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Análise

Para colocar o Brasil nos trilhos será preciso unidade dos movimentos

Forças de esquerda em vários países do mundo são alvos atuais de um processo de destruição. No Brasil, o PT é o alvo principal dessa investida das forças conservadoras
por Vagner Freitas, presidente nacional da CUT publicado 13/05/2015 10:00, última modificação 13/05/2015 10:19
Gerardo Lazzari/RBA
direita

Em toda América Latina, direita trama golpe contra governos que fizeram opção pelos mais pobres

Está em curso em vários países do mundo um processo de destruição das forças de esquerda. No Brasil, o PT é alvo dessa investida das forças conservadoras. O panelaço ocorrido durante o último programa eleitoral do partido, assim como as manifestações ocorridas este ano são resultado da investida organizada pela direita, pela mídia e pelo Poder Judiciário.

Juntos, eles montaram mais um processo judicial seletivo, que visa colocar na ilegalidade e destruir o PT que, com erros e acertos, foi o partido que promoveu a maior mudança social já ocorrida no país, com a inclusão de 40 milhões de brasileiros/as na classe média e o acesso de negros, pobres e indígenas às universidades. Foi o partido que promoveu o maior programa de habitação popular da história, além de ter tirado o Brasil do mapa da fome da ONU - mais de 35 milhões de pessoas saíram da linha da miséria.

Roberto Parizotti/CUT Freitas
Vagner Freitas, presidente da CUT
Enquanto o mundo aplaude e quer conhecer a experiência brasileira, revistas semanais, que fazem parte do complexo midiático controlado por meia dúzia de famílias, atacam sistematicamente o ex-presidente Lula, o cérebro por trás dessas transformações. Tentam a todo custo destruir a imagem do presidente mais bem avaliado da história do Brasil e maior liderança do PT e assim, destruir esse legado.

A primeira vítima desses ataques é o PT. As demais forças de esquerda, os movimentos sociais e sindicais, serão as próximas vítimas em potencial da judicialização da política que está em curso com a investida – nunca antes vista – da mídia, que coloca em prática o conceito de Goebels, ministro da propaganda de Hitler, de que uma mentira repetida centenas de vezes torna-se verdade. O PT tem sido atacado diariamente desde 2005.

O golpe em curso em nosso país, já aplicado em Honduras e no Paraguai, está em curso na Argentina, Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua e outros países em que os governos fizeram opção pelos mais pobres e que colocaram o Estado como indutor da economia, priorizando os mais desfavorecidos.

No Brasil, depois de um processo eleitoral duro, talvez o mais virulento desde a redemocratização do Brasil, mesmo tendo perdido as eleições, a direita está implementando a pauta conservadora, de retirada de direitos, de perseguição aos movimentos progressistas, de esquerda e tentativa de derrubar um governo legitimamente eleito por mais de 54 milhões de brasileiros/as.

Unidos, políticos conservadores, juízes e promotores, com a ajuda dos meios de comunicação, construíram um falso cenário de caos político e econômico que está abrindo caminho para que a direita coloque em prática a pauta derrotada nas eleições.

Mais do que o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, eles querem cassar o registro do PT, um dos principais instrumentos de luta da classe trabalhadora. E isso pode ocorrer se a esquerda não se unir para disputar a agenda nacional nesta que é a mais feroz luta de classes que já vivemos no Brasil.

E o governo não tem ajudado. As mudanças nos rumos da política econômica do governo federal não foram discutidas com os movimentos sindical e social nem com a sociedade civil organizada. O pacote do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, anunciado no dia 29 de dezembro do ano passado, é altamente lesivo para os/as trabalhadores/as, mas não tocam em um centavo do dinheiro dos mais ricos.

As Medidas Provisórias 664 e 665 são um equívoco. O governo não dialogou com sua base de apoio, editou medidas que distancia a base do governo e, para piorar, não vai atingir seu objetivo que era angariar apoio dos conservadores para conseguir investimentos. É, como venho dizendo, um ledo engano.

Essa política econômica leva o Brasil à recessão. Se tem juros altos, se o crédito não é facilitado, se não tem manutenção do poder de compra dos salários, se tem desemprego, se tem retirada de direitos, não se cria um ambiente interno positivo para o desenvolvimento econômico e social.

Precisamos ajudar a corrigir rumos e, não, ir para o enfrentamento. Isso a direita já faz. Isso é apostar no caos. E o caos não interessa à classe trabalhadora. Não ganhamos nada com o caos. Só os especuladores ganham.

Se não conseguirmos corrigir a rota, entraremos em um cenário de retrocesso. Não há alternativa política ao projeto democrático e popular que a presidenta Dilma representa e que ajudamos a eleger.  Sem ela, a porta estará aberta para a direita e sua pauta de ataques aos direitos da classe trabalhadora e aos interesses dos/as brasileiros/as que dependem das políticas públicas que ajudamos a construir e colocar em prática, como as políticas de valorização do salário mínimo e de transferência de renda, entre tantas outras.

A presidenta acertou quando instalou o Fórum Nacional da Previdência Social e deu um prazo de seis meses para conclusão dos trabalhos e apresentação de uma proposta concreta para extinguirmos de vez o fator previdenciário, ter uma política de redução da jornada de trabalho para 40 horas e também medidas de combate à absurda rotatividade de mão de obra. Também precisamos aprovar a regulamentação da Convenção 151 da OIT que normatiza as negociações para os servidores públicos.

Era o momento adequado para o governo retirar as MPs, que dificultam e restringem o acesso a benefícios e discuti-las no âmbito desse Fórum e não votá-las como parte das medidas de ajuste fiscal. Por que não combatem com mais rigor a sonegação? Por que não taxam as grandes fortunas, à especulação financeira, os lucros e dividendos, heranças e doações? Se precisa conter gastos e aumentar a receita, que tirem dos mais de ricos e não da classe trabalhadora.

