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pseudojornalismo

Medo do povo explica ofensas de Augusto Nunes a Chávez e ao MST

Hugo Chávez, o estadista que teve sua memória achincalhada, governou a Venezuela democraticamente por 14 anos; já o Movimento dos Sem Terra é a maior organização camponesa do mundo
por Igor Fuser (*) publicado 15/03/2015 21:29, última modificação 15/03/2015 21:40
Divulgação
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Durante o período em que Chávez governou a Venezuela, os índices de pobreza se reduziram à metade

Uma simples menção a Hugo Chávez ou ao MST, em separado, já é suficiente para fazer os porta-vozes da mídia conservadora espumarem de ódio. Quando aparecem juntos, a raiva se junta ao medo diante do que representa a força social simbolicamente expressa por esses dois nomes, o de um homem e o de uma organização de trabalhadores. Nesta semana, ambos se tornaram o alvo de uma peça especialmente repulsiva do pseudojornalismo que se pratica numa revista outrora respeitada, hoje um decadente panfleto de extrema-direita, sem prestígio nem credibilidade.

Hugo Chávez, o estadista que teve sua memória achincalhada em artigo publicado por Augusto Nunes em seu blog no espaço virtual da Veja, governou a Venezuela – democraticamente – durante quatorze anos, de 1999 a 2013. Seus compatriotas o escolheram para o cargo de presidente quatro vezes seguidas, sempre por ampla maioria de votos, em eleições livres e limpas, certificadas por centenas de observadores internacionais, entre eles, o ex-presidente estadunidense Jimmy Carter.

Durante o período em que Chávez governou a Venezuela, os índices de pobreza se reduziram à metade, o analfabetismo foi erradicado, milhões de moradores dos bairros pobres e das zonas rurais tiveram acesso, pela primeira vez, a um atendimento médico digno, aos cuidados de um dentista. O petróleo, explorado durante um século em proveito exclusivo do capital estrangeiro e da elite nativa, passou finalmente a beneficiar seu verdadeiro dono, o povo. Alimentos e outros produtos essenciais são fornecidos à população pela metade do preço de mercado, subsidiados com a renda petroleira. Hoje a Venezuela é o país do mundo com maior proporção de jovens na universidade, e o primeiro a cumprir as Metas do Milênio estabelecidas pela ONU como referência de bem-estar social.

Já o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, é a maior organização camponesa do mundo. Fundado há 35 anos, expressa a continuidade da luta secular no campo brasileiro pela “terra aos que nela trabalham”. Centenas de seus militantes foram assassinados por pistoleiros a soldo do latifúndio, ou agronegócio, como é chamado pela imprensa. Graças à luta heroica dos sem-terra, mais de 1 milhão de famílias brasileiras vivem atualmente em assentamentos da reforma agrária.

Mas o alcance do MST vai muito além da batalha pela terra. Em seu esforço de educação popular, o movimento construiu 1.500 escolas nos locais onde seus militantes acamparam ou se instalaram, educou 160 mil crianças e adolescentes e formou mais de 4 mil professores. Hoje conta com médicos, educadores, advogados e agrônomos nascidos em acampamentos ou assentamentos, e que tiveram acesso ao ensino superior por meio de convênios com instituições da rede pública. A agenda do MST também incorpora outras bandeiras justas, com destaque para a defesa de uma alimentação saudável, sem transgênicos nem agrotóxicos, para todos os brasileiros.

Informações básicas como essas, expostas nos parágrafos acima, deveriam ser suficientes para que qualquer pessoa decente adotasse, ao escrever sobre Hugo Chávez ou sobre o MST, uma atitude de respeito, independentemente de suas preferências ideológicas. Mas não. O preconceito, a mentira, o cinismo e a mais cascuda ignorância são os traços que definem o tal post na revista da Marginal. Nunes expressou, aí, o quanto um pequeno e despretensioso vídeo, de apenas 16 minutos, produzido por comunicadores de movimentos sociais em homenagem a Chávez por ocasião do segundo aniversário do seu falecimento, foi capaz de desagradá-lo. Ao ofender tudo e todos os que viu diante de si, o autor ignorou, ou fingiu ignorar, que Rafael Correa é o presidente mais popular em toda a história do Equador, que João Pedro Stédile foi recebido recentemente pelo papa Francisco no Vaticano, com todas as honras, como representante – de quem mesmo? – do MST.

O escriba 'vejal' deveria se olhar no espelho antes de vomitar infâmias contra homens e mulheres de coragem, que não hesitaram em colocar seu talento e sua vida a serviço de um ideal coletivo de emancipação social.  Enquanto Chávez, Maduro, Lula, Correa, Lugo e Stédile arriscavam a pele na luta contra tiranos e oligarcas, ele, o articulista que enche a boca para falar no “estado democrático de direito”, bajulava o ditador chileno Augusto Pinochet nas páginas de O Estado de S. Paulo, promovia demissões em massa no Zero Hora e provocava o riso dos colegas ao publicar na revista Época um inesquecível necrológio de Jorge Amado quando o escritor ainda estava vivo. Isso, para dar apenas uma noção de quem é esse jornalista de longa carreira, sempre em busca do brilho, e dado a momentos de euforia inexplicável.

Os ataques destemperados contra governos, entidades e personagens que têm em comum o compromisso com o povo refletem, na realidade, um sentimento de pânico entre os magnatas da mídia brasileira – os patrões de Nunes. Só o pânico diante da organização política dos desprivilegiados e do avanço dos governos progressistas pode explicar, por exemplo, o que levou o herdeiro do clã dos Mesquita a sair do conforto do seu gabinete no Estadão para se fazer fotografar, num comício da campanha de Aécio Neves, segurando um cartaz onde se lia: “Foda-se a Venezuela”.

No caso de Nunes, um “democrata” que seleciona os entrevistadores do programa Roda Viva pelo critério da adesão às suas próprias idéias reacionárias, não é difícil detectar de onde provém o medo que se esconde por trás das piadinhas de mau gosto e das injúrias furibundas. Ele mesmo, numa sucessão de atos falhos freudianos, expõe à luz do dia os demônios que o apavoram. O motivo de tanto temor, explicitado no seu texto, é a democracia participativa da Venezuela, o legado histórico de Chávez, as evidentes semelhanças entre o Brasil e a pátria de Bolívar, “a luta continental contra o inimigo comum”. Os “cucarachas”, como o escriba se refere a nós, latino-americanos que assumimos nossa identidade cultural, assustam a burguesia, isso é um fato.

Para finalizar, faço questão de ressaltar aqui, por uma questão de justiça, um único elemento positivo nesse post tão fétido quanto as margens do rio onde se situa a empresa que o publicou. Graças ao blog, tomei conhecimento da existência desse interessante vídeo intitulado Chávez vive no coração do Brasil – uma justa e singela homenagem de lutadores do povo brasileiro ao maior líder da América Latina neste início de século 21. Você pode conferir abaixo:

Se o vídeo incomodou tanto, é porque alcançou seu objetivo.

 

(*) Igor Fuser, doutor em Ciência Política pela USP, é professor no curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC. Foi coordenador do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Como jornalista, trabalhou no jornal Folha de S. Paulo e nas revistas Veja, Exame e Época, entre outras publicações. Participa atualmente do conselho editorial do Le Monde Diplomatique Brasil e do Brasil de Fato.

conservadorismo

O que quer a direita, quais são as propostas para vencer a crise no mundo?

Centralidade do mercado, livre comércio e Estado mínimo fazem com que sejam destruídas as conquistas sociais; na América Latina, críticas aos governos populares querem a volta do antigo modelo
por Emir Sader, para a RBA publicado 15/03/2015 16:16, última modificação 15/03/2015 16:18
Gerardo Lazzari
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Manifestantes na Avenida Paulista, hoje (15), defendem a volta do velho modelo político no país, de cunho neoliberal

A direita segue em frente, com seus meios de comunicação, seus partidos, seus governos, suas politicas econômicas. Mas o quer quer a direita? O que a direita tem a propor ao mundo hoje? Que balanço ela faz do seu desempenho? Que perspectiva oferece hoje a direita?

Sobre guerra e paz, ai está a politica dos EUA que desde que passou a ser a única superpotência, só multiplica as guerras no mundo. Que ele não consegue concluir com as duas guerras que iniciou já faz mais de uma década, no Afeganistão e no Iraque, que estão claramente em situação pior do que antes que fossem invadidos e destruídos como países.

A crise no próprio centro do capitalismo mundial já dura mais de sete anos, sem perspectivas de superação. Seu modelo de centralidade do mercado, de livre comércio, de Estado mínimo, faz com que a Europa destrua o que de mais generoso ela havia produzido: o Estado de bem-estar social. Políticas econômicas que salvaram os bancos, levaram à quebra de países e à expropriação maciça dos direitos dos mais vulneráveis.

