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O mundo paira em estado de grande confusão

Ameaças de guerra nuclear na Ásia, rachas e incertezas sobre o futuro da União Europeia. O noticiário da semana carrega uma inevitável sensação de que vivemos tempos imprevisíveis
por Flávio Aguiar publicado 19/04/2017 10h30, última modificação 19/04/2017 14h07
Ameaças de guerra nuclear na Ásia, rachas e incertezas sobre o futuro da União Europeia. O noticiário da semana carrega uma inevitável sensação de que vivemos tempos imprevisíveis
Shealah Craighead/Casa Branca/Fotos Públicas
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De seu gabinete no avião presidencial, Donald Trump conversa com comandantes de operações militares na Ásia. Ameaça de guerra paira no ar e nos noticiários do mundo

O governo norte-americano, por intermédio de seu vice-presidente, vocifera ameaças contra a Coreia do Norte, enquanto o presidente anunciava, com pompa e alarde, que uma forca-tarefa naval, capitaneada por um porta-aviões, se aproximava perigosamente da região. Muita adrenalina foi jogada nas artérias e veias mundiais pelo temor de que já estivéssemos à beira de um conflito armado e catastrófico, de proporções imprevisíveis e até rebarbas nucleares.

Ao mesmo tempo, o governo norte-coreano organizava desfiles portentosos, ameaçava detonar mais uma bomba experimental e anunciava o teste de um novo míssil. A bomba não veio e o lançamento do míssil foi um fiasco, não se sabendo ao certo o que aconteceu, se foi um acidente ou sabotagem, tendo ele explodido logo depois de lançado.

De repente, vaza-se uma foto na imprensa mostrando que o porta-aviões estava navegando, na verdade, em outra direção, passando por ilhas da Indonésia em direção à Austrália, onde está estacionado… Ninguém está entendendo muito bem o que aconteceu, ou deixou de acontecer.

Ao mesmo tempo, aqui na Europa, no fim de semana o presidente turco, Tayyip Erdogan, cantava estrondosamente vitória no plebiscito para mudar o regime político em seu país – de parlamentarismo para presidencialismo – e para dar ao presidente poderes excepcionais, podendo ele, inclusive, dissolver o Parlamento e legislar por decreto.

Mas olhando-se bem o resultado o que se vê é um país rachado. O "sim" que Erdogan pedia perdeu nos grandes centros urbanos, como Istambul, Ancara e Izmir, em várias províncias do litoral e, naturalmente, entre a população curda. Há indícios de fraude, diz a oposição, embora dificilmente isso venha a provocar a anulação ou reversão do resultado (51,4% a 48,6%).

A vitória de Erdogan amplia o fosso entre a Turquia e a União Europeia. Ao mesmo tempo ampliou-se o fosso entre esta e os Estados Unidos, pois entre as primeiras vozes a saudar efusivamente a vitória de Erdogan estava a de Donald Trump. O que terá feito o errático presidente norte-americano dar esta barretada diante do cada vez mais imperial Erdogan? Necessidades da Otan, da qual a Turquia é membro? Necessidades na Síria? Necessidade de se aproximar de Ancara em detrimento da Rússia? Ninguém está ainda entendendo muito bem.

Enquanto isto, na outra ponta do continente europeu a primeira ministra britânica Theresa May anunciava uma eleição surpresa para o dia 8 de junho. Todo mundo está se interrogando o porquê disto. O gesto de May evidencia mais uma vez que ninguém está sabendo muito bem o que fazer com o Brexit. Já antes ninguém entendeu muito bem o empenho do primeiro-ministro anterior, David Cameron, em fazer o tal do plebiscito, que veio a lhe custar o cargo com a vitória da saída da União Europeia.

A hipótese mais provável é a de que Cameron reagia à divisão de seu próprio partido, o Conservador, e o plebiscito seria uma maneira de alinhá-lo atrás de si, mas o tiro saiu-lhe pela culatra e a bomba explodiu na sua mão.

Agora se aventa a hipótese de que May esteja tentando assegurar uma maioria confortável para deflagrar o processo do Brexit, também diante da divisão de seu próprio partido, além de se aproveitar de um momento em que o Labour se mostra dividido em torno da manutenção da liderança esquerdista de Jeremy Corbyn. Este, surpreendentemente, acolheu a ideia da eleição, talvez também pelo mesmo motivo, desejando que uma nova votação alinhe o partido atrás de si.

Pela lei, o Parlamento tem de aceitar a própria dissolução antecipada por uma maioria de dois terços, caso contrário fica tudo como dantes. Mas os tiros podem sair-lhes pela culatra. Enquanto isso,  a rainha reina, mas não governa.

Atravessando o Canal da Mancha, a eleição francesa, cujo primeiro turno se realiza no próximo domingo, embolou de vez. Quatro candidatos têm chances de ir para o segundo turno (em 7 de maio): Marine Le Pen, Emmanuel Macron, Jean-Luc Mélénchon e François Fillon.

O socialista Benoît Hamon está fora do páreo, mas pode ajudar a definir o resultado no segundo turno. François Fillon é o que tem menos chance, tendo sido rebaixado de favorito a azarão, embora, como diz o ditado pampiano, "não está morto quem peleia".

O novo favorito é Macron, que acalmaria os mercados europeus, mas a ascensão meteórica de Mélénchon nas pesquisas durante as últimas semanas tem jogado mais adrenalina nas artérias e veias hegemônicas na União Europeia diante da possibilidade, para ela fantasmagórica, de uma finale no dia 7 de maio entre Le Pen e o que ela qualifica como "comunista" ou "populista de esquerda".

De tudo, uma certeza: a União Europeia passa mal, padecendo de uma "austera indigestão". O único lugar em seu interior que não vai mal, no momento, é Portugal, com seu governo de centro-esquerda. Além do vizinho Vaticano que, embora cercado de UE por todos os lados, tem o único governante declaradamente de esquerda na macrorregião.