O caminho que queremos construir é o do desenvolvimento econômico sustentável com distribuição de renda, uma Nação com mais justiça e inclusão social e política. Esse é o caminho que vamos defender. Para isso, é preciso disputar a formulação das políticas dentro do governo, ocupar as ruas e pressionar o Congresso Nacional. Isso só será possível, com uma ampla unidade da esquerda e dos movimentos social e sindical. É preciso colocar o Brasil nos trilhos novamente.

contrarreforma

Reforma política proposta pela PEC 352 mantém 'status quo' de donos do poder

Sem respaldo popular, debatida e votada exclusivamente por seus beneficiários, mudanças da PEC não alteram a influência do poder econômico sobre o processo eleitoral
por Chico Alencar* publicado 12/05/2015 16:34
Fabio Rodrigues Pozzebom / ABr
reforma politica.jpg

Na Câmara, minorias estão sub-representadas, enquanto ‘bancada das empreiteiras’ reúne 214 deputados

Na política brasileira, o que já está ruim pode piorar. Não se trata de amargo pessimismo: é realismo frente à conjuntura – e de quem teima na esperança, diga-se. Ao grão: a Câmara dos Deputados apressa-se para votar a Emenda Constitucional (PEC) 352/2013, proposta pelo ex-deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) e outros, aprovada em Comissão na Legislatura passada e adotada com entusiasmo por Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Presidente da Casa, ele já determinou que a PEC será apreciada em plenário até o fim de maio, impreterivelmente. A Comissão Especial que a analisa, presidida por Rodrigo Maia (DEM-RJ) e que tem como relator Marcelo Castro (PMDB-PI) – escolhidos com o aval de Cunha – tem que concluir seus trabalhos nos primeiros dez dias do mesmo mês. Chegou a hora, portanto.

Na perspectiva da ‘lei justa’, que interesse às maiorias, essa celeridade é inimiga. O tema, por mais importante que seja, não ganhou as ruas na dimensão desejável (ainda que tenhamos a obrigação de nos esforçar ao máximo para que isso aconteça). Portanto, ao que tudo indica, teremos deliberações do Congresso Nacional – o Senado também toca sua pauta de “Reforma Política” – sem uma ‘interferência popular’ que possa reduzir a influência dos controladores dos mandatos: as grandes corporações econômicas. Essa tem sido a regra em nossa democracia de baixa intensidade.

Não é demais lembrar que, na atual composição da Câmara, além de negros, mulheres e indígenas estarem sub-representados, a ‘bancada das empreiteiras’ reúne 214 deputados de 23 partidos, a dos financiados pelos bancos soma 197 de 16 legendas, os frigoríficos ‘apoiaram’ 162 parlamentares, as mineradoras ‘ajudaram’ 85 eleitos. E ainda há as numerosas Excelências defensoras do agronegócio, da bola, da bala, da cerveja, da mídia mercantil, do fundamentalismo...

Quem financia manda: sete de cada dez deputados desta nova Legislatura receberam ‘doações’ (=investimentos) de empresas. Que mudanças substantivas nas regras do sistema político desejarão?

A “reforma”, assim, tende a não sê-lo, muito ao contrário: poderá reforçar os mecanismos do 'status quo', por ser debatida e votada exclusivamente por seus beneficiários. A ótica de qualquer possível alteração está focada no que o detentor do mandato (ou, no máximo, o seu partido) pode ganhar ou perder com isso. O cenário mais provável é que apenas se troquem acessórios da engrenagem que Raymundo Faoro já denunciava há mais de 50 anos, no seu clássico Os Donos do Poder – Formação do Patronato Político Brasileiro (Porto Alegre: Ed. Global, 1979, 5ª edição): “o poder – a soberania nominalmente popular – tem donos que não emanam da nação, da sociedade, da plebe ignara e pobre. O chefe não é um delegado, mas um gestor de negócios, gestor de negócios e não mandatário. O Estado, pela cooptação sempre que possível, pela violência se necessário, resiste a todos, reduzido, nos seus conflitos, à conquista dos membros graduados de seu estado-maior (...) A eleição, mesmo formalmente livre, lhe reserva (ao povo) a escolha entre opções que ele não formulou”.

Na nossa experiência republicana, de muitas transações (pelo alto) nas transições, o povo só interferiu quando ocupou os espaços das praças, incomodando os palácios. Reconheçamos: tanto as manifestações de 2013 quanto as mais recentes, deste 2015, guardadas suas grandes diferenças e embocaduras ideológicas, não clamaram por propostas objetivas de mudança política (exceto o raso ‘Fora Dilma’ e ‘Fora PT’ de março e abril passados) – como as ‘Diretas Já’ do Brasil bonito de 1984, por exemplo. A difusa (e justa) indignação contra a corrupção não foi canalizada para nenhuma reivindicação de alteração do sistema político vigente. Talvez o desencanto predominante explique esse alheamento.

A conjuntura está marcada pela piora dos indicadores econômicos e sociais, o continuado desacerto político do governo, o ‘envelhecimento’ precoce do governo Dilma II e uma insatisfação crescente e generalizada. Mas não se caracteriza como uma crise institucional incendiada por focos de revolta popular. As estruturas do poder, ainda que questionadas e desgastadas, mantêm sua rotina. Há também uma “corrida ao centro” que, cada vez mais, assemelha-se aos grandes partidos. A hegemonia do Capital, em sua etapa de financeirização e produção do imaginário da felicidade pelo consumo, está consolidada. Disputas eleitorais acirradas não significam, necessariamente, confronto de posições políticas. O pacto liberal-conservador está abalado, mas não desfeito.

Nesse contexto, a “Reforma Política” tecida no Congresso Nacional tem forte viés conservador – como, de resto, praticamente tudo o que tem saído de lá neste ano. A PEC Vaccarezza/Cunha, como tem acontecido com outras questões nacionais, se apropria do chamado ‘senso comum’, de negação da política, fazendo uma leitura interessada. E opera, a partir daí, para fortalecer o continuísmo de uma democracia meramente eletrônica, formal e banal, que é autoritária para os de baixo. Na linha do ‘mudar um pouco para continuar tudo como está’: há eleições, partidos e ‘política’ demais? Então vamos reduzir tudo isso, já.

O único contraponto expressivo, que é preciso valorizar, veio de estruturas políticas intermediárias da sociedade, em valoroso esforço mudancista real: a Iniciativa Popular de Lei por uma Reforma Política Democrática e Eleições Limpas. A Coalizão Democrática que a propõe, liderada pela OAB Nacional e pela CNBB, envolve mais de 100 entidades representativas de diversos segmentos sociais populares. Para garantir sua tramitação, antes mesmo de se atingir o milhão e meio de assinaturas necessárias, a proposta, endossada por dezenas de deputado(a)s, tornou-se o PL 6.316/2013.

