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O tríplex da família Marinho

Mansão de veraneio dos herdeiros de Roberto Marinho também é um tríplex e também está sendo investigada pelo Ministério Público Federal
por Renan Antunes de Oliveira, do DCM publicado 11/02/2016 15:49, última modificação 11/02/2016 16:29
Mansão de veraneio dos herdeiros de Roberto Marinho também é um tríplex e também está sendo investigada pelo Ministério Público Federal
Reprodução/DCM
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Paraíso particular: mansão triplex encravada no melhor point da Mata Atlântica

A mansão de veraneio dos herdeiros do magnata da Globo Roberto Marinho também é um tríplex e também está sendo investigada pelo Ministério Público Federal, mas num processo em ritmo bem mais light e sem publicidade.

Os arquitetos que a projetaram e os engenheiros que a ergueram zombaram das leis ambientais: ela está totalmente irregular.

Das fundações ao teto, localiza-se em área desmatada de um parque federal. E parte, sobre terra pública, grilada logo por quem não precisa – a família mais rica do Brasil.

A mansão tem um andar quase subterrâneo e outros dois empilhados de forma engenhosa, parece que não se tocam. Fica na baía de Paraty, na costa do Rio.

Ela foi alvo de fiscais do Ministério de Meio Ambiente (MMA) desde o início da construção, em 2008.

A batalha parecia terminada quando a Vara Federal de Angra dos Reis mandou demolir a mansão, em 2010, poucos meses depois de concluída.

Mas os Marinhos não se curvaram à Justiça.

Seus advogados recorreram e fugiram das intimações. Eles a mantiveram em pé por seis anos e vão lutar para que fique assim até o último juiz.

Como um caso tão pequeno se arrasta no Judiciário por mais tempo do que o da Lava Jato só pode ser explicado pela nova teoria do “abuso do direito de defesa”.

A sentença da primeira instância não tem previsão para sair, mas os desembargadores do TRF já devem estar se acotovelando pra ver quem terá a sorte de pegar o caso na segunda.

É surpreendente que o MPF não tenha deixado escapar vazamentos. Partes do processo ainda estão sob segredo de justiça. Para vê-lo, use o código 201051110009517 no site.

Mamute de concreto

O terreno onde está a mansão é duas vezes maior do que o daquele sítio de Atibaia que tem aparecido no noticiário da Globo nos últimos dias.

Seu tamanho original era menor, apenas 50 mil m². Corretores da cidade disseram que os Marinho compraram mais áreas lindeiras, para evitar que gente comum quebre a privacidade da mansão acessando por morros e costões.

A mansão é tão pesadona e forte que parece ter sido feita para durar mil anos. Tem 1.300 m² de concreto, capaz de resistir a um tsunami.

Caberiam dentro dela três daqueles tríplex do Guarujá – veja detalhes no site dos arquitetos.

Além de estar sobre natureza morta, a mansão se projeta das pedras para o mar. Se arquitetura quer dizer alguma coisa, ela parece um navio de conquistadores, senão uma frota inteira.

Apesar de localizada na praia de Santa Rita, na costa do Rio de Janeiro, é mais conhecida no circuito dos ricos e famosos por seu nome em inglês: “Paraty House”.

A mansão é tida como joia da arquitetura moderna tupiniquim desde a prancheta. Assim que abriu as portas para os primeiros convivas foi premiada por uma revistinha inglesa de design, a Wallpaper.

A Paraty House oferece aos seus ocupantes uma espetacular imersão na natureza intocada – quer dizer, está intocado o que eles deixaram depois de desmatar uma parte, dar uma raspada nas pedras e cortar o cocuruto do morro para ela ser erguida.

Mesmo assim, o terreno ainda é um naco magnífico da Mata Atlântica, dentro da área de preservação de Cairuçu – puro verde, como no tempo das caravelas. Só se vê a casa quando se chega perto, por mar ou voando. Veja no site do MMA.

Por esses dias quem mais está usando a mansão são netos e bisnetos do magnata.

Uma faxineira, casada com o irmão de um jardineiro, contou ao DCM que os três filhos de Marinho, donos do Grupo Globo, se afastaram dela – da mansão, não da faxineira – devido à publicidade negativa provocada pelo processo do MPF.

Os procuradores investigam tão rigorosamente quanto possível o crime ambiental de desmatamento para erguer mansão, piscina, parquinho, aquashow e heliponto.

O encarregado do inquérito trocou várias vezes porque o caso não tem força-tarefa, nem procuradores exclusivos, atrasando as coisas. Foi no andar do processo que se descobriu a grilagem de uma área pública: os donos da mansão privatizaram na marra a pequena praia de Santa Rita, reservada para uso exclusivo de seus pimpolhos.

