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Na Rede

por publicado , última modificação 17/04/2015 14:14

trabalho

Serviços respondem pela dinâmica das ocupações para a maior parcela da população

Mudança da sociedade urbano-industrial para a pós-industrial altera as perspectivas dos trabalhadores com a concentração de atividades no setor terciário, que pode representar 90% das vagas
por Marcio Pochmann publicado 12/12/2014 17:07, última modificação 12/12/2014 17:19
Clarice Castro/Governo RJ
serviços.jpg

Serviços respondem pela dinâmica do trabalho imaterial, não mais vinculado à produção de bens tangíveis

Na transição atual da sociedade urbano-industrial para a pós-industrial, percebe-se o acúmulo de novas e importantes perspectivas para as classes trabalhadoras. Inicialmente, o sentido da ampliação da expectativa média de vida, para cada vez mais próximo dos 100 anos de idade. Simultaneamente, percebe-se a forte concentração do trabalho no setor terciário das economias (serviços em geral), podendo representar cerca de 90% do total das ocupações. Assim, o terciário tende não apenas a assumir uma posição predominante, tal como representou a alocação do trabalho no setor agropecuário até o século 19 e na indústria no século 20, como passar a exigir, por consequência, novas formas de organização e de representação dos interesses deste mundo do trabalho em transformação. Nos países desenvolvidos, por exemplo, os setores industriais e agropecuários absorvem atualmente não mais do que 10% do total dos ocupados.

Embora heterogêneo, o setor de serviços responde fundamentalmente pela dinâmica do trabalho imaterial, não mais vinculado à produção de bens tangíveis. Associa-se à produtividade imaterial e passa a ser exercido em qualquer local e horário, não mais em um local específico como era o mundo do trabalho na indústria ou na agropecuária e extrativismo mineral e vegetal. As novas tecnologias (internet e telefonia celular) em contato com as inovações na gestão da mão de obra não intensificam profundamente o exercício da atividade laboral no próprio local de trabalho. Ademais, constata-se também a extensão do trabalho exercido cada vez mais para além do local de trabalho, sem contrapartida remuneratória e protetiva, posto que o sistema de regulação pública do trabalho encontra-se fundamentalmente focado na empresa, como bem define a Consolidação das Leis do Trabalho.

Em virtude disso, a lógica de funcionamento da economia capitalista impõe a geração de maior excedente de mão de obra, a partir de ganhos altíssimos da produtividade imaterial. Para isso, o conhecimento, não mais a força física, torna-se importantíssimo na ampliação das novas fontes de geração de riqueza com o uso disseminado do trabalho imaterial. Nesses termos, a estratégia das classes trabalhadoras precisa ser reinventada, não apenas na defesa da realidade passada, alcançada por segmentos bem posicionados dos trabalhadores, mas também no protagonismo de um novo padrão civilizatório.

No curso da nova sociedade pós-industrial, a inserção no mercado de trabalho precisa ser gradualmente postergada ainda mais, possivelmente para o ingresso na atividade laboral para somente após a conclusão do ensino superior, com idade acima dos 24 anos de idade, e saída sincronizada do mercado de trabalho para o avanço da inatividade. Tudo isso acompanhado por jornada de trabalho reduzida, o que permite observar que o trabalho heterônomo deva corresponder a não mais do que 25% do tempo da vida humana. Antes disso, a sociedade agrária tinha no começo do trabalho a partir dos 5 a 6 anos de idade para se prolongar até praticamente a morte, com jornadas de trabalho extremamente longas (14 a 16 horas por dia) e sem períodos de descanso, como férias e inatividade remunerada (aposentadorias e pensões). Para alguém que conseguisse chegar aos 40 anos de idade tendo iniciado o trabalho aos 6 anos, por exemplo, o tempo comprometido somente com as atividades laborais absorvia cerca de 70% de toda a vida humana. Naquela época, em síntese, viver era fundamentalmente trabalhar, já que praticamente não havia uma separação nítida entre tempo de trabalho e de não trabalho. Na sociedade industrial, o ingresso no mercado laboral foi postergado para 16 anos de idade, garantindo aos ocupados, a partir daí, o acesso ao descanso semanal, férias, pensões e aposentadorias provenientes da regulação pública do trabalho. Com isso, alguém que ingressasse no mercado de trabalho depois dos 15 anos de idade e permanecesse ativo por mais 50 anos, teria, possivelmente, mais alguns anos de inatividade remunerada (aposentadoria e pensão). Assim, cerca de 50% do tempo de toda a vida estaria comprometido com o exercício do trabalho heterônomo.

A parte restante do ciclo da vida, não comprometida com o trabalhão pela sobrevivência, deveria estar associada à reconstrução da sociabilidade, estudo e formação cada vez mais exigidos pela nova organização da produção e distribuição internacionalizada. Isso porque, frente aos elevados e constantes ganhos de produtividade, torna-se possível a redução do tempo semanal de trabalho de algo ao redor das 40 horas para não mais de 20 horas. De certa forma, a transição entre as sociedades urbano-industrial e pós-industrial tende a não mais separar nítida e rigidamente o tempo do trabalho do não trabalho, podendo gerar maior mescla entre os dois tempos de trabalho e não trabalho, com maior intensidade e o risco da longevidade ampliada da jornada laboral para além do tradicional local de exercício efetivo do trabalho. Frente a isso, constata-se que o melhor entendimento acerca do novo mundo do trabalho possibilita a reinvenção da pauta sindical comprometida com a construção de uma sociedade superior.

Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas

central américa

A disputa pelo centro do mundo

No âmbito da Unasul será criada a cidadania sul-americana, não apenas com passaporte próprio para todos os habitantes da região, mas com efeitos diretos na vida dos imigrantes, dos estudantes e trabalhadores
por Emir Sader, para a RBA publicado 07/12/2014 14:07, última modificação 07/12/2014 14:10
governo do equador/reprodução
unasul

Sede da Unasul erguida em Metade do Mundo, sobre a linha do Equador

Conversando uma vez com uns norte-americanos nos EUA, o escritor e jornalista Eduardo Galeano conta que lhe perguntaram de onde era ele. Pareceu-lhe bastante complicado explicar que era do Uruguai, então se aproveitou que a Nicarágua estava no olho do furação, e lhes respondeu: Central América.

A cara de perplexidade deles foi enorme. É que para eles Central América é Kansas ou Massachussets ou Missouri, o centro da América. A América Central não existe para eles.

Agora as coisas podem ficar um pouco mais confusas ainda para eles. É que a belíssima sede da Unasul, inaugurada esta semana no Equador, foi construída numa cidade que se chama Metade do Mundo, perto de Quito, exatamente sobre a Linha do Equador, daí o nome. E pretende disputar a ideia de qual é o centro do mundo. Que, para os norte-americanos, evidentemente é Wall Street.

A inauguração do imponente edifício de Unasul, próximo de Quito, foi um momento importante para que os presidentes sul-americanos pudessem retomar o diálogo sobre o processo de integração regional e, ao mesmo tempo, expressar suas maiores preocupações.

Puderam recordar que a Unasul foi formada no momento em que se desencadeava a crise econômica internacional e que naquele momento se anunciaram medidas de proteção coletiva diante dos efeitos recessivos que chegavam do centro do capitalismo. Depois cada país buscou se defender da sua maneira, conseguindo resistir desde então, sem entrar em recessão, mas os efeitos negativos do centro do sistema seguem agindo sobre nossas economias.

Dilma ressaltou como a baixa dos preços do petróleo se soma à das commodities, pressionando para baixo as possibilidades de crescimento de nossas economias, enquanto os sinais de recuperação dos países centrais são desencorajadores. Unasul, na sua nova fase, pode vir a ocupar um papel importante no apoio comum às nossas economias.

A retomada do Banco do Sul está entre as decisões que vão nessa direção, ainda mais se se soma às decisões tomadas pelos Brics na reunião deste ano em Fortaleza. Depois de superar impasses, o Banco do Sul terá uma reunião decisiva na próxima semana, em Caracas, quando serão formalizadas as autoridades das distintas instâncias do banco, o que permitirá que ele comece finalmente a funcionar.

Mas não é nesse plano que a Unasul pretende disputar lugar no espaço da geopolítica mundial. Foram aprovadas a Escola Sul-americana de Defesa, que fará com que os militares do continente deixem de ser formados pelos EUA na Escola das Américas, para o serem numa nova doutrina de segurança, a ser elaborada por essa escola.

Será criada a cidadania sul-americana, não apenas com passaporte próprio para todos os habitantes da região, mas com efeitos diretos na vida dos imigrantes, dos estudantes, dos trabalhadores comuns, nos planos da pesquisa, da tecnologia, da educação, entre outros.

Contando com quase 500 milhões de habitantes, a Unasul se orgulha também que, com a finalização do processo de paz na Colômbia, se tornará plenamente uma zona de paz, um caso raro num mundo assolado cada vez mais por focos de guerra.

A pretensão da Unasul é, assim, passar de ter sua sede no centro geográfico do mundo, chegar a ser um centro político do mundo, disputando espaço num mundo cada vez mais multipolar.

mídia

'Não leia jornais, minta você mesmo'

Fernando Morais, comentarista da TVT, lembra palavras de ordem da greve de jornalistas de 1979 e alerta contra a manipulação nos veículos de comunicação
por Redação da RBA publicado 05/12/2014 13:53, última modificação 05/12/2014 16:00
Reprodução/TVT
fmorais

"Acredita em tudo que vê por ai? É bom reconsiderar", afirma Fernando Morais, comentarista da TVT

São Paulo – Comentarista da TVT, o jornalista e escritor Fernando Morais recomenda ‘olho crítico’ para tudo o que se produz na internet, jornais, revistas, rádio e TV. Ele recorda a história da greve dos jornalistas, ocorrida em São Paulo, em 1979, quando pichavam os muros com as palavras de ordem: "Não leia jornais, minta você mesmo".

Para o jornalista, passados 35 anos, a advertência continua válida. Ele cita o caso de Paulo Roberto Costa, ex-funcionário da Petrobras, que em depoimento à CPI no Congresso, afirmou que a corrupção está presente em todas as empresas do país e ocorre desde o governo Sarney, passando por todos os demais, até os dias atuais. A mídia tradicional deu destaque apenas para a primeira declaração e silenciou sobre a segunda.