Quem tem hegemonia define a pauta. Portanto, também aqui nossa postura deve ser de resistência, de ‘redução de danos’ em relação a cada ponto da PEC 352, que se tornou uma espécie de ‘tese-guia’ da mal chamada “Reforma Política”. Junto com a mobilização para se chegar ao desafiador montante de assinaturas em favor da proposta da Reforma Política Democrática, até o início de maio, é preciso que nos armemos de argumentos para contrarrestar cada item da contra-reforma conservadora. Elenquemos alguns, na ordem do impacto que causarão no aprofundamento da dominação política ou da sua improvável, mas não impossível, reversão:

Financiamento de partidos e campanhas eleitorais

A PEC quer constitucionalizar o financiamento empresarial, ao definir que “os partidos políticos poderão financiar as campanhas eleitorais com recursos privados, públicos ou com a combinação de ambos”. A “novidade”, que nada altera, é que “apenas os partidos poderão receber os recursos, vedadas as doações diretas para candidatos”.

Legalizar plenamente esse mecanismo espúrio se dá justo quando a Lava Jato escancara o esquema bilionário de propinas, já contabilizadas no ‘custeio’ de empreiteiras e até com doação legal (Caixa 1) servindo para lavagem de dinheiro de corrupção.

O STF, pela opinião da maioria de seus ministros, já se definiu pela inconstitucionalidade do procedimento (que só não se efetivou como decisão porque o ministro Gilmar Mendes pediu vistas e engavetou a ADIn da OAB): “a conjugação de campanhas milionárias e financiamento privado tem produzido resultados desastrosos para a autenticidade do processo eleitoral e para a transparência das relações entre o Poder Público e os agentes econômicos”, resume o ministro Luís Roberto Barroso. Pessoa Jurídica não vota e não faz doações, defende interesses. Ao comentar o livro de Thomas Piketty, ‘O Capital no Século XXI’, Geoffrey Geuens, economista da Universidade de Liège, diz: “a finança tem rosto: cruzamos com eles há muito tempo nos corredores do poder!”. Até aqui, partidos como o PMDB, o PSDB e o DEM dizem pretender manter esses ‘rostos amigos’ bem próximos... É a economia colonizando a política. É a perpetuação da alta grana como grande (e espúrio) eleitor!

Defendemos o financiamento público, através do Fundo Democrático de Campanhas (gerido pelo TSE e supervisionado por um fórum de controle social), a contribuição de pessoas físicas, com o teto de R$ 700 por cidadã(o) e limite austero para o total de gastos, como prevê a proposta da Coalizão. O barateamento das campanhas seria imediato e muitos ralos da corrupção seriam fechados.

Sistema eleitoral

A PEC mantém o voto proporcional para deputados, mas cria ‘circunscrições’ em cada estado e mesmo em municípios maiores, com os candidatos disputando de quatro a sete cadeiras por região. Ninguém poderá conquistar votos no estado inteiro, como hoje. E há também uma ‘cláusula de desempenho individual’, exigindo-se votos nominais correspondentes a 10% do coeficiente eleitoral (número total de votos cotejado com o número de cadeiras a preencher) para se empossar o eleito. “Paroquializa-se” a campanha, afasta-se o eleitorado dos grandes temas nacionais (e mesmo mundiais), em nome de ‘reduzir gastos’ e ‘aproximar o eleitor do eleito’ – isso, por óbvio, é importante, mas nos (poucos) partidos orgânicos os vereadores cumprem mais diretamente esta função, e deputados e senadores têm vínculo permanente com a população.

Agora ganham força propostas como a do Distritão, pela qual se elegem os candidatos apenas de acordo com a ordem de votação, eliminando-se o voto de legenda – o voto partidário e solidário, em suma. Estimula-se o individualismo, o privilégio e continuísmo dos que já têm mandato, a guerra de todos contra todos e as campanhas personalistas e caras: um ‘detritão’, a negação da Política como ação coletiva! Também cresce a ideia do ‘distrital misto’, com candidatos ‘paroquiais’ e ‘universais’. O Senado já aprovou o voto distrital para as eleições municipais. Se a Câmara dos Deputados confirmar, teremos os vereadores despachantes, da ‘bica d’água’ e do ‘ponto de luz’ do bairro, avessos a pensar a cidade e propensos a aderir ao Executivo para ter obras e reeleição. Seja qual for o modelo, as minorias partidárias e a grande política tendem a desaparecer. Estima-se que mais de 60% dos eleitores ‘perderiam’ seus votos, pois esses, com seus candidatos ‘desclassificados’, sequer somariam para a legenda. Ficaria instituído o voto inútil.

Defendemos o voto partidário em lista pré-ordenada, com alternância de gênero, e flexível, isto é, a ser definida pelo próprio eleitor. Como propõe criativamente a Coalizão, a eleição proporcional seria em dois turnos, aferindo-se no 1º o voto no partido e, calculadas as cadeiras a que fez jus, votando-se em algum nome apresentado na lista no 2º turno. Esta proposição torna transparente o atual mecanismo de escolha dos representantes legislativos, pouco claro aos eleitores, em geral: o primeiro efeito do voto é contabilizá-lo para o partido do candidato; o segundo efeito é classificar esse candidato na lista do seu partido.

Coligações

Aqui há um aspecto interessante na PEC, definindo-se que os partidos que se coligarem devem formar uma Federação e atuar de acordo com seus princípios – coligados, portanto – também depois das eleições, durante os mandatos eventualmente conquistados. Evita-se, assim, essa junção oportunista e eleitoreira, verdadeiro ‘cruzamento de cavalo com vaca, que não dá leite nem puxa carroça’, como acontece com a quase totalidade das ‘coligações’ de contrários hoje em dia, que não dão ‘liga’ nenhuma.

Defendemos (e, em boa medida, já praticamos) o fim das coligações nas proporcionais, para que cada partido se apresente à população com a clareza do seu programa. Ou que elas, programáticas, derivem da formação de uma Frente duradoura, que atue conjuntamente nas lutas sociais e nos parlamentos.

