o que está ocorrendo para destruir a empresa — incluindo hienas de outros países, vide as últimas idiotices do Financial Times – que adorariam estraçalhar e dividir, entre baba e dentes, os eventuais despojos de uma das maiores empresas petrolíferas do mundo.

O que importa mais na Petrobras? O valor das ações, espremido também por uma campanha que vai muito além da intenção de sanear a empresa e combater eventuais casos de corrupção e que inclui de apelos, nas redes sociais, para que consumidores deixem de abastecer seus carros nos postos BR; à aberta torcida para que “ela quebre, para acabar com o governo”; ou para que seja privatizada, de preferência, com a entrega de seu controle para estrangeiros, para que se possa — como afirmou um internauta — “pagar um real por litro de gasolina, como nos EUA”?

Para quem investe em bolsa, o valor da Petrobras se mede em dólares, ou em reais, pela cotação do momento, e muitos especuladores estão fazendo fortunas, dentro e fora do Brasil, da noite para o dia, com a flutuação dos títulos derivada, também, da campanha antinacional em curso, refletida no clima de “terrorismo” e no desejo de “jogar gasolina na fogueira”, que tomou conta dos espaços mais conservadores — para não dizer golpistas, fascistas, até mesmo por conivência — da internet.

Para os patriotas, e ainda os há, graças a Deus, o que importa mais, na Petrobras, é seu valor intrínseco, simbólico, permanente, e intangível, e o seu papel estratégico para o desenvolvimento e o fortalecimento do Brasil.

Quanto vale a luta, a coragem, a determinação, daqueles que, em nossa geração, foram para as ruas e para a prisão, e apanharam de cassetete e bombas de gás, para exigir a criação de uma empresa nacional voltada para a exploração de uma das maiores riquezas econômicas e estratégicas da época, em um momento em que todos diziam que não havia petróleo no Brasil, e que, se houvesse, não teríamos, atrasados e subdesenvolvidos que “somos”, condições técnicas de explorá-lo?

Quanto vale a formação, ao longo de décadas, de uma equipe de 86.000 funcionários, trabalhadores, técnicos e engenheiros, em um dos segmentos mais complexos da atuação humana?

Quanto vale a luta, o trabalho, a coragem, a determinação daqueles, que, não tendo achado petróleo em grande quantidade em terra, foram buscá-lo no mar, batendo sucessivos recordes de poços mais profundos do planeta; criaram soluções, “know-how”, conhecimento; transformaram a Petrobras na primeira referência no campo da exploração de petróleo a centenas, milhares de metros de profundidade; a dezenas, centenas de quilômetros da costa; e na mais premiada empresa da história da OTC – Offshore Technology Conferences, o “Oscar” tecnológico da exploração de petróleo em alto mar, que se realiza a cada dois anos, na cidade de Houston, no Texas, nos Estados Unidos?

Quanto vale a luta, a coragem, a determinação, daqueles que, ao longo da história da maior empresa brasileira — condição que ultrapassa em muito, seu eventual valor de “mercado” — enfrentaram todas as ameaças à sua desnacionalização, incluindo a ignominiosa tentativa de alterar seu nome, retirando-lhe a condição de brasileira, mudando-o para “Petrobrax”, durante a tragédia privatista e “entreguista” dos anos 1990?

Quanto vale uma companhia presente em 17 países, que provou o seu valor, na descoberta e exploração de óleo e gás, dos campos do Oriente Médio ao Mar Cáspio, da costa africana às águas norte-americanas do Golfo do México?

Quanto vale uma empresa que reuniu à sua volta, no Brasil, uma das maiores estruturas do mundo em Pesquisa e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, trazendo para cá os principais laboratórios, fora de seus países de origem, de algumas das mais avançadas empresas do planeta?

Por que enquanto virou moda — nas redes sociais e fora da internet — mostrar desprezo, ódio e descrédito pela Petrobras, as mais importantes empresas mundiais de tecnologia seguem acreditando nela, e querem desenvolver e desbravar, junto com a maior empresa brasileira, as novas fronteiras da tecnologia de exploração de óleo e gás em águas profundas?

