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Na Rede

por publicado , última modificação 25/01/2015 11:24

São Paulo

Carta a Juan Arias, do jornal 'El País': a visível e verdadeira alquimia de Alckmin

Legislativo omisso, Judiciário que não atua, uma polícia que funciona como comunidade particular e um setor da mídia submisso são algumas das explicações para o 'sucesso' do governador
por Paulo Salvador, da RBA publicado 02/10/2014 14:36
Marcelo Ribeiro/Alckmin 45
alckmin_sabesp_Marcelo Ribeir_ Alckmin 45.jpg

Até problema de racionamento acaba transformado em fato positivo para o governador de São Paulo

Tentei, revirei a página do El País, vasculhei seu blog e a sessão de perguntas do leitor e em todas não encontrei como lhe escrever diretamente. É a propósito de seu artigo “Qual é a misteriosa alquimia de Alckmin”. Para quem não leu, meu destinatário comenta as acusações e críticas ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e conclui que nada cola em sua imagem, que o faz seguir em frente para a vitória eleitoral (palavras de Juan Arias).

Primeiro problema: será que as urnas vão confirmar essa “verdade”? O texto engana o leitor, pois traz uma lista de situações fortes e pesadas contra o governador e conclui que o lado pessoal de Alckmin, "sua alquimia", seria suficiente para desfazer-se dessas explosivas críticas.

Na verdade, você não foi à raiz das blindagens ao atual governador paulista, nem penetrou na redoma que o cerca. Estas, sim, explicam por que a população não tem inteiro saber do que é o governo tucano. Vejamos. A Assembleia Legislativa, que deveria ser um fórum de debates de propostas para os problemas do estado, tornou-se uma catedral inútil e estéril, pois os aliados de Alckmin boicotam, cerceiam e impedem qualquer apuração dos fatos que ali são trazidos pelos deputados de oposição.

Em seguida, vem a participação de parte decisiva do Ministério Público paulista, que foi transformado em um escritório de engavetamento dos assuntos sobre o Executivo paulista. Da mesma forma alinha-se o Judiciário estadual. Pergunto: qual assunto foi tratado à altura nessas esferas do Judiciário?

Na outra ponta encontra-se o sistema de polícias no estado, que se excede na violência, é pouco transparente nas apurações e trabalha como uma comunidade particular do governo. Para completar, a Polícia Federal tem a sua fração tucana, que em São Paulo articula fatos, apurações e mídia, a favor do governo e espalhafatosamente contra o PT.

Essa blindagem se completa com o papel da mídia, dos jornalões assumidamente tucanos, da TV Globo e, em todos, de seus articulistas alocados em redação por determinação do Instituto Millenium. É impressionante a transformação de assuntos negativos em positivos, de espetacularização contra a oposição, de silêncio a favor da situação.

Nesse campo da mídia, cabe um destaque bastante influente, que é a distribuição de verbas da Sabesp para os jornais regionais das cidades do interior, que alimentam o noticiário positivo e distribuem notícias negativas recebidas.

Caro Juan, essa é a verdadeira alquimia de Alckmin, uma blindagem nunca antes vista neste país. Basta andar pelas ruas e puxar conversa com diferentes grupos sociais e econômicos para se perceber a enorme confusão de informações que o indivíduo carrega em suas ideias. A democracia não está presente entre a população do estado de São Paulo.

Sem indignação

Após 22 anos do massacre do Carandiru, contexto para novo extermínio continua

Sistema prisional e políticas de segurança pública atuam na mesma linha que permitiu ao estado matar 111 pessoas. Perfil dos assassinados indica que maioria era de presos provisórios
por Ponte* publicado 02/10/2014 14:14, última modificação 05/10/2014 23:57
Cena do filme Carandiru | Foto: Marlene Bergamo/Divulgação
carandiru

O perfil dos 111 mortos no massacre do Carandiru é muito semelhante ao da população carcerária atual

Há 22 anos, no dia 2 de outubro, na Casa de Detenção de São Paulo, ocorria a maior violação de direitos humanos de cidadãos sob custódia do Estado do mundo. Não há situação semelhante em todo o planeta. Mas nos presídios do Brasil, contextos idênticos e agravados fazem com que abusos de direitos aconteçam com frequência.

São episódios que não chamam a atenção para a responsabilização do Estado. Para as autoridades, parece ser mais fácil e vendável atuar no sentido da militarização, prometendo reforços de atitudes repressivas, do que na correção das deficiências crônicas de ordens sociais e institucionais.

O perfil dos presos do Carandiru que foram mortos no Massacre – ao contrário do que se supõe – mostra a maioria com idade inferior a 30 anos, baixa escolaridade, detida por crimes de natureza patrimonial. Cerca de 80% não tinham sido condenados, eram, portanto, presos provisórios, que ocupavam o superlotado Pavilhão 9. Esse quadro continua ativo, como mostra esta reportagem da Ponte.

Foram mortes sem pena. A maioria sequer havia sido condenada.

Naquele sábado, tentou-se esconder o que era impossível de ficar invisível: os corpos foram empilhados pelos presos sobreviventes em locais isolados do complexo penitenciário. Quiseram ocultar os executados para que nada influenciasse o resultado das eleições municipais de outubro, que ocorreriam no dia seguinte. A sociedade civil, naquele momento, teve impressão de que a ação policial tinha sido proporcional à demandada para reprimenda da desordem instalada. O verdadeiro número de mortos fora noticiado apenas 15 minutos antes do fechamento das urnas, no dia 3 de outubro, mais de 24 horas depois das execuções.

Mas, para além do já tão repisado debate acerca da adequação e proporcionalidade da ação da Polícia Militar naquela data, queremos chamar atenção para o fato de que o Massacre do Carandiru não foi – aliás, não é – um evento isolado, algo como uma situação excepcional que escapou ao controle dos envolvidos, e sim uma fotografia instantânea de uma prática habitual na história nacional, que desde os primórdios combina exclusão com violência.

Prática tem origem etimológica no termo “práxis”, e pode ser semanticamente definido como o agir humano pautado pela aplicação de regras e princípios. Partindo dessa problematização do conceito, afirmamos que a prática de massacrar determinados segmentos sociais no Brasil apoia-se no princípio que estabelece a divisão da sociedade em duas categorias distintas de cidadão: o nós, “cidadãos de bem”, e os outros, “criminosos”, historicamente submetidos a um processo de desumanização que permite excluir e exterminar. Como é prática significa que é também habitual, o que revela mais do que uma reiteração temporal e remete a um estilo de vida, que se alicerça em costumes e valores coletivamente compartilhados, de forma consciente ou não.