O que se propõe a direita na America Latina? O continente, que tem os únicos países do mundo que diminuíram a desigualdade, mesmo em meio de seu brutal aumento no mundo, tem uma direita que trata de inviabilizar a continuidade justamente dos governos que conseguem essa proeza. Mas o que vem a propor a direita na Argentina, na Venezuela, no Equador, na Bolívia, no Brasil,  no Uruguai?

À falta de alternativas, propõe o retorno de suas próprias políticas neoliberais, essas mesmas que levaram a esses países às piores crises da sua história. Que levaram a América Latina à quebra de suas economias, à alienação de seus bens públicos, à expropriação dos direitos dos trabalhadores. Além de já ter governado e de ter fracassado, continuam governando, com suas politicas, em outros países.

O México foi o país que ficou como um dos casos que os organismos  internacionais erigiram como caso de sucesso das politicas que eles propõem. Foi o primeiro país a assinar um Tratado de Livre Comercio com os EUA (e com o Canadá). O balanço feito dos 20 anos da sua vigência não  poderia ter sido pior para o México. A própria situação desse pais não permite outro balanço que não seja que o Tratado foi péssimo para a parte mais frágil e ótimo para a parte mais forte.

Mas outros países também seguem o modelo neoliberal, como é  o caso do Peru, que apresenta, ao longo dos últimos anos, altas taxas de crescimento do seu PIB, sem se que se alterem os péssimos índices sociais do pais, fazendo com que se sucedam presidentes que rapidamente perdem apoio popular e são derrotados no final dos seus governos.

O que pode propor a direita para a Argentina, por exemplo? Que atitude pode ter frente aos governos que recuperaram o país da pior crise da sua história? Vão questionar o modelo de crescimento econômico com distribuição de renda? Vão sair dos processos de integração regional? Vão diminuir o tamanho do Estado, para voltar a promover a centralidade do mercado? Retomarão as políticas de paridade com o colar? Vão abolir as políticas sociais, que fizeram com que a Argentina se recuperasse dos terríveis retrocessos impostos a seu povo pela ditadura militar, pelo governo neoliberal?

Não foi a direita, com o governo de FHC, que levou o Brasil à sua mais mais profunda e prolongada recessão, com um imenso endividamento com o FMI, de que o Brasil só saiu com o governo de Lula?

Não foi a direita que praticamente privatizou a PDVSA, a empresa estatal venezuelana de petróleo, a mesma direita que tentou derrubar o governo legitimamente eleito de Hugo Chávez com um golo em 2002?

Foi a direita que tentou privatizar a água na Bolívia, tentativa frustrada pela formidável mobilização do povo boliviano, liderado por Evo Morales. Foi essa mesma direita que tentou dividir ao país, para buscar bloquear os extraordinários avanços do primeiro governo indígena da Bolívia.

Foi a direita quem entregou as riquezas equatorianas nas mãos de empresas estrangeiras como a Chevron, que promoveu uma brutal contaminação da Amazônia equatoriana. Foi a direita desse país que teve como candidato à presidência o maior banqueiro do pais.

Foi a direita a responsável pelos piores governos que teve o continente: as ditaduras militares e os governos neoliberais. É a direita que quer impor um freio aos avanços que os governos progressistas da região lograram e forçar um retrocesso de gigantescas proporções nesses países.

Por que não pode confessar o que faria se ganhasse as eleições, a direita se limita às críticas, à difusão de um cenário pessimista sobre a economia e sobre o país, ao denuncismo vazio. Porque só se um país vai mal, a direita pode ir bem.

fantasias

A marcha dos insensatos e a sua primeira vítima

Dados do Banco Mundial e do FMI mostram que foi no governo de FHC que a renda per capita e o PIB caíram e a dívida pública líquida quase dobrou, o que esvazia argumentos de que governo atual está quebrando o país
por Mauro Santayana publicado 13/03/2015 19:39, última modificação 13/03/2015 19:49
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FHC vendeu mais de US$ 100 bi em empresas brasileiras, muitas estratégicas, como Telebras, Vale e parte da Petrobras

Segundo os chamamentos que estão sendo feitos neste momento, no WhatsApp e nas redes sociais, pessoas irão sair às ruas, no domingo, porque acusam o governo de ser corrupto e comunista e de estar quebrando o país.

Se estes brasileiros, antes de ficar repetindo sempre os mesmos comentários dos portais e redes sociais, procurassem fontes internacionais em que o mercado financeiro normalmente confia para tomar suas decisões, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, veriam que a história é bem diferente, e que o PIB e a renda per capita caíram, e a dívida pública líquida praticamente dobrou, foi no governo Fernando Henrique Cardoso.

Segundo o Banco Mundial,  o PIB do Brasil, que era de  US$ 534 bilhões, em 1994, caiu para US$ 504 bilhões quando Fernando Henrique Cardoso deixou o governo, oito anos depois.

Para subir, extraordinariamente, destes US$ 504 bilhões, em 2002, para US$ 2 trilhões, US$ 300 bilhões, em 2013, último dado oficial levantado pelo Banco Mundial, crescendo mais de 400% em dólares, em apenas 11 anos, depois que o PT chegou ao poder.

E isso, apesar de o senhor Fernando Henrique Cardoso ter vendido mais de 100 bilhões de dólares em empresas brasileiras, muitas delas estratégicas, como a Telebras, a Vale do Rio Doce e parte da Petrobras, com financiamento do BNDES e uso de “moedas podres”, com o pretexto de sanear as finanças e aumentar o crescimento do país.

Com a renda per capita ocorreu a mesma coisa. No lugar de crescer em oito anos, a renda per capita da população brasileira, também segundo o Banco Mundial, caiu de US$ 3.426, em 1994, no início do governo, para US$ 2.810, no último ano do governo Fernando Henrique Cardoso, em 2002. E aumentou, também, em mais de 400%, de US$ 2.810, para US$ 11.208, também segundo o World Bank, depois que o PT chegou ao poder.

O salário mínimo, que em 1994, no final do governo Itamar Franco, valia US$ 108, caiu 23%, para US$ 81, no final do governo FHC e aumentou em três vezes, para mais de US$ 250, hoje, também depois que o PT chegou ao poder.

As reservas monetárias internacionais – o dinheiro que o país possui em moeda forte – que eram de US$ 31,746 bilhões, no final do governo Itamar Franco, cresceram em apenas algumas centenas de milhões de dólares por ano, para US$ 37.832 bilhões nos oito anos do governo FHC.

Nessa época, elas eram de fato,  negativas, já que o Brasil, para chegar a esse montante, teve que fazer uma dívida de US$ 40 bilhões com o FMI.

Depois, elas se multiplicaram para US$ 358,816 bilhões em 2013, e para US$ 369,803 bilhões, em dados de ontem, transformando o Brasil de devedor em credor, depois do pagamento da dívida com o FMI em 2005, e de emprestarmos dinheiro para a instituição, quando do pacote de ajuda à Grécia em 2008.

E, também, no quarto maior credor individual externo dos EUA, segundo consta, para quem quiser conferir, do próprio site oficial do tesouro norte-americano. –(http://www.treasury.gov/ticdata/Publish/mfh.txt).

O Investimento Estrangeiro Direto (IED), que foi de US$ 16,590 bilhões, em 2002, no último ano do governo Fernando Henrique Cardoso, também subiu mais de quase 400%, para US$ 80,842 bilhões, em 2013, depois que o PT chegou ao poder, ainda segundo dados do Banco Mundial, passando de aproximadamente US$ 175 bilhões nos anos FHC (mais ou menos 100 bilhões em venda de empresas nacionais) para US$ 440 bilhões depois que o PT chegou ao poder.

A dívida pública líquida (o que o país deve, fora o que tem guardado no banco), que, apesar das privatizações, dobrou no Governo Fernando Henrique, para quase 60%, caiu para 35%, agora, 11 anos depois do PT chegar ao poder.

Quanto à questão fiscal, não custa nada lembrar que a média de déficit público, sem desvalorização cambial, dos anos FHC, foi de 5,53%, e com desvalorização cambial, de 6,59%, bem maior que os 3,13% da média dos anos que se seguiram à sua saída do poder; e que o superavit primário entre 1995 e 2002 foi de 1,5%, muito menor que os 2,98% da média de 2003 e 2013 – segundo Ipeadata e o Banco Central – nos governos do PT.

E, ao contrário do que muita gente pensa, o Brasil ocupa, hoje, apenas o quinquagésimo lugar do mundo, em dívida pública, em situação muito melhor do que os EUA, o Japão, a Zona do Euro, ou países como a Alemanha, a França, a Grã Bretanha – cujos jornais adoram ficar nos ditando regras e “conselhos” – ou o Canadá.

