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Futebol na Europa: Espanha fora
Dívida pública e desemprego em alta, crescimento em baixa e, agora, futebol eliminado: pobre Espanha (Foto: Susana Vera. Reuters)
Pobre Espanha!
Desemprego e recessão devastadores, futuro a perigo, Família Real em crise de credibilidade, Repsol em baixa, juros da dívida pública em alta...
E agora seus dois campeões estão fora da copa européia interclubes, em favor de duas equipes com atributos menores: Chelsea e Bayern de Munique. Como é possível?
Bem, antes de tudo, um esclarecimento: acho que nunca comentara futebol nesse blog, pelo menos assim abertamente. Mas se no Brasil existem, por baixo, uns 150 milhões de técnicos e comentaristas de futebol, também posso ser um.
Assisti à série de semifinais. No último dos jogos, o Bayern desclassificou o Real Madrid nos pênaltis, depois de cobranças bisonhas de Cristiano Ronaldo, Kaká e Sérgio Ramos.
Quando correram para bater os pênaltis, deu para sentir que errariam. Estavam com a cabeça em outro lugar. Os dois primeiros não chutaram de verdade: deram um taquinho na bola. Já Sérgio Ramos também não chutou: deu um pontapé na bola, como quem quisesse se livrar dela. Resumo: o time não se preparara para aquela eventualidade. Não se concentrara nela. Quando Cristiano Ronaldo e Kaká correram, dava para dizer: quem vai ao encontro da bola, ali, não são dois jogadores, são duas imagens holográficas, a estrela que cada um é é que vai bater o pênalti. Deu no que deu.
Já o caso do Barça é mais complicado. Estou convencido de que os dois melhores times do mundo, no momento, são, pela ordem, o Barcelona e a seleção alemã. Jogam bonito, alegre, com uma técnica exemplar, podem massacrar qualquer adversário. Então porque perdem, como a seleção alemã na Copa do Mundo, perante um time muito inferior, ou o Barça, várias vezes?
Porque às vezes o entusiasmo com o próprio jogo, com a própria imagem, rouba-lhes a concentração, o foco.
Vou dar um exemplo, que, aliás, envolve o Chelsea – também. Em 2006 meu glorioso Inter conquistou o campeonato mundial interclubes contra o mesmo Barça. Que o Barça era melhor time não havia dúvidas. O Inter suou para desclassificar o Al Aly (o campeão africano); o Barça passeou sobre o campeão norte-americano, do México.
Daí me recordo de duas coisas. A primeira é o Abel Braga (então técnico do Inter) dizendo: "Não adianta passar para meus jogadores um vídeo do Barça ganhando. Vou passar um deles perdendo".
E passou o quê? Um jogo contra o Chelsea. E o Barça perdeu para o Inter do mesmo modo que perdera para o Chelsea, e do mesmo modo com que foi agora desclassificado pelo mesmo Chelsea. Em todas essas oportunidades o Barcelona confiou na estrela de seus jogadores e levou gols (todos eles) em contra-ataques fulminantes. Sem combate no meio do campo, seus defensores, recuando, ou correndo atrás do prejuízo, foram envolvidos pelos adversários.
A situação é um pouco diferente da do Real Madrid. Este tem como karma confiar no estrelismo dos seus jogadores. O Barça, na estrela do seu time e do seu futebol. Mas para ambos (como acabou se tornando o caso da seleção alemã, deslumbrada com seu surpreendente jogo) a vitória seria algo "natural". Não se prepararam para a adversidade.
Lembro de, depois da entrevista do Abel Braga, lá em 2006, ter assistido a uma entrevista do técnico do Barcelona. Este falou, vagamente, sobre a equipe adversária (o Inter), que era um time isso, um time aquilo, mas sem envolvimento real. Em resumo, o Inter ganhou porque se preparou para enfrentar aquele Barça, naquele jogo, naquele momento. O Barcelona ia "ganhar mais uma".
Como aconteceu contra o Chelsea, agora. Vai ver até que os jogadores do Chelsea viram o video do jogo do Inter, cujos jogadores tinham visto o video do jogo do Chelsea... e assim por diante.
Para não dizer que não falei de espinhos, na última vez em que o Inter disputou o mundial interclubes, depois de sagrar-se bi na Libertadores, cometeu erros análogos aos do Barça e do Real Madrid juntos. Jogou contra o Mazembe africano com a cabeça já na Inter de Milão. Resultado: foi surpreendido e batido pela velocidade dos africanos – em contra-ataques fulminantes.
A história do Barcelona e do Real Madrid, agora, parece que vem de uma tragédia grega: excesso de confiança, hybris, cabeça nas alturas, quanto mais nas alturas, maior a queda. Só que dessa vez a tragédia grega aconteceu na Espanha.





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