Fernando Morais cita também o caso do Jornal Nacional, que foi obrigado a se retratar de tentativa de manipulação, quando disse que o mesmo Paulo Roberto Costa teria se reunido com a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o presidente Lula, Na realidade, o depoente, afirmou que nunca se reunira com nenhum dos dois – o oposto.

Assista o comentário completo da TVT

menos desigual

Decisão política de distribuir para crescer muda estrutura social

Trabalhadores pobres foram principais beneficiados pela decisão do Estado de inverter prioridades e enfrentar desigualdades. Mudança na estrutura da sociedade fortalece a classe trabalhadora brasileira
por Marcio Pochmann publicado 05/12/2014 11:44, última modificação 05/12/2014 11:50
hangar am / reprodução
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Feirão da casa própria em Manaus. Acesso a bens de consumo duráveis, expansão econômica e melhora na distribuição da renda

O curso das mudanças na estrutura social brasileira desde os anos 2000 indica a incorporação crescente de parcela importante dos trabalhadores de baixa renda no padrão de consumo de bens e serviços de maior valor unitário. Razão disso foi a elevação do nível geral de emprego acompanhada por políticas de fortalecimento do poder aquisitivo, como o salário mínimo, e por negociações exitosas de acordos coletivos comandadas pelos sindicatos dos trabalhadores.

A mudança nos preços relativos no interior do mercado interno do país, ocasionada pela ampliação da oferta chinesa dos bens industriais de menor valor e acrescida pela difusão do crédito ao consumo, também causou impacto somente comparável ao ocorrido anteriormente nos países desenvolvidos. Isso porque, desde o segundo pós-guerra do século passado, as economias capitalistas avançadas passaram a registrar alterações importantes na estrutura social.

O acesso a bens de consumo duráveis pela maioria da população, especialmente daqueles de valor unitário maior, como automóvel e casa própria, simbolizou o avanço do ciclo de expansão econômica, associado à significativa melhora na distribuição da renda. A pressão organizada dos trabalhadores e os acordos realizados com outras forças políticas progressistas favoreceram a ascensão e consolidação do Estado de bem estar social.

Em outros países não desenvolvidos como o Brasil não houve registros no mesmo sentido na expansão do padrão de consumo verificado nas economias desenvolvidas ao longo do século passado. O que se constatou, em consequência, foi a consolidação de uma estrutura social muito desigual, marcada pelo subconsumo dos trabalhadores em relação ao acesso dos bens duráveis como automóvel e moradia própria.

Contribuíram para isso a ausência tanto do Estado de bem estar social e de acordos políticos comprometidos com a redução da desigualdade na distribuição dos frutos da expansão econômica. No próprio Brasil, a prioridade ao crescimento econômico foi acompanhada por brutal concentração da renda. Ao final do século 20, o Brasil situava-se simultaneamente entre as oito economias mais ricas do mundo e as três mais desiguais do planeta.

Somente na década de 2000 o país encontrou importante inflexão na trajetória da desigualdade distributiva, com a inversão da antiga prioridade nacional. Isto é, a opção pelo estabelecimento da repartição da renda como um dos principais determinantes do crescimento econômico.

O avanço do Estado de bem estar social revelou o vigor das lutas sociais, especialmente das organizações dos trabalhadores, concomitante com a formação de uma nova maioria política favorável à desconcentração da renda. Assim, o Brasil caiu da terceira para a décima sétima posição no ranking da desigualdade mundial.

Como consequência, a estrutura social brasileira se modificou, tornando-se compatível com a tendência de homogeneização do padrão de consumo de bens duráveis, que até então se apresentava plenamente factível aos segmentos de classe média e de rendas superiores. Ademais, a característica do subconsumo dos trabalhadores brasileiros começou a ser superada com o início do processo de desconcentração da renda nacional.

O estrato social reconhecido pela literatura especializada como de trabalhadores pobres (working poor) foi um dos principais beneficiados pelo movimento político de inversão de prioridades (distribuir para crescer). Com isso, o país assistiu ao fortalecimento da classe trabalhadora, sobretudo daquela de baixa renda, como um dos principais resultados da mudança na estrutura da sociedade brasileira.

Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Universidade Estadual de Campinas.

mais um

PM paulista agride jornalista em cobertura esportiva e amplia histórico de violência

Agressão justificada 'porque a imprensa só ataca os policiais' ocorreu após partida entre Santos e Botafogo e dever ser mais um caso que passará impune pela Secretaria de Segurança paulista
por Redação RBA publicado 02/12/2014 13:28, última modificação 02/12/2014 14:21
Zanone Fraissat/Folhapress
PM

Truculência, que já é tônica contra movimentos sociais, tem cada vez mais sido usada para impedir trabalho de jornalistas

São Paulo – Cena repetida algumas vezes em coberturas de manifestações, a violência de policiais militares contra jornalistas ganhou um novo capítulo no último domingo (30), durante a partida entre Santos (SP) e Botafogo (RJ), na cidade de Santos, litoral paulista, válida pela penúltima rodada do Campeonato Brasileiro.

Após a partida, houve enfrentamento entre a torcida santista e a Polícia Militar, que invadiu a sede da organizada Sangue Jovem. O repórter esportivo Bruno Cassucci de Almeida, do jornal Lance!, tentou acompanhar a situação, mas foi impedido de realizar seu trabalho, teve fotos apagadas de seu celular e foi agredido verbal e fisicamente por agentes públicos, sob a justificativa de que a imprensa só ataca os policiais.