Também ao contrário do que muita gente pensa, a carga tributária no Brasil caiu ligeiramente, segundo o Banco Mundial, de 2002, no final do governo FHC, para o último dado disponível, de dez anos depois, e não está entre a primeiras do mundo, assim como a dívida externa, que caiu mais de 10 pontos percentuais nos últimos dez anos, e é a segunda mais baixa, depois da China, entre os países do G20.

Não dá, para, em perfeito juízo, acreditar que os advogados, economistas, empresários, jornalistas, empreendedores, funcionários públicos, majoritariamente formados na universidade, que bateram panelas contra Dilma em suas varandas, há poucos dias, acreditem mais nos boatos das redes sociais, do que no FMI e no Banco Mundial, organizações que podem ser taxadas de tudo, menos de terem sido “aparelhadas” pelo governo brasileiro e seus seguidores.

Considerando-se estas informações, que estão, há muito tempo, publicamente disponíveis na internet, o grande mistério da economia brasileira, nos últimos 12 anos, é saber em que dados tantos jornalistas, economistas, e “analistas”, ouvidos a todo momento, por jornais, emissoras de rádio e televisão, se basearam, antes e agora, para tirar, como se extrai um coelho da cartola – ou da "cachola" – o absurdo paradigma, que vêm defendendo há anos, de que o Governo Fernando Henrique foi um tremendo sucesso econômico, e de que deixou “de presente” para a administração seguinte, um país econômica e financeiramente bem-sucedido.

Nefasto paradigma, este, que abriu caminho, pela repetição, para outra teoria tão frágil quanto mentirosa, na qual acreditam piamente muitos dos cidadãos que vão sair às ruas no próximo domingo: a de que o PT estaria, agora, jogando pela janela, essa – supostamente maravilhosa – “herança” de Fernando Henrique Cardoso, colocando em risco as conquistas de seu governo.

O pior cego é o que não quer ver, o pior surdo, o que não quer ouvir.

Está certo que não podemos ficar apenas olhando para o passado, que temos de enfrentar os desafios do presente, fruto de uma crise que é internacional, que faz com que estejamos crescendo pouco, embora haja diversos países ditos “desenvolvidos” que estejam muito mais endividados e crescendo menos do que nós.

Assim como também é verdade que esse governo não é perfeito, e que se cometeram vários erros na economia, que poderiam ter sido evitados, principalmente nos últimos anos.

Mas, pelo amor de Deus, não venham  nos impingir nenhuma dessas duas fantasias, que estão empurrando muita gente a sair às ruas para se manifestar: nem Fernando Henrique salvou o Brasil, nem o PT está quebrando um país que em 2002 era a 14ª maior economia do mundo, e que hoje já ocupa o sétimo lugar.

Em pleno bombardeio institucional – Dilma Rousseff foi vaiada em uma feira de construção em São Paulo, apesar de seu governo ter financiado a edificação de dois milhões de casas populares – e às vésperas da realização de manifestações pedindo o impeachment da Presidenta da República, sua assessoria preparou um discurso, para a sua estreia em rede nacional de rádio e televisão, no segundo mandato, rico em lero-lero e pobre em informações.

O grande dado econômico dos “anos PT” não são os US$ 370 bilhões de reservas monetárias, que deveriam, sim, ter sido mencionados, ao lado do fato de que eles substituem, hoje, os 18 bilhões que havia no final do governo FHC, exclusivamente, por obra e graça de um empréstimo de 40 bilhões do FMI, que foi pago em 2005 pelo governo Lula.

Nem mesmo a condição que o Brasil ocupa, agora, segundo o próprio site oficial do tesouro norte-americano, de quarto maior credor individual externo dos Estados Unidos.

Mas o fato de que o PIB, apesar de ter ficado praticamente estagnado em 2014, saiu de US$ 504 bilhões em 2002, para US$ 2 trilhões e 300 bilhões, em 2013, com um crescimento de mais de 400% em 11 anos, performance que talvez só tenha sido ultrapassada, nesse período, pela China.

E, isso, conforme, não, o IPTE – como está sendo apelidado o IBGE pelos hitlernautas de plantão nas redes sociais – mas segundo estatísticas da série histórica do site oficial do Banco Mundial. Faltou também dizer que não houve troca de dívida pública externa por interna, já que, no período, a dívida pública líquida caiu de quase 60% do PIB, em 2002, para aproximadamente 35%, agora, depois de ter praticamente duplicado no governo Fernando Henrique, com relação ao final do governo Itamar Franco.

Há outros dados que poderiam negar a tese de que o país inviabilizou-se, economicamente, nos últimos anos, como o aumento do salário mínimo de US$ 50 para mais de US$ 250 em menos de 12 anos, ou a produção de grãos e de automóveis ter praticamente duplicado no período.

É claro que o PT cometeu erros graves, como estimular a venda de carros sem garantir a existência de fontes nacionais de combustíveis, gastando bilhões de dólares no exterior na compra de gasolina, quando poderia ter subsidiado, em reais, a venda de etanol nacional no mercado interno, diminuindo a oferta de açúcar no mercado internacional, enxugando a disponibilidade e aumentando os ganhos com a exportação do produto.

Ou o de dar início a grandes obras de infraestrutura – de resto absolutamente necessárias – sem se assegurar, antes, por meio de rigoroso planejamento e negociação, que elas não seriam interrompidas dezenas de vezes, como foram.

Quem quiser, pode encontrar outros equívocos, que ocorreram nestes anos, e que poderiam ter sido corrigidos com a participação de outros partidos, até mesmo da base "aliada", se sua "colaboração" não se limitasse ao interesse mútuo na época das campanhas eleitorais, e à chantagem e ao jogo de pressões propiciados pelos vícios de um sistema político que precisa ser urgente e efetivamente reformado.

Mas o antipetismo prefere se apoiar, como Goebbels, na evangelização de parte da opinião pública com mentiras, a apontar os erros reais que foram cometidos, e debruçar-se na apresentação de alternativas que partam do patamar em que o país se encontra historicamente, agora.

Soluções que extrapolem a surrada e permanente promoção de receitas neoliberais que se mostraram abjetas, nefastas e indefensáveis no passado, e a apologia da entrega, direta e indireta, do país e de nossas empresas, aos interesses e ditames estrangeiros. No discurso do governo – súbita e tardiamente levado a reagir, atabalhoadamente, pela pressão das circunstâncias – continua sobrando "nhenhenhém" e faltando dados, principalmente aqueles que podem ser respaldados com a citação de fontes internacionais, teoricamente acima de qualquer suspeita, do ponto de vista dos "analistas" do "mercado". Isso, quando o seu conteúdo – em benefício, principalmente, do debate – deveria ser exatamente o contrário.

Publicado originalmente no Jornal do Brasil

falta de água em SP

Por que Abril e Globo são clientes 'premium' da Sabesp e têm gordos descontos?

por Pedro Zambarda de Araujo, para o DCM publicado 12/03/2015 10:29, última modificação 12/03/2015 11:14
Milton Michida/Governo do estado de SP
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A Sabesp comandada por Alckmin continuou privilegiando a lucratividade, mesmo com evidências de desabastecimento

O jornal El País divulgou na terça-feira (10) uma lista de 537 clientes que recebem até 75% de desconto no uso de sua água fornecida pela Sabesp. São grandes empresas, como o McDonald’s, indústrias e até a companhia de bebidas Bacardi. Entre elas, estão a Abril, a Globo, a Record e o portal UOL.

O Estadão estava originalmente na lista, publicada às 10h da manhã no El País. Ela foi atualizada com mais nomes às 17hrs do mesmo dia e o jornal sumiu. O texto divulgado pela Agência Estado não fala, obviamente, da primeira listagem.

Por qual motivo essas companhias ganham expressivos descontos, enquanto o cidadão comum paga cada vez mais caro e pode receber multas de até 250 reais por lavar a calçada?

Quarenta e dois clientes iniciaram seus contratos em 2014, quando a escassez no sistema Cantareira já havia acionado as cotas de volume morto. Ou seja, a Sabesp deveria ter evitado novos acordos com estes descontos, pois eles gastam 1,8 bilhão de litros e foram responsáveis pela alta de 5,4% no consumo anual.

As mais de 500 companhias recebem gordos descontos porque a Sabesp negocia seus contratos “no atacado”. O fornecimento leva em conta que um shopping com o porte de um Eldorado consome pelo menos 20 milhões de metros cúbicos de água para atender um público 1,8 milhão de pessoas por mês, um valor muito superior aos 15 mil litros consumidos por uma família de quatro pessoas no mesmo período de tempo.

O cliente pessoa física é tratado como se estivesse “no varejo”, com uma tarifa proporcionalmente maior.

Os critérios para escolha dos clientes “premium” são técnicos, de acordo com a Sabesp. Por que praticar estes preços? Para manter a alta lucratividade em cima da venda de grandes volumes. Se grandes grupos pagassem os mesmos R$ 13,97 do consumo doméstico, teriam que racionar água, diminuindo o consumo e balançando o faturamento da empresa que é fornecedora de recursos hídricos do estado de São Paulo.