A piscina foi erguida direto na areia da praia – é show de bola, mas ilegal, sem falar na ideia de jerico de ter uma piscina salgada a 30 passos do mar.

Os Marinho ergueram na Santa Rita também aquashow tubular, ancoradouro para jet ski, mansãozinha de árvore, combo balanço-gangorra-escorregador e um depósito para as pranchas de surf e banana boats – assim a criançada e papais se poupam do complicado leva e traz dos brinquedos. Tudo ilegal.

Para manter os brinquedos na praia sem que ninguém se sinta tentado a usá-los, os Marinho contrataram seguranças armados. São dois homens em turnos de 12 horas, 7x30x365. Eles intimidam quem desembarca na areia, mas não há registro de violência. Só botam o povão para correr, coisa que ninguém ousaria fazer no Leblon.

Se a luta pela praia tem alguma justificativa deve ser pela qualidade da água. Este repórter esteve lá na semana do carnaval e ela estava simplesmente deliciosa.

Morninha, limpa, transparente, calma. O fundo tem areia igual de limpa – dá vontade de juntar alguns punhados e levar para aquários, afinal, a areia é do povo.

A prainha é pequena, 83 passos largos de costão a costão, entre o trapiche de jet ski e o ancoradouro dos iates. Tem brisa permanente, garante quem conhece a região. Ela está de frente para o noroeste, pega todo sol da manhã e sombra ao entardecer, com o fresquinho de graça, oferta da Mata Atlântica.

Os ricaços que a desfrutam não precisam passar aquele abafamento e sol quente que o povão enfrenta em locais apinhados, nem arrastar guarda-sol: amendoeiras frondosas e palmeiras garantem sombra eterna.

A praia é farofeiros free – uma lancha cobra até 350 reais pelo percurso de 15 minutos entre o cais histórico de Paraty e a House. De vez em quando algum desavisado salta nela, só para ser corrido pelos guardinhas.

As crianças dos Marinhos e seus amiguinhos não sentem falta dos vendedores ambulantes. Elas podem beber água de coco colhido no pé. Claro que não tem o agito de Copacabana, mas pelo menos a areia está sempre varrida e sem papel de picolé.

Como se não bastasse desfrutar deste pedaço do paraíso, a vida intramuros é de um conforto que a gente comum pode apenas sonhar – preste atenção nas suítes feitas com lascas de árvores e fotos completas da cozinha naquele site dos arquitetos.

Óbvio que tal cozinha não é para alguém fritar um ovo com arroz. Sempre que a family vai veranear provoca azáfama – correria com atrapalhação – entre os empregados, para abastecer freezers e prateleiras. Em geral, um chef escolhido entre os melhores do país acompanha a comitiva.

A House dispõe de várias embarcações de serviço e recreio. O Indiana X que estava atracado lá no dia da reportagem era apenas para os seguranças e domésticos. Vale 200 mil reais, na avaliação do comandante da lancha deste repórter.

A família, quando não voa direto para seu heliponto, usa um tremendo iatezinho compacto Ferretti 40 – os modelos antigos à venda no Mercado Livre valem um tríplex. Os iates mais novos, bem equipados, podem valer até 10 cotas daquela cooperativa imobiliária. O Ferretti dos Marinho não estava no porto e não pode ser avaliado.

O Ferretão, como foi apelidado pelo comandante Bradock, que já prestou serviços à família, é usado quando a prainha privatizada está sob ataque de farofeiros ou sofrendo das raras fiscalizações federais – aí ele navega para outros points privados.

Não se sabe pra onde porque a prefeitura de Paraty, ao imprimir mapas para turistas e escuneiros, fez a cortesia de omitir a (as) praia (s) dos Marinho.

Motosserra

O problema da Paraty House na Justiça é que para ser construída, premiada e desfrutada pelos pimpolhos dos bilionários, alguns operários tiveram que derrubar árvores protegidas por lei federal – todo verde hoje esmagado pelo concreto da mansão era original até eles desembarcarem no pedaço.

Não foi possível apurar o nome dos carinhas que passaram a motosserra nas árvores.

Assim, eles não poderão ser responsabilizados.

Mas, na outra ponta, nenhum Marinho jamais será punido ou multado – eles usaram uma empresa de fachada para erguer a House.

A empresa aparece como ré no processo do MPF. Chama-se Agropecuária Veine. O responsável é um tal de Celso Campos – ele conseguiu a proeza de ficar de outubro de 2011 a abril de 2014 sem ser localizado por um oficial de justiça.

Alguém no infalível MPF errou o endereço dele da Avenida Copacabana XXX para XYY, apenas 30 metros, o suficiente para Campos nunca ser encontrado. O truque funcionou bem até uma recente troca de procuradores, que descobriram a patacoada.