O veículo manifestou repúdio à ação dos policiais, assim como o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, que cobrou ação da Secretaria da Segurança Pública. A secretaria abriu inquérito para apurar a denúncia. No entanto, em outros momentos, como na repressão contra a manifestação de 13 de junho de 2013 contra o aumento da tarifa de transportes em São Paulo, a resposta efetiva contra a violência policial foi nula.

Cabe lembrar que nenhum policial foi punido pelas agressões ocorridas contra profissionais de imprensa naquele dia. Caso do repórter fotográfico Sérgio Silva, que perdeu um olho ao ser atingido por uma bala de borracha disparada pela polícia e até hoje não foi sequer procurado pela secretaria para qualquer providência.

A seguir, o relato do repórter esportivo Bruno Cassucci de Almeida:

"Não quero aparecer, muito menos levantar bandeira. Tenho minhas opiniões, sentimentos aflorados neste momento e a cabeça ainda confusa. Escrevo aqui não para fazer juízo de valor, nem generalizar uma classe que sei que é mal paga, mal equipada e que deveria servir a uma sociedade que em boa parte lhe detesta. Como jornalista, acredito que não há opinião sem informação, e é por isso que venho aqui relatar o que vivi na tarde desse domingo, na Vila Belmiro.

No pior dia da minha curtíssima carreira jornalística e um dos piores da minha vida, fui agredido, ameaçado e tive material jornalístico apagado por policiais militares. Pensei em escrever "censurado", mas, por mais que entenda que foi isso que aconteceu, sei que a censura no nosso país já foi muito pior no passado do que a que sofri hoje, de modo que não seria justo colocar tudo num mesmo balaio.

A ordem cronológica foi a seguinte:

Como setorista do Santos no Lance! fui escalado para fazer a cobertura da partida da equipe contra o Botafogo. Como os paulistas já não almejam nada neste ano e o clube carioca acabou rebaixado, fui designado a ir para o vestiário visitante após o jogo. Assim que cheguei lá, ouvi barulho de bombas na rua. Ciente da minha função e ignorando as corriqueiras orientações da dona Maria, minha mãe, fui até lá averiguar o que se passava. Não era possível ter certeza, mas tudo indicava que vândalos que se dizem torcedores das duas equipes estavam brigando.

Decidi não ir ao encontro da confusão, como já fiz em outras ocasiões, mas fiquei ali esperando. Passado um tempo, a polícia se concentrou e foi para o lado esquerdo, próximo à entrada principal da Vila e na rua onde fica a sede da organizada Sangue Jovem. Fui atrás, mas mantendo distância. Ali bombas de efeito moral foram arremessadas, e alguns santistas revidaram atirando garrafas e paus. A polícia invadiu a sede da organizada e era possível ouvir explosões e barulho de vidro estilhaçado. Um morador da vizinhança me chamou para dentro de sua casa. Fiquei pouco tempo ali e logo voltei para a rua, a fim de tentar entender – e consequentemente relatar – o que estava acontecendo.

Uma policial, então, me mandou sair "vazado". Argumentei que eu estava trabalhando e ela retrucou: "Eu também. Dá linha, curioso!"

Voltei para a frente da casa na qual havia entrado e esperei as coisas se acalmarem. Já não se ouvia mais bombas ou disparos e decidi voltar para a frente da Sangue Jovem. Foi então que começou tudo.

Estava tirando fotos com o celular quando um policial me viu e, com a arma apontada para mim, gritou para eu encostar na parede com as mãos para o alto. Eu disse que era jornalista, mas isso parece não ter ajudado, pelo contrário.

No procedimento padrão – ao qual já havia sido submetido em abordagens policiais no passado – fui revistado com certa agressividade, mas até aí tudo bem. Depois de verificar que eu estava "limpo", o policial, já cercado por outros, pediu para eu abrir minha mochila, que também foi revistada. O passo seguinte foi tomar meu celular. O oficial pediu para eu desbloquear o aparelho e acessar as imagens. Ele então começou a apagar uma por uma. O procedimento durou uns cinco minutos, que pareceram eternos.

Enquanto ele fazia isso, uma outra autoridade pediu para eu não olhar para trás. Errei. Instintivamente, segundos depois eu acabei olhando para o celular e então fui agredido no rosto.

Depois, a policial que havia me abordado antes, aquela do "dá linha, curioso", me disse que eu já tinha sido avisado. Eu novamente argumentei que estava ali trabalhando, e ela afirmou: "Eu também estou e você não respeitou meu trabalho". Até agora não sei qual foi meu desrespeito.

Um outro oficial que se aproximou disse que eu estava ali para "defender torcedor" e que a mídia só mostrava quando a polícia bate "nesses caras". A minha intenção era exatamente outra, ouvir algum responsável pela operação para tentar entender o que estava acontecendo.

Foi então que ocorreu a cena mais aterrorizante de toda a abordagem. Um PM aparentando muito nervosismo se colocou entre mim e a parede, pegou uma bomba de efeito moral, puxou minha calça e a colocou dentro. "Você não é macho? Quero ver ser macho agora". Como fiz durante todo o episódio, expliquei que era jornalista, pedi desculpas, o chamei de "senhor". Ele falou mais algumas coisas que não me lembro agora e saiu.