Com isso, provavelmente a população teria níveis hídricos mais confortáveis para enfrentar a estiagem que foi forte em 2014 e que deve voltar neste ano.

O ex-presidente por trás dos contratos

Gesner Oliveira tem 58 anos, é economista pela FEA-USP e doutor pela Universidade da Califórnia. Ele tem história no setor público como secretário adjunto da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda de 1993 a 1995, como secretário interino de acompanhamento econômico do Ministério da Fazenda, também em 1995 e como presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) entre 1996 e 2000. Foi presidente da Sabesp entre 2007 e 2010, quando formalizou os contratos de demanda firme.

Oliveira chegou a afirmar, em fevereiro, que a Sabesp já deveria ter suspendido o privilégios dos “premium”.

O DCM obteve acesso exclusivo a uma apresentação feita por Oliveira à Câmara dos Vereadores para a CPI da Sabesp. No documento apresentado no dia 5 de novembro de 2014, chamado “Futuro da água: uma agenda para a sociedade civil e diferentes esferas de governo”, ele pede que a sociedade e o governo mudem radicalmente de comportamento em relação à água, sem mencionar as empresas. Atualmente, atua como consultor privado em negócios que incluem o setor de gestão hídrica.

Conflito de interesses

Há um conflito claro de interesses na maneira como a crise é coberta pelos veículos dos dois grupos de mídia incluídos na lista “premium”. Não se trata apenas de alinhamento “ideológico”.

A Abril, através de suas revistas, não atribui qualquer responsabilidade ao governador Geraldo Alckmin, enquanto a Globo mantém seus jornalistas focados na questão da seca do sudeste, sem fazer questionamentos sobre a atuação da empresa fornecedora de água.

O site da Veja não noticiou as demissões recentes dentro da Sabesp, o que era de se esperar, mas a Exame dá destaque à ameaça de greve dos sindicalistas e à baixa das ações. Eventualmente, publicações segmentadas da Abril relatam contaminação durante a crise hídrica.

O UOL foi até a represa Atibainha, em Nazaré Paulista, fotografar o carro que se tornou símbolo da seca no Cantareira, mas dá manchetes animadas quando ocorrem chuvas, sendo que o nível das represas não superou nem a segunda cota do volume morto. Já a Record faz uma cobertura parecida com a da TV Globo, atenta à seca mas pouco crítica.

O Fantástico conseguiu ir a Itu contar o drama da cidade e em nenhum momento citou o nome de Alckmin ou de alguma outra autoridade estadual. Não apareceu em cena sequer a famosa frase “entramos em contato com a assessoria do governador Geraldo Alckmin, mas ele não quis responder”.

Falta água, mas uma mão lava a outra.

Leia a publicação original no Diário do Centro do Mundo

reações

Por quem as panelas batem?

por Luiz Marinho, no Brasil 247 publicado 09/03/2015 18:23, última modificação 10/03/2015 10:18
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Peço licença para parodiar o poeta maluco beleza, pois essa pergunta martela na minha cabeça desde a noite do último domingo, 8 de março. Li, naquela mesma noite, em sites de notícias, que havia acontecido manifestações em prédios de bairros nobres de algumas capitais brasileiras no momento em que a presidenta Dilma se pronunciava pela passagem do Dia Internacional da Mulher e sobre os ajustes que estão sendo feitos para combater a crise econômica que atinge nossa economia e de vários países. Manifestações essas mobilizadas pelas redes sociais.

Pois bem. Será que essas panelas batem por que não há carros de luxo para pronta entrega nas concessionárias, já que a oferta está muito menor do que a demanda? Será que batem por que as filas de espera em restaurantes de luxo continuam grandes? Ou será que batem por que as viagens a Miami e os gastos de brasileiros no exterior continuam crescendo? Talvez seja.

Só tenho certeza que elas não batem pelos milhões de brasileiros que nos últimos anos, durante os governos Lula e Dilma, deixaram a linha da pobreza. Ou pelos outros milhões que chegaram à classe média. Assim como não batem pelos milhões de brasileiros que, desde a chegada de Lula à presidência, conseguiram ingressar em um curso superior, seja pela criação de milhares de vagas em universidades públicas ou beneficiados pelo Prouni ou Fies.

Sei que elas não batem por aquelas milhões de famílias que hoje têm um teto para morar graças ao programa Minha Casa, Minha Vida. Nem pelos milhões que conseguiram comprar o seu carrinho ou andar de avião pela primeira vez nos últimos anos. Sim, paradoxalmente as panelas não batem por aqueles que mais precisam do Estado em nosso país.

Leonardo Boff, em recente artigo intitulado "O que se esconde atrás do ódio ao PT?", explica bem esse fenômeno.

Entendo como democráticas manifestações de opiniões contrárias. Pois é com o contraditório que construímos os melhores caminhos. É pelo confronto de ideias que elaboramos os consensos necessários à democracia. Contudo, quando manifestações são instrumentalizadas para a defesa de interesses mesquinhos e externos ao nosso país, não posso calar-me. Sim, o momento é difícil. Demandará ajustes duros em alguns casos. Mas nada, absolutamente nada parecido com que os representantes que articulam hoje essas manifestações fizeram quando estavam no governo.

Os interesses da imensa maioria dos brasileiros foram e sempre serão defendidos pelos governos do PT. A nossa opção pelos mais pobres, pelos trabalhadores e trabalhadoras, pelos pequenos e microempresários, pelo pequeno agricultor é clara e manifesta. E desta linha não nos afastaremos.

Aqueles que têm tido seus interesses contrariados – em especial o grande capital especulativo internacional e os seus representantes aqui no Brasil, que manifestadamente instrumentalizam uma falsa crise para mobilizar a classe média alta brasileira, apostando no ódio contra o PT e a presidenta -, tenham a certeza de que mais uma vez perderão. Pois a esperança vencerá. E a esperança estará nas ruas sempre que a construção deste país mais justo, igualitário e forte for colocada em risco por oportunistas ingênuos ou mal intencionados.

Luiz Marinho (PT) é prefeito de São Bernardo do Campo


mistura explosiva

Estados religiosos são antidemocráticos por definição

Crenças, seitas e grupos de fé têm todo o direito de orientar seus seguidores a se comportarem diante de fenômenos sociais. Mas não podem querer impor essas orientações a todos, fiéis ou não fiéis
por Emir Sader, para a Rede Brasil Atual publicado 09/03/2015 05:00, última modificação 08/03/2015 18:36
EFE/EPA/CARMEN JASPERSEN
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Direito à religião é livre e fundamental é preservar a cada indivíduo o direito de escolha

Uma das principais conquistas da modernidade foi a separação entre religião e política, entre opções da vida privada e da vida pública. Todos somos iguais diante da lei – e a lei é igual para todos -, independentemente das nossas opções religiosas, sexuais, de time futebol e todas as outras da nossa vida privada.

Seguem tantas outras desigualdades, típicas do capitalismo, mas pelo menos juridicamente somos iguais, temos que conviver com as opiniões e valores alheios, que têm tanto a direito a existir como as minhas e as tuas, mas que não dá a ninguém maiores direitos na esfera pública.

Os Estados religiosos são antidemocráticos por definição. Os que pertencem a uma determinada religião, ou a uma corrente dentro da religião dominante, têm privilégios, enquanto os outros são inclusive perseguidos por sua crença religiosa. Os palestinos são cidadãos de segunda classe em Israel, assim como são os sunitas no Iraque.

As ações brutais do autodenominado Estado Islâmico representam uma radicalização dessas posições. Atacam e executam os que se declaram fiéis a religiões que eles consideram não apenas equivocadas, mas que pregam crenças caracterizadas por eles como impostoras diante do que eles veneram. A destruição de cidades históricas porque veneram ídolos que eles execram é a extensão natural dessas concepções fundamentalistas.

Por aqui – e em muitos outros lugares – também a ingerência na política de correntes religiosas de várias matizes vai na mesma direção, ainda que sem esse grau de radicalidade. Tentam impor suas concepções religiosas à sociedade como um todo. Elas têm todo o direito de orientar seus fiéis a como se comportarem diante de fenômenos como o divórcio, o aborto, a homossexualidade, as drogas, entre outros. Mas não podem querer impor essas orientações a todos, fiéis ou não fiéis.

O Estado tem a obrigação, por exemplo, de colocar à disposição de todas as mulheres as melhores condições para a realização do aborto, em caso de gravidez comprovadamente indesejada, considerando que este é um fenômeno social amplamente existente na sociedade, realizado em condições relativamente boas por quem tem recursos econômicos e em péssimas condições – com graves sequelas – pela grande maioria, pobre e vulnerável.

O Estado é laico, não se pronuncia sobre a natureza da decisão pelo aborto, não o recomenda ou se pronuncia contra, mas coloca à disposição as condições de sua realização, para os que consideram que devem apelar para ele.