Cláusulas de barreira

Mais uma vez intenta-se reduzir à força o número de partidos, com a PEC estabelecendo percentuais progressivos de 3, 4 e 5%, em cada eleição subsequente à “reforma”, em pelo menos 1/3 dos estados, para que o partido tenha direito a Fundo Partidário, inserções em TV e rádio, e funcionamento parlamentar. Só o patamar inicial, dos 3%, ‘ceifaria’ 17 partidos, entre eles, além do PSOL, o PCdoB, o PPS, o PV, o SDD e o PROS... Com a regra final de 5%, seriam atingidos o PDT, o DEM, o PRB e o PTB. Garantir-se-ia um ‘consórcio’ dos grandes, vários dos quais sofrem, como sabemos, de ‘nanismo moral’. O problema do sistema partidário brasileiro, bem mais do que a quantidade de pequenas legendas ‘de aluguel’, que se vendem, e nada incidem na disputa real, são os grandes, que as compram...

Defendemos a livre organização e funcionamento partidários, sem outras ‘cláusulas de contenção’ que o próprio desempenho eleitoral, isto é, a vontade soberana do povo votante. O STF já se manifestou pela inconstitucionalidade dessas restrições, por “ferir de morte o pluralismo político”: “a minoria de hoje tem que ter espaço para ser maioria amanhã (...) A ingovernabilidade decorre da falta de unidade político-ideológica dos partidos maiores” – assinalou a ministra Carmen Lúcia.

Partidos e filiações

Nesse quesito não se altera muito a regra atual, exigindo-se o apoiamento de eleitores correspondentes a um percentual dos votantes na última eleição para a criação de novos partidos. De acordo com a eleição de 2014, seriam necessárias 486.678 assinaturas conferidas de eleitore(a)s, endossando a criação de um partido, ou o apoiamento de 26 deputado(a)s federais – evidência do caráter eminentemente parlamentar dos partidos políticos no Brasil. Também se reduz de um ano para seis meses o prazo de filiação com a finalidade de disputar eleições.

Defendemos a ideia de partido político como instituição livre, da cidadania, sem qualquer tutela estatal, o que implica discutir inclusive o Fundo Partidário compulsório. Queremos filiações por adesão consciente aos princípios e programa partidários, e não para ‘ser candidato(a)’, ou servir à ‘contagem de crachás’ em disputas internas. A força e reconhecimento do partido devem depender exclusivamente de sua capacidade de conquistar adeptos e, nas disputas eleitorais, votos, em igualdade de condições com os demais – inclusive de financiamento e tempo de propaganda nos meios de comunicação de massa.

Coincidência das eleições e direito à reeleição

Na linha da ‘despolitização’ da sociedade, sempre usando o biombo cínico dos ‘gastos exorbitantes’, propõe-se a unificação de todas as eleições, de vereador a presidente da República, numa só data. Para tanto, prefeitos e vereadores eleitos nas municipais de 2016 o seriam para um ‘mandato tampão’ de dois anos, com direito exclusivo de tentar a reeleição – que não seria mais permitida para nenhum cargo do Executivo. Os mandatos continuariam sendo de quatro anos, exceto os de Senador (mantidos os 8 anos). Há também proposta de mandatos de cinco anos, igualmente sem recandidatura ao Executivo.

Defendemos os pleitos a cada dois anos, inclusive para que a temática municipal, tão importante, não seja ‘engolida’ pelas estaduais e sobretudo pela nacional, que naturalmente tende a ser mais polarizadora. O direito a uma reeleição para cargos Executivos, sendo mantido o mandato de quatro anos, parece-nos cabível, exigindo-se o afastamento do cargo (desincompatibilização) seis meses antes do pleito e aprofundando os controles sobre o uso da máquina pública. Proibir recandidatura também é razoável, mas com mandato ampliado para cinco anos. O que encarece eleição não é sua realização, mas os métodos vigentes de compra de votos, contratação de cabos eleitorais e publicidade com o vergonhoso derrame de dinheiro que hoje ocorre.

Voto facultativo

A PEC estabelece o voto como direito voluntário do cidadão, não como dever. Vota quem quiser.

Defendemos o voto como direito e dever. Não se trata de uma questão ‘pétrea’ e é necessário um amadurecimento do debate sobre isso entre nós. Na realidade brasileira hoje, esse princípio liberal do voto voluntário poderá levar à despolitização e exclusão ainda maior dos segmentos mais desinformados. Setores que estão, não por acaso, mais vulneráveis ao ‘pensamento único’, aquele que coloca a política como ‘atividade técnica de especialistas’ e propaga, diuturnamente, a “privatização da vida pública”. A recusa ao voto deve ser respeitada, sobretudo quando expressa contestação ao sistema e/ou desobediência civil (pregação do voto nulo ou da abstenção eleitoral).

‘Domesticar’ essa rebeldia com o fim do voto obrigatório, na prática restringindo a participação política apenas aos mais interessados, não parece o melhor caminho.

Reconheçamos que, nas últimas três décadas, é no período eleitoral que a massa do povo mais se interessa pela busca de soluções para os graves problemas nacionais. Pela política, enfim. Ainda assim, não é irrelevante um dado prático: nas eleições nacionais de 2014, nada menos que 31,6 % dos aptos a votar (45 milhões de pessoas) não escolheram qualquer candidato a deputado – assinalando o ‘em branco’, anulando o voto ou simplesmente não comparecendo (é fácil justificar e a multa é irrisória). Por outro ângulo, o voto facultativo pode ter forte componente individualista, de recusa ao gregário, à vida social. Individualismo extremo evocado, em outras situações, contra a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança ou contra a proibição do fumo em recintos fechados, por exemplo.

* Chico Alencar é deputado federal, líder da Bancada do PSOL na Câmara dos Deputados e titular da Comissão Especial da Reforma Política

explorações

Na longa tradição escravocrata da elite brasileira, moda agora é importar filipinas

O professor Wagner Iglecias comenta a notícia da Folha de S.Paulo, sobre a importação de mulheres filipinas para o trabalho doméstico no Brasil pela classe média alta brasileira
por Conceição Oliveria, do blog Maria Frô publicado 12/05/2015 12:20, última modificação 12/05/2015 13:19
François Auguste Biard - reprodução
escrava venda.jpg

Passam os séculos, mas elite brasileira recria vínculos de trabalho análogos à escravidão

O Brasil começa a regulamentar os direitos das empregadas domésticas, a meu ver um notável avanço nas relações de trabalho entre estas profissionais e seus patrões. Mas então o que acontece? Começa-se a importar empregadas domésticas filipinas, consideradas mais polivalentes. Os custos logísticos de trazer alguém do outro lado do planeta parecem ser mais baixos do que os relativos ao pagamento dos direitos de nossas compatriotas brasileiras..

Penso que a elite de herança escravocrata brasileira é incorrigível...