Aliás, tudo isso aconteceu há cerca de quatro horas e eu já não lembro de diversos detalhes, pelo choque e medo, obviamente. Fiz questão de olhar o nome de todos, um por um, mas já me esqueci de boa parte. Aquela mesma policial percebeu quando eu olhei para a identificação dela e ironizou: "Quer levar para casa? Tenho várias outras, pode levar".

Após apagar todas as fotos, o policial que me enquadrou mandou eu desligar o aparelho e tirar o chip e a bateria. Expliquei que era impossível no iPhone e, graças a uma outra oficial que estava perto, ele acreditou.

Por fim, entreguei meu documento ao PM, que saiu e voltou instantes depois. Antes de ser liberado, ele me deu um recado, que começou com algo como "sei que você vem sempre aqui e eu também venho". Não lembro a continuação, mas tenho a impressão que se tratava de uma ameaça.

Ouvi uma ou outra ofensa dos demais oficiais ali presentes e fui liberado.

Já estou em casa, sem qualquer arranhão no corpo, mas com a adrenalina ainda a mil. Poder abraçar minha mãe, jantar o que ela preparou e saber que nada pior aconteceu é tranquilizante. Saber que todos os dias abusos desse tipo e outros muito piores acontecem com gente que não sabe ou não tem como se expressar é o que preocupa. Sei de todos os privilégios que tenho por ser branco, não viver na periferia e ter tido a oportunidade de estudar. Se passo por situações como essa, com certeza há quem viva coisa muito pior diariamente.

O texto é longo, mas espero que meus amigos que há uns dias defenderam a ditadura militar nesta mesma rede social possam ler. Dispenso seu like, faço questão da sua reflexão."

mitologia

O PMDB e a Odisseia imposta ao governo Dilma

O religioso e assessor de movimentos sociais Frei Betto vê no partido características que questionam as razões para ser chamado de 'base aliada'
por Redação da RBA publicado 01/12/2014 12:31, última modificação 01/12/2014 15:17
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Ulisses se amarra ao mastro para resistir ao canto das sereias: paralelos com o papel do PMDB no Congresso

O PMDB está à frente das duas Casas Legislativas brasileiras, a Câmara dos Deputados e o Senado. A Câmara é presidida por Henrique Eduardo Alves, mas há toda uma intensa atividade de bastidores para que seja eleito Eduardo Cunha, também PMDB, uma pessoa que o Executivo não "engole" facilmente. O Senado é presidido por Renan Calheiros, que inclusive é o presidente do Congresso – o conjunto das duas Casas Legislativas.

Nem na Roma Antiga, que era republicana, esse fenômeno parecia possível, um partido que domine toda a legislatura. Em nome da divisão de poderes, lá na Roma Antiga, as famílias nobres cultuavam a diversidade como uma espécie de antídoto ao absolutismo. Aqui não. No Brasil, a cobra fuma e não expira.

O PMDB terá, a partir do ano que vem, uma bancada de 19 senadores, 66 deputados federais e governará sete estados. A gente sabe que é um partido repartido em tendências, inclusive antagônicas. Nele, há de tudo. Desde o testemunho ético de um Pedro Simon, senador pelo RS, às recorrentes denúncias de corrupção que historicamente pesam sobre alguns de seus líderes.

O PMDB pratica, mais que a democracia, a demoarquia, que é originária do verbo grego "arquem", que significa ser o primeiro, estar à frente, no sentido de comandar processos.
Ora, para que plebiscito se, há décadas, vivemos em um regime parlamentarista?

O PMDB exerce a função de primeiro-ministro, mas o Executivo é quem preside. Ou, quem sabe, estamos, sem nos dar conta, em plena monarquia. A família peemedebista se sucede nas instâncias de poder com direito a conceder, a correligionários e aliados cargos e prebendas. Atualmente, o PMDB disputa acirradamente a nomeação dos novos ministros da presidenta Dilma.

Não importa que os discursos sejam outros. Na Inglaterra, enquanto o parlamento grita, a rainha reina. Aqui, ocorre o mesmo. Haja o que houver, estamos em mãos do mais despudorado fisiologismo, cujos discursos sobrevoam eloquentemente as práticas do clientelismo e do compadrio.

Se "o mundo gira e a Lusitana roda", como se dizia antigamente, os governos se sucedem e o PMDB impera. O lema do partido parece ser, ‘se hay gobierno, soy a favor'. Coitado do Dr. Ulysses Guimarães e toda a sua luta por uma democracia participativa.

Homero, autor da saga clássica ‘Odisseia’, escreveu que Ulisses encontrou na Ilha das Sereias curiosas criaturas com cabeças e vozes de mulheres, mas com corpos de pássaros, que com doces canções atraiam os marinheiros ao encontro das rochas. Quando o barco de Ulisses se aproximou, uma calmaria se abateu sobre o mar e a população se utilizou dos remos.

De acordo com as instruções de Circe, Ulisses tampou os ouvidos da população com cera, enquanto ele próprio foi amarrado ao mastro de modo que pudesse ouvir essa canção que atraía os marinheiros rumo às rochas, e poder passar por ela a salvo. ‘Aproxime-se, Ulisses’, cantavam as sereias.

