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impactos sociais

Bradesco e HSBC: incertezas e angústias proporcionais à dimensão da transação

Bradesco afirma que haverá “complementariedade da rede de agências e incorporação de expertise e capital humano”. Sempre há. E também o risco de demissões
por Mirian Gonçalves, para a RBA publicado 04/08/2015 19h27
Bradesco afirma que haverá “complementariedade da rede de agências e incorporação de expertise e capital humano”. Sempre há. E também o risco de demissões
Gyver Chang / creative commons
Hong Kong Shanghai Bank Company

Sede do HSBC fica em Curitiba, onde emprega diretamente 7 mil trabalhadores e possui cinco centros administrativos

A venda do HSBC para o Bradesco, por US$ 5,186 bilhões, encerra um capítulo já esperado do processo de aquisição do banco inglês e inicia outro trazendo mais incertezas. Quando havia a possibilidade de um banco sem sede no Brasil comprá-lo, ou de algum outro com menor número de agências, nutria-se a expectativa de que os centros administrativos e a maioria das agências permaneceriam em igual funcionamento com a consequente manutenção dos empregos.

A preocupação se justifica.

A administração do Bradesco é feita a partir da cidade de Deus, em Osasco, na Grande São Paulo; a rede de agências do banco comprador, 4.659, é significativamente maior do que a do banco vendido, 851, além de estarem instaladas nas cercanias umas das outras. A dúvida é: o banco manterá os centros administrativos e a maioria das agências do HSBC em Curitiba? Serão mantidas ainda que com a mesma bandeira e muito próximas?

O questionamento foi feito diretamente em conversa tida hoje (4) com o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi (nas semanas que se passaram, meu gabinete entrou em contato com os dois concorrentes, Bradesco e Santander, solicitando agenda para tratar do tema. No dia 23 de julho, o vice-presidente executivo do Santander, José Paiva, recebeu a mim e à economista Lenina Formaggi.) E nesta terça-feira, o presidente do Bradesco me telefonou. Ambos foram gentis e dispostos ao diálogo.

Trabuco sugeriu tranquilidade e afirmou que o HSBC e o Bradesco não tomariam nenhuma atitude neste período que antecede à análise pelos órgãos federais. Completou dizendo que interessa ao Bradesco manter uma relação de cordialidade com a cidade de Curitiba, seus clientes e trabalhadores.

A transação está sujeita à aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade, vinculado ao Ministério da Justiça) e do Banco Central e, supõe-se, deve ocorrer em até seis meses. Pequeno prazo se consideradas sua dimensão e complexidade, porém, longo aos olhos dos trabalhadores e suas inseguranças.

O Bradesco afirma que haverá “complementariedade da rede de agências e incorporação de expertise e capital humano”. Sempre há. Entretanto, é considerável o risco de demissões em massa e de fechamento de diversos prédios do antigo HSBC. Por isso, espera-se dos órgãos reguladores uma posição que equilibre o mercado, mas também minimize os impactos sociais.

Neste contexto, é importante aprofundar alguns pontos socioeconômicos que impactam a vida de muitos trabalhadores e, particularmente, a cidade de Curitiba.

A sede do HSBC é na capital paranaense, onde o banco emprega diretamente cerca de 7 mil trabalhadores e possui cinco centros administrativos. Estima-se que um emprego direto implica três indiretos. No entorno de cada centro e das agências, organizou-se uma rede de comércio e serviços que dá oportunidade a grande número de pequenos e microempreendedores.

Do ponto de vista do trabalho, Curitiba apresenta um dos menores índices de desemprego do país, em média 4%. Caso as demissões ocorram, tal percentual aumentaria significativamente, sem contar os gastos públicos com o benefício do seguro-desemprego que podem chegar a mais de R$ 38 milhões, calculando-se o pagamento de quatro parcelas a cada um dos sete mil trabalhadores.

Outro dado relevante é acerca da arrecadação do município com as instalações do HSBC. Apenas em Imposto Sobre Serviços (ISS), hoje, o banco gera contribuição de aproximadamente R$ 80 milhões. Ao considerarmos que o município tem participação no ICMS arrecadado pelo governo estadual, a conta aumenta.

Em última instância, há uma dimensão maior que é a social e que atinge toda uma cidade com mais de 1,8 milhão de habitantes.

Mirian Gonçalves é vice-prefeita de Curitiba e secretária municipal do Trabalho e Emprego