O tráfico de escravos durou 300 anos, depois manteve-se o trabalho análogo à escravidão..

A partir de 1850, a elite escravista do centro sul ampliou sobremaneira o tráfico interno de escravizados do Nordeste para as áreas cafeeiras..

Em 1850, para não deixar dúvidas de que a riqueza não seria dividida nem com preto ou carcamano, ela aprova a Lei de Terras e impede que trabalhadores tenha acesso à terra. A elite escravocrata e racista brasileira não parou por aí: trouxe imigrantes europeus matando dois coelhos em uma cajadada: o branqueamento da população brasileira e a ampliação do mercado de mão de obra pra negar qualquer direito ao trabalhador nacional..

Aboliu-se formalmente a escravidão em 1888, mas não a sua prática, o trabalho análogo à escravidão está aí pra ninguém duvidar, assim com o longo caminho da PEC do trabalho escravo no Congresso Nacional e o da PEC das domésticas..

No século 20, durante décadas, os nordestinos foram semi escravizados para erguer a São Paulo locomotiva do progresso, depois foram as vezes dos bolivianos, haitianos….

No século 21 quando finalmente se cogita regular a PEC das domésticas – a verdadeira abolição dos escravos da Casa Grande e dos quartinhos de empregada-, a elite escravocrata que bate palma para a terceirização muda o fluxo da escravidão doméstica para outro continente..

Eu tenho verdadeiro asco desta elite.

A ponte

Três papas em Cuba, o povo americano que mais reparte 'o pão da vida'

Frei Betto destaca o papel desempenhado pelo papa Francisco em estabelecer pontes que possibilitaram a reaproximação entre Cuba e EUA
por Frei Betto publicado 11/05/2015 11:21
Flickr/L'Osservatore Romano
Raúl e Francisco

Visita à ilha foi definida após encontro de Raúl Castro com o papa Francisco, no Vaticano

O Vaticano acaba de anunciar que, a caminho dos EUA, no final do mês de setembro próximo, o papa Francisco vai visitar Cuba. O único país socialista da história do ocidente divide com o Brasil o privilégio de ter merecido a visita dos três últimos pontífices.

Assessorei o governo cubano no decorrer das viagens de João Paulo II, em janeiro de 1998, e de Bento XVI, que ocorreu em março de 2012, e testemunhei o entusiasmo com que esses dois papas foram acolhidos pela população cubana.

Quando Bento XVI anunciou que iria à ilha revolucionária, os bispos da América Latina se queixaram, pois, dentre os países do continente americano, ele havia visitado apenas o Brasil, e não reservara agenda para outros países majoritariamente católicos, como o México, Colômbia e Argentina. Essa queixa obrigou Bento XVI a fazer escala no México, onde, então, ele esteve com vários bispos que vieram de diversos países da América Latina.

Em Cuba, apenas 5% da população de quase 12 milhões de habitantes se declara católica. A Casa Branca, na época de George W. Bush, pressionou João Paulo II, de todas as maneiras, para que ele não visitasse Cuba. Se visitasse, que condenasse o regime revolucionário. João Paulo II foi, permaneceu ali por 5 dias, mais do que o tempo habitual dedicado a outros países, estreitou seus laços de amizade com Fidel Castro e, ainda, elogiou os avanços sociais da revolução, como a saúde e a educação. Bento XVI esteve em Cuba por apenas 3 dias. E, também, nada expressou que contrariasse as autoridades do país.

Na visita de João Paulo II, Fidel quebrou o protocolo e, todas as noites, esteve na Nunciatura – representação da Santa Sé onde o papa ficou instalado – e os dois mantiveram longas conversas regadas a sucos tropicais que, segundo Fidel, o papa adorou. Em 2012, Raúl Castro teve a sorte de um forte temporal impedir que a aeronave de Bento XVI decolasse na hora prevista, o que possibilitou longa conversa entre os dois.

Tanto Fidel, como Raúl, foram alunos internos de colégios jesuítas, por longos anos, e consideram muito positivo esse período de suas vidas. Alias, para entender suas personalidades, a gente deve conhecer como os jesuítas forjavam o caráter de seus alunos, na primeira metade do século XX.

Após a visita de João Paulo II, o teólogo italiano Giulio Girardi, em almoço com Fidel do qual participei, ao lado de Leonardo Boff, comentou considerar exorbitante o papa presentear a Virgem da Caridade, padroeira da ilha, com uma coroa de ouro. Fidel reagiu, bravo, e disse: ‘A Virgem da Caridade não é apenas padroeira dos católicos de Cuba, é padroeira de Cuba.’

O Papa Francisco fez a ponte – daí o nome pontífice: aquele que faz a ponte – para Cuba e EUA se reaproximar, como admitiram Raúl e Obama, nos discursos de retomada da boa vizinhança, em 17 de dezembro de 2014.

Em 1959, a vitória da Revolução contou com a reação contrária da Igreja Católica, uma igreja marcada pela ditadura de Franco, na Espanha. Havia muito padres espanhóis, em Cuba. Embora nenhum sacerdote tenha sido perseguido pela Revolução e nenhum templo católico tenha sido fechado, o diálogo entre Estado e Igreja, na ilha revolucionária, se resumia à amizade de Fidel com os núncios, que são os representantes do papa em Cuba. A relação com o Vaticano jamais se rompeu.

Em 1981, por solicitação de Fidel, com a concordância dos bispos cubanos, eu iniciei, no país, um trabalho de reaproximação entre a Igreja Católica e o Estado. A publicação do livro Fidel e a religião, em 1985, reduziu significativamente o preconceito comunista à religião e o temor dos católicos frente à revolução. Fidel, então, retomou o diálogo com os bispos. Logo em seguida, foi suprimido o caráter ateu do Estado e do Partido Comunista de Cuba e, hoje, essas duas entidades são oficialmente laicas.

Nesse momento, são excelentes as relações do governo cubano com a Igreja Católica, para a tristeza dos anticastritas de Miami, que insistem em demonizar a revolução.