Ulisses resistiu, mas quantos a bordo do "transgoverno" chamado PMDB são capazes de tapar os ouvidos ao canto das sereias?

Narra ainda Homero, que Penélope, fiel esposa de Ulisses, rejeitou todos os pretendentes, aqueles que queriam ficar com ela, pois o marido estava em longa viagem pelos mares e provavelmente teria morrido e não voltaria.

Até que um dia surgiu um mendigo, tomou o arco que era de Ulisses e conseguiu disparar uma flecha, coisa que nenhum outro homem havia conseguido até então. Na mesma hora, Penélope reconheceu nele o seu amado marido.

A democracia brasileira espera, como Penélope, o dia que poderá reconhecer sua plenitude na inclusão social daqueles que hoje se nos apresentam como o maltrapilho Ulisses, as 16 milhões de pessoas que neste país ainda se encontram em situação de miséria.

Ouça o comentário de Frei Betto na Rádio Brasil Atual:

equívoco

Fórum Mundial de Direitos Humanos no Marrocos foi aposta arriscada

Num país com pena de morte, presos políticos e repressão a movimentos sociais, evento serviu para satisfazer o rei e em nada contribuiu para a causa em escala mundial
por Emir Sader, para a Rede Brasil Atual publicado 30/11/2014 11:36, última modificação 30/11/2014 11:55
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Protesto pela autonomia do povo saharaouni no Marrocos: país desrespeita direitos humanos, mas sediou fórum mundial

O Primeiro Fórum Mundial de Direitos Humanos, realizado em Brasília em dezembro de 2013 e organizado pela Secretaria de Direitos Humanos, ainda sob o mandato da Maria do Rosário, foi um evento importante e representativo. Com participantes de mais de 70 países, foi tão amplo que, já na sua abertura, a presidenta Dilma teve de enfrentar, dentro do próprio auditório, uma manifestação de protesto organizada por movimentos indígenas.

Ao final daquele evento, porém, foi aceita a proposta de que o segundo fórum fosse realizado no Marrocos. Uma decisão que causou estranheza nos meios ligados aos direitos humanos, dado o caráter do regime político do país, que submete a sociedade marroquina a precárias e pouco confiáveis condições de direitos humanos.

O evento no país árabe começou no último dia 27 e se encerra hoje (30), marcado por problemas.

Para começar, o Marrocos ainda tem pena de morte. Alega-se que há anos ela não é aplicada. Mas o mais importante é que o regime – no caso, o rei – continua a se reivindicar o direito de tirar a vida de pessoas.

Em segundo lugar,  por se tratar de um regime monárquico em que o rei concentra grande parte do poder. Junto com a Jordânia, são os únicos países da região que ainda se mantém monárquicos.

Além disso, há grande quantidade de presos políticos no Marrocos. Uma parte são ligados à Frente Sarahoui, que reivindica a autonomia do Saara Ocidental, reivindicação reconhecida pela ONU, mas desconhecida pelo governo do país.

Há também presos de movimentos vinculados à chamada Primavera Árabe. No momento do surgimento deste movimento, o governo tolerou sua existência, mas depois prendeu muitos de seus ativistas e os mantém encarcerados.

Há ainda que registrar limitações ao livre direito de manifestações. Além de muitas serem são proibidas, os movimentos que as convocam são reprimidos com truculência.

Por esse conjunto de fatores, houve vários protestos, dentro e fora do Marrocos, pelo boicote ao fórum, liderado por organizações como Attac e outros, do próprio Marrocos. No Brasil, a Via Campesina e o MST também manifestaram essa posição. Um abaixo assinado encabeçado pelo Prêmio Nobel Perez Esquivel, igualmente reafirmou contrariedade.

Mais além da discussão sobre a efetividade ou não do boicote ou de uma atuação de dentro do Fórum, o certo é que as limitações que haviam sido apontadas se expressaram de diferentes maneiras.

Na própria abertura do evento, somente dois oradores – o ex-primeiro ministro espanhol Jose Luiz Zapatero e a presidenta do Comitê Internacional Contra a Pena de Morte - tocaram neste tema. Nenhum outro dos aspectos constrangedores, entre eles, os presos políticos ou a reivindicação dos sarahuois, foram mencionados. Um clima de abertura fortemente contrastante com o que tinha dado a tônica no Brasil.

Provavelmente por esse conjunto de fatores, apesar da extensa lista de personalidades anunciadas - entre elas o Secretário Geral da ONU, Ban Ki-Moon, e a Diretora Geral da Unesco, Irina Bokova – não compareceram. Também deste ponto vista não foi um fórum expressivo e representativo, a ponto que a personalidade política mais expressiva foi o ex-primeiro ministro Zapatero, um personagem político já de muito pouco relevo na própria Espanha.

Nem sequer houve sinalizações do governo marroquinho de avançar na direção do respeito dos direitos humanos, como por exemplo, o fim da pena de morte e a anistia de presos políticos.

Em vez disso, a realização do fórum foi amplamente usada pela mídia do país para propagar que a escolha confirmaria que o Marrocos seria uma referência internacional no respeito dos direitos humanos, o que provavelmente deixou o rei Muhammad VI satisfeito.

