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Mama Chucrutz, o FMI e a Grécia

por flavioaguiar1 publicado 24/05/2011 11:10, última modificação 24/05/2011 14:13
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Por flavioaguiar1

Gregos indisciplinados fazem Angela Merkel se parecer com Mama Chucrutz, dona da pensão onde se passavam as cenas das histórias em quadrinhos de Os Sobrinhos do Capitão (Foto: Reprodução Rudolph Dirks/Wikipedia)

Os da minha geração se lembram certamente d'Os Sobrinhos do Capitão. Era uma tira em quadrinhos onde dois moleques levados da breca (Hans e Fritz) aprontavam sem parar, com ajuda de dois outros, uma menina cujo nome não lembro e um menino muito chato (Lilico), para cima do Capitão e do Coronel seu amigo, que era um inspetor de escola. Tudo se passava numa ilha tropical onde esses personagens, presumivelmente alemães, tinham aportado sabe-se lá por quê.

Quem governava a ilha era uma rígida senhora, dona da pensão onde todos moravam: Mama Chucrutz. De vez em quando Mama Chucrutz rodava a baiana e caía de vara de marmelo em cima dos miúdos (assim, à portuguesa) e sobravam também puxões de orelha até para o Capitão e o Coronel.

A lembrança me veio à mente quando, na semana passada, a Chanceler Angela Merkel, em encontro do seu partido, a União Democrata Cristã (CDU), entrou a fazer comentários sobre serem os gregos muito indisciplinados: gozam férias demais, têm aposentadorias demasiado altas, etc. Se os gregos levaram a vara de marmelo, sobraram puxões de orelha para os outros países "folgados" (o termo é meu): Portugal, Irlanda, e Espanha, que está na sala de espera da UTI do Euro.

Isso destoou do estilo tradicionalmente contido e sóbrio da Chanceler, como apontou a mídia alemã. Foi um destempero? Penso que não. A Chanceler enfrenta dificuldades domésticas graves: seu partido acaba de sofrer mais uma derrota aplastante em mais uma das eleições regionais. Desta vez foi a da cidade-estado de Bremen, onde a CDU ficou em terceiro lugar, pela primeira vez perdendo para o Partido Verde, que ficou em segundo. O SPD, como é de praxe, ficou em primeiro. E os aliados da CDU, do FDP, não atingiram a quota de 5% dos votos e ficarão de fora do Parlamento.

Também há dificuldades na frente externa. A Alemanha é a caixa-forte do euro; sua coadjuvante, a França, é uma parceira importante, mas menor. Cada vez fica mais claro que o remédio empregado para "salvar" os países com problemas por causa de sua dívida pública é, além de amargo, tão perigoso quanto a doença, podendo levar os pacientes à inanição e à morte (inadimplência) pelo seu teor recessivo. Não sou (só) eu que o digo: é Paul Krugman, no NY Times.

Mas tudo assume um ar de disciplina doméstica: "nós" - os países centrais da zona do Euro - fizemos a lição; "vocês" - os da nova periferia que está sendo criada - não, e esse é o problema. Temos todos de ter regras mais amplas de privatização e mais duras com trabalhadores e aposentados, além de cortes mais severos nos investimentos públicos, sobretudo os sociais. Temos todos de ser "igualmente competitivos", ou seja, igualmente conservadores.

Esse é também o contexto em que se dá o embate atual pelo cargo de diretor executivo do FMI. A Chanceler alemã saiu em defesa de um nome europeu, secundada por ingleses e franceses. A escolha seguiria a tradição, com o diretor do FMI sendo um europeu e o do Banco Mundial um norte-americano. Mas mais do que a tradição, a escolha de um nome europeu garantiria um controle maior sobre os caminhos futuros da instituição, no imediato.

Dominique Strauss-Kahn era um dirigente da "esquerda" do FMI, se é que isso pode ser dito assim. O certo é que ele começou um movimento, ainda que tímido, de reformas na instituição, abrindo-a para uma maior participação dos emergentes. Um nome alternativo ao europeu poderia trazer riscos de que ela viesse a desviar, mesmo que levemente, dos rumos inteiramente ortodoxos que estão sendo implementados na Europa do Euro abalado e dos países em crise. 

As reformas que estão sendo enfiadas guela abaixo dos países em crise e vindouros estão reordenando a zona do Euro em torno dos bancos credores. Portugal, Irlanda e Grécia já estão a eles subordinados. O sistema bancário espanhol também, e com ele virá certamente o país inteiro, que já está devastado por uma taxa de desemprego de 21% (41% ou 45%, conforme a fonte, entre os jovens). Imagine agora, num contexto desses, se na gaiola do FMI outraz vozes começa a ser ouvidas demasiadamente... Vai dar confusão na casa européia.

A Chanceler sabe disso.