Os procuradores que se debruçaram sobre o caso disseram à revista americana Bloomberg que “os ricos brasileiros usam as praias públicas como se fossem sua propriedade” – só não deram entrevista pra Globo.

Nos bastidores, eles dizem horrores dos Marinhos, mas sem jamais citá-los oficialmente, já que o réu de fachada é o tal Celso Campos. Este, procurado em Copa, não falou ao DCM.

O que talvez tenha faltado para andar rápido uma ação tão simples – casa erguida irregularmente, praia ocupada na marra, tudo documentado pelo MMA – tenha sido um juiz como aquele paranaense, com seu apetite por enfrentar poderosos.

Na Vara de Angra dos Reis, o processo da Veine se arrasta porque é uma batata quente que ninguém quer segurar. Até o porteiro sabe quem está por trás dela – e não é o Celsinho.

Reprodução/DCM reportagem-marinho-600x401jpeg.jpg
Graziela Moraes Barros: fiscal do ICMBio que primeiro denunciou crime ambiental na obra da Paraty House
Uma avó combativa

Quem levantou a lebre foi uma servidora pública federal, concursada, Graziela de Moraes Barros, fiscal do Instituto Chico Mendes (ICMBio), órgão do MMA.

Ela tem apenas 39 anos e já é avó. Mora num sítio escondido numas quebradas e implora pra que o repórter não diga onde é, porque teme represálias. De quem? “Quando fiz a denúncia da casa dos Marinhos, alguém atacou a minha e incendiou meu carro”, conta, sem acusar ninguém.

A Polícia Federal investigou o caso, óbvio que sem sucesso. Hoje, ela anda sempre em carro oficial e acompanhada de uma colega.

Graziela não é mais fiscal. Deu entrevista, na semana do carnaval, em seu escritório na APA Tamoios, no alto de um morro do qual se vê Angra dos Reis e Paraty – a House agora está fora de sua jurisdição.

“Desisti porque passei cinco anos dando murro em ponta de faca. O Estado e a Justiça não enfrentam e nem punem os poderosos. Minha função acaba sendo fazer o papel de polícia contra pescadores e pequenos posseiros”, resmunga, amargurada.

Ela aponta o processo contra os Marinho como um exemplo de desrespeito: “Eles poderiam ter erguido uma casa menor, de até 200 m², o que seria permitido pela lei. Mas fizeram aquele monstrengo de concreto derrubando mata. Foi uma afronta à lei e à natureza”.

Graziela é a estrela da acusação. Ela inspecionou a praia Santa Rita uma vez durante a construção e outra depois que a mansão ficou pronta: “Heliponto e casa devem ser derrubados. A piscina está na praia…” e ela despeja os argumentos que estão no processo iniciado pelo procurador Fernando Lavieri, tim tim por tim tim.

Ela quer os Marinho fora do pedaço: “Eles entram com recursos e vão rolando. Pagam multas e continuam ocupando a área, esperando tudo cair no esquecimento. Calculo que gastem mais de um milhão em multas e advogados, mas vão continuar lá, porque podem tudo”.

Graziela enumera uma lista de milionários que cometeram crimes ambientais na mesma região. Está desiludida: “Nada vai mudar”.

Na hora da fotografia, Graziela entra em pânico: “Tenho medo de ser exposta”, diz preocupada com sua segurança como se vivesse no meio de uma guerra de gangues. Pede que a foto seja tirada pelas costas, solicitação atendida.

A Paraty House foi desenhada pelo arquiteto paulista Márcio Kogan e sua equipe. Não foi possível localizá-lo para saber se ele nunca ouviu falar da proibição de derrubar Mata Atlântica. Se não ensinaram na faculdade dele, consola saber que já existe preservação ambiental até no currículo da escola fundamental.

O projeto original sempre esteve em desacordo com a lei de máximo 200 m² porque saiu da prancheta com 840. Aí foram mexendo e subiram para os 1.300.

Como a construção daquele bruto bloco de concreto foi premiada, as opiniões variam de maravilha arquitetônica a monstrengo – no prêmio Wallpaper 2010 os jurados analisaram apenas a arquitetura, sem avaliar o preju ambiental que ela causou.

Um arquiteto de Paraty, ligado à Organização Caiçara e defensor de quanto mais verde melhor, acha que “a mansão é até bonitinha, mas está totalmente deslocada do entorno. Na mata é um horror. Ficaria bem na Avenida Paulista. Por que tanto concreto no meio da mata”?

O arquiteto diz que “caberiam ali vários chalés de madeira, rústicos, bem mais leves, com o mesmo grau de conforto. Seria de bom gosto e estaria dando sinal de respeito à sociedade”. O homem não quer ver seu nome citado, temendo represálias.