O evento pode até ter representado um espaço de articulação dos movimento de direitos humanos dentro do Marrocos, mesmo que o mais importante deles tenha optado pelo boicote ao Fórum. Mas a aposta de fazer o Segundo Fórum Mundial dos Direitos Humanos em um paés com todos esses problemas, parece ter sido bastante equivocada e em nada fortaleceu a luta pelos direitos humanos em escala mundial.

Tendências

Um novo olhar necessário para o novo mundo do trabalho

O que se tem é a realização crescente do trabalho imaterial em qualquer local proporcionado pelo uso recorrente das tecnologias de comunicação e informação inovadoras, capaz de manter o ser humano plugado no trabalho heterônomo 24 horas por dia
por Marcio Pochmann publicado 28/11/2014 15:34
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tecnologia

O saber passa a ser incorporado em novas bases, tornando antiquados os atuais sistemas de educação e formação laboral

Concomitante com a passagem para o século 21 observa-se a afirmação de mudanças importantes nas modalidades de organização do trabalho. Um delas talvez a principal resulta da emergência da economia dos serviços que redefine as categorias básicas como o capital, valor e trabalho. Esta última categoria, aliás, termina por incorporar crescentemente o saber em novas bases, tornando antiquados os atuais sistemas de educação e formação laboral.

Com a elevação das competências laborais e a possível ampliação da expectativa de vida para próximo de 100 anos, expande-se a demanda pela formação por toda a vida e faz-se romper a lógica educacional do século passado – comprometida somente com as fases mais precoces da vida humana (crianças, adolescente e alguns jovens). Adiciona-se a isso o avanço da criação  dos postos de trabalho no setor terciário das economias (trabalho imaterial), cuja natureza formativa diverge da inserção e trajetória laboral contínua no interior das atividades primárias e secundárias da produção (trabalho material).

As novas formas de organização da produção de bens e serviços extrapolam o exercício laboral para além do exclusivo local de trabalho. Ou seja, a realização crescente do trabalho imaterial em qualquer local proporcionado pelo uso recorrente das tecnologias de comunicação e informação inovadoras, capaz de manter o ser humano plugado no trabalho heterônomo 24 horas por dia.

Não obstante o avanço tecnológico gerador de ganhos importantes de produtividade material e imaterial, aumenta a pressão por maior tempo de uso do trabalho para a sobrevivência. Trata-se do paradoxo contemporâneo concentrado na falta de sintonia entre a possibilidade da menor dimensão do tempo de trabalho heterônomo e o avanço das novas doenças do trabalho originadas pela intensificação do trabalho nos tradicionais locais de emprego da mão de obra e extensão das jornadas laborais em outras localidades (em casa ou em espaços públicos) impostas pela combinação patronal das mudanças organizacionais com inovações tecnológicas comunicacionais.

Em síntese, a emergência do trabalho imaterial encontra-se associada à intensificação e ao alargamento da jornada laboral frente à maior expectativa de vida. É nesse contexto de transformação do novo do mundo do trabalho que se deve reconsiderar a funcionalidade do atual sistema de educação e formação laboral no Brasil.

Nesse sentido que vai se constituindo uma agenda inovadora sobre o trabalho. Se a aprendizagem, por exemplo, torna-se cada vez mais o requisito necessário da inserção e sustentação ascendente no trabalho, indaga-se a respeito do ingresso no mercado de trabalho por parte dos jovens antes de ter completo o ensino superior.

Ao mesmo tempo, a aprendizagem se transforma em processo recorrente ao longo da vida, não mais circunscrita à condição de criança, adolescência e de alguns jovens. Por conta disso, como reorganizar o sistema de ensino e aprendizagem para o novo desafio de se estudar a vida toda?

Por fim, o tempo de trabalho. Na presença das novas tecnologias de comunicação e informação, as ocupações de serviços tendem a se utilizar cada vez mais e, por consequência, da extensão da jornada de trabalho, que se manifesta cada vez maior por ser efetivada fora do local determinado do trabalho.

Assim, a nova agenda do trabalho deve contemplar a existência de aprendizagem ao longo da vida, ampliação do prazo de ingresso no mercado de trabalho e menor jornada de trabalho.

reforma ministerial

A fase oral que não passa

Imprensa parou na quinta-feira (27) para acompanhar a primeira entrevista coletiva dos futuros comandantes da política econômica. Conclusão da mídia tradicional: Dilma rendeu-se à lógica do mercado
por Luciano Martins Costa, do Observatório da Imprensa publicado 28/11/2014 14:47
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Entrevista de Levy, Barbosa e Tombini, que continua no comando do BC, mostrou trio afinado, pelo menos no discurso

Toda a imprensa brasileira parou na quinta-feira (27) para acompanhar a primeira entrevista coletiva dos futuros comandantes da política econômica. Nas principais emissoras de rádio e nos canais noticiosos da televisão, o assunto dominou o período até o último programa, e hoje (28) os jornais fazem a retrospectiva das declarações, com as interpretações a cargo dos porta-vozes de praxe.

O conjunto do material jornalístico que um ser humano pode acessar nesse dia de trabalho é composto quase exclusivamente por declarações. A palavra, principalmente aquela que é proferida num sentido esperado pela comunidade da imprensa, ganha poder de imagem, e mesmo frases dúbias por sua natureza ou intencionalmente ambíguas ganham ares de sentença. Então, a mídia tradicional conclui: a presidenta da República se rendeu à lógica do mercado.