Ao desembarcar em Havana, o Papa Francisco não encontrará uma nação católica, muito menos uma nação ateia. Será acolhido, calorosamente, por um povo imbuído de religiosidade sincrética na qual se mesclam, como na Bahia, espiritualidade animista de origem africana e tradições cristãs. Um povo que, como nenhum outro no continente americano, reparte, entre si, e com outros povos, o pão da vida.

superação

Tropas chinesas na Praça Vermelha

Acabaram os conflitos que levaram a alinhamentos radicalmente opostos entre russos e chineses na política mundial durante um certo tempo; países voltam a ser aliados estratégicos fundamentais
por Emir Sader, para a RBA publicado 10/05/2015 15:37

As comemorações dos 70 anos do triunfo da URSS sobre o nazismo foram a oportunidade de uma demonstração do poderio militar atual da Rússia, assim como de uma presença com forte apelo simbólico: um desfile de tropas do Exercito chinês na Praça Vermelha.

Depois de tantas circunstâncias, a China e a Rússia  voltam a ser aliados estratégicos fundamentais. Os dois mudaram bastante. A Rússia ocupa o lugar da URSS, a China atual é muito diferente daquela do Mao.  Mas o principal é que os conflitos que levaram a alinhamentos radicalmente opostos na política mundial durante um certo tempo terminaram.

Inicialmente aliados, assim que a Revolução Chinesa triunfou, em 1949, diferenças e conflitos foram surgindo, até que a eclosão da Revolução Cultural na China levou a diferenças exacerbadas entre os dois países. A China, a partir das críticas ao que considerava um caminho de restauração capitalista na URSS, caminhou para a caracterização desse país como imperialista, rapidamente como o imperialismo ascendente, o que a levou a aliar-se aos EUA, que considerava o imperialismo decadente, para conter o que chamava de “imperialismo soviético”.

Decorreu daí a chamada diplomacia do pingue-pongue, com a surpreendente aproximação e aliança da China com os EUA, e posições ainda mais surpreendentes sobre processos que ela considerava como de expansionismo soviético, que haveria que deter. Assim, a China apoiou o golpe de Pinochet, no Chile, assim como o regime do apartheid na Africa do Sul, situações que ela considerava como expressões de luta contra a URSS.

As duas maiores potências do campo socialista não apenas se dissociavam, como se opunham frontalmente. Desaparecia o campo comum de luta contra o imperialismo norte-americano, que passou a ser considerado um aliado pela China, contra a URSS.

O desaparecimento da URSS e sua reaparição como potência sob Putin e a passagem radical da China da Revolução Cultura do Mao à do desenvolvimento econômico espetacular de Deng-Ziao-Ping, mudou os cenários e as relações entre eles. Acordos fundamentais nos planos econômico, energético, financeiro, comercial e militar foram estabelecidos recentemente entre os dois países, com o correspondente distanciamento em relação aos EUA.

No marco da nova guerra fria, configurado especialmente a partir dos conflitos da Rússia com os EUA e a Europa em torno da Ucrânia, o alinhamento chinês é claro. Ao mesmo tempo que os Brics surgem como campo comum de construção de instâncias para um mundo multipolar no plano econômico. Ambos os países desenvolveram uma enorme quantidade de acordos bilaterais com países da América Latina, por exemplo, em um quadro inédito de influência e presença dos dois países no nosso continente.

É nesse cenário que a presença de tropas chinesas na histórica Praça Vermelha ganha um enorme significado, tanto pela superação dos conflitos no passado, quanto pelas novas formas de aliança entre duas potências que mudaram desde então, mas que agora reaparecem como aliados fundamentais no plano internacional.

 

Marcio Pochmann

O Estado de bem-estar social contra a pobreza: batalha perdida?

Se a batalha contra a pobreza nos Estados Unidos foi perdida pela adesão do país à dependência dos mercados, o Brasil de hoje não tem motivos para revisar a continuidade do seu caminho próprio
por Marcio Pochmann publicado 08/05/2015 11:16, última modificação 08/05/2015 12:23
Divulgação / Polícia Federal de SP
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Tráfico das armas, por exemplo, revela como a exploração da pobreza serve aos interesses dos enriquecidos no mundo

Nos dias de hoje, o mundo se surpreende com o avanço da riqueza gerada cada vez mais pela presença de novas tecnologias, capaz de registrar, por exemplo, situações distantes de todos, como o buraco negro no universo. Mesmo assim, situações tão antigas à humanidade, como a pobreza, seguem sendo produzidas e reproduzidas sob novas formas.

A mundialização da pobreza representa parte distinta e obscura das informações difundidas por instituições com o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional sobre a opulência da globalização do dinheiro, do comércio e das grandes empresas. O tráfico humano, das drogas, das armas, por exemplo, revela como a exploração da pobreza serve aos interesses dos enriquecidos no mundo.

Há mais de 50 anos, dois estudos sobre os Estados Unidos contribuíram para que o país iniciasse uma verdadeira guerra interna contra a pobreza. Os livros: A Sociedade Afluente, de John Kenneth Galbraith (1958), e A Outra América, de Michael Harrington (1962), foram capazes de apontar destinos diferentes aos mais de 35 milhões de estadunidenses submetidos à condição de pobreza em plena década de 1960, o que equivalia a 19% de toda a população.

Ademais da definição oficial do que seria pobreza, o governo de Lyndon Johnson (1963-1968) inovou o conjunto das políticas públicas com programas de abrangência nacional estabelecidos para a assistência à saúde (Medicare e Medicaid) e o direito a cidades (model cities), especialmente à população de baixa renda. Dessa forma, a maior potência econômica capitalista criava condições, por meio da intervenção do Estado, para aliar melhor a elevação da riqueza com o bem-estar de toda a população, não apenas dos ricos.

A mesma eficácia do Estado para conduzir pesquisas como a produção da bomba atômica passaria a se voltada também para a guerra contra a pobreza. Os resultados se apresentaram inequívocos, com a redução generalizada da pobreza e a elevação simultânea do bem-estar da população nos Estados Unidos.

A maneira do crescimento econômico com maior bem-estar social se tornou uma referência a ser seguida por diferentes países a partir de então. Meio século depois, contudo, os Estados Unidos não são mais o mesmo país. Seu modelo de crescimento envelheceu, abandonou o seu parque industrial com a transferência do parque manufatureiro para a Ásia, fundamentalmente a China, desde os anos 1980, com as políticas neoliberais desenvolvidas pelo governo Ronald Reagan (1981-1989).

Sem crescimento produtivo sustentável, a economia passou a depender cada vez mais dos mercados do dinheiro das altas finanças movidos pelo agigantamento do sistema financeiro e bursátil. O empobrecimento passou a se tornar uma realidade, com o maior grau de concentração de renda e oportunidades, pois basta considerar que nos dias de hoje, apenas 1% de toda a população apresenta maior riqueza que a soma dos 99% dos estadunidenses. Ademais, constata-se ainda que existem 49,7 milhões de estadunidenses atualmente na condição de pobreza, equivalendo a mais de 16% do total da população.