O perfil dos 111 mortos no Massacre do Carandiru se assemelha ao perfil da atual população carcerária: conforme dados recentes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o total de pessoas presas é superior a 700.000 (somando encarcerados com pessoas que cumprem pena em regime domiciliar), sendo a terceira maior população prisional do mundo. É mais que o dobro do que comporta o sistema penitenciário. De acordo com informações do InfoPen (MJ), pouco mais de 1% dos presos possuem nível de instrução acima do ensino médio; o trabalho é garantido a aproximadamente 21% dos presos; somente 9% estudam; nove crimes são responsáveis por 94% dos aprisionamentos; crimes contra o patrimônio e tráfico de entorpecentes são responsáveis por encarcerar 75% dos presos; 40% da população encarcerada é composta por pessoas sem condenação definitiva.

Leia o texto na íntegra.

*Maíra Cardoso Zapater e Maria Rosa Franca Roque, especial para Ponte

Opinião

Irmãos na homofobia, fiéis a Fidelix

Depois de debate entre presidenciáveis, reacionários sairiam em defesa do discurso homofóbico de Levy Fidelix nas redes sociais; para eles, homofobia não existe, mas heterofobia, sim
por Lola Aronovich publicado 02/10/2014 12:31, última modificação 03/10/2014 16:05
agência brasil
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Enquanto ativistas ainda pedem criminalização da homofobia, um homossexual ou trans morre assassinado a cada 28 horas no Brasil

Tem sido o principal assunto desta última semana que antecede as eleições de domingo: no debate presidencial da TV Record, Luciana Genro, do Psol, perguntou a Levy Fidelix, do PRTB, sobre a violência sofrida pela população LGBT. Fidelix, então, respondeu com uma verdadeira enciclopédia da homofobia (dava para preencher várias cartelas de bingo): "Dois iguais não fazem filho. Me desculpe, mas aparelho excretor não reproduz. Vamos acabar com essa historinha. Eu vi agora o santo padre, o papa, expurgar, fez muito bem, do Vaticano, um pedófilo. Está certo! O Brasil tem 200 milhões de habitantes, daqui a pouquinho vai reduzir para 100. Vai para a avenida Paulista, anda lá e vê. É feio o negócio, né? Então, gente, vamos ter coragem, nós somos maioria, vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los. Que esses que têm esses problemas realmente sejam atendidos no plano psicológico e afetivo, mas bem longe da gente, bem longe mesmo porque aqui não dá".

Que tristeza que dá ouvir tanta ignorância numa concessão pública praticamente sem contestação. Vi bastante gente criticando Luciana por não se opor veementemente a essas palavras, por não brilhar como fez no debate com Aécio Neves, em Aparecida. Porém, creio que quem deveria ter dito algo seria a própria Record. O que Fidelix fez não foi apenas expressar opiniões absurdas, mas, sim, incitar o ódio. Na internet, vindo de anônimos, esse tipo de discurso é comum. No humor, também, sempre com aquela justificativa de que "é só uma piada!" (e não é: é a perpetuação de uma série de preconceitos), mas ver tudo aquilo dito “a sério”, sem ironia, por um candidato a presidente, foi definitivamente chocante.

Primeiro, Fidelix parece condenar os gays, mas liberar geral para as lésbicas, que podem "fazer filho" com útero. Segundo, a associação da homossexualidade com pedofilia, uma acusação recorrente e sem noção dos reaças típicos. Será que eles não sabem que a maior parte dos pedófilos é composta de homens hétero? Terceiro, o medo de que o mundo vai acabar se todo mundo não produzir cópias de si (tenham medo de mim também, que sou hétero, casada, e optei por não ter filhos). Quarto, o que tem de feio na avenida Paulista, fora aquele episódio em que um homofóbico bateu com uma lâmpada na cabeça de um rapaz gay? Quinto, o momento mais direto do ódio ("Vamos enfrentar essa minoria"), como se a batalha fosse entre héteros e homossexuais, e não entre preconceituosos e gente que quer apenas viver a vida. Sexto, a insinuação que homossexuais "têm problemas" que precisam ser "atendidos" (cura gay, anyone?). Por fim, a segregação, seguida da repulsa, querendo que "eles" se tratem "bem longe da gente". Isso não é um desrespeito só para os homossexuais, mas também para os familiares desses homossexuais, que talvez não queiram entes queridos assim tão longe.

A liberdade de expressão tem limites, sim. Discurso de ódio como esse não deveria ter vez na TV. A OAB pediu a cassação da candidatura de Fidelix por homofobia, no que eu concordo. Além disso, há outras duas representações contra ele no Tribunal Superior Eleitoral. É justo. Afinal, analfabetos não podem ser candidatos, mas gente com discurso de ódio pode? Compare a desgraça que um candidato analfabeto pode causar com a desgraça causada por Levy Fidelix.

Uma coisa é ter candidatos folclóricos, caricatos, ridículos. Não recomendo de jeito nenhum o voto em Tiririca, "meu nome é Enéas", rinoceronte Cacareco, mas esses personagens também existem em outros países. É o voto alienado de quem vê que político é "tudo igual". Outra coisa bem diferente é ter um candidato como Fidelix, ou Bolsonaro, ou Marco Feliciano. Ou como Matheus Sathler, candidato a deputado federal pelo Distrito Federal, que tem como plataforma a "prevenção ao homossexualismo" e a criação de kit macho e kit fêmea. Pega muito mal que o PSDB ceda espaço para um lunático desses, mas não sei se é possível esperar algum respeito do partido que abriga João Campos, autor da cura gay.

O discurso de ódio do "vamos enfrentá-los" de Fidelix imediatamente me fez lembrar de figurinhas conhecidas. Reacionários, que eu abrevio carinhosamente para reaças, detestam movimentos sociais. Ativistas que fazem marchas nas ruas, então, são os piores, porque deveriam estar trabalhando, em vez de atrapalhando o trânsito. Reaças sabem muito bem que a esmagadora maioria dos ativistas é de esquerda, ou seja, contrária à ideologia conservadora. Logo, reaças negam que homossexuais, mulheres ou negros sofram qualquer tipo de discriminação ou preconceito. Chamam seus protestos de vitimismo e juram que as verdadeiras vítimas da perseguição são eles, os pobres reaças, homens brancos e héteros. Poucas semanas atrás, Danilo Gentili comparou ser chamado de palmito a negros serem chamados de macacos. No mesmo dia, como se estivessem numa Olimpíada das Opressões, Olavo de Carvalho se intitulou o homem mais perseguido da história do Brasil, mais que qualquer grupo, mas vitimistas são os outros.