A entrevista de Joaquim Levy, futuro ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, que vai para o Planejamento, e Alexandre Tombini, que continua no comando do Banco Central, mostrou um trio afinado, pelo menos no discurso. E esse “pelo menos” é maximizado no noticiário e no opiniário dos jornais, que apostam numa guinada na política econômica.

Alguns articulistas chegam a afirmar que o segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff vai se parecer mais com as propostas do candidato que ela derrotou na última eleição do que com seu programa de governo. No entanto, não há nada no conteúdo das declarações que justifique tal interpretação.

As respostas dadas pelos entrevistados, principalmente as do futuro titular da Fazenda, sobre o qual pesavam as maiores expectativas, foram mornas, superficiais, planejadas para funcionar como calmantes sobre o mercado. E a imprensa as sobrevaloriza, tentando dar um tom definitivo a expressões genéricas centradas no senso comum.

Basicamente, os futuros ministros disseram que “o Ministério da Fazenda reafirma o compromisso com a transparência”; “o dia a dia vai mostrar quanta autonomia a equipe econômica vai ter”; e “o equilíbrio da economia é feito para garantir o avanço das políticas sociais”.

Trocando em miúdos, o que se afirmou é que a política econômica seguirá perseguindo a meta do crescimento com justiça social, com mais clareza quanto ao controle dos gastos públicos.

Brasil, Venezuela

Com exceção da Folha de S.Paulo, que foi buscar opiniões negativas sobre as possibilidades de entrosamento de Joaquim Levy, tido como mais conservador, com Nelson Barbosa e Alexandre Tombini, mais afinados com o modelo petista, os jornais parecem otimistas. De modo geral, o noticiário e as opiniões de analistas escalados para refletir o pensamento da imprensa conduzem a uma visão positiva diante do desafio de superar as dificuldades conjunturais e evitar que as agências de avaliação de risco venham a rebaixar a nota brasileira no próximo semestre.

O desejo de ver suas teses aceitas pelo governo faz com que a imprensa leia nas palavras dos futuros ministros uma realidade que não conseguiu impor com seu protagonismo na eleição presidencial. O cenário econômico é escorregadio, e uma declaração tem o poder de induzir os ânimos para cima ou para baixo na escala das expectativas. Portanto, não se pode fazer profecias a partir de uma entrevista claramente planejada para desanuviar o ambiente.

Mais interessante é observar como a mídia tradicional busca se satisfazer com o verbo, ou seja, como a imprensa brasileira vive infantilmente presa ao prazer da oralidade, talvez como reflexo de certa imaturidade da própria sociedade. Essa tendência de tomar por real o que é meramente declaratório tem efeito nas instituições, cujos representantes eventualmente são tomados por alucinações criadas pela palavra.

Veja-se, por exemplo, o caso relatado pela Folha, sobre um procurador do Ministério Público Federal de Goiás, que abriu uma sindicância para apurar suposta ação do governo da Venezuela para alistar adolescentes e crianças brasileiras em “brigadas bolivarianas de comunicação”. O nobre procurador não se deu conta de que o comunicado do Ministério das Comunas da Venezuela – equivalente ao nosso Ministério das Cidades –, publicado em 2011, se referia a um bairro chamado Brasil, da cidade de Cumaná, no estado venezuelano de Sucre.

Provavelmente foi contaminado pelo palavrório segundo o qual o Brasil vai aderir ao “bolivarianismo”, suspeitou de uma rede de tráfico humano comandada pelo governo da Venezuela e se cobriu de ridículo.

7ª economia do mundo

Investidor estrangeiro não dá bola para a crise e segue apostando no Brasil

por Mauro Santayana publicado 27/11/2014 17:34
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Enquanto, aqui dentro, refém da síndrome da “crise” e do “fim do Brasil”, muita gente está com medo de fazer negócios ou adiando investimentos, os estrangeiros, menos afeitos à imprensa local e aos comentários nos portais da internet, continuam apostando firme na segunda economia das Américas e sétima maior do mundo.

A Comissão Econômica para a América Latina, informa que, até setembro, o Investimento Estrangeiro Direto (IED) caiu em cerca de 28%, em média, no continente, com destaque negativo para o México (-18%), tido como o “queridinho” dos mercados.

Enquanto isso, ainda segundo a Cepal, o Brasil foi o único país em que cresceu o Investimento Estrangeiro Direto – acima de 8% – que deverá se manter em um patamar superior aos US$ 60 bilhões até dezembro, sem queda expressiva com relação aos últimos anos.

Segundo informa o Valor Econômico, as estatísticas do Banco Central mostram que os investidores nacionais e estrangeiros reagiram de forma bem distinta quanto a um segundo mandato para Dilma Roussef.

Se o investidor local, no período eleitoral e pós-eleitoral, tirou dinheiro do país, os estrangeiros – certamente motivados pelo fato de o Brasil ter voltado a ter superávit primário no mês passado, ainda ter reservas acima de US$ 375 bilhões, com uma dívida líquida pública de apenas 33% do PIB, e por recomendações de compra de ações como as da Petrobras, feita pelo Deutsche Bank, há alguns dias – apresentaram forte aporte em IED e na compra de títulos públicos e ações, com ingresso conjunto, no país, de mais de US$ 11 bilhões em outubro.