Se a batalha contra a pobreza parece perdida nos Estados Unidos, bem como se expande a mundialização da pobreza, o Brasil atual não deveria ter motivos para revisar a continuidade do seu caminho próprio. Ou seja, o crescimento econômico com elevação do bem-estar social.

Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas (Cesit-Unicamp)


Análise

Para Frei Betto, modelo de inclusão baseado no consumo está esgotado

A luz no fim do túnel, para escritor, está na mobilização das ruas como resposta à crise: 'Governo é como feijão, só funciona na pressão'
por Redação RBA publicado 04/05/2015 14:48, última modificação 04/05/2015 15:15
Arquivo/Agência Brasil
Bolsa Família

Apesar do acesso pelo consumo, falta avançar em bens sociais como saúde, educação, transporte e moradia

São Paulo – Em seu comentário na Rádio Brasil Atual, o assessor de movimentos sociais e escritor Frei Betto afirmou hoje (4) que a crise econômica enfrentada pelo Brasil traduz o esgotamento de um modelo neodesenvolvimentista que sacramentou, na dimensão macro, o capitalismo neoliberal, e na dimensão micro, um certo paternalismo populista de benefícios aos mais pobres.

"O capitalismo neoliberal favorece o consumo, e não a produção", o que explica nos últimos 12 anos a facilidade de crédito, desonerações tributárias, o aumento anual do salário mínimo corrigido pela inflação e o maior acesso dos brasileiros ao mercado. Tudo isso foi muito bom, mas infelizmente não se criaram as bases de sustentabilidade para assegurar o acesso a longo prazo aos bens de consumo."

Ele analisa que o paternalismo populista teve início quando se trocou o Fome Zero, que era um programa emancipatório, pelo Bolsa Família, programa bom, mas meramente compensatório. "Passou-se a dar o peixe sem ensinar a pescar."

"Embora 36 milhões de pessoas tenham saído da miséria, nada indica que, com o atual ajuste fiscal, o mesmo número de pessoas não vá para a miséria, para a carência extrema, sobretudo impelidas por essa química explosiva, que é a soma do desemprego com o aumento da inflação", avalia.

A luz no fim do túnel, para Frei Betto, está na mobilização das ruas: "Cabe ao povo brasileiro se manifestar, mobilizar, organizar, criar uma ampla frente de propostas para as mudanças que o nosso país tanto necessita, como o fim do financiamento de campanhas eleitorais por empresas e bancos; a reforma política; a reforma tributária, onerando mais quem ganha mais, e a reforma agrária nesse território de dimensões continentais".

"Governo é como feijão, só funciona na pressão", conclui.

Ouça o comentário completo da Rádio Brasil Atual:

história

Brasil foi subimperialista ao atuar na invasão da República Dominicana

Nos 50 anos da invasão, mídia deixa passar em branco episódio que mostra a subserviência aos interesses dos EUA e envergonha o país
por Emir Sader publicado 03/05/2015 11:32, última modificação 03/05/2015 11:33
Banco de Imagens Petrobras
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Juracy Magalhães e sua declaração histórica: “O que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”

A mídia deixou passar em branco exceção foi o comentário na TV Brasil , provavelmente por vergonha. O primeiro ministro de relações exteriores da ditadura Juracy Magalhães já tinha declarado que “o que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”.

Foram os 50 anos da invasão da República Dominicana, realizada por tropas norte-americanas em 1965, com participação de tropas brasileiras. Depois de décadas de ditadura do clã Trujillo, imposto pelos EUA para manter a dominação sobre a República Dominicana, a democratização tinha levado à presidência do país Juan Bosch, democraticamente eleito pelo povo dominicano.

Acontece que Bosch tinha posição independente, identificava-se com os interesses latino-americanos e caribenhos de soberania na política internacional, propunha que a democratização não fosse apenas o estabelecimento de um regime político liberal, mas pretendia democratizar em profundidade um país açucareiro, que havia vivido há décadas da exportação de produtos primários para os EUA e da compra de todo o resto do vizinho do norte.

Juan Bosch, escritor, ensaísta, historiador, havia sido o principal mentor da oposição ao governo de Leonidas Trujillo. Teve de se exilar por ter sido preso e perseguido pela ditadura trujillista, vivendo em vários países da região – Cuba, Venezuela, Costa Rica, México, entre outros.

Quando Trujillo foi assassinado em 1961 – episódio contado de forma literária por Vargas Llosa em seu livro A festa do bode –, foram convocadas as primeiras eleições livres em décadas no país e Juan Bosch venceu, no final de 1962 e tomou posse em fevereiro de 1963. Promoveu uma nova Constituição, anunciou a garantia dos direitos dos sindicatos e de outros setores sociais, sempre postergados.

Seu governo sofreu dura oposição dos EUA e da Igreja dominicana até que, sete meses depois de iniciado, um golpe militar abertamente apoiado pelos EUA o derrubou e se instalou no poder. Houve uma grande reação popular, que desembocou numa rebelião militar liderada por um coronel, Francisco Caamaño, que exigia o fim do governo militar e a convocação de novas eleições.

Em 28 de abril de 1964 tropas dos EUA invadiram a República Dominicana. Washington pediu a participação de tropas brasileiras e foi atendido pela ditador Carlos Castelo Branco. Tropas sob mando do general Meira Mattos foram enviadas e participaram da invasão da Republica Dominicana.

Inaugurava-se, assim, o papel do Brasil como pólo subimperialista no continente, como representante dos interesses dos EUA – uma das funções essenciais da ditadura militar, instalada poucos dias antes da invasão da Republica Dominicana. O Brasil, por meio da sua ditadura – apoiada por toda a mídia da época – violou o processo democrático dominicano, em colaboração militar direta com os EUA.

Essa foi a tradução direta da afirmação de Juracy Magalhães de identidade total dos interesses dos EUA e do Brasil. Foi assim que se instaurou a política subimperialista brasileira na região, que teve suas expressões mais significativas nas ameaças de intervenção no Uruguai, na transferência de métodos de tortura – de que o pau-de-arara foi o mais famoso –, na informação para fomentar golpes em outros países da região e, finalmente, na  aliança dos países latino-americanos com a CIA por meio do Plano Condor.