Se tem alguém que a patota direitista detesta mais que homossexual, é a militância LGBT, que eles chamam de gayzistas ou gaystapo (assim como chamam feministas de feminazis, distorcendo totalmente quem é e sempre foi perseguido, inclusive pelo nazismo, que a direita da internet jura que foi um movimento de esquerda). Essa turma, liderada pelo guru Olavo de Carvalho, realmente acredita que existe uma agenda internacional para acabar com a família tradicional (numa entrevista em agosto, Fidelix já havia citado o Fórum de São Paulo, levando ao delírio os reaças, tão adeptos das teorias da conspiração).

Reaças não acreditam em preconceitos, tirando os que são contra eles. Homofobia não existe, mas heterofobia, sim, evidente (após o debate, Fidelix declarou não ser homofóbico, e sim hétero: "Se não aceitarem minha opinião, estarão sendo heterofóbicos").

Sexismo é aquilo que as feministas promovem contra os homens, coitadinhos. Racismo? Só se for contra brancos. Quando confrontados com qualquer estatística, como aquela que aponta que, no Brasil, um homossexual ou trans é morto a cada 28 horas (foram 312 em 2013), reaças respondem: "Só?! Há 50 mil homicídios por ano!". Claro que ninguém é morto por ser hétero, ao contrário do que ocorre com os gays, massacrados pela orientação sexual. Reaças também têm a resposta na ponta da língua para isso: gays são mortos pelos parceiros (estranhamente, reaças não consideram esse argumento para falar de feminicídios, termo que eles sequer cogitam usar). Portanto, não há homofobia. O que há são gayzistas, uma minoria, perseguindo uma maioria. “Vamos ter coragem e enfrentá-los!”.

Era óbvio ululante que reaças sairiam em defesa de Fidelix. Eles são fiéis. Fidelix é um deles.

Lola Aronovich é professora da Universidade Federal do Ceará, autora do blog Escreva Lola Escreva e colunista da RBA

Conflito

Mais guerras ou soluções políticas para os conflitos?

Enquanto o Brasil trabalha pela construção de um mundo multipolar, os EUA ainda se valem da militarização dos conflitos, levando confrontos ao plano em que é superior e buscando a hegemonia pela força
por Emir Sader, para RBA publicado 29/09/2014 14:53, última modificação 29/09/2014 15:15
Network News Edlib ENN/Fotos Públicas
Síria

A pretexto de atacar Estado Islâmico, Estados Unidos provocam destruição e êxodo na Síria

Dilma Rousseff se valeu da sua ida à Assembleia Geral das Nações Unidas para reiterar o que tem sido uma posição permanente do Brasil: a solução para os conflitos do mundo não está em reagir com mais guerra, mas em promover soluções políticas aos conflitos.

O Brasil tem defendido essa posição desde o começo do governo Lula, quando se negou a apoiar intervenções militares norte-americanas, propondo negociações políticas, que ouvissem todas as partes envolvidas. O Brasil se opôs à política de invasões Afeganistão e do Iraque e ao bombardeio da Líbia.

Lula se aliou ao então primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyiq Erdongan, para buscar uma mediação política e pacífica para os conflitos entre os EUA e o Irã. O Brasil sempre pregou que a crise da Síria só seria resolvida por um acordo político, e não por mais bombardeios e ajuda militar a qualquer uma das partes envolvidas.

Agora, a posição expressa pela presidenta Dilma Rousseff se refere ao anúncio dos EUA sobre bombardeios em território sírio ao Exército Islâmico, além dos que realiza no Iraque. A decisão fez parte da intervenção de Barack Obama na Assembleia Geral da ONU. A chefe de Estado brasileira já havia condenado esse outro uso da força em entrevista que deu em Nova York e voltou a reiterar a ideia de que não é com mais bombardeios que se chega à paz.

Membros da oposição no Brasil – na mídia e nos partidos – tentaram dizer que a posição da Dilma seria de complacência com o Estado Islâmico e seus usos indiscriminados da violência. A mentalidade de Guerra Fria que ainda comanda a cabeça da direita brasileira faz com que aceite a polarização proposta pelos EUA: ou eles ou o terrorismo islâmico.

Acredita que não apoiar mais essa aventura bélica norte-americana é ser aliado do Exército Islâmico, porque não lhes ocorre nenhuma outra alternativa. Acontece que essa via de ação tem sido catastrófica. Aí estão o Afeganistão, o Iraque e a Líbia, em processos de desagregação interna, os primeiros depois de mais de de anos de ocupação militar. Os últimos quatro presidentes dos Estado Unidos bombardearam o Iraque e isso não levou o país nem a uma situação de pacificação, nem de estabilidade política mínima.

Desde o governo Lula o Brasil trabalha pela construção de um mundo multipolar, que se opõe à hegemonia imperial norte-americana. Esta se vale da sua superioridade para militarizar os conflitos, transferindo o enfrentamento para o plano em que é mais forte e buscando triunfar pela força. Foi a norma que se impôs desde o fim da Guerra Fria. E que se revelou não uma via para a solução dos conflitos, mas para seu aguçamento.

O governo dos EUA, apesar dos dois pronunciamentos da Dilma em Nova York, condenando o uso de mais violência para tentar superar os conflitos, diz manifestar esperança de que o Brasil possa participar da coalizão de países que se congregam para bombardear territórios ocupados pelo Estado Islâmico. Ou fingem desconhecer os preceitos da política externa soberana brasileira desde mais de uma década, ou não conhecem o caráter da presidenta brasileira, manifestado recentemente na atitude diante da espionagem norte-americana. Ou ambos.

Direitos

Lola Aronovich: e, pra variar, a culpa é das mulheres

As brasileiras continuam não tendo escolha. E, enquanto os religiosos tentam restringir ainda mais o direito ao aborto, mulheres seguem sendo mortas em procedimentos sem a menor segurança
por Lola Aronovich publicado 24/09/2014 12:59, última modificação 24/09/2014 13:44
Fernando Frazão/ Abr
mina

Jovem levanta cartaz contra a violência durante ato político feminista no Rio de Janeiro, em agosto deste ano

Este caso é incrível. Ocorreu em outubro do ano passado, em Carira, no agreste de Sergipe. Jobson e Daiane começaram um namoro quando ela estava com apenas 13 anos, e ele, com 18. O namoro durou oito anos. Antes de Daiane completar 21 anos, Jobson se casou com outra moça, sem avisar Daiane, com quem continuou se relacionando, mesmo casado. Daiane engravidou. Jobson insistiu que ela fizesse um aborto. Ele compraria "o remédio", ela o tomaria. Ela se recusou. Então, Jobson lhe deu bombons. Daiane comeu um. Morreu envenenada na mesma noite.