Por que em novembro de 2014, há apenas pouco mais de três meses, portanto, a General Electric inaugurou, no Rio de Janeiro, com um investimento de 1 bilhão de reais, o seu Centro Global de Inovação, junto a outras empresas que já trouxeram seus principais laboratórios para perto da Petrobras, como a BG, a Schlumberger, a Halliburton, a FMC, a Siemens, a Baker Hughes, a Tenaris Confab, a EMC2 a V&M e a Statoil?

Quanto vale o fato de a Petrobras ser a maior empresa da América Latina, e a de maior lucro em 2013 — mais de 10 bilhões de dólares — enquanto a Pemex mexicana, por exemplo, teve um prejuízo de mais de 12 bilhões de dólares no mesmo período?

Quanto vale o fato de a Petrobras ter ultrapassado, no terceiro trimestre de 2014, a Exxon norte-americana como a maior produtora de petróleo do mundo, entre as maiores companhias petrolíferas mundiais de capital aberto?

É preciso tomar cuidado com a desconstrução artificial, rasteira e odiosa, da Petrobras e com a especulação com suas potenciais perdas no âmbito da corrupção, especulação esta que não é apenas econômica, mas também política.

A Petrobras teve um faturamento de 305 bilhões de reais em 2013, investe mais de 100 bilhões de reais por ano, opera uma frota de 326 navios, tem 35.000 quilômetros de dutos, mais de 17 bilhões de barris em reservas, 15 refinarias e 134 plataformas de produção de gás e de petróleo.

É óbvio que uma empresa de energia com essa dimensão e complexidade, que, além dessas áreas, atua também com termoeletricidade, biodiesel, fertilizantes e etanol, só poderia lançar em balanço eventuais prejuízos com o desvio de recursos por corrupção, à medida que esses desvios ou prejuízos fossem “quantificados” sem sombra de dúvida, para depois ser — como diz o “mercado” — “precificados”, um por um, e não por atacado, com números aleatórios, multiplicados até quase o infinito, como tem ocorrido até agora.

As cifras estratosféricas (de 10 a dezenas de bilhões de reais), que contrastam com o dinheiro efetivamente descoberto e desviado para o exterior até agora, e enchem a boca de “analistas”, ao falar dos prejuízos, sem citar fatos ou documentos que as justifiquem, lembram o caso do “Mensalão”.

Naquela época, adversários dos envolvidos cansaram-se de repetir, na imprensa e fora dela, ao longo de meses a fio, tratar-se a denúncia de Roberto Jefferson, depois de ter um apaniguado filmado roubando nos Correios, de o “maior escândalo da história da República”, bordão esse que voltou a ser utilizado maciçamente, agora, no caso da Petrobras.

Em dezembro de 2014, um estudo feito pelo instituto Avante Brasil, que, com certeza não defende a “situação”, levantou os 31 maiores escândalos de corrupção dos últimos 20 anos.

Nesse estudo, o “mensalão” — o nacional, não o “mineiro” — acabou ficando em décimo-oitavo lugar no ranking, tendo envolvido menos da metade dos recursos do “trensalão” tucano de São Paulo e uma parcela duzentas vezes menor que a cifra relacionada ao escândalo do Banestado, ocorrido durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso, que, em primeiríssimo lugar, envolveu, segundo o levantamento, em valores atualizados, aproximadamente 60 bilhões de reais.

E ninguém, absolutamente ninguém, que dizia ser o mensalão o maior dos escândalos da história do Brasil, tomou a iniciativa de tocar, sequer, no tema — apesar do “doleiro” do caso Petrobras, Alberto Youssef, ser o mesmo do caso Banestado — até agora.

Os problemas derivados da queda da cotação do preço internacional do petróleo não são de responsabilidade da Petrobras e afetam igualmente suas principais concorrentes.

Eles advém da decisão tomada pela Arábia Saudita de tentar quebrar a indústria de extração de óleo de xisto nos Estados Unidos, aumentando a oferta saudita e diminuindo a cotação do produto no mercado global.

