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Sem refresco

Reação a overdose de violência policial sai das redes e ocupa as ruas

Numa reação inédita desencadeada pela selvageria das PMs, as redes sociais mostram que pimenta nos olhos dos outros não é refresco
por Redação da RBA publicado 17/06/2013 20h00, última modificação 17/06/2013 22h23
Numa reação inédita desencadeada pela selvageria das PMs, as redes sociais mostram que pimenta nos olhos dos outros não é refresco
Mídia Ninja/CC
São Paulo

Multidão para Marginal Pinheiros, numa manifestação que faz lembrar os anos 1980. O país mudou, a PM não

A violência desmedida empregada pelo comando da Polícia Militar de São Paulo, determinada e aprovada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), sofreu hoje (17) uma contundente resposta. As manifestações desencadeadas pelas redes sociais saíram da esfera virtual e ocuparam as ruas das principais cidades do país.

Proibida de usar as balas de borracha com que feriram manifestantes e não manifestantes na última quinta-feira (13), a polícia acompanha uma multidão estimada em mais de 40 mil pessoas pela Avenida Paulista, Marginal do Rio Pinheiros e Avenida Faria Lima.

Agora ilhas de comunicação cercadas de internet por todos os lados, até os tradicionais veículos da mídia comercial sucumbiram ao que têm chamado de reação de “indignação” da população. Há pouco, por volta das 18h15, uma repórter da Globo News disse diante da câmera “é um prazer mostrar isso pra vocês...”, referindo-se às milhares de pessoas que caminhavam pela Avenida Rio Branco, vindas da Getúlio Vargas, região central do Rio de Janeiro.

Nem mesmo os tradicionais “os manifestantes atrapalharam o trânsito” tiveram vez nas manchetes. Para os comentaristas da imprensa tradicional, a manifestação “acéfala” – como disse um deles, referindo-se à ausência de lideranças tradicionais – é a mais pura expressão de revolta da população contra a “classe política”, e não mais apenas contra os aumentos das passagens ou a selvageria policial.

PM mineira chegou a estressar. Manifestação podia atrapalhar trânsito, mas Nigéria x Taiti, no MineirãoEm Belo Horizonte, a PM mineira, que não estava tão pacífica assim, estimou em 20 mil a barulhenta multidão, que empunhava cartazes com dizeres como “Agora que o gigante acordou, a classe política não vai dormir”. O ato, para alguns contra a tarifa de R$ 2,80, para outros, contra a Copa do Mundo no Brasil, atravessou a tarde desde a Praça Sete de Setembro (centro da cidade). No Mineirão às moscas, jogavam Nigéria x Taiti.

Apesar de o movimento ter transcorrido pacificamente por mais de quatro horas, no final da tarde explodiu o confronto entre Polícia Militar e manifestantes. A Tropa de Choque e a cavalaria montada foram acionadas. A PM usou balas de borracha e bombas de gás para evitar que a marcha se aproximasse do estádio, e a população reagiu com pedras e bombas caseiras. Há vários feridos.

A Cinelândia, tradicional palco carioca de manifestações, voltou a ficar apinhada de genteEm Brasília, a Esplanada dos Ministérios foi ocupada, e logo manifestantes acessaram a rampa e o telhado do Congresso Nacional. As cenas e os dizeres se repetiam em Curitiba, Porto Alegre, Belém, Fortaleza, Salvador... Na capital baiana, a manifestação ocupou a Avenida Tancredo Neves. Ao contrário de Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e São Paulo, com passeatas reunindo grande número de pessoas, na capital baiana o ato é mais moderado, com aproximadamente 8 mil até o início da noite (ou 3 mil, segundo a PM, que se limitou a acompanhar). O governador Jaques Wagner recomendou ao comando da PM evitar confronto.

O Movimento Passe Livre (MPL) existe desde 2005. Já conseguiu muitas vezes despertar os instintos mais primitivos da polícia paulista em outras ocasiões, mas nunca tinha conseguido reunir mais do que centenas de ativistas. Os tiros e bombas da PM de Alckmin ricochetearam. Entre os dezenas de presos e feridos da semana passada, revoltaram-se todos os demais, inclusive os que nem achavam ruim ter de pagar passagem para andar de ônibus e metrô.

Ainda que não seja do jeito que o movimento gostaria – a rapaziada quer uma conversa a sós –, o prefeito Fernando Haddad (PT) pautou o assunto na reunião do Conselho da Cidade desta terça-feira. O tema, antes uma causa de um grupo de jovens impertinentes e de tamanho desconhecido, entrou enfim na agenda de pelo menos um governante importante.