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Donald Trump na era da pós-verdade: quando a versão é mais importante do que o fato

Nova fase ganhou um reforço com a chegada de Trump à Casa Branca, que reúne entre seus auxiliares o que os Estados Unidos têm de mais reacionário e agressivo
por Flavio Aguiar publicado 25/01/2017 15h10, última modificação 25/01/2017 15h17
Nova fase ganhou um reforço com a chegada de Trump à Casa Branca, que reúne entre seus auxiliares o que os Estados Unidos têm de mais reacionário e agressivo
Agência Brasil
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Exemplo da ânsia de Trump de hegemonizar a pauta mundial é o anúncio de que os EUA vão sair da Transpacífica

Corre uma discussão em diferentes mídias mundiais de que estaríamos vivendo, no jornalismo, nas redes sociais e de um modo geral, a "era da pós-verdade". Normalmente, as pessoas usam o prefixo "pós" quando não sabem muito bem o que querem definir, mas sabem de onde partem para esta indefinição. O termo "pós-moderno" é o exemplo mais bem acabado disso.

Também deve-se considerar, previamente, que antes o termo "era" valia para um período muito extenso, coisa de milhões, milhares ou pelo menos uns dois séculos de duração. Hoje este prazo se abreviou consideravelmente, e fala-se descontraidamente em "era FHC", "era Lula", "era Dunga", para ficar em alguns exemplos caseiros. Já há até quem fale em "era Temer", enquanto outros anunciam, esperançosos, ou porque querem sucedê-lo, ou porque querem simplesmente vê-lo pelas costas, que "Temer já era".

Mas o que se quer dizer – mesmo que sem exatidão – com "pós-verdade"?

De um modo geral, pode-se dizer que a expressão aponta para uma sensação controvertida de que estamos superando a consideração de que mais importante do que o fato é a versão. Estamos entrando num momento em que o fato perde sua substância completamente. A versão é o fato, e ela subsiste por ela mesma.

Apontam, por exemplo, que o turning point desta sucessão de momentos foi a guerra do Iraque que depôs Saddam Hussein. A mídia sustentou, sem provas nem mesmo tentativas de verificação, a ideia de que o ditador iraquiano albergava armas de destruição maciça e massiva. A justificativa sustentou a guerra. Depois se comprovou que era tudo mentira, que as tais armas não existiam, que fora tudo um engodo forjado pelo governo norte-americano e seus órgãos de inteligência e espionagem. Mas nesta altura Inês já era morta, ou melhor, Saddam Hussein já estava deposto e morto. Para muitos, isto foi e é um escândalo. Para outros tantos, isto não passa de faits-divers da guerra da informação; escandaloso é se recorrer a tais métodos.

Servem de amparo a ambos os lados da contenda as múltiplas afirmações atribuídas ao ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, sobre a repetição da mentira até ela tornar-se verdade – afirmações estas que, diga-se de passagem, não dispõem de comprovação documental, pelo menos até o momento. Embora, é claro, que os defensores da desinformação como método de guerra jamais citarão o ministro de Hitler como argumento em seu favor.

A era da pós-verdade, seja lá o que isto queira dizer, ganhou um reforço com a chegada de Donald Trump à Casa Branca, não resta dúvida. Além de reunir entre seus auxiliares diretos e indiretos o que os Estados Unidos têm de mais reacionário e agressivo, e de tomar algumas medidas de acordo com seu programa demolidor do bom senso e consagrador do que o senso comum tem de mais idiota, Trump vem fazendo um esforço enorme para impor-se como o hegemon da pauta política mundial. Este termo é usado em ciência política para designar um estado que se impõe sobre outros dominando-os não só econômica, militar e politicamente, mas também culturalmente, fazendo-se a referência de significado para  os que mantém sob seu guarda-chuva ou dentro do seu curral, como se quiser. A Roma Antiga, Espanha, Holanda,  França, Inglaterra, Estados Unidos são bons exemplos de hegemons de sucesso com duração e alcance variados em sua hegemonia. Trump ambiciona fazer a renovação dos Estados Unidos como hegemon, interna e externamente, e neste esforço quer ele mesmo tornar-se o hegemon do hegemon, o "meta-hegemon": "L’Amérique c’est moi", para juntar o modo arrogante como os norte-americanos se referem a si mesmos com a célebre frase sobre o Estado atribuída a Luis XIV (ao que parece também sem fonte direta).

Um bom exemplo desta ânsia em hegemonizar a pauta mundial é o anúncio bombástico de que os Estados Unidos vão sair da Parceria Transpacífica. Na verdade, esta "bomba" anuncia que os Estados Unidos sairão de algo em que ainda não entraram, porque ela ainda não existe de fato. Trump poderia dizer "desistir", mas não ficaria bem, porque líderes como ele não "desistem" de nada; "sair" é mais bombástico