Especiais

O complicado labirinto grego - 2

por flavioaguiar1 publicado 08/05/2012 12:15, última modificação 09/05/2012 18:40
Comments

Por flavioaguiar1

O cenário pós-eleições na Grécia é de extrema fragmentação política (Foto: John Kolesidis. Reuters)

48 horas depois do Nova Democracia, de direita, ter sido o mais votado na eleição para o parlamento grego, e ainda ganhando o bonus de umas quarenta cadeiras extras, graças a essa condição, seu líder Antonis Samaras jogou a toalha: não teve como formar um novo governo de coalizão.

O cenário é fragmentado demais. Juntos, Pasok, o Partido Socialista, e Nova Democracia, embora tenham obtido apenas pouco mais de 32% dos votos, tem a metade das cadeiras no parlemento: 149, graças àquele bônus que a legislação eleitoral garante. Mas acontece que o Pasok, já primo pobre na eleiçào, não vai se conformar em ser o primo pobríssimo no governo, se ele for formado nessa base. Vai virar boi de presépio. Seria o seu atestado de óbito.

Por que? Porque o problema do Pasok está à sua esquerda: o Syriza, coalizão de esquerda que virou, pela primeira vez, o segundo partido mais votado no parlamento, com uma diferença para o ND de pouco mais de 2%, e mais de 3% em relação ao Pasok. Se este ficar como mero fiugurante numa coalizão governamental em que a ND não só dá as cartas, mas define a mesa e o baralho, negociando diretamente com Angela Merkel e François Hollande,  o Syriza não só vai devorá-lo pelas bordas com vai roer-lhe mesmo o núcleo duro eleitoral.

Entrementes, é quase impossível que o Syriza venha a por de pé uma coalizão de esquerda. Graças novamente ao bônus da ND, o número de cadeiras da esquerda é minoritário. A esquerda levou 44,46 % dos votos, contra 36,66% da direita (o restante ficou com partidos menores que não entraram no parlamento, graças à cláusula de barreira). No entanto, depois de distribuídas as cadeiras, o que, além do bônus, contra com aquelas que os outros partidos deixaram de lado, a direita tem 163 cadeiras contra 137 da esquerda.

Entretanto, diante do fracasso da ND, o Syriza, no momento, é o partido encarregado de formar uma coalizão. Seu líder já denunciou o pacto de austeridade como "nulo": e que vai sim tentar formar um governo em três dias. Tomara. Os cabelos em Bruxelas, Berlim, Frankfurt e Stuttgart, estão de pé.

Em suma, uma confusão.

Mas essa confusão tem nome. Em primeiro lugar, a profunda divisão das esquerdas. Impossível formar uma coalizão que conta com Syriza, Pasok e KKE, o Partido Comunista, mais o novo DIMAR. O KKE se recusou a conversas com o Syriza. Uma lástima. Esperemos que revisem essa posição draconiana e inútil.

Em segundo lugar, o nome chama-se "falta de democracia". Falta? É, falta. Que poderes tem o parlamento grego, diante da intervenção a que seu país foi submetido pela Comissão Européia e pela "troika", C. E., FMI e Banco Central Europeu, quando da reunúncia de Papandreou, o primeiro ministro que ameaçou fazer um plebiscito sobre os planos fiscais e foi imediatamente apeado do poder?

Numa situação dessas, ninguém quer abrir mão de nada. Porque abrir mão de uma migalha é abrir mão de tudo. É ficar fora da interlocução que conta, ou seja, aquela de mão única, mas que define quem pode se apresentar como dialogando com a banca e com a troika.

Talvez haja ainda alguma negociação que leve à formação de um governo de emergência. Ou então haverá novas eleições em junho, e o primeiro ministro/interventor Papademos continuará tocando o barco até lá.

Mas o que está faltando na Europa, berço da democracia moderna, é a própria criança: a democracia. Economia não é coisa para povo meter o bico.

Talvez o resultado da eleição francesa possa mudar esse quadro.