De quem? O arquiteto fica de bico calado – deve temer a mesma gangue que aterroriza Graziela.

O dono de uma pousada – nome omitido porque teme represálias – contou que sua ex namorada, a bióloga Xis, fez um plano de manejo de pesca em cativeiro nas águas da Santa Rita: “Na verdade, o objetivo deles não era pescar, e sim lançar o emaranhado de boias para demarcar o cativeiro, impedindo atracação de barcos”.

Ele disse que a moça ficou seis meses só assinando papéis, até que se fartou do negócio e foi morar na Bélgica: “Por favor, não bote o nome dela na reportagem”.

Paraíso privado

Depois de realizar várias entrevistas em terra firme, decidi ir à praia dos Marinho, sem ser convidado, para conferir alguns dados do processo – no final do ano passado um juiz determinou diligências para saber se os parquinhos ainda estavam de pé.

Contratei uma lancha. O simpático comandante não quis ver seu nome aqui, temendo represálias: “Eu vivo do turismo e eles…sabe como é”, disse, parecendo assustado.

Minha lancha zarpou e por alguns minutos da viagem me senti inebriado com toda aquela beleza da baía de Paraty – mas logo veio o medo de enfrentar os tais seguranças armados.

Torci para que um Marinho, com quem troquei cumprimentos anos atrás quando era repórter de O Eco, estivesse tomando café na beira da piscina.

Quase 10 da manhã e eu estava na lancha, com o mar às costas e a mata na frente, temperatura de 22 graus, céu azul – até aquele ponto tudo ia bem.

Pedi para o comandante apagar o motor para gozar o silêncio, mas a barulheira de outros navegantes quebrou o encanto.

Dez e pouco começamos a nos aproximar da mítica Paraty House.

Fui fazendo fotos a distância. Ninguém à vista. Fiquei com aquela sensação de filmes quando vai surgir um dinossauro na praia deserta e só o mocinho não sabe.

Desviamos das boias fajutas da bióloga da Bélgica e pulei na água – morninha, como contei antes.

Já estava na areia quando, do meio das amendoeiras, surge um guardinha.

Reprodução/DCM policial-600x401jpeg.jpg
Guarda particular armado na praia pública de Santa Rita

Ele veio falando qualquer coisa, de longe, com a mão escondendo o logotipo da empresa e o nome na farda, assim como fazem os PMs quando batem em jornalistas.

Aí, parou na minha frente e me intimou: “Vá embora, você não pode tirar fotos da casa”.

Não vi o segundo guarda e avaliei o perigo: apenas alerta amarelo.

Então, dei um patético carteiraço nele: “Sou jornalista e posso tirar fotos porque esta praia é pública” – e estendi minha carteira da Federação dos Jornalistas.

Na mesma hora contive o riso pela ironia de invocar este direito num solo supostamente sagrado à liberdade de imprensa. Ele nem deu bola pro documento.

O guardinha me mandou embora outra vez, desta vez com a mão na coronha da arma.

Mas ele não sacou. Ponto para mim. Senti a fraquejada e blefei: “Tá vendo aquela lancha? Tem uma câmera filmando nós dois. Você não manda aqui e só pode ficar dentro da propriedade, não pode nem andar armado na praia” – aí apontei minha Nikon pra ele.

Vapt vupt e o guardinha se esfumaçou. Entendeu que eu não era turista, virou pra esquerda e saiu dando pulinhos na areia – sinal que ele sabia que ali os guardas privados podem ser presos em flagrante por porte ilegal de arma, se não estiverem no perímetro da mansão.

Minutos depois, ele voltou, mais gentil, apelando: “Por favor, é meu trabalho”. Concordamos que eu poderia fotografar tudo, menos entrar na casa – uma banalidade, já que estava vazia.

O guardinha contou que “faz pouco avisaram que o helicóptero vai chegar com a patroa”. Ele não disse o nome, talvez temendo represálias. Trata-se de uma neta de Roberto Marinho. Meu único conhecido não estava na lista de passageiros, ia ser mais difícil me aproximar dela.

Outro problema: quem chega pelo heliponto, atrás da linha da praia e acima da mansão, pode entrar nela por um caminho de espelhos de cristal sobre um lago artificial. Eu não teria acesso àquela área.

Decidi não esperar um improvável convite para o almoço.

Mandei o guardinha sumir da minha frente, ele obedeceu.

E como meu nome não é trabalho, me joguei naquela pintura de água.

Decidi não esperar um improvável convite para o almoço.

Mandei o guardinha sumir da minha frente, ele obedeceu.

E como meu nome não é trabalho, me joguei naquela pintura de água.