Como o petróleo extraído pela Petrobras destina-se à produção de combustíveis para o próprio mercado brasileiro, que deve aumentar com a entrada em produção de novas refinarias, como a Abreu e Lima; ou para a “troca” por petróleo de outra graduação, com outros países, a empresa deverá ser menos prejudicada por esse processo.

A produção de petróleo da companhia está aumentando, e também as descobertas, que já somam várias depois da eclosão do escândalo.

E, mesmo que houvesse prejuízo — e não há — na extração de petróleo do pré-sal, que já passa de 500.000 barris por dia, ainda assim valeria a pena para o país, pelo efeito multiplicador das atividades da empresa, que garante, com a política de conteúdo nacional mínimo, milhares de empregos qualificados na construção naval, na indústria de equipamentos, na siderurgia, na metalurgia, na tecnologia.

A Petrobras foi, é e será, com todos os seus problemas, um instrumento de fundamental importância estratégica para o desenvolvimento nacional, e especialmente para os estados onde tem maior atuação, como é o caso do Rio de Janeiro.

Em vez de acabar com ela, como muitos gostariam, o que o Brasil precisaria é ter duas, três, quatro, cinco Petrobras.

É necessário punir os ladrões que a assaltaram?

Ninguém duvida disso. Mas é preciso lembrar, também, uma verdade cristalina. A Petrobras não é apenas uma empresa. Ela é uma Nação. Um conceito. Uma bandeira. E por isso, seu valor é tão grande, incomensurável, insubstituível. Esta é a crença que impulsiona os que a defendem.

E, sem dúvida alguma, também, a abjeta motivação que está por trás dos canalhas que pretendem destruí-la.

Da coluna de Mauro Santayana no Jornal do Brasil

 

fim da guerra fria

EUA fecham centro de tortura, mas não querem devolver Guantánamo

Território apropriado no século 19 tentou sem sucesso bloquear a independência de Cuba; ao manter a ocupação, norte-americanos agem como se seus interesses se sobrepusessem aos vizinhos
por Emir Sader publicado 02/02/2015 11:01, última modificação 02/02/2015 11:10
Andréa Murta/Folhapress
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Conquista de Guantánamo foi uma ação paralela dos EUA à intervenção no Canal de Panamá no século 19

O governo dos Estados Unidos disse que trata de fechar o centro de torturas instalado em Guantánamo, mas que não pretende devolver a Cuba o território, apropriado militarmente desde final do século 19. As razões alegadas são insustentáveis: dizem que a base militar de Guantánamo é importante para os Estados Unidos. Mas, além de que a base não tem nenhuma importância militar – salvo o centro de torturas –, isso não dá aos norte-americanos nenhum direito de manter a ocupação de uma parte do território cubano, como se suas necessidades se sobrepusessem à soberania de Cuba.

Os Estados Unidos se comportam como se fossem proprietários naturais de um território adquirido militarmente, sem necessidade de argumentar, como se a ocupação militar desse direito de apropriação de um território como seu.

Foi uma clara ocupação militar, quando os EUA intervieram no momento em que Cuba estava derrotando a decadente potência colonizadora espanhola, no final do século 19, sob o pretexto de pacificar o conflito, mas na verdade para bloquear a independência de Cuba. A apropriação de Guantánamo mediante um contra-imposto, por um século, contribuiu para denunciar o caráter neocolonial da intervenção norte-americana, que além disso foi complementado com a tutela dos governos cubanos ao longo de toda primeira metade do século 20, caracterizado como um período neocolonial. Cuba só pôde se afirmar como nação com a Revolução Cubana de 1959, para o que teve de derrotar e derrubar o regime de Fulgêncio Batista, representante dos interesses estadunidenses na Ilha.

