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Alemanha/Europa: a doce glória do esquecimento

por flavioaguiar1 publicado 14/06/2012 10:00, última modificação 14/06/2012 15:42
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Por flavioaguiar1

Heinrich Brüning: em 1930, o mesmo 'plano de austeridade' de agora

A Europa vive momentos de tempestade e agonia: não se sabe como será o dia seguinte, nem como ela será daqui a dez anos, embora previsões demasiado catastrofistas possam estar exagerando. A Europa não vai "desaparecer", nem perder a importância.

Mas há momentos agônicos: pelo menos uma vez por semana as convulsões dos mercados distribuem cargas de adrenalina por todo o continente e pelo mundo inteiro, seguidas de analgésicos caríssimos, como essa nova "ajuda" de 100 bilhões de euros para os bancos espanhóis à beira da falência. Estranha soma: 100 bilhões de euros é o montante de descapitalizaçào que sofreram pela fuga dos investidores. Agora a soma retorna, sob a forma de empréstimos garantidos pelos estados e pelo B.C.E. por detrás de tudo, isto é, o dinheiro público que vem dos contribuintes. Isso se chama "socialização ou distribuição social das perdas".

No domingo que vem a França deverá continuar sua marcha para a centro-esquerda, com a confirmação da vitória dos socialistas e outros partidos de esquerda nas eleições legislativas. Na Grécia, também no domingo, ninguém sabe o que vai ocorrer: direita, extrema-direita e esquerda estão crescendo, com o esvaziamento do PASOK, o Partido Socialista.

Esse crescimento dos extremos lembra uma certa circunstância histórica, hoje "esquecida demais", para dizer o mínimo.

Não são poucas as vozes que, ao lembrar a ascensão de Adolf Hitler ao poder, em 1933, na Alemanha, lembram da humilhação do país sob o Tratado de Versalhes, ao fim da Primeira Guerra Mundial, e a estratosférica inflação da República de Weimar. Claro: são condicionantes que não podem ser esquecidos.

Mas... há mais esquecimentos do que supõe a nossa vã filosofia.

Dois nomes estão por demais esquecidos: Heinrich Brüning e Franz von Papen.

Heinrich Brüning foi chanceler alemão, apontado pelo presidente Paul von Hindenburg, de 1930 a 1932. Sua indicação se deu em meio à erosão da economia e da política alemãs depois da crise de 1929 nos Estados Unidos ter atingido a economia mundial. Porque, vejam bem, a grande crise hiperinflacionária da República de Weimar durou até 1923, quando entrou em declínio, para declinar de vez em 1925. Seguiu-se um período de relativa calmaria, depois equilíbiro, depois até prosperidade. Foi uma época de florescimento cultural extraordinário na Alemanha e em centros como Berlim, Hamburgo e Munique, entre muitos outros.

Mas a crise de 29 submergiu de novo esse mundo. Brüning foi então chamado. Era um político de expressão moderada. Estudara em Bonn e Estrasburgo, mas sua formação de base veio da London School of Economics, aliada a um luteranismo ferrenho, impulsionador de um culto ao "senso do dever". Outra pedra de toque em sua formação foi o historiador Friedrich Meinecke, de quem herdou uma concepção autoritária de estado, que tentou casar com o liberalismo econômico herdado da escola britânica.

Como a base republicana de Weimar declinava, com o crescimento dos extremos – o Partido Comunista e o Partido Nacional Socialista, sobretudo este – Brüning governou sobretudo por decretos (como as nossas medidas provisórias), cunhando ele mesmo a expressão "democracia autoritária". O que fez ele? Com sua visão liberal acendrada, fez exatamente o que se está impondo hoje pela Europa afora: um plano de austeridade rigoroso e rígido, para "reativar a economia e reorganizar o estado".

Cortou salários, reverteu ganhos salariais anteriores, comprimiu o salário do funcionalismo público, reduziu os benefícios sociais e aumentou os impostos. Espremeu a classe média, comprimiu os trabalhadores, e reduziu à miséria dos desempregados (parece a Grécia, não?). Isso reduziu sua base de apoio, e ele chegou a sonhar com a restauração da monarquia: o plano só não progrediu porque houve um desacordo geral sobre quem deveria ser o novo monarca.

Mas esse impulso aristocrático prosperou: com a queda da popularidade de Brüning, Hindenburg pediu-lhe o cargo e nomeou como novo chanceler Franz von Papen, cujo nome completo era Franz Joseph Hermann Michael Maria von Papen zu Königen. Papen nomeou um ministério conhecido como o "gabinete dos barões", ou "gabinete dos monóculos".

Continuou com a política de compressão recessiva de seu antecessor, mas, perdido em meio às intrigas políticas de seu próprio mundo aristocrático, de seu governo impopular e de um parlamento altamente fragmentado, sofrendo ainda uma pressão social muito grande, anti-comunista convicto, resolveu negociar... com a extrema-direita (!), pensando em talvez domá-la. Tirou da ilegalidade em que estavam os "camisas-pardas", ou SA, hitleristas, comandadas por Röhm, e por fim convenceu Hindenburg a apontar Hitler como chanceler, tornando-se seu vice-chanceler, cargo em que ficou até 1934.

Deu no que deu.

São lições da história por demais esquecidas, nesses momentos que a ortodoxia neo-liberal tenta desesperadamente manter sua hegemonia em meio à crise.

Pode dar no que pode dar, e temos medo até de pensar.

Papen prosseguiu, ainda que de longe, a servir o regime nazista na diplomacia. Foi embaixador na Áustria e na Turquia. Ao fim da guerra, foi preso pelos norte-americanos, julgado em Nuremberg e inocentado da acusação de crimes de guerra.

Brüning se exilou na Inglaterra, depois nos Estados Unidos. Tornou-se professor universitário e, de sua cátedra, combateu os nazistas. Retornou à Alemanha depois do fim da guerra, mas não se adaptou, voltando aos Estados Unidos onde morreu.

Pelo menos teve a relativa glória do exílio. Paz à sua memória. Mas sem esquecimentos quanto à sua desastrada administraçào na chancelaria, fruto de idéias que ainda hoje circulam hegemonicamente pelos cinco continentes e pelos sete mares.