A sentença saiu na semana passada. Jobson, agora com 27 anos, foi absolvido por júri popular. Mais de dez testemunhas depuseram, ele admitiu que foi quem deu os bombons a Daiane, mas o júri alegou “falta de provas”. Ainda que as fichas de atendimento do hospital e relatórios médicos registrassem o envenenamento de Daiane, o laudo pericial não confirmou. Não porque não existiu, mas porque Sergipe "não tem peritos e aparelhos suficientes para atestar envenenamento", segundo o promotor do caso.

Ao ler a notícia, pensei imediatamente em dois dos maiores filmes da longa carreira de Woody Allen: Crimes e Pecados e Ponto Final. Em ambos, o homem mata a amante, que estava atrapalhando seus planos. Em Crimes e Pecados, ele manda matá-la; em Ponto Final, ele mata com as próprias mãos a amante grávida, que também não quisera abortar. Nos dois filmes, os homens ficam impunes. Não, não é bem isso, é bem mais – eles prosperam. São recompensados. Não sentem culpa. É como se tivessem se livrado de um grande aborrecimento.

Evidente que o caso de Sergipe consegue ser pior, porque é real, e porque é como se o Estado, ou a falta de estrutura desse Estado, servisse de álibi para assassinos. Pior também porque foi um júri popular que decidiu que Jobson era inocente. A culpada provavelmente era Daiane. Foi ela quem começou a namorar com 13 anos. Ela que manteve um caso extraconjugal. Ela que engravidou. Ela era mulher, afinal.

Lembro como se fosse ontem de uma notícia lida na internet cinco anos atrás: um professor de Direito da USP matou o filho pequeno e se suicidou em seguida, porque a guarda do menino tinha ficado com a mãe. Praticamente todos os comentários punham a culpa... Na mãe. Nela e na Justiça, que dá a guarda para uma mulher e não para um sujeito que viria a matar o próprio filho. Um dos comentários era em tom de ameaça: “Enquanto a Justiça não parar de discriminar os homens, muitas crianças ainda morrerão.”

O chocante é que esses rapazes que absolvem Jobson e justificam a execução de um garoto são os mesmos que enchem os pulmões para gritar "assassinas" às mulheres que abortam. Eles devem estar aplaudindo de pé dois acontecimentos recentes muito parecidos, que terminaram com a morte de duas mulheres que tentaram abortar clandestinamente. Ontem (24) foi divulgado o exame de DNA que confirmou que o corpo carbonizado encontrado num carro no Rio era o de Jandira, moça desaparecida desde o final de agosto, quando foi levada a uma clínica ilegal para abortar. Foi o segundo caso em um mês, o que nos dá uma noção do quanto é comum mulheres desesperadas morrerem em macas de açougueiros.

Li inúmeros comentários de que Jandira e Elizângela, a outra vítima, ambas dentro do perfil das mulheres que realizam o aborto no Brasil (casadas, com filhos, religiosas), “mereceram” morrer. Agora, elas estariam "no colo do capeta", obtendo o castigo necessário, já que a morte não é punição suficiente. Elas, e não Jobson ou o professor que matou o filho, são as verdadeiras assassinas. Perceba que Daiane, a moça grávida envenenada com bombons, não ganha pontinhos no céu por ter se recusado a abortar. Nem Jobson é moralmente condenado por exigir que a amante aborte. Porque aborto é uma questão de mulheres. Homens parecem não ter nada a ver com o assunto. Os tantos que negam a paternidade, ou que somem assim que a gravidez é anunciada, o que eles fazem não é aborto. Eles não são vistos como assassinos. Esse título cabe apenas às mulheres, aquelas criaturas que engravidam sozinhas.

O que me leva a concluir que a preocupação dos "pró-vida" (é difícil pensar num termo mais irônico para essa gente que aplaude a morte de mulheres) não é com o feto, que eles invariavelmente chamam de bebê ou criança. A preocupação é apenas com a punição da mulher. Essas pessoas não querem que as mulheres possam abortar com um medicamento bastante seguro e eficaz como o misoprostol. Eles querem que elas sofram. Querem que elas morram.

A justificativa para esse ódio contra mulheres é que, se elas não queriam engravidar, não deveriam ter "aberto as pernas". Ou deveriam ter se precavido. Afinal, métodos anticoncepcionais nunca falham.

Pois é. Na primeira quinzena de setembro, o New York Times publicou gráficos espantosos. De cada cem mulheres, quantas terão uma gravidez não desejada usando certos métodos anticoncepcionais por um longo período de tempo? Para quem só usa espermicida, a resposta é 96. De cada cem mulheres que usam camisinha feminina, 91 engravidarão. Com camisinha masculina, "só" 86. Tomando a pílula, 61 mulheres engravidarão. Isso porque a esmagadora maioria dos casais não usa os métodos de forma correta e consistente. Mesmo entre os poucos que fazem "uso perfeito" do método, nada é 100% seguro. De cada cem mulheres que usam (ou exigem o uso) "perfeitamente" da camisinha masculina, 18 engravidarão sem querer num período de dez anos.

Porém, espalhar que meios contraceptivos são totalmente seguros faz parte da estratégia conservadora de culpar a mulher. O que eles pregam mesmo é a abstinência. Querem que mulheres só façam sexo dentro do casamento. Se engravidarem, foi para isso que casaram mesmo, não foi?

As brasileiras continuam não tendo escolha. E, enquanto os religiosos tentam restringir ainda mais o direito ao aborto (aborto em caso de estupro por quê? O bebê não tem culpa, dizem eles, sugerindo que a mulher que é estuprada, tem), mulheres seguem sendo mortas em procedimentos sem a menor segurança.

No próximo domingo, dia 28 de setembro, dia latino-americano pela legalização do aborto, ocorrerão vários protestos, muitos deles, inclusive, lamentando as mortes de Jandira e Elizângela. São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Porto Alegre são algumas das cidades com manifestações marcadas. As ativistas vão pedir apenas o direito ao próprio corpo.

Aos olhos de gente que absolve Jobson e o professor, será um desfile de assassinas.