A conquista de Guantánamo foi uma intervenção paralela à do Canal de Panamá. Depois de induzir a separação do território do Panamá da Colômbia, os EUA retomaram imediatamente o projeto francês fracassado de construção do canal, o completaram, revelando qual o sentido da separação do Panamá. E impuseram um contrato de controle do território por um século – além do dólar como moeda nacional do Panamá, para consolidar o caráter neocolonial de toda a operação.

Quando se aproximava o século de ocupação, o presidente nacionalista do Panamá, Omar Torrijos, impediu que, pela via dos fatos, os EUA prorrogassem de forma indefinida a ocupação da zona do canal. Foram assinados então convênios que implicavam na devolução do controle do canal para o governo do Panamá, o que finalmente se concretizou no final do século 20.

Cuba chegou, em um certo momento, a não colocar a devolução do território de Guantánamo como condição para o restabelecimento de relações entre os dois países, em um gesto de boa vontade. Mas agora, na reunião da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), em São José da Costa Rica, o presidente de Cuba, Raúl Castro, incluiu a devolução de Guantánamo como uma das condições para a efetiva normalização das relações entre os governos de Cuba e dos Estados Unidos.

No momento em que o governo norte-americano faz uma lista de condições que quer impor a Cuba, desconhece a mais evidente da questões pendentes: a retirada definitiva e total do território de Guantánamo e sua devolução ao governo de Cuba.

Os norte-americanos não têm argumentos que possam expor publicamente para não fazer a devolução. Suas supostas necessidades militares como potência imperial são suas e não têm por que serem assumidas por outros países, menos ainda por Cuba, vítima dessa agressão e de tantas outras.

Com a derrota do bloqueio e o restabelecimento das relações diplomáticas entre Cuba e os EUA, trata-se agora de terminar de forma definitiva e completa o bloqueio e que Guantánamo seja devolvida a Cuba, de quem nunca deveu ter sido tirada.

Tributação e pobreza

Taxação de fluxos internacionais de capital é imprescindível para a redução da miséria

A crise de 2008 impôs sofrimento, pobreza e destruiu 60 milhões de empregos. Em 2009, governos gastaram US$ 11 trilhões para evitar prejuízos a bancos. E em breve 1% da população do mundo terá mais recursos do que os outros 99%
por Marcio Pochmann, para a RBA publicado 30/01/2015 13:00
Oxfam/Divulgação
Oxfam

Imagem de campanha da Oxfam, que reúne 17 organizações do mundo todo em ações de combate à desigualdade, para que os governos ampliem a taxação sobre a rentabilidade das grandes corporações

Entre 28 e 29 de janeiro, a cidade de São José, capital da Costa Rica, reuniu a terceira cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), cujo tema principal foi a luta contra a pobreza. Coincidentemente para os mesmos dias, a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal) divulgou relatório informando que a pobreza na região permanece estagnada em 28,1% da população desde 2012, após mais de uma década de redução acentuada.

No ano passado, 167 milhões de latino-americanos e caribenhos encontravam-se na situação de pobreza. Para o caso brasileiro, a pobreza teria caído de 18,6% para 18% da população nos últimos dois anos, segundo a Cepal.

Neste contexto, convém lembrar que uma das principais evidências recentes do processo assimétrico da globalização tem sido o crescimento do poder do setor privado, por meio das grandes corporações transnacionais e dos novos ricos de classe mundial. Segundo estudo da Oxfam divulgado recentemente, o mundo deverá entra em 2016 com 1% mais rico da população do planeta, estimado em 37 milhões de pessoas, concentrando mais dinheiro do que os outros 99% juntos dos habitantes da terra.

Essa brutal centralização do capital por intermédio das grandes corporações financeiras e não financeiras decorre de suas operações cada vez mais de dimensões globais frente a sistemas de regulações públicas, quase que exclusivamente locais, em conformidade com as normatizações originárias do contexto mundial do segundo pós-guerra mundial. Ademais, o predomínio das políticas neoliberais levou ao apequenamento do papel do Estado nacional que ocorreu paralelamente ao crescimento do poder da grande corporação transnacional e à diminuição da governança pública mundial representada pelo sistema das Nações Unidas constituído desde o segundo pós-guerra (Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio, entre outras).