O Estado não intervém nas religiões e estas não intervêm nas esferas do Estado. A mistura da religião com a política não é democrática. De alguma forma elas se contrapõem. Uma é universal, laica, a outra é composta por seitas, formadas por fiéis.

A democracia respeita as opções privadas das pessoas, garante que elas possam fazer suas escolhas livremente. A separação entre o Estado e as igrejas é uma condição da democracia.

versões

As 'duas faces' de Vladimir Putin

Orquestrada pelos interesses dos EUA e com apoio de grande parte da Europa está em preparação a terceira guerra mundial, tendo o presidente russo como o 'demônio antidemocrático' da vez
por Antonio Martins, para o Outras Palavras publicado 05/03/2015 09:36, última modificação 05/03/2015 10:48
EFE/ALEXEI DRUGINYN / RIA NOVOSTI / KREMLIN POOL
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Vladimir Putin é obstáculo aos planos americanos, que visam sobretudo barrar a ascensão mundial da China

Dois intelectuais de projeção internacional publicaram, nas últimas semanas, textos provocadores sobre a Rússia e seu presidente, Vladimir Putin. O escritor e cineasta britânico John Pilger, sempre elogiado por Noam Chomsky, destacou que os grandes jornais do Ocidente conduzem, contra Moscou, uma campanha de mentiras semelhante à dirigida contra o Iraque, às vésperas da invasão norte-americana. Pilger está convencido de que o noticiário internacional no Ocidente deixou-se enquadrar, como na Guerra Fria, pela posição do governo norte-americano. Esta atitude servil ampliaria os riscos de que se concretizem as previsões mais sombrias de George Orwell e submeteria, inclusive, publicações antes respeitáveis e charmosas, como The Guardian. Já o sociólogo Boaventura Sousa Santos advertiu: "Tudo leva a crer que está em preparação a terceira guerra mundial. É uma guerra provocada unilateralmente pelos EUA com a cumplicidade ativa da UE. O seu alvo principal é a Rússia e, indiretamente, a China".

Como cotejar estes alertas com os textos, abundantes também no Brasil, segundo os quais a Rússia atual seria, em essência, um túmulo das liberdades – um Estado autoritário e conservador? E para os quais seu presidente é um populista disposto a provocar conflitos externos apenas para ampliar, por meio deles, suas chances de sobrevivência? Talvez dois textos publicados hoje por Outras Palavras ajudem a construir uma equação com mais nuances acerca do tema.

A primeira matéria é uma reportagem da jornalista Amelia Gentleman, do próprio The Guardian, sobre a situação atual da banda punk Pussy Riot – em especial Nadya Toloknnikova, talvez sua principal referência. Ela está em liberdade desde dezembro de 2013, quando foi anistiada por decreto presidencial. Porém, passou 18 meses encarcerada, apenas por praticar uma performance antigoverno na Catedral de Moscou. Parte da pena foi cumprida num campo de trabalhos forçados. Nadya, que se corresponde regularmente com o filósofo Slavoj Zizek (parte da correspondência foi editada em livro, Comradely Greetings), acredita que sua atividade na internet é vigiada e de que, devido a sua presença frequente num café de Moscou, aparelhos de escuta foram instalados no local.

Não é um relato isolado. País com escassa história democrática, a Rússia continua distante do respeito amplo às liberdades e direitos humanos. Há eleições regulares para Executivo e Legislativo, porém com constantes denúncias de pouca transparência, especialmente nos pleitos parlamentares (a eleição de Vladimir Putin à Presidência, em 2012, parece ter se dado em condições nitidamente melhores). Embora inexista censura prévia à imprensa, 47 jornalistas foram mortos desde 1992 (trinta deles, no governo pró-ocidental de Boris Yeltsin), sem que os casos tenham sido suficientemente investigados. A liberdade de manifestação é muitas vezes anulada por repressão policial (em especial em regiões distantes de Moscou). Condenações judiciais draconianas são usadas, em alguns casos (como o das Pussy Riots) como forma encoberta de perseguição política. Há denúncias de tortura e abusos nos cárceres e quartéis.

Mas este déficit democrático interno deveria desencadear uma demonização da Rússia e de seu presidente, conforme pretendem a Casa Branca e celebridades como o multibilionário George Soros? Num outro texto, o analista político Selmas Milne argumenta que não. Washington não hostiliza Putin por desejar uma Rússia e um mundo melhor, sugere ele. Age para isolá-lo porque Moscou converteu-se, ao contrário, num grande obstáculo aos planos de construir uma ordem internacional baseada em guerra, vigilância permanente e poder imperial.

Que autoridade têm os EUA para falar de democracia? – pergunta Milne. Não são eles que apoiam ditaduras, sempre que estas atendem a seus interesses estratégicos? Não sustentaram regimes despóticos e fundamentalistas, como o da Arábia Saudita, berço do Emirado Islâmico? Não ajudaram a esmagar a Primavera Árabe, exatamente no momento em que ela estimulava movimentos rebeldes na Europa (Indignados) e na própria América do Norte (Occupy)?

Putin, frisa ainda Milne, não é um democrata, mas um "nacionalista oligárquico". Mas esta condição, paradoxalmente, leva-o a enxergar a ameaça que Washington representa para a Rússia e para o mundo. E ele tem poder e vontade política suficientes para se contrapor. Graças a tal atitude, Edward Snowden não está preso numa masmorra militar nos EUA, mas refugiou-se em Moscou, onde vive em liberdade. Haveria inteligência em desconhecer este paradoxo? Ou, dito de outra forma: isolar e neutralizar o Estado nacional que resiste mais intensamente aos EUA serviria a quem?

Dois fatos emblemáticos podem ajudar a encontrar a resposta. Na manhã de segunda-feira (2/3), Barack Obama condenou, em entrevista à imprensa, o assassinato do ex-banqueiro e ex-ministro russo Boris Nemtsov, ocorrido na véspera (não há, até o momento, nenhum indício de que Moscou tenha algum envolvimento no crime). O presidente dos EUA considerou que o clima político vivido pela Rússia não é compatível com os direitos humanos.

Hoje pela manhã, o mesmo Barack Obama reuniu-se na Casa Branca com um grupo de assessores seletos, para uma tarefa que se transformou em rotina às terças-feiras. A partir de uma lista de suspeitos (denominada kill list) organizada pela CIA, o presidente decidiu quais inimigos políticos dos EUA serão executados, nos próximos dias, por tiros disparados de drones.

As vítimas não têm o mínimo direito de defesa ou processo judicial. Até agora, estima-se que entre 2769 e 4494 pessoas foram liquidadas assim, no Paquistão, Yêmen e Somália – três delas no último domingo.

Em nome da democracia e dos direitos humanos, isolemos a Rússia e Vladimir Putin!

A banca

O sistema financeiro trava a economia do país

Não é mais possível não vermos o papel dos atravessadores que travam a economia. Não há PIB que possa avançar com tantos recursos desviados
por Ladislau Dowbor publicado 04/03/2015 09:29, última modificação 04/03/2015 10:57
arquivo
dolares

Lucros dos intermediários financeiros avançam, mas PIB permanece em torno de 1%. País trabalha, mas não avança

A conta é simples.

O crédito no país representa cerca de 60% do PIB. Sobre este estoque incidem juros, apropriados por intermediários financeiros. Analisar esta massa de recursos, na sua origem e destino, é por tanto fundamental.

É bom lembrar que o banco é uma atividade “meio”, a sua produtividade depende de quanto repassa para o ciclo econômico real, não de quanto dele retira sob forma de lucro e aplicações financeiras. Aqui simplesmente foram juntadas as peças, conhecidas, pare evidenciar a engrenagem, pois em geral não se cruza o crediário comercial com as atividades bancárias formais e os ganhos sobre a dívida pública, e muito menos ainda com os fluxos de evasão para fora do país.

O principal entrave ao desenvolvimento do país aparece com força.

O reajuste financeiro é vital, não o reajuste fiscal proposto, compreensível este último mais por razões de equilíbrios políticos do que por razões econômicas.

(Aqui vai o esqueleto do artigo de 14 páginas sobre o sistema, veja o artigo completo aqui.)

Pense que o crediário cobra, por exemplo, 104% para “artigos do lar” comprados a prazo. Acrescente os 238% do rotativo no cartão, os mais de 160% no cheque especial, e você tem neste caso mais da metade da capacidade de compra dos novos consumidores drenada para intermediários financeiros, esterilizando grande parte da dinamização da economia pelo lado da demanda. O juro bancário para pessoa física, em que pese o crédito consignado, que na faixa de 25 a 30% ainda é escorchante, mas utilizado em menos de um terço dos créditos, é da ordem de 103% segundo a Anefac.

