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Emir Sader

O streap-tease do neoliberalismo

A Europa teve o melhor momento da sua história com os Estados de bem-estar social. Foi menos desigual quando foi menos liberal. Hoje se torna brutalmente injusta de novo, sob as ilusões liberais.
por Emir Sader, para a RBA publicado 06/02/2016 20:01, última modificação 08/02/2016 11:59
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A Europa teve o melhor momento da sua história com os Estados de bem-estar social. Foi menos desigual quando foi menos liberal. Hoje se torna brutalmente injusta de novo, sob as ilusões liberais.
Youtube/Reprodução

O liberalismo promete o melhor dos mundos: liberdade, democracia, progresso, tudo junto. Estado, mas não muito. Mercado, que viabilizaria a liberdade de cada um e a felicidade de todos. Cada um busca o seu, mas tudo fica melhor para todos.

Depois do fim do socialismo soviético, muitos buscaram abrigo no liberalismo, social-democrata para alguns, diretamente neoliberal para outros. Não ter mais de defender o Estado, nem os direitos das pessoas. Basta fortalecer a “sociedade civil” contra o Estado, contra os partidos, contra a política, mais além da superada divisão entre direita e esquerda.

Mas vem o momento em que o liberalismo chega ao governo, seja mediante golpes, seja por eleições. Chega sua hora da verdade, de mostrar na prática como combinar, de maneira tão fantástica, tantas coisas boas. Aí começa o streaptease do liberalismo.

Porque foi em nome do liberalismo que se cometeram e seguem sendo cometidas as piores barbaridades, na economia e com as ações correspondentes na política. Porque aí o mercado não se revela ser tão mágico, porque a liberdade apregoada não é a das pessoas, mas do capital, porque o que vem não é o poder dos indivíduos, mas o poder do dinheiro.

Os golpes militares na América Latina foram dados em nome dos valores do liberalismo: defender a democracia contra os riscos do totalitarismo, defender o indivíduo contra o Estado, proteger o mercado, as empresas, os empresários, a liberdade de imprensa do autoritarismo dos governos. Mais recentemente o liberalismo seria a tábua de salvação contra o bolivarianismo, o chavismo, o lulismo, o kirchnerismo, o evoismo, o correismo e outras variantes que ameaçam os nossos países.

Mas quando começam a governar, os discursos liberais mudam de tom, as promessas confiantes dão lugar aos apelos ao sacrifício, às posições de que só podem os mais capacitados, de que é preciso passar por um longo período de sofrimentos para purgar as heranças populistas recebidas até chegar ao paraíso prometido pelo liberalismo. Chegam o desemprego, cortes dos salários, poder transferido do Estado às grandes corporações privadas. E, como corolário inevitável, a repressão para conter os que se mobilizam para defender seus interesses corporativos às custas dos gastos do Estado.

Na América Latina em particular, o liberalismo deu em sucessivos fracassos. No período mais recente, orientou os governos neoliberais, mas nenhum deles deu certo, nem no plano econômico, nem no político. O México e o Peru são países que deram continuidade a modelos neoliberais e são os países em que situação social da população menos melhorou ou mesmo piorou entre as sociedades latino-americanas.

Os candidatos liberais prometem combinar duros ajustes fiscais com políticas sociais, porque nas campanhas eleitorais é fácil fazer essa promessa. Mas quando ganham, têm de deparar com os dilemas da realidade e aí demonstrar se isso é compatível.

O governo de Mauricio Macri, na Argentina, tem a responsabilidade de tentar provar o que os liberais prometem nas suas campanhas eleitorais. Parece que efetivamente o presidente Macri e os seus ministros acreditam no que diziam na campanha eleitoral e colocam em prática um duro ajuste fiscal, conforme os preceitos que sempre pregaram, mas nada de políticas sociais, pelo menos por enquanto.

Vê-se na Argentina de hoje não a liberdade das pessoas, sem as travas do kirchnerismo, mas o que se impõe é a liberdade dos capitais, dos grandes empresários, das grandes corporações, até dos fundos abutres. Sem o contrapeso do Estado, não são os indivíduos que ganham poder e liberdade, mas os grandes grupos econômicos e seus representantes na mídia e nos economistas que falam pelo capital.

As promessas do liberalismo ficaram na campanha. Se oferece um longo caminho de espinhos para os que sobrevivam chegar ao jardim de rosas do liberalismo. Todo o sofrimento é imputado aos longos 12 anos de engano, em que os argentinos tinham a ilusão de que comiam melhor, de que viviam melhor, de que a sociedade era menos injusta, de que tinham uma posição externa soberana, de que eram irmão dos latino-americanos, de que os retratos na Casa Rosada eram de seus líderes, de que a Argentina tinha superado a pior crise da sua historia.

Não se pode realmente fazer a história do liberalismo, porque tornaria claro em que resultaram suas promessas. A Europa teve o momento mais generoso da sua história com os Estados de bem-estar social. A Europa foi menos desigual quando foi menos liberal. Hoje se torna brutalmente injusta de novo, sob as ilusões liberais.

É isso o que o liberalismo promete para a Venezuela, é o que gostariam de fazer no Brasil, no Equador, na Bolívia, no Uruguai. A história do liberalismo é a história dos piores fracassos em que se transformaram suas promessas de liberdade e de democracia, que desembocam em injustiças, em exclusões sociais e em repressão.

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