A crise econômica de dimensão global desde 2008 recolocou novamente em questão as exigências de um novo sistema de regulação mundial, pois do contrário, os riscos de crises permanecem acompanhados de diferenciação ampliada das assimetrias nos poderes políticos, econômicos, financeiras, sociais. Um bom exemplo disso parece ser a problemática da pobreza mundial, que segue descolada de uma intervenção pública sistêmica e eficiente em todos os países.

Nas nações que mais proliferaram as políticas neoliberais constatam-se os piores desempenhos nos indicadores sociais no mundo. A experiência de países ricos como Estados Unidos e Inglaterra serve de exemplo.

De outra parte, os países asiáticos que pouco tomaram conhecimento do ideário proveniente do Consenso de Washington, evidenciam resultados positivos em termos de crescimento econômico e redução da pobreza, com resultados importantes na diminuição na desigualdade de repartição da renda e riqueza. Entre os anos de 1981 e 2005, por exemplo, o mundo libertou 520 milhões de pessoas da condição de extrema pobreza (rendimento mensal individual de até US$ 37,50), ainda que tenham sido poucas regiões responsáveis por esse acontecimento. A queda de 27,4% na quantidade de pessoas extremamente pobres no mundo ocorreu com ascensão econômica de 755,3 milhões de indivíduos no Leste Asiático e Pacífico e de 2,7 milhões do Oriente Médio e África do Norte (menos 2,7 milhões de pessoas).

E a força da emergência da China no combate à pobreza mundial foi responsável pela saída de 627,4 milhões de pessoas da condição de pobreza extrema entre 1981 e 2005.

No mesmo período de tempo, as demais regiões do mundo terminaram por ampliar o número de pobres, como nos casos da África Subsaariana (176,9 milhões de pessoas), do Sul da Ásia (47,3 milhões), da Europa do Leste e Ásia Central (10,2 milhões) e da América Latina e Caribe (4,1 milhões).

Para o ano de 2015, cerca de 216 milhões de pessoas deverão ser resgatadas da pobreza extrema. Mas isso dependerá fundamentalmente das ações do governo chinês. A cada três pessoas a emergir da condição da miséria, duas tenderão a ser chinesas.

No ano de 1981, por exemplo, o mundo tinha a cada dois pobres, um residindo na China. Em 2015, poderá ser um chinês a cada13 pobres no mundo. Em compensação, a agregação dos países do sul da Ásia e Índia com os da África Subsaariana, que em 1981 respondiam por 40% da miséria mundial, poderão concentrar mais de 80% da pobreza extrema.

A alteração dessa tendência social é possível. Porém, depende fundamentalmente tanto da reestruturação da governança mundial como do reposicionamento dos países em torno de um novo padrão de regulação do poder das grandes corporações globais. Um bom começo para isso seria a introdução da taxação sobre os fluxos financeiros globais. Isso porque, segundo o Banco de Compensações Internacionais (BIS), as transações financeiras mundiais que foram multiplicadas por 100 durante as últimas três décadas, equivalem nos dias de hoje US$ 777,5 trilhões.

Essa impressionante transformação nas fontes de riqueza decorrente da globalização desregulada possibilitaria constituir em inovadora base do fundo público mundial de combate à pobreza e desigualdade social. A introdução de uma alíquota de apenas e tão somente 0,005% sobre os fluxos financeiros internacionais proporcionaria anualmente a soma de algo próximo de US$ 35 bilhões ao ano.

Pela captura desses recursos adicionais, o combate à pobreza se faria mais efetivo e sistêmico, sobretudo em regiões africanas e no sul da Ásia que a falta de recursos nacionais impedira, inclusive o cumprimento da meta do milênio definido por praticamente todos os países no âmbito das Nações Unidas. Sobre isso, aliás, a iniciativa Ação Global contra a Fome e a Pobreza, lançada pela própria Assembléia-Geral das Nações Unidas, em 2004, tentava impedir que o déficit anual de 50 bilhões de dólares ao ano pudesse impedir o cumprimento das metas do milênio, por intermédio dos impostos sobre passagens aéreas pudesse viabilizar a compra pública de remédios para o combate de HIV, malária o tuberculose pudesse ocorrer. O resultado foi o surgimento da Unitaid, organização criada em 2006 para financiar medicamentos e diagnósticos para o combate a essas doenças em países extremamente pobres no mundo.

