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olhos vistos

Neste Brasil, a Corte inteira está pelada e o mundo todo está vendo

Entre presidente que se comporta como mascate, tribunal que faz justiçamento em vez de justiça e deputada que posta vídeo entre saradões, cai a máscara e a ficha das atrocidades atualmente cometidas no país
por Flávio Aguiar publicado 31/01/2018 15h27, última modificação 31/01/2018 15h34
Entre presidente que se comporta como mascate, tribunal que faz justiçamento em vez de justiça e deputada que posta vídeo entre saradões, cai a máscara e a ficha das atrocidades atualmente cometidas no país
Alan Santos/PR
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Michel Temer, o presidente que pensa que sua gestão não é reprovada também fora do Brasil

Lembram daquela história da roupa do rei que ficou nu na rua? Pois é, no Brasil de hoje a Corte inteira está num estado de peladez nunca visto na república dos bananas.

Começa pelo suposto presidente, cujo comportamento – de Davos ao programa do Ratinho, passando pelo do Silvio Santos –, é o de um mascate ou no máximo, de um gerente de boate daquelas que a gente chamava no bom tempo de “inferninho”.

Nada contra mascates nem gerentes de boate, mas um presidente, mesmo suposto e ilegítimo, deveria se comportar de outro modo. Há uma coisa chamada “decoro do cargo”. Temer é como Trump: não tem. Daí diz que os brasileiros não vão com a cara dele: bom, finalmente algo sensato.

Mas não é só isto. Daí vem a penca de decoros quebrados:

– A por ora ex-futura ministra do Trabalho aparece num vídeo que ela mesma divulga, num estado que cronistas pátrios definiram como “alterado”,  cercada de marmanjos sarados, fazendo a apologia de sua inocência. É muita desfaçatez.

– Um juiz moralista defende o duplo auxílio-moradia de sua família, coisa que além de ilegal, deveria ser crime. Outro juiz, presidente da associação corporativa, sai em sua defesa. Este também desfruta, com sua consorte, do duplo auxílio-moradia. Pode? Pode. Porque um ministro do Supremo abriu a porteira.

– Falando em Supremo, a sua presidenta diz que não vai colocar em pauta a discussão, com seus colegas, da prisão depois de julgamento em segunda instância. Rebaixaria o Supremo, disse ela. Só que ela declarou isto em reunião com executivos da Shell, além de executivos de outras empresas. Pode? Pode.

– Pressionado pela constatação de que de fato o apê do Guarujá não é do ex-presidente, já que foi penhorado em outra ação, em nome da OAS, o juiz de Curitiba manda pô-lo à venda, numa tentativa esdrúxula de salvar a cara de sua sentença. Pode? Pode. Vai ver que o famoso triplex é, então… dele, juiz!

– Um dos procuradores da colenda e egrégia equipe de Curitiba, diz que vai se aposentar para “ganhar dinheiro”. O que será isto?

– Os juízes do TRF4 dão 15 minutos para a defesa do ex-presidente Lula, fingem que ouvem, e leem as sentenças que trouxeram prontas de casa. Pode? Pode. Se a Lava-Jato é um tribunal de exceção, por que o TRF4 também não será? São os modernos Torquemadas, promotores e juízes ao mesmo tempo.

 – Daí um juiz que estava fora dos holofotes entra em cena com estardalhaço e cassa o passaporte do ex-presidente. Conseguiu seus cinco minutos de fama. O outro juiz, que autorizara a posse da ex-futura ministra do Trabalho (pelo menos até o momento), determina que o ex-presidente não precisa de habeas corpus preventivo, um direito que a Constituição lhe assegura. E fica tudo por isto mesmo.

– O presidente da Câmara Federal vai aos Estados Unidos dizer que o Bolsa-Família escraviza as pessoas. Pode? Pode.

E por aí se vai. Aparentemente, toda esta Corte acha que ninguém está vendo o que ela está fazendo, a não ser aqueles que concordam. É por estas e por outras que passo a passo, lenta, segura e gradualmente, cai a ficha no mundo inteiro sobre as atrocidades sociais, culturais, econômicas e jurídicas que estão sendo cometidas no nosso Brasil, enquanto cresce também o descrédito na e da nossa mídia corporativa mainstream.