A população se endivida muito para comprar pouco no volume final. A prestação que cabe no bolso pesa no bolso durante muito tempo. O efeito demanda é travado.

arquivo ladislau
O analista Ladislau Lowbor
Os bancos e outros intermediários financeiros demoraram pouco para aprender a drenar o aumento da capacidade de compra do andar de baixo da economia, esterilizando em grande parte o processo redistributivo e a dinâmica de crescimento.

Efeito semelhante é encontrado no lado do investimento, da expansão da máquina produtiva, pois se no ciclo de reprodução o grosso do lucro vai para intermediários financeiros, a capacidade do produtor expandir a produção é pequena, acumulando-se os efeitos do travamentos da demanda e da fragilização da capacidade de reinvestimento.

Quanto ao financiamento bancário, os juros para pessoa jurídica são proibitivos, da ordem de 40 a 50%, e criar uma empresa nestas condições não é viável. Existem linhas de crédito oficiais, mas compensam em parte apenas a apropriação dos resultados pelos intermediários financeiros.

Terceiro item da engrenagem, a taxa Selic. Com um PIB de 5 trilhões, um por cento do PIB representa 50 bi. Se o superávit primário está fixado em 4% do PIB, por exemplo, são cerca 200 bi dos nossos impostos transferidos essencialmente para os grupos financeiros, a cada ano. Com isso se esteriliza parte muito significativa da capacidade do governo de financiar mais infraestruturas e políticas sociais. Além disso, a Selic elevada desestimula o investimento produtivo nas empresas, pois, é mais fácil – risco zero, liquidez total – ganhar com títulos da dívida pública.

E para os bancos e outros intermediários, é mais simples ganhar com a dívida do que fomentar a economia buscando bons projetos produtivos, o que exige identificar clientes, analisar e seguir as linhas de crédito, ou seja, fazer a lição de casa. Os fortes lucros gerados na intermediação financeira terminam contaminando o conjunto dos agentes econômicos.

Assim entende-se que os lucros dos intermediários financeiros avancem de 10% quando o PIB permanece em torno de 1%, e o desemprego seja tão pequeno: o país trabalha, mas os resultados são drenados pelos crediários, pelos juros bancários para pessoa física, pelos juros para pessoa jurídica e pela alta taxa Selic. É a dimensão brasileira da financeirização mundial.

Fechando a ciranda, temos a evasão fiscal. Com a crise mundial surgem os dados dos paraísos fiscais, na faixa de 20 trilhões de dólares segundo o Economist, para um PIB mundial de 70 trilhões. O Brasil participa com um estoque da ordem de 520 bilhões de dólares, cerca de 25% do nosso PIB. Ou seja, estes recursos que deveriam ser reinvestidos no fomento da economia, não só são desviados para a especulação financeira, como sequer pagam os impostos no nível devido.

Já saíram, por exemplo, os dados do Itaú e do Bradesco no Luxemburgo, bem como domispricing (fraude nas notas fiscais) que nos custa 100 bi/ano, enviados ilegalmente para o exterior, segundo pesquisa do Global Financial Integrity, além dos fluxos canalizados pelos HSBC e outros bancos.

Junte-se a isto o fato dos nossos impostos serem centrados nos tributos indiretos, com os pobres pagando proporcionalmente mais tributos do que os ricos, e temos o tamanho do desajuste. De certa forma, temos aqui o espelho do que o Piketty analisa para os países desenvolvidos. O artigo completo abaixo constitui uma sistematização do mecanismo, apresentado de uma forma que qualquer não economista possa entender. E se trata do bolso de todos nós. As contas batem. Os dados são conhecidos, aqui se mostra como se articulam.

O texto anexo não é um “artigo” de opinião acadêmica, e sim um relatório sobre como a engrenagem foi montada. Uma ferramenta que espero seja útil para nos direcionarmos, pois precisamos de muito mais gente que se dê conta de como funciona o nosso principal entrave.

Não há PIB que possa avançar com tantos recursos desviados.

O problema não é só de um “ajuste fiscal”, e sim de um ajuste fiscal-financeiro mais amplo.

Tanto o consumidor, como o empresário-produtor e o Estado na sua qualidade de provedor de infraestruturas e de políticas sociais têm tudo a ganhar com isto. Um empresário com quem discuti este texto me disse que estava gastando mais com juros do que com a folha de pagamento. Aqui temos até interesses comuns entre empresários efetivamente produtivos, situados na economia real, e os trabalhadores que querem se tornar mais produtivos e ganhar melhor.

Não é mais possível não vermos o papel dos atravessadores que travam a economia.

Ladislau Dowbor, formado em economia política, é professor titular no Departamento de Pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, nas áreas de economia e administração

brutalidades

Cachos de sangue na Guatemala: o apetite voraz do mercado de bananas dos EUA

Mortes de sindicalistas se multiplicam no país da América Central, sede da United Fruit e, atualmente, um perigoso mundo para trabalhadores que reivindicam direitos e dignidade
por Leonardo Wexell Severo* publicado 03/03/2015 12:36, última modificação 03/03/2015 14:23
Joka Madruga
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Fazenda de bananas na Guatemala: trabalhadores vive onda de brutalidades e clamam por solidariedade internacional

A cerca de 200 quilômetros a noroeste da capital da Guatemala está localizado o sítio arqueológico de Quiriguá. Entre outras belezas erguidas pela nação maia, seus três quilômetros quadrados ostentam os mais altos monumentos de pedra erigidos em todo o continente americano.

Desde 1910 este patrimônio da Humanidade foi entregue pelos marionetes de plantão como generosa concessão à United Fruit Company (UFCO), a Fruteira, que o manteve como ilha em meio ao seu mar de bananas. É um parque exuberante, ocupado desde os 200 d.C., escolhido pelos maias pela proximidade com o rio Montágua, para o qual confluíam várias rotas comerciais. Mais recentemente, nas décadas de chumbo, suas caudalosas águas tingiram-se de vermelho. Corpos rebeldes boiaram ao sabor dos humores da multinacional estadunidense e dos apetites do "mercado".

Especializado no tema, o Portal Frutícola estimava que em 2014 cerca de 95% das bananas exportadas pela Guatemala foram direcionadas para os EUA, "onde os consumidores já contam que o produto siga sendo um dos mais baratos na seção de frutas e hortaliças".

Para isso, além do clima, altamente favorável à produção bananeira, a nação centro-americana conta com os ricos solos vulcânicos da costa do Pacífico e os microscópicos salários e direitos, resultado do cerco à organização dos trabalhadores. Quando não há entidade sindical, lembra o www.portalfruticola.com, "por 100 quetzales (US$ 12,90), um trabalhador bananeiro do sul pode trabalhar 12 horas diárias, saindo de casa às quatro horas da manhã e retornando ao redor das oito ou nove da noite".

Bem em frente ao parque de Quiriguá, como se despejasse sobre nós o peso das suas formidáveis rochas, se ergue o portão da Companhia de Desenvolvimento Bananeiro da Guatemala S.A., comercialmente conhecida como Bandegua, subsidiária da multinacional fruteira Del Monte Fresh, a segunda maior do mundo.

No retrato hostil da guarita de segurança, homens fortemente armados destilam a prepotência e a arrogância de quem sabe que seus patrões estão no comando. Que são eles que dirigem o país com a sua lei da selva.

Sucessivas denúncias na Organização Internacional do Trabalho (OIT) e em tribunais internacionais sobre os crimes praticados contra a organização - e a própria vida dos trabalhadores - garantiram que as armas fossem abaixadas provisoriamente. Que os portões se abrissem para que a nossa reportagem adentrasse o enclave e, quem sabe, abrandasse o ímpeto investigativo, minorando o estrago da verdade.

Tiro ao Alvo

Atualmente, para a formação de um sindicato na Guatemala é obrigatório que se comunique o governo com antecedência. Isso dá tempo para que os caçadores dos trabalhadores, os que ousaram assinar a proposição pela entidade, tenham tempo de encontrar o alvo e calibrar sua pontaria.

Passado o curto período democrático de 1944 a 1954, lembra Victoriano Zacarías, dirigente da Central Geral de Trabalhadores da Guatemala (CGTG), "se desencadeou uma grande repressão, com perseguições, ameaças e assassinatos". Mesmo depois de assinada a paz, em 1996, sublinhou, "as mortes se multiplicaram, com a Guatemala sendo, neste momento, o segundo país mais perigoso do mundo para os sindicalistas".

Entre muitos exemplos, descreveu Victoriano, está o dos trabalhadores do campo em Escuintla, que em 2007 decidiram se associar ao Sindicato de Trabalhadores Bananeiros do Sul (Sitrabansur). "A história do sindicato é curta, porém significativa", aponta o Portal Frutícola. "Menos de um ano depois de formada a organização, o dirigente sindical Miguel Ángel Ramírez foi assassinado a tiros. Um mês mais tarde, a filha do secretário geral do Sindicato foi estuprada por homens armados. O sindicato se dissolveu pouco depois sem que nenhuma outra direção tenha assumido". Desnecessário dizer que a "investigação" não deu em nada e que os culpados continuam soltos.