A crise internacional de 2008 vem impondo maior sofrimento humano, com a destruição de mais de 60 milhões de postos de trabalho e a injeção de outros tantos milhões de pessoas na condição de pobreza. Para evitar maiores prejuízos a bancos e grande empresas não financeiras, mais de US$ 11 trilhões foram despendidos pelos governos em 2009. A luta contra a pobreza e a fome não podem parar, tendo na taxação dos fluxos internacionais uma contribuição imprescindível.

Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas.

terceiro mandato

A Bolívia de Evo: indigenismo e marxismo contemporâneo

País avança para a exploração de novos recursos, industrializados, que apontam para um futuro muito distinto do que foi tradicionalmente o da Bolívia
por Emir Sader publicado 25/01/2015 11:24, última modificação 25/01/2015 11:27
roberto stuckert filho/pr/fotos públicas
evo morales

Presidenta Dilma foi à Bolívia nesta semana para a posse de Evo Morales na presidência da Bolívia

A Bolívia frequentava as piores listas entre os países do continente: entre os mais pobres, junto com Honduras e Haiti; entre os de maior instabilidade institucional, com cifras aterradas de golpes ao longo de toda sua vida política.

Não é sem desassombro que a América Latina assiste à terceira posse consecutiva de Evo Morales no país, que governará pelo menos até 2020, constituindo-se no presidente de mais longo mandato em democracia na Bolívia. Venceu, de novo, no primeiro turno, desta vez com 200 mil votos a mais do que em 2009, derrotando velhos líderes políticos da direita boliviana.

Desta vez, além de tudo venceu eu Santa Cruz de la Sierra e em Pando, territórios por excelência da direita boliviana, desde onde chegaram a reivindicar o separatismo da região antes chamada de meia lua. E teve maioria absoluta no Congresso.

Quem acompanha de perto o processo boliviano desde mesmo antes da primeira eleição de Evo Morales, em dezembro de 2005, não tem por que se surpreender. Sua eleição era a resultante de um longo processo de acumulação de forças, desde a guerra da água, em 2000, – para evitar que uma empresa francesa privatizasse as fontes de agua do pais –, passando pela guerra do gás, em 2002, até chegar ao processo eleitoral de 2005.

Evo teve a sabedoria de chamar para ser seu candidato a vice a Alvaro Garcia Linera, que já despontava como o mais importante intelectual latino-americano. Entre suas obras teóricas notáveis, Linera teve uma em que fazia a crítica do economismo da esquerda tradicional, que desconhecia as raízes indígenas da maioria da população boliviana, buscando reduzi-la, por seu trabalho com a terra, a camponeses.

Linera retomava a tradição de Mariategui, reatualizando o indigenismo e retomando-o dentro de um marxismo contemporâneo. Esse casamento perfeito foi um dos fatores de sucesso de Evo, já na campanha eleitoral, mas essencialmente ao longo dos seus mandatos como presidente.

Como diz o próprio Evo, a direita estava preparada para que ele fracassasse e, em prazo curto, que não conseguisse responder aos desafios da complexa realidade boliviana, que havia feito com que houvessem desfilado pela presidência do país cinco presidentes em cinco anos, de 2000 a 2005. Hasta que os movimentos indígenas e populares em geral resolveram disputar a hegemonia na sociedade – em vez de outros, que ficaram prisioneiros da “autonomia dos movimentos sociais” e se esvaziaram.

De forma similar à trajetória dos movimentos populares equatorianos, se constituiu na Bolívia um partido apoiado nos movimentos sociais – o MAS, Movimento ao Socialismo –, que lançou a dupla Evo-Alvaro e venceu as eleições de dezembro de 2005, com maioria de votos, no primeiro turno.

