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Emir Sader

O resgate da política

Nunca a política brasileira se abastardou tanto. A presença de um personagem como Eduardo Cunha na presidência da Câmara, terceiro cargo na hierarquia de poder, revela a que nível se chegou
por Emir Sader, para RBA publicado 08/11/2015 11h39, última modificação 08/11/2015 12h49
Nunca a política brasileira se abastardou tanto. A presença de um personagem como Eduardo Cunha na presidência da Câmara, terceiro cargo na hierarquia de poder, revela a que nível se chegou
Lula Marques/Fotos Públicas
Eduardo Cunha

Presidente da Câmara simboliza degradação da política promovida por mídia e empresariado, por um Estado fraco

Nunca a política brasileira – afora épocas de ditadura – se abastardou tanto. A própria presença de um personagem lúmpen como Eduardo Cunha na presidência da Câmara, eleito pela maioria dos deputados, ocupando o terceiro cargo na hierarquia de poder, revela a que nível se chegou na política brasileira.

O pior é que a desmoralização atinge não apenas quem pratica esse tipo de política abastardada, mas atinge a própria ideia de fazer política. A mídia e o grande empresariado, que tanto contribuem para essa situação, são paradoxalmente quem mais promove essa degradação e desprestígio da política.

Gozam com o desprestígio da política, dos governos, dos partidos, das lideranças, do Estado. Seu objetivo mais importante é o da desmoralização do Estado, como forma de promover a centralidade do mercado.

O desprestigio da política é um subproduto da crise política brasileira, dos mais graves. Porque a continuidade do atual processo de transformações democráticas do Brasil depende da reconstrução de uma força social e política legítima, com liderança popular, cujo personagem central é o Lula.

Dai também os ataques ao Lula. Ele é o único líder político com prestigio, com capacidade de reconstruir uma força democrática e popular para aprofundar as transformações realizadas até aqui. Se a política fosse realmente algo inerentemente degradado, nem o Lula poderia sobreviver como liderança legítima. Daí as tentativas de construir mecanismos de rejeição em torno dele, mesmo sem nenhuma prova concreta.

Mas o resgate da política que precisamos tem de ser muito mais amplo e profundo do que o que tivemos até agora. Lula conseguiu resgatar o papel do Estado, vítima central dos ataques do neoliberalismo do Collor e do FHC. É um elemento importante. A direita trata de fazer retroceder esse avanço, desqualificando de novo o Estado. Que seria a fonte fundamental de corrupção no país. Que seria incompetente para conduzir a economia. Que promoveria muitos gastos, que bloquearia a capacidade de crescimento da economia. Que serviria de trampolim para formas indevidas de fazer política por parte do PT.

Agora a luta política é de ideias, o que requer um nível superior de pratica política.. Não basta demonstrar como os governos do PT melhoraram a vida da população, se não conseguir convencer aos próprios beneficiários de que são direitos garantidos por uma política determinada, realizada por um governo comprometido com os interesses do povo.

É necessário construir a hegemonia das ideias que orientam essas políticas. Convencer a massa da população que para isso é necessário um Estado com os recursos necessários para realizá-las e que isso requer que os mais ricos paguem mais impostos, que não soneguem, nem canalizem seus recursos para fora do Brasil.

Mas isso requer bons argumentos e instrumentos para fazer chegá-los à grande massa, atingida pela propaganda sistemática dos meios monopólicos de comunicação. Convencer que a garantia e a continuidade da afirmação dos seus direitos supõe uma força política, que é quem pode garantir os direitos adquiridos e aprofundá-los.

A força de massas depende daquele convencimento, mas também da força organizativa dos movimentos sociais. A força econômica da capacidade de mobilizar as condições materiais de realização do projeto. A força política depende da capacidade de realização institucional das propostas.

Resgatar a política é certamente condenar a forma como ela tem sido exercida, de comércio de interesses, de ameaças ao jogo democrático, sem ideologias nem projetos para a sociedade e para o país. Mas se tem de partir da correlação de forças existente, das forças como elas têm se organizado, para buscar uma reconfiguração do cenário politico.

Ele só pode ser feito a partir da ideia da mudança radical do clima politico – do enfrentamento para o debate de propostas. Lula tem de encarnar a reunificação política do pais, a recuperação da política dos projetos, o diálogo. Até aqui Lula se concentrou no discurso para a recuperação das bases de apoio tradicionais do governo, explicando, com argumentos e com razão, quais as causas do ódio ao PT. Mas a partir do começo do ano, Lula precisa aparecer para o país como a única pessoa com prestígio para liderar o país na superação da crise. Apontar os caminhos dessa superação e convocar os que se identificam com eles.

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