O exemplo do Sitrabi

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Carro de Idar Godoy, destruído pela repressão ao movimento sindical

Nesse quadro, a existência de uma entidade como o Sindicato de Trabalhadores Bananeiros do Departamento de Izabal (Sitrabi), no norte, representa um verdadeiro feito. A organização foi fundada em 9 de junho de 1947 com o nome de Sindicato da Empresa de Trabalhadores da United Fruit Company (SETUFCO). Trinta anos depois, quando a Mamita Yunai (como a transnacional passou a ser conhecida) decidiu vender suas propriedades à Del Monte, os trabalhadores renomearam sua entidade para Sitrabi.

Maior sindicato do setor privado do país, sexto maior sindicato bananeiro do mundo, o Sitrabi tem garantido os melhores salários e os maiores benefícios aos trabalhadores guatemaltecos, como moradia, luz e água potável gratuitamente. Mas estas vitórias, fruto da unidade e da mobilização, têm cobrado o seu preço com a crescente ira da transnacional, como bem o demonstra a quantidade de vidas ceifadas.

Quando visitamos o local, haviam sido 12 assassinatos, cinco em menos de um ano.

A brutalidade contra a entidade é tão atroz quanto a impunidade que cerca a matança de seus membros: Oscar Humberto Gonzáles Vásquez, diretor de base, tombou no dia 10 de abril de 2011 com 35 tiros na cabeça e nas costas.

Naquele mesmo ano, Idar Joel Hernandez Godoy, secretário de Finanças do Comitê Executivo Central do Sitrabi foi alvejado no dia 26 de maio por homens numa motocicleta e teve seu carro semidestruído, após chocar-se com um caminhão. Em 24 de setembro foi a vez de Henry Aníbal Marroquín Orellana cair com 17 tiros, a poucos metros da guarita de segurança da Finca Quiriguá. Em 16 de outubro, Pablino Yaque Cervantes tombou com oito tiros. No dia 5 de fevereiro de 2012, em meio à campanha salarial, foi a vez de Miguel Ángel González Ramírez ser liquidado com uma saraivada de balas enquanto caminhava com seu pequeno filho no colo.

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Dirigente sindical Idar Joel Hernandez Godoy, amplia mortes violentas de lideranças dos trabalhadores

O país ratificou as Convenções da Organização Internacional do Trabalho (OPIT) de números 87 – sobre a liberdade sindical e a proteção ao direito de sindicalização – e 98 –  esta sobre o direito de sindicalização e de negociação coletiva, durante o governo do presidente Juan José Arévalo, em 1948 e 1949.

Mas na prática, após a deposição de seu sucessor, Jacobo Árbenz, em junho de 1954, tais direitos viraram letra morta. Como boa parte das lideranças que tentam fazer desta teoria uma realidade.

Assassinato a domicílio

Secretário de Cultura e Esporte do Sitrabi e responsável pela sua subseção na Finca Yuma, Marco Túlio Ramírez Portela foi morto em frente à sua casa, às 5h45 do dia 23 de setembro de 2007, ao lado de sua esposa e duas filhas, quando saia para o trabalho. Conforme a denúncia encaminhada ao governo e aos organismos internacionais, "o crime foi perpetrado por quatro homens fortemente armados que tinham os rostos cobertos com tocas ninja dentro das instalações da propriedade da Bandegua, subsidiária da Del Monte Fresh".

Para ingressar no local onde ocorreu o crime, os matadores tiveram de passar pelas duas guaritas de segurança. Guardas precisariam ter autorizado o seu ingresso, da mesma forma que para sair.

"Estas guaritas se encontram sob custódia de agentes da empresa de segurança privada conhecida como Serpror que, além disso, realiza rondas de patrulha. A Serpror foi contratada pela Bandegua para prestar serviço de segurança. Diante de tais fatos, resulta por demais inadmissível supor que os assassinos pudessem entrar nas instalações, executar o assassinato e sair das mesmas sem haver sido detectados ou detidos, uma vez que as entradas e saídas se encontram protegidas", frisa o documento.

Meses antes do assassinato, Marco Túlio foi ameaçado de ser demitido sob a acusação de organizar os trabalhadores para "sabotar a produção da fazenda", caso a administração da empresa desrespeitasse a convenção coletiva, como vinha ameaçando.

"Os gerentes da Bandegua diziam que pagariam quanto quisesse para que Marco Tulio saísse. Quando começamos a exigir o esclarecimento sobre o assassinato, começaram as ameaças de morte para mim e para os demais companheiros da direção do sindicato", relatou Noé Antonio Ramírez Portela, secretário geral do Sitrabi e irmão do sindicalista. Semblante pensativo, nos mostrou a placa colocada pelos companheiros no local em que Marco Túlio foi alvejado. Para não restar dúvidas, frisou, "desconhecidos andavam de motocicleta portando armas de fogo, transitando impunemente pela Finca Yuma, intimidando os moradores".

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Noé Portela, secretário geral do Sitrabi, teve o irmão, sindicalista, assassinado

Ao mesmo tempo em que passou a ser perseguido por um veículo com homens que vigiavam a sua casa, Noé começou a receber telefonemas da Bandegua. "Em altas horas da noite, me ligavam pressionando para que assinasse um documento desvinculando a empresa de toda a responsabilidade com o ocorrido". Mais claro impossível.

Após o assassinato de Marco Túlio e da grande campanha que se seguiu, com a solidariedade da União Internacional dos Trabalhadores da Alimentação (UITA), da Confederação Sindical das Américas (CSA) e da Confederação Sindical Internacional (CSI), o governo guatemalteco finalmente disponibilizou para Noé dois policiais, 24 horas, como guarda-costas. Isso foi durante um breve período. Quando o presidente Otto Pérez Molina assumiu, reduziu a apenas um policial, de segunda a sexta-feira, da manhã até às cinco da tarde. Ainda que soe ridículo, é verdade: apesar do perigo e das reiteradas ameaças, não lhe foi ofertada qualquer segurança. O governo também não agiu para que as investigações avançassem em relação à identificação, detenção e acusação dos autores materiais e intelectuais do homicídio.

Noé explicou que em cada "finca" - propriedade -, há um comitê do Sitrabi, onde os diretores de base tratam os conflitos com os administradores. "Quando não é possível resolver diretamente, então os companheiros trazem para a executiva". O Sitrabi, explicou Noé, é um sindicato de empresa, portanto bastante limitado em sua representatividade.

Diante dos avanços obtidos nos acordos da região norte, as empresas bananeiras estão migrando para o sul, em busca de mão de obra barata, "o que é ruim para todos", esclareceu Noé. Daí a necessidade de uma reforma do Código de Trabalho, frisou: "este é um sonho nosso, ter um Sindicato por indústria, para que possamos organizar o conjunto da nossa categoria, de Norte a Sul".

A preocupação das empresas bananeiras procede, aponta o Portal Frutícola, pois "ainda que os salários dos trabalhadores de uma multinacional possam oscilar entre 250% e 300% do salário mínimo - que atualmente é de US$ 9,69 por uma jornada de 8 horas – o valor não inclui benefícios, tais como a atenção à saúde ou seguridade social". "E se a situação onde existe entidade sindical é difícil, imaginem onde não há organização", acrescentou.

Exército invade o sindicato

Nos últimos anos foram cometidos inúmeros atos de violência contra os dirigentes do Sitrabi, governamentais inclusive, numa pressão aberta e descarada em defesa dos interesses contrariados com a organização e a reivindicação por melhores condições econômicas e sociais.

No dia 20 de julho de 2007, por exemplo, cinco soldados do exército invadiram a sede do Sindicato, retendo trabalhadores e interrogando sobre os nomes dos dirigentes, de suas funções, bem como de seus associados.

Estes breves testemunhos de impunidade ajudam a compreender o pânico de uma associação. Conforme levantamento realizado em 2012 pelo Instituto de Estudos Sindicais, Indígenas e Camponeses da Guatemala (Inesicg), "a taxa de sindicalização no país cai ano após ano e representa atualmente somente 2,2% da população economicamente ativa". "Esta situação não pode ser considerada como uma condição gerada conjunturalmente, senão que é produto de um processo que há tido como constante: a obstaculização do exercício da liberdade sindical, especialmente nos principais setores produtivos", acrescenta o Instituto.

A perseguição é evidente: "55% dos sindicatos foram destruídos sem conseguir consolidar-se, o que evidencia um padrão de dependência. De todos os sindicatos destruídos, 42% o foram sem sequer haver inscrito sua primeira diretoria, 13% sem inscrever sua segunda direção e 45% depois da inscrição de sua segunda diretoria".