A plataforma deles se centrava na refundação do Estado para incorporar as comunidades indígenas em um Estado Plurinacional, a nacionalização dos recursos naturais básicos da economia boliviana – gás e petróleo – e a reforma agrária. Passando por várias circunstâncias, entre as quais as tentativas de golpe separatista de estados da região ocidental do país, se pode dizer que o governo de Evo Morales cumpriu rigorosamente com suas promessas, respondeu aos desafios e avançou de forma notável, constituindo-se num dos casos mais notáveis de sucesso dos governos pós-neoliberais na América Latina.

A situação social do país teve, pela primeira vez na sua história, melhorias extraordinárias, a economia segue expandindo-se a ritmos acelerados, apesar da recessão mundial, o Estado incorpora as comunidades indígenas e a toda uma nova geração de dirigentes de origem indígena, o país avança para a exploração de novos recursos, industrializados, que apontam para um futuro muito distinto do que foi tradicionalmente o da Bolívia.

A Bolívia de Evo é uma prova mais de como, quando o povo se une, encontra líderes que saibam conduzi-lo e aponta caminhos de superação do neoliberalismo e de todas as formas de mercantilização e de exploração ilimitada dos trabalhadores, quando reencontra seu destino nacional e os processos de integração latino-americana, triunfa e avança, como faz esse querido e até aqui tão sofrido povo latino-americano.

neoliberalismo

Economistas franceses colocam modelo europeu em xeque

Dívida pública maior torna a jogatina financeira alternativa de compensação da queda da taxa de lucro pela produção, retroalimentando a demanda seguinte por maior austeridade fiscal, sem fim
por Marcio Pochmann publicado 24/01/2015 12:19
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Protesto na França pede que líderes de governos coloquem as pessoas acima do dinheiro

Um novo manifesto de economistas franceses (economistes atterrés) foi lançado recentemente com críticas importantes ao modelo de ajuste europeu e com defesa de projeto progressista para a sociedade. Após vários anos perseguindo o receituário neoliberal de austeridade fiscal e contenção monetária, o modelo europeu segue elevando a desigualdade de renda e distante do retorno do crescimento econômico sustentável.

De um lado, a aplicação da ortodoxia fiscal permite elevar a arrecadação fiscal para sustentar os ganhos crescentes das aplicações nos mercados financeiros e bursátil, espaço de atuação do privilegiado segmento rico da população. De outro, o desânimo da economia real, alimenta o desemprego maior e avança a precarização das ocupações existentes.

Exemplo disso pode ser constatado em vários países europeus. Destaca-se, contudo, a situação da Alemanha voltada à expansão de suas exportações por meio do emprego de sua mão de obra com salários reais decrescentes.

O parâmetro seguido, portanto, compreende o panorama das condições de trabalho asiático, com jornada de trabalho ampliada e menor remuneração dos trabalhadores. Com isso, busca-se elevar o padrão de competitividade por meio da redução do custo do trabalho, expressando, consequência, a restrição da força da demanda no mercado interno.

Ao mesmo tempo, a dívida pública maior torna a jogatina financeira alternativa de compensação da queda da taxa de lucro pela produção, retroalimentando a demanda seguinte por maior austeridade fiscal, sem fim. O resultado tem sido o redesenho das economias, cada vez mais assentado na crescente desigualdade econômica e social.

Uma vez lançado o seu primeiro manifesto 2010, o grupo de economistas franceses alcançou rapidamente o sucesso no enfrentamento aberto contra a revolução neoliberal, registrando a venda de mais de 100 mil exemplares. Com a segunda publicação propondo alternativas ao desenvolvimento capitalista atual, verifica-se que o manifesto antineoliberal, com 15 temas específicos, inova ao propor saídas heterodoxas para a ecologia, salários, proteção social, fiscalidade, bancos, entre outros.