Lola Aronovich é professora da Universidade Federal do Ceará, autora do blog Escreva Lola Escreva e colunista da RBA

Revista do Brasil

Chegamos ao nº 100 e queremos você nesta edição

Se para você uma nova comunicação é parte da construção desse novo Brasil, estamos 100% com você. Participe da edição 100. Mande uma mensagem expressando em poucas palavras: o que é 100% pra você?
por Redação RBA publicado 23/09/2014 15:38, última modificação 23/09/2014 17:37

A Revista do Brasil chega em outubro ao número 100. Graças à parceria de dezenas de entidades de trabalhadores – bancários, metalúrgicos, químicos, professores, do setor de energia, editoras, saúde, entre outros – levamos ao país, desde junho de 2006, um novo canal de informação.

Política e economia, cultura e memória, direitos humanos e cidadania são matérias-primas de uma visão crítica do presente e de um olhar transformador para o futuro. Pessoas de atitude, histórias e caminhos em direção a um país humanamente moderno, democrático e justo são a nossa pauta. E se para você uma nova comunicação é parte da construção desse novo Brasil, estamos 100% com você.

Participe da edição nº 100. Mande uma mensagem expressando em poucas palavras: o que é 100% pra você? Pode enviar também uma foto bacana – por que não selfie? –, sozinho ou com as pessoas com que divide sua ideias. As imagens e frases selecionadas pela redação serão publicadas e compartilhadas com os leitores da centésima edição impressa da Revista do Brasil.

Envie sua mensagem pelo
Facebook ou pelo Twitter, com a hashtag  #rba100porcento

Se preferir, envie por e-mail: carta@revistadobrasil.net



Emir Sader

O México cada vez mais próximo dos Estados Unidos

Ao consolidar aliança subordinada aos EUA, México se condena à estagnação, à deterioração social e à desagregação decorrente de ser corredor para o maior mercado consumidor de drogas do mundo
por Emir Sader, para a RBA publicado 22/09/2014 12:00, última modificação 22/09/2014 13:13
Mario Guzman/EFE/2008
Protesto nos México

"Vendemos a produção para pagar a conta de luz". Tratorista mexicano protesta contra tratado de livre comércio com EUA e Canadá após crise de 2008

É conhecido o refrão “Pobre México: tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”. Hoje, o país já não está tão longe de Deus. O conflito com a Igreja católica, advindo da Revolução Mexicana de 1910, que levou ao movimento contrarrevolucionário dos “cristeros”, e à luta armada nos anos 1920 contra a revolução, ficou para trás, com a normalização das relações com o Vaticano.

Em compensação, o México está cada vez mais perto dos Estados Unidos. São relações de amor e ódio inspiradas, antes de tudo, pela única fronteira no planeta entre o que se convencionou chamar de primeiro e terceiro mundo. Uma atração ainda mais espetacular para a população mexicana, porque se trata do país mais rico do primeiro mundo. Não é à toa que milhões de mexicanos vivem e trabalham no EUA, com ou sem documento legais. Estima-se entre 14 milhões e 20 milhões os que cruzaram, legal ou ilegalmente, a fronteira do vizinho do norte para buscar uma forma de sobrevivência melhor do que a que têm no país de origem.

Leia da Revista do Brasil
As mesmas agências que diziam que estava tudo
bem com os bancos que causaram a crise de 2008
agora dizem que os mexicanos é que estão certos
e o Brasil, errado.


Em compensação, o México teve quase metade do território amputado pelos EUA. E que território: Califórnia, Texas, Flórida, com as respectivas reservas de petróleo. Daí a origem do ódio ao vizinho do norte.

Pancho Villa chegou a invadir terra incorporada pelos Estados Unidos durante a Revolução Mexicana. A Alemanha chegou a fazer a tentadora proposta ao México, na Primeira Guerra Mundial, de devolução dos territórios tomados pelos EUA, caso o país se aliasse ao bloco liderado pelos alemães na guerra.

Vizinhos distantes ou amorosos, os mexicanos oscilam entre a atração e a repulsa, fenômeno tão bem analisado por Octavio Paz, prêmio Nobel de Literatura.

Mais recentemente, o México teve o aparente privilégio de ser o primeiro país latino-americano a ser convidado para um tratado de livre comércio com os EUA, chamado de Nafta, do qual participa também o Canadá. Aceitou, honrado, o convite, achando que se casava com uma viúva rica – até se dar conta mais recentemente de que se casou com uma viúva quebrada.

Era o caminho que os EUA apontavam como inevitável para todo o continente. Os governos que aderissem às orientações do Consenso de Washington, que fizessem o que eles chamam de “dever de casa”, a partir de duros ajustes fiscais, poderiam entrar na fila para ingressar nesse espaço de livre comércio. O Chile se candidatou para ser o próximo da fila.

Porém, no próprio ano da assinatura do Nafta, 1994, explodiu a primeira crise econômica neoliberal na América Latina, justamente no México. O governo de Bill Clinton destinou imediatamente um gigantesco empréstimo ao país vizinho, para que o modelo neoliberal não levasse o país à ruína e proteger os próprios credores norte-americanos da crise. Ao mesmo tempo, houve a rebelião zapatista, com o grito de convocação à luta mundial contra o neoliberalismo.

Contudo o México estava irremediavelmente trilhando o caminho do neoliberalismo e do livre comércio, que estreitou ainda mais os vínculos e a dependência da economia norte-americana. Pelas mãos do PRI, partido originário da Revolução Mexicana, com uma ideologia nacionalista, que se transmutava definitivamente.

Quando os processos de integração regional se consolidaram, os países que aderiram aos tratados comerciais com os EUA organizaram um espaço alternativo ao Mercosul, a Aliança para o Pacifico, em que o México teria o papel central, junto a Peru, Colômbia e Chile. Os meios de comunicação internacionais, que mantêm forte campanha contra os governos pós-neoliberais na América Latina, acenam com o México como eventual alternativa ao Brasil.

As comparações entre os indicadores socioeconômicos do Brasil e do México são esmagadoramente favoráveis ao nosso país: do ponto de vista de crescimento, da melhoria das condições sociais, da estabilidade política, do apoio popular aos governos, da soberania na política externa.

