Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Na Rede / 2016 / 04 / Secretário da Educação de SP usa site oficial para atacar direitos sociais

Blogs

anomalia

Secretário da Educação de SP usa site oficial para atacar direitos sociais

Um secretário de Educação jamais deve defender a ideia de que os direitos são uma forma oportunista de substituir o mérito e o trabalho, ainda mais em uma área vital para a promoção da igualdade
por Luis Nassif, do GGN publicado 07/04/2016 11h21, última modificação 07/04/2016 12h07
Um secretário de Educação jamais deve defender a ideia de que os direitos são uma forma oportunista de substituir o mérito e o trabalho, ainda mais em uma área vital para a promoção da igualdade
Ciete Silvério/A2img/Fotos Públicas
nalini

Alckmin deixa sociedade paulista órfã de um secretário de Educação à altura dos desafios da pauta

Não é necessária muita sofisticação intelectual para entender o papel do Estado como agente promotor das igualdades. O mercado concentra, o Estado equilibra. É através do Estado que se montam leis em defesa dos mais fracos e políticas sociais que permitam alguma igualdade de oportunidade.

A ideia de que os direitos são uma forma oportunista de substituir o mérito e o trabalho cabe melhor em espertezas como Paulo Skaf e outros menos votados, jamais em um Secretário de Educação, ainda mais em uma área vital para a promoção da igualdade.

Que o Secretário José Roberto Nalini expresse sua indignação para com os direitos sociais nos jornais em que escreve, ainda vá lá. Mas no próprio site da Secretaria da Educação, é uma ofensa – na última terça-feira (5) o secretário publicou um texto no portal, cuja reprodução segue abaixo.

Como o governador do maior estado do país entrega uma área crítica, como a educação, a alguém de pensamento tão religiosamente primário, que debita a miséria à dissolução da família, da Igreja, dos valores morais, como se fosse fruto de pecados individuais?

Qual a liderança que irá exercer sobre a rede de escolas, sobre alunos que estão despertando agora para seus direitos? Diz que a população se acostumou a reivindicar como se fosse sinal de atraso, e não de avanço civilizatório.

Quem critica a mediocridade do governo federal – com razão – deveria se debruçar sobre a gestão Alckmin. E, agora, sobre o Secretário de Educação Nalini. São Paulo não merecia isso.

Leia a mensagem de Nalini:

A sociedade órfã

José Renato Nalini, secretário da Educação do Estado de São Paulo

Uma das explicações para a situação de anomia que a sociedade humana enfrenta em nossos dias é o de que ela se tornou órfã. Com efeito. A fragmentação da família, a perda de importância da figura paterna – e também a materna – a irrelevância da Igreja e da Escola em múltiplos ambientes, gera um convívio amorfo. Predomina o egoísmo, o consumismo, o êxtase momentâneo por sensações baratas, a ilusão do sexo, a volúpia da velocidade, o desencanto e o niilismo.

Uma sociedade órfã vai se socorrer de instâncias que substituam a tíbia parentalidade. O Estado assume esse papel de provedor e se assenhoreia de incumbências que não seriam dele. Afinal, Estado é instrumento de coordenação do convívio, assegurador das condições essenciais a que indivíduos e grupos intermediários possam atender à sua vocação. Muito ajuda o Estado que não atrapalha. Que permite o desenvolvimento pleno da iniciativa privada. Apenas controlando excessos, garantindo igualdade de oportunidades e só respondendo por missões elementares e básicas. Segurança e Justiça, como emblemáticas. Tudo o mais, deveria ser providenciado pelos particulares.

Lamentavelmente, não é isso o que ocorre. Da feição “gendarme”, na concepção do “laissez faire, laissez passer”, de mero observador, o Estado moderno assumiu a fisionomia do “welfare state”. Ou seja: considerou-se responsável por inúmeras outras tarefas, formatando exteriorizações múltiplas para vencê-las, auto-atribuindo-se de tamanhos encargos, que deles não deu mais conta.

A população se acostumou a reivindicar. Tudo aquilo que antigamente era fruto do trabalho, do esforço, do sacrifício e do empenho, passou à categoria de “direito”. E de “direito fundamental”, ou seja, aquele que não pode ser negado e que deve ser usufruído por todas as pessoas.

A proliferação de direitos fundamentais causou a trivialização do conceito de direito e, com esse nome, começaram a ser exigíveis desejos, aspirações, anseios, vontades mimadas e até utopias. Tudo a ser propiciado por um Estado que se tornou onipotente, onisciente, onipresente e perdeu a característica de instrumento, para se converter em finalidade. 

Todas as reivindicações encontram eco no Estado-babá, cuja outra face é o Estado-polvo, tentacular, interventor e intervencionista. Para seu sustento, agrava a arrecadação, penaliza o contribuinte, inventa tributos e é inflexível ao cobrá-los.

Vive-se a paranoia de um Estado a cada dia maior. Inflado, inchado, inflamado e ineficiente. Sob suas formas tradicionais – Executivo, Legislativo e Judiciário. Todas elas alvo fácil das exigências, cabidas e descabidas, de uma legião ávida por assistência integral. Desde o pré-natal à sepultura, tudo tem de ser oferecido pelo Estado. E assim se acumulam demandas junto ao Governo, junto ao Parlamento, junto ao sistema Justiça.

O Brasil é um caso emblemático. Passa ao restante do globo a sensação de que todos litigam contra todos. São mais de 106 milhões de processos em curso. Mais da metade deles não precisaria estar na Justiça. Mas é preciso atender também ao mercado jurídico, ainda promissor e ainda aliciante de milhões de jovens que se iludem, mas que poderão enfrentar dificuldades irremovíveis num futuro próximo. 

No dia em que a população perceber que ela não precisa ser órfã e que a receita para um Brasil melhor está no resgate dos valores esgarçados: no reforço da família, da escola, da Igreja e do convívio fraterno. Não no viés facilitado de acreditar que a orfandade será corrigida por um Estado que está capenga e perplexo, pois já não sabe como honrar suas ambiciosas promessas de tornar todos ricos e felizes.

registrado em: ,