O abandono do projeto social escandinavo-francês construído desde o segundo pós-guerra terminou sendo acompanhado pelo avanço de dois modelos de economia. De um lado, o modelo anglo-saxônico assentado na desigualdade, flexibilidade do emprego e bolhas financeiras e, de outro, o modelo alemão-chinês voltado à ampliação da presença no mercado internacional por meio de competitividade fundada nos baixos salários e precárias condições de trabalho.

Atualmente começa a ganhar importância, a oportunidade de constituir um novo modelo econômico denominado por social-ecológico. Isso porque estabelece uma proposição decente para atender tanto a transição ecológica como a do pleno emprego da mão de obra.

A transição ecológica dependeria da reconversão dos setores poluentes por meio de uma nova matriz tributária assentada na criação das taxas de carbono e sobre transações financeiras, pelo menos. Além disso, o lançamento de um programa de estímulos aos investimentos em novos setores não poluentes, tecnologicamente avançados e socialmente justificados.

Por outro lado, a busca do pleno emprego da mão de obra induzido pela retomada das ocupações públicas de qualidade frente à universalidade dos gastos em saúde e educação, bem na redução do tempo de trabalho Diferentemente do que apregoam os neoliberais, há alternativas políticas progressistas ao modelo europeu de ortodoxia fiscal e desigualdade social.

Com isso, a crise que o capitalismo vive desde 2008 poderia encontrar saída sem transferir seus ônus aos trabalhadores, na forma do desemprego e rebaixamento salarial. Ademais da vontade política necessária, cabe ainda a coragem de avançar contra os interesses dominantes por meio de um modelo alternativo de sociedade.

Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos pertencentes à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Disputa na Câmara

Arlindo Chinaglia soma votos do PSD na peleja com Cunha e Delgado

Em tese, restariam em disputa os apoios de 13 dos 28 partidos que passarão a ter representação na Câmara em 1º de fevereiro. Mas as coisas não são bem assim no reino da infidelidade e do voto secreto
por Paulo Donizetti de Souza, da RBA publicado 22/01/2015 19:56, última modificação 22/01/2015 20:17
Chinaglia e Kassab

Chinaglia comemorou adesão da legenda de Kassab

São Paulo – A adesão do PSD à candidatura do deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) acrescenta algum tempero à disputa pela presidência da Câmara. O apoio da legenda do ministro das Cidades, Gilberto Kassab, eleva a quatro os componentes do bloco de apoio ao petista, que já contava com o PCdoB e o Pros. Somados PSD e PT, as legendas conferem 126 votos a Chinaglia, nas contas do petista.

O bloco de aliados de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) reúne além de seu próprio partido (66 parlamentares), PTB (25), DEM (22), PRB (21), SD (15) e PSC (12) – total de 161 deputados, que devem chegar a 166 com a esperada adesão do PHS. E a candidatura de Júlio Delgado (PSB-MG) já foi acolhida por PSDB (54), PPS (10) e PV (8), reunindo 106 deputados, incluídos os 34 do PSB.

Os apoios declarados pelas bancadas até o momento contabilizariam 392 dos 511 deputados, de 15 partidos, que decidirão a composição da Mesa Diretora da Câmara em 1º de fevereiro. Restariam 119 em disputa de outros 13 partidos. Em tese, porque a votação é secreta e porque fidelidade partidária está longe de ser uma marca da política brasileira.

Avaliações de bastidores conferem a Eduardo Cunha favoritismo difícil de ser superado. Ele teria amarrado votos localizados nas mais diversas legendas, inclusive de integrantes do próprio PT. Cunha é conhecido, entre outras “virtudes”, por ser um habilidoso arrecadador de fundos para campanhas eleitorais. E teria auxiliado com extrema generosidade a eleição de muitos colegas no pleito de outubro, sem preconceito de bandeira.

De todo modo, a formalização do apoio do PSD de Kassab foi comemorada por Chinaglia, que tem pouco mais de uma semana para reverter expectativas. “Seguimos mais fortes em busca de uma Câmara mais democrática”, postou, em sua conta do Twitter. Afinal, o voto é secreto para todos.