Ao consolidar a situação de aliança subordinada aos Estados Unidos, o México fica condenado à estagnação econômica, à deterioração social e à desagregação proveniente de ser o corredor do narcotráfico para o maior mercado consumidor de drogas do mundo.

regressões

Vaias a Aranha na Arena do Grêmio são a vitória do racismo

Grêmio não faz nem faixa contra o racismo, e goleiro do Santos é impiedosamente vaiado durante jogo em Porto Alegre. Time e torcida perdem chance histórica de avançar contra o preconceito
por José Antonio Lima, do Esporte Fino publicado 19/09/2014 12:52
sportv / reprodução
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O goleiro Aranha após a partida em que foi vaiado por torcedores do Grêmio: preparado para as ofensas racistas

O racismo brasileiro, que contesta a existência do preconceito e nega ao negro até mesmo o direito de se sentir ofendido, obteve uma vitória expressiva na Arena do Grêmio, na noite desta quinta-feira 18 em Porto Alegre. Três semanas depois de Aranha ser chamado de “macaco” e “preto fedido”, o goleiro do Santos foi xingado de “viado” e “branca de neve”, vaiado durante o aquecimento e também a cada vez que encostava na bola durante nova partida entre os dois clubes, desta vez pelo Campeonato Brasileiro. Foi uma clara demonstração por parte de muitos torcedores gremistas da “indignação” provocada pelo simples fato, vejamos só o tamanho do buraco, de ter denunciado o ato de racismo do qual foi vítima em 28 de agosto.

Como de costume, houve uma tentativa cínica de negar que as vaias a Aranha fossem uma crítica ao goleiro e, consequentemente, apoio ao ato de racismo anterior. Durante o jogo, vicejava nas redes sociais o argumento de “vaia ser normal no futebol”. Após a partida, essa tese foi encampada por dois repórteres ligados às Organizações Globo, um do SporTV e outro da RBS.

SporTV: Aranha, mas você não acha normal as vaias (sic), o que aconteceu de anormal além das vaias?

Aranha: Eu não ligo com vaia, com manifestação de torcedor, desde que seja do esporte. E a gente, sem ser hipócrita… Porque às vezes também a gente fala as coisas, todo mundo começa a achar o que quer. Todo mundo sabe que a vaia hoje foi diferente.

SporTV e RBS: Diferente por quê?

Aranha (olhando para a repórter da RBS): Você sabe por quê? Por que foi diferente?

RBS: É a pergunta que a gente quer saber.

Aranha: Por tudo o que aconteceu no outro jogo, ou não foi? Ou você concorda com o que aconteceu? Você concorda?

RBS: Eu não tenho que concordar com nada.

Aranha: Ah, você não tem… (que concordar ou discordar)? Por quê? Então você não tá nem aí, é isso?

A conversa é perturbadora e chocante em dois níveis. Em primeiro lugar, pelo fato de os jornalistas partirem do princípio de as vaias não terem relação com o episódio de racismo, uma conclusão que desconsidera todo o contexto e, portanto, configura uma clamorosa e patética mentira. Em segundo lugar, pela busca cega da “isenção” por parte da repórter da RBS diante do claro ato racista do jogo anterior, postura resultante, por óbvio, das regras da emissora e cujo resultado é a dissociação entre o jornalismo e sua causa primária, a defesa da verdade.

Por trás das vaias a Aranha e das perguntas feitas ao goleiro após o jogo está também a construção de uma falsa verdade, a de que o goleiro não foi vítima de um ato racista, mas culpado por fazer torcedores gremistas “perderem a cabeça” ao fazer cera durante o jogo entre Grêmio e Santos pela Copa do Brasil. Defenderam essa tese, para ficar em dois exemplos, diretores do Grêmio, e Eduardo Bueno, também da SporTV. O último a fazê-lo foi Luiz Felipe Scolari, o artífice do 7 a 1, que comparou as denúncias de Aranha a uma esparrela.

O caso envolvendo o goleiro do Santos e a torcida do Grêmio é mais um na lista da moralidade alternativa que vigora no futebol, mas é também emblemático como ferramenta de análise da sociedade brasileira. Quem acusa Aranha, e quem silencia diante da pressão sofrida pelo goleiro, de uma forma ou de outra fortalece a reação à busca pela igualdade, contribuindo de forma perversa para a tentativa de “colocar o negro em seu devido lugar”, invisível e subalterno, onde não incomode com suas reclamações insolentes sobre o “suposto” racismo. É uma postura simplesmente abjeta, que ignora décadas de luta e, como disse o próprio Aranha, a dor de muitas pessoas cujo sofrimento está na base das leis contra o racismo.

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Fiesp não é o carona da crise, e sim o motorista

Secretário-geral da CUT diz que empresas não podem se fazer de vítimas por falta de investimentos e alta rotatividade. Para Metalúrgicos do ABC, Fiesp reedita terrorismo de Mario Amato com fins eleitorais
por Sérgio Nobre, secretário-geral da CUT publicado 18/09/2014 19:26, última modificação 18/09/2014 20:19
Rossana Lana
Sergio Nobre

Nobre: é sabido que os piores meses do ano ficaram para trás

A CUT reconhece as dificuldades que a economia brasileira e a indústria, em particular, enfrentam. Ao contrário das avaliações sindicais patronais, no entanto, é importante que as análises destaquem o forte impacto da crise econômica mundial, aliado ao aumento da taxa de juros a partir de meados de 2013 – que sempre criticamos. Nesse sentido, é necessário pontuar as questões levantadas pela Fiesp, que divulgou essa semana prognósticos de desemprego até o final de 2014, fazendo uma relação com um carro: a Fiesp parece se comportar como “carona”, quando na verdade é “motorista”.

Segundo a Fiesp, a indústria paulista deve fechar mais de 100 mil postos de trabalho até dezembro. A entidade avalia que houve uma conjugação de fatores responsáveis por este resultado, como a queda dos investimentos, uma contração do setor automotivo (tanto interna quanto externa), a desvalorização do dólar e a instabilidade que seria proporcionada pelo calendário eleitoral. Nada de falar sobre a crise financeira internacional nem sobre a alta dos juros.

Em primeiro lugar, é importante avaliar o tamanho das demissões: é verdade que alguns setores e estados têm sentido mais essa conjuntura; é verdade também que este ano a trajetória do emprego na indústria tem sido pior do que nos últimos anos, no entanto, olhando os números oficiais do mercado de trabalho formal disponível no Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o saldo negativo é menor do que o divulgado pela Fiesp. Vamos aos números:

- Na indústria de transformação o saldo de empregos de janeiro a agosto de 2014 é de 8.593 contratações - abaixo do resultado de 2013, mas ainda assim, positivo;

- No estado de São Paulo o saldo do ano é negativo em 12.862 postos de trabalho - bem menor do que os 31,5 mil divulgados pela Fiesp, no mesmo período, de janeiro a agosto;

- Chama atenção no estado de São Paulo que, apesar das 686 mil demissões ao longo de 2014, foram contratados 673 mil trabalhadores, resultando no saldo acima mencionado. Essa prática nociva da rotatividade impõe para o trabalhador um ajuste salarial, que anula os ganhos obtidos durante as campanhas salariais e não combina com o país que todos desejamos, nem tampouco com a modernidade alardeada pelos empresários.