Ao contrário da política externa atual, soberana, que afirma os interesses próprios do Brasil e da integração regional contra os EUA, naquele momento o país se assumiu como potência subimperialista, a serviço dos interesses imperiais norte-americanos.

Conjuntura

Com manutenção da crise global, prosperidade das nações está em xeque

Mudanças demográficas, desindustrialização e dificuldades para os investimentos nos países ricos fazem crise mundial persistir, sem solução à vista após sete anos
por Marcio Pochmann publicado 02/05/2015 12:20
Efe
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Europeus vão às ruas contra os impactos econômicos e sociais do receituário neoliberal de austeridade

De maneira geral, a prosperidade de uma nação se associa inexoravelmente à capacidade de crescimento de sua economia, bem como sua transformação em bem-estar ao conjunto da sociedade. Sem crescimento, portanto, o bem-estar distancia-se, mesmo com o melhor instrumental existente para a distribuição de oportunidades econômicas, políticas e sociais.

Após quase sete anos do seu início, em 2008, a crise de dimensão global, sem solução à vista, tem reforçado cada vez mais o pessimismo a respeito da possível retomada do crescimento econômico. Ademais da crítica central ao receituário neoliberal de austeridade, que conduz as políticas econômicas em grande parte do mundo, percebe-se, especialmente nos países ricos, três principais razões que concedem conteúdo às perspectivas de baixo dinamismo da produção econômica e suas graves consequências sociais, políticas e culturais por longo tempo.

Inicialmente, o declínio demográfico evidenciado pela ampliação da razão entre população dependente (menos de 15 e mais de 65 anos) e independente (mais de 15 e menos de 65 anos). Ou seja, cada vez menos trabalhadores ativos para continuar produzindo o necessário ao atendimento do conjunto da população.

Na sequência, a trajetória frágil da produtividade. Os países ricos registram problemas decorrentes do avanço da desindustrialização, com a queda na participação da manufatura no total do PIB (Produto Interno Bruto) e suas repercussões associadas ao esvaziamento dos empregos de melhor qualidade em termos de condições de trabalho e remuneração.

Exemplo disso percebe-se na constatação atual de que o emprego industrial nos Estados Unidos responde por salário de cerca de 120 mil dólares ao ano (360 mil reais), enquanto que as ocupações de serviços pagam remunerações anuais de somente 22 mil dólares (66 mil reais), ou seja, postos de trabalho nos serviços com rendimento de apenas 1/6 dos industriais. Com menor remuneração, os custos se tornam menores para os patrões e os lucros iniciais maiores no primeiro momento, porém, sem sustentação no longo prazo.

Por fim, a terceira razão do escasso crescimento econômico, que resulta em fraqueza do ciclo de inovação tecnológica outrora apresentado como uma das fontes da prosperidade moderna, surge, de um lado, com a contida motivação ao investimento das economias. Isso revela o imenso montante necessário de capital a ser mobilizado para criar a mesma quantidade de riqueza, superior em muitas vezes do que o necessário há meio século.

Ademais da incerteza vigente em relação à viabilidade do investimento em novas tecnologias, a concentração de capital necessário torna cada vez mais dependente o dinamismo capitalista da associação das grandes corporações transnacionais aos Estados.

De outro lado, a debilidade das inovações em relação à necessária alteração da matriz energética que ainda se encontra fortemente comprometedora do meio ambiente. As mudanças climáticas se mostram inegáveis, sem ainda contar com nova postura das economias menos agressivas ambientalmente.

Mais isso, todavia, segue sendo negado pelo pensamento neoliberal, que se mantém hegemônico e difundido com sucesso decrescente pelas instituições condutoras (corporações transnacionais financeiras e não financeiras, organismos multilaterais, meios de comunicação e centros de formação acadêmica e profissionais). Até quando não se sabe, todavia, a exclusão das massas da trajetória da prosperidade tem produzido historicamente rupturas nem sempre animadoras.

inadiável

Primeiro de Maio: a hora de conter o avanço conservador é agora

A resposta da classe trabalhadora aos ataques contra seus direitos já não pode tardar. Nada é mais importante do que agigantar a força das manifestações nesta sexta-feira
por Saul Leblon, da Carta Maior publicado 28/04/2015 13:36
reprodução/Carta Maior
trabalhador

No 1º de maio, é hora de unir forças contra os coveiros da CLT e da democracia social

Uma semana antes deste 1º de Maio de 2015, 79% da bancada do PSDB na Câmara e uma proporção exatamente igual do PMDB votaram pelo desmonte dos direitos trabalhistas no Brasil. À petulância conservadora o PT respondeu com 100% dos votos em defesa da CLT, assim como o PSOL e a bancada dos representantes do PCdoB.

O cálculo do cientista André Singer encerra grave advertência e uma incontornável convocação.

O conservadorismo considera que é hora e há 'clima' para esfolar os assalariados brasileiros, sangrar a esquerda e colocar de joelhos os sindicatos. Um pouco como fez Margareth Tatcher contra os mineiros na emblemática greve de 1984.

Aécio, Cunha, Skaf, Paulinho 'Boca' e assemelhados sabem o que estão fazendo.

Rompido o lacre da regulação do trabalho, a ganância dos mercados reinará absoluta na dinâmica do desenvolvimento brasileiro, como aconteceu na ascensão do neoliberalismo com a derrota sindical inglesa de 1984.

A ordem unida da mídia, dos patrões, tucanos e pelegos em torno da agenda da terceirização condensa assim um divisor de época.

Só há uma resposta à altura para isso na História: a construção de uma frente ampla progressista, que comece por ocupar as ruas do Brasil nesta sexta-feira, para devolver ao 1º de Maio o seu sentido e aos democratas um instrumento capaz de reverter o golpe branco que tomou de assalto o país.

Muito do que acontecerá no Brasil nos próximos dias, meses e anos refletirá a abrangência dessa mobilização.

Inclua-se aí a rejeição da PL 4330, mas também o desfecho da espiral golpista travestida de faxina política de seletividade autoexplicativa.

Nada é mais importante do que agigantar a força das manifestações contra os coveiros da CLT e da democracia social neste 1º de Maio.

Informe-se junto ao seu sindicato, reúna os amigos, convide os colegas de trabalho.

Não cabe mais perguntar que horas são.

O tempo é de dar respostas – nas ruas.