Para o presidente da CSI, João Antonio Felicio, a solidariedade e a pressão internacional têm sido essenciais para dar a visibilidade necessária às reivindicações do sindicalismo guatemalteco por salários e empregos dignos, "mas precisa ser ampliada". "A vida de um trabalhador não pode ser vendida a preço de banana e por valor nenhum", ressaltou João Felicio, frisando que "a baixa sindicalização no país é explicada devido ao nível da violência existente na Guatemala e em muitos países".

"Sem uma ação reguladora do Estado, sem uma legislação apropriada e sem fiscalização governamental, com respeito à organização sindical", enfatizou João Felicio, "a ação das transnacionais frutíferas contra a democracia e a soberania, principalmente na América Central, continuará deixando um gosto bastante amargo".

Leonardo Wexell Severo é membro fundador do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e autor do livro Latifúndio Midiota, entre outros


da carta maior

Impeachment S.A.: negócio lucrativo quer varrer corrupção para baixo do tapete

Quem for às ruas no dia 15 vai estar vomitando seu ódio com o patrocínio de empresas e políticos que querem tirar o foco da lista de políticos da Lava Jato
por Antonio Lassance publicado 02/03/2015 20:07, última modificação 02/03/2015 20:10
Marcelo Camargo/Folhapress
Nariz de palhaço

Quanto mais impeachment se torna um oba-oba, do tipo "atrás do trio elétrico...", melhor para o negócio

Impeachment S.A.: uma empresa de capital aberto e mente fechada. Que ninguém se engane ou se faça de desavisado. As organizações Impeachment S.A. – uma sociedade mais ou menos anônima – está aí não só para promover eventos, mas, sobretudo, para se capitalizar.

Quem quiser ir às ruas no dia 15, com nariz de palhaço e cartazes pró-impeachment, vai estar batendo o bumbo e vomitando seu ódio com o patrocínio de empresas e políticos que querem bombar o desgaste de um governo por razões nada republicanas.

Algumas das organizações mais ativas na mobilização das manifestações do dia 15 de março são um negócio patrocinado pela oposição partidária e empresarial, com os préstimos sempre valiosos do cartel midiático, que dá uma boa força para a sua divulgação.

Tal e qual nos bons tempos do golpismo dos anos 1950 e 1960, trabalhar pela derrubada de um governo é, em parte, ideologia, mas tem seu lado 'business'. Dá dinheiro.

Os grupos que organizam os protestos e clamam pelo impeachment começam como rede social, mas crescem com apoio partidário e empresarial.

Nenhum desses grupos deixa de pedir, publicamente, recursos para financiar seu 'trabalho' – seria melhor dizerem 'seu negócio'. Até aí, nada de mais.

Porém, o grosso das contribuições que algumas dessas pessoas recebem não são públicas e nem de pessoas que dão 5, 10, 100 reais. Hoje, a maior parte da grana que rola em prol do impeachment de Dilma tem outra origem.

Empresários em pelo menos três estados (São Paulo, Pernambuco e Paraná) relatam ter recebido telefonemas pedindo dinheiro para a organização dos atos do dia 15. A fonte da informação são advogados consultados para saber da legalidade da doação e possíveis implicações jurídicas para as empresas.

Em um dos casos, o pedido não foi feito diretamente por alguém ligado aos perfis de redes sociais que convocam o ato, mas por um deputado de oposição, com o seguinte argumento: "Precisamos ajudar esse pessoal que está se mobilizando para tirar esses vagabundos do poder".

O curioso é que o deputado oposicionista faz parte do seleto grupo de parlamentares que teve o privilégio de contar, entre seus financiadores de campanha, com empresas citadas na Lava Jato. Portanto, pelo critério da Impeachment S.A., o deputado amigo é, de fato, um honorável vagabundo.

É bom lembrar que quase a metade dos nomes da famigerada lista do ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, estava ligada às campanhas de Aécio ou Marina Silva

As empreiteiras pegas na Operação Lava Jato doaram quase meio bilhão de reais aos políticos e aos partidos com as maiores bancadas no Congresso, o que inclui os de oposição, como PSDB e DEM. Será que alguém vai se lembrar disso no dia 15?
Como o negócio funciona e prospera

A Impeachment S.A. virou franquia. Uma pessoa ou um pequeno grupo monta um perfil, sai à cata de adesões e seguidores e cria memes para serem espalhadas na rede. Com alguma sorte, essa 'produção' se torna viral – pronto, a fórmula de sucesso deu resultado.
Os grupos que organizam o protesto do dia 15 são muitos. Cada estado tem um ativista ou grupo de maior proeminência. Eles hoje disputam o mercado do protesto de forma cada vez mais empresarial. Com naturalidade, eles são absolutamente francos em dizer que o capitalismo é seu sonho de consumo. Qualquer maneira de ganhar dinheiro vale a pena.

Dependendo da força de adesão de cada perfil, o criador usa sua lista de seguidores, com ou sem nariz de palhaço, como portfólio para negociar patrocínio privado.

Quanto mais o impeachment se tornar um oba-oba, do tipo "atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu", tanto melhor para o negócio de derrubar a presidenta.

A busca de um mercado do protesto veio a partir do momento em que esses mascates do impeachment bateram às portas dos partidos, como o PSDB, o DEM e o PPS.
Pelo menos no caso de Pernambuco, houve tentativas também junto ao PSB, cujo ex-candidato à presidência, Eduardo Campos, também consta citado da delação de Paulo Roberto Costa. O PSB hoje abriga, entre outros, 'socialistas' da estirpe do antigo PFL, como os renomados Heráclito Fortes (PI) e Paulo Bornhausen (SC).

Alguns dos ativistas da Impeachment S.A., de espírito empreendedor mais aguçado, pegaram a lista de financiadores de campanhas de políticos da oposição com os quais mantêm contato e foram pedir ajuda para conseguir abrir portas em empresas dispostas a financiar a campanha do impeachment.

Os políticos tucanos, ao que parece, têm sido os mais empenhados em redirecionar os pedidos de patrocínio privado para o universo das empresas.

Publicamente, só para variar, os tucanos definiram, com o perdão ao vocábulo 'definir', que apoiam o ato pró-impeachment, mas são contra o impeachment. Hein? Precisamos de pelo menos uns dois minutos para entender o raciocínio e pegar algum tucano pelo colarinho branco, escondido atrás de mais esse muro.

Os tucanos querem o protesto, torcem pelo protesto, ajudam a patrocinar o protesto, mas fingem que não têm nada a ver com isso. Faz sentido – e ainda tem gente que acredita que eles realmente não trabalham pelo impeachment.

Por que 15 de março?
A própria data do protesto foi calculada politicamente, pela Impeachment S.A., com um propósito evidente.

O alvo do protesto é a presidenta Dilma Rousseff, convenhamos, justamente no mês em que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, divulgará a lista dos políticos envolvidos no escândalo. Mais exatamente, na semana seguinte àquela em que a lista de políticos será tornada pública.

Os revoltontos do dia 15 pedirão o impeachment de Dilma, que sequer aparece citada na Lava Jato. Será que vão pedir também o impeachment do senador Aécio Neves, cuja campanha recebeu doações das mesmas honoráveis empreiteiras, diretamente para o comitê de campanha desse candidato?

Vão pedir pelo menos o impeachment de Agripino Maia (DEM-RN), acusado de receber R$ 1 milhão em propina? Delator por delator, Agripino tem o seu e merece algum cartaz de algum revoltonto mais bem informado.

Irão pedir a apuração rigorosa e a prisão dos envolvidos com o trensalão tucano? Ou a falta d'água em São Paulo racionou também a memória e o senso de moral e ética dos que se dizem fartos – principalmente depois de seu repasto?

Irão eles pedir o impeachment dos parlamentares do PMDB? Eles fazem parte do segundo maior partido da Câmara, o primeiro no Senado, e seriam decisivos para a chance de impeachment. Só que, por coincidência, estão entre os preferidos das empreiteiras na hora de financiar campanhas.

Os revoltontos do dia 15 ainda não pararam para pensar que querem um impeachment de Dilma a ser feito por um Congresso cujo financiamento de campanha desenfreado deixa a maioria de seus parlamentares abaixo de qualquer suspeita – se for para generalizar o 'argumento' de quem vê Dilma como uma inimiga a ser banida.

Serão esses, de fato, os que podem abrir a boca para falar em afastar a presidenta eleita? Estranho. Não deveriam ser eles os primeiros alvos de cassação?

Quem promove a campanha pelo impeachment está dando sua contribuição voluntária ou patrocinada para tirar o foco dos corruptos que de fato têm nome no cartório da Lava Jato – o que não é o caso da presidenta.

Seria melhor, antes de falarem em impeachment de uma presidenta eleita pelo voto de 54,5 milhões que os revoltontos do dia 15 esperassem a lista de Janot e a usassem para escrever seus cartazes.

Por que não o fazem? Talvez por que isso não seja lá um bom negócio.

Antonio Lassance é cientista político