Além disso, é sabido que os piores meses do ano ficaram para trás – historicamente, a partir de setembro, a tendência é que os números do emprego na indústria apresentem uma recuperação – fator que certamente contribuirá para que o saldo final do ano seja diferente dos 100 mil negativos previstos pela federação.

Por outro lado, é preciso lembrar que, apesar de os investimentos terem saído de um patamar de 16,1% do PIB na primeira metade da década passada para 18% nos últimos anos, o patamar ainda é inferior ao necessário no Brasil. Para que seja inaugurado um novo ciclo de desenvolvimento econômico no país, é necessário um incremento nos investimentos na chamada “formação bruta de capital fixo” – basicamente a aquisição de máquinas e equipamentos, que indica se a capacidade de produção do país está crescendo.

A maior parte desse investimento é essencialmente fruto de decisões das empresas e é influenciado pela conjuntura e também pelas expectativas futuras de retorno, onde os custos do capital para sua viabilização e o nível de demanda desempenham papel central. A decisão de muitas indústrias de não investir parece muito mais carregada de um pessimismo exacerbado do que simplesmente da existência de um cenário inviável.

Isso, mesmo considerando que os investimentos demandam tempo; que, ao contrário do cidadão comum, as indústrias emprestam recursos a taxas de juros muitas vezes negativas em termos reais; e que, apesar dos indicadores de atividade fracos, o consumo ainda permanece em crescimento – demonstrando a falta de visão de oportunidades e dando espaço para ampliação de bens importados.

A recente contração do setor automobilístico, apesar de se tratar de um segmento com peso considerável, não pode ser extensível como um “retrato” do desempenho da indústria como um todo. Além disso, esta desaceleração do setor tem de ser vista como pontual, já que decorreu tanto de problemas com a Argentina quanto da falta de crédito para aquisição de veículos por parte do sistema financeiro nacional privado, que se deu ao luxo de “desprezar” R$ 70 bilhões disponibilizados pelo Banco Central para aumento de crédito. Isso é sabotar o crescimento do país.

Também devemos nos atentar aos gargalos do setor, que são mais relacionados à disponibilidade de crédito do que necessariamente à falta de demanda. As próprias montadoras, mesmo com este cenário pontual, manterão todos seus investimentos previstos para os próximos anos, justamente por acreditar na transitoriedade desta conjuntura.

Em relação à desvalorização cambial, é verdade que se trata de um efeito dual: por um lado, pode haver encarecimento no curto prazo de alguns insumos importados; por outro, a desvalorização cambial e a própria existência de um câmbio competitivo são um dos principais pilares do desenvolvimento industrial. Além de confuso, o argumento dos empresários despreza um efeito básico: que a desvalorização cambial encarece os produtos importados e barateia as exportações e, assim, promove a substituição pela produção nacional de forma imediata no mercado interno e favorece as vendas ao exterior, promovendo estímulo à produção interna. E a desvalorização cambial e a adoção de um câmbio competitivo sempre foi uma das principais bandeiras das entidades industriais, em especial a própria Fiesp.

Sobre a possível instabilidade proporcionada pelo cenário eleitoral, é outra alegação no mínimo questionável. De fato, as eleições proporcionam um compasso de espera para decisões, sobretudo de investimentos. No entanto, agravar esse momento com informações superestimadas de crise serve para algum propósito. Qual é? É o que queremos saber. Muitos setores têm ampliado a crise como forma de impor sua agenda junto aos candidatos. Definitivamente, essa não é a forma mais construtiva para o país.

A Fiesp é uma entidade paulista e, ao contrário do que tem sido feito pelo governo federal, o governo do estado de São Paulo pouco ou mesmo nada de relevante tem feito para fortalecer a indústria no estado, devendo por isso ser cobrado. A Fiesp tem sido passiva diante dessas dificuldades.

Os trabalhadores organizados no Macrossetor Indústria da CUT têm abraçado esse tema como prioritário, preparando uma agenda consistente não apenas para a indústria de São Paulo, mas também para o Brasil, de forma responsável e sem manipulação de dados.

Leia também nota do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

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O que está por trás da
declaração de Steinbruch

Por Rafael Marques

De forma veemente, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC protesta contra a declaração do presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Benjamin Steinbruch, que no começo desta semana disse a jornalistas em São Paulo “acho que o desemprego vem aí”.

Questiono o motivo de um empresário ligadíssimo a Paulo Skaf, que é candidato ao governo paulista, aparecer em um momento delicado como o que atravessamos, em meio a uma campanha salarial e a uma campanha eleitoral, e tenta chantagear o governo federal e pressionar a sociedade brasileira trazendo de volta o fantasma do desemprego.

Ao agir desta forma, Steinbruch assume uma postura patronal que nós repudiamos, pois procura colocar os trabalhadores contra a parede, ameaçando-os com o fechamento de postos de trabalho.

A ameaça do desemprego lembra a atitude destemperada e alarmista de Mário Amato em 1989, quando também ocupava a presidência da Fiesp. Ele afirmou que 800 mil empresários deixariam o Brasil caso Lula vencesse as eleições, o que causaria um desemprego enorme. Passado o pleito, Amato reconheceu que a sua frase foi fundamental para a derrota do ex-metalúrgico.

Com sua declaração, Steinbruch age mais do que um simples aliado de Skaf. Não é este o papel do presidente da Fiesp. Repudiamos esse ranço que parte dos patrões brasileiros ainda carrega, pois não aceita trabalhadores assumindo papéis de liderança. Não podemos admitir mais esse tipo de comportamento. Hoje somos testemunhas do erro de Amato, pois no governo Lula foram criados mais de 15 milhões de empregos, jogando por terra a profecia do empresário.

Quando Steinbruch copia o comportamento lamentável de Amato, desdenha dos programas econômicos que os governos Lula e Dilma criaram para fortalecer a indústria, setor que deveria representar, já que é o atual presidente da Fiesp.

Também questiono o levantamento chamado de otimismo empresarial, que é ultrajante. Como é medido, com base em quais indicadores as pessoas ouvidas formulam suas opiniões, para que e a quem serve afinal?

Da maneira como é divulgada, a “pesquisa do otimismo empresarial”, infelizmente, tornou-se um mecanismo político. Direcionada de maneira parcial, a pesquisa acaba influindo negativamente nas decisões sobre investimentos no Brasil.

É o momento de o empresariado deixar o choro e a chantagem de lado e cumprir seu papel na sociedade brasileira. Oportunidades diversas foram perdidas porque não acreditaram no sucesso da organização da Copa do Mundo no Brasil, por exemplo.

O país, ao contrário do que pregam os pessimistas de plantão, continua sendo um lugar de oportunidades e ávido por investimentos. Aqueles que apostarem contra perderão o seu espaço para aqueles que souberem aproveitar o momento.

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CUT: a proposta de Dilma é mais emprego e renda; a dos outros é o desemprego

Para Vagner Freitas, presidente da Central Única dos Trabalhadores, o que foi divulgado sobre as propostas de Marina para os trabalhadores brasileiros 'é tão genérico que não dá para analisar'
por Vagner Freitas, presidente da CUT publicado 18/09/2014 12:01, última modificação 18/09/2014 12:34
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'Não reeleição da presidenta Dilma Rousseff seria um enorme retrocesso para os/as trabalhadores/as'

O mundo do trabalho é praticamente ignorado pela candidata do PSB à sucessão presidencial, Marina Silva. Até agora, pouco se sabe sobre suas propostas para assuntos fundamentais para a classe trabalhadora, como: geração de emprego decente, combate à rotatividade e as condições de trabalho análogas à escravidão, direito à negociação coletiva no serviço público e outros temas de interesse da classe trabalhadora.

E o que já foi divulgado sobre o que a candidata pensa é extremamente preocupante. Afinal, estamos falando de um universo de 101 milhões de brasileiros e brasileiras aptos ao trabalho – como os economistas definem a população economicamente ativa (PEA). Deste total, 94,7 milhões trabalham e 6,26 estão desempregadas. Dos que estão trabalhando, praticamente metade são formais.

O que foi divulgado sobre as propostas de Marina para esse enorme contingente é tão genérico que não dá para analisar. É o caso das alterações que ela quer fazer na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT); ou a clara ameaça para a classe trabalhadora, como é o caso da proposta de regulamentação da terceirização.

É claro que ela pode voltar atrás, dizer que estão distorcendo o que ela diz ou escreve, apontar o dedo, me acusar de perseguição. Faz parte do jogo. O fato concreto é que estamos nos baseando apenas no que ela diz para empresários -  com representantes dos/as trabalhadores/as ela não fala -, ou no que está escrito em seu programa de governo.

Sobre os “ajustes” na CLT, o programa da candidata socialista é vago. Diz apenas que é preciso haver “mudanças”. Esta semana, em São Paulo, Marina falou para empresários que fará uma “atualização” da legislação trabalhista, caso seja eleita. Como sempre, evitou detalhar quais seriam as alterações, mas se antecipou as críticas dos representantes dos/as trabalhadores/as dizendo que não seria uma “flexibilização” das regras.

É inacreditável que uma candidata a presidente fale em mudar uma Lei que afeta mais de 100 milhões de trabalhadores/as e não explicar o que pretende mudar. Pior é a resposta que Marina deu quando questionada: “Ainda não temos resposta, esse assunto é muito complexo”.

Já a terceirização é um dos poucos temas de nosso interesse tratado no programa de governo da candidata em mais de uma linha genérica. E a notícia não é nada boa. Marina defende a terceirização usando os mesmos argumentos dos patrões. Vejam o que está escrito lá: “a terceirização leva a maior especialização produtiva, a maior divisão do trabalho e, consequentemente, a maior produtividade das empresas. Com isso, o próprio crescimento do setor de serviços seria um motor do crescimento do PIB per capita”.

Distante do mundo do trabalho há muito tempo, Marina não conhece a realidade dos/as trabalhadores/as, não sabe que terceirização precariza a mão de obra, deteriora as condições de trabalho, aumenta as jornadas, reduz os salários, coloca em risco a saúde e a vida dos trabalhadores. Matéria da Carta Capital desta semana tem um dado que a candidata deveria conhecer: na construção civil, 55,5% dos óbitos foram de terceirizados em 2013. Outro dado importante: o terceirizado está mais sujeito à violação de direitos trabalhistas e ao trabalhado análogo à escravidão.

O que queremos saber é: como Marina pretende mudar a CLT ou “regulamentar” a terceirização sem tirar direitos dos/as trabalhadores/as? Ela fala em atualizar as regras para ajudar na geração de empregos. O que isso significa? Quando os empresários falam isso eles são claros: querem diminuir direitos e ampliar lucros. Nada mais que isso.

No Brasil, nunca ouvimos ninguém falar em reformar a CLT para beneficiar os/as trabalhadores/as. FHC é um exemplo disso. Ele tinha um projeto de “atualização” da CLT que representava, de fato, a total desregulamentação do mercado de trabalho e tirava direitos que conquistamos depois de muita luta, pressão de mobilização. É isso que Marina está dizendo?

A dezoito dias da eleição, a única certeza que temos sobre Marina é a de que ela não tem compromisso com a classe trabalhadora. E os aliados da candidata, tanto parlamentares quanto banqueiros, empresários e, principalmente, seus colaboradores e assessores, são absolutamente hostis aos direitos dos trabalhadores. Para eles, flexibilizar é modernizar a legislação. Para nós, é retirar direitos conquistados ao longo da história e ampliados nos últimos doze anos.

A única certeza que temos é a de que a não reeleição da presidenta Dilma Rousseff seria um enorme retrocesso para os/as trabalhadores/as. Dilma é a única candidata que tem propostas concretas para melhorar a vida da sociedade.

Defendemos e vamos reeleger o projeto democrático e popular representado por Dilma porque uma mudança agora coloca em risco tudo que foi feito nos últimos anos, quando, apesar da crise econômica internacional, foram gerados mais de 20 milhões de empregos – atingimos, pela primeira vez, o menor índice de desemprego já registrado no Brasil -, o salário mínimo subiu 73% acima da inflação e os demais salários 85%. Apesar das pressões Dilma e Lula não retiraram direitos trabalhistas, muito pelo contrário, garantiram direitos para quem não tinha como as trabalhadoras domésticas. É importante lembrar que 93% deste universo é formado por mulheres e a maioria é negra.

Defendemos e vamos reeleger Dilma porque depois de incluir, formalizar e melhorar salário, ela é a única capaz de enfrentar com sucesso o desafio de consolidar o desenvolvimento econômico e social, com distribuição de renda e trabalho decente. Estamos falando em gerar mais e melhores empregos, incluir mais pessoas no mercado de consumo. Isso abrirá novas possibilidades, e avanços para o trabalhador já inserido e  para o que ainda não tem ocupação.

Vamos reeleger Dilma porque a proposta dela é mais emprego e renda, a dos outros é o desemprego e a incerteza sobre o nosso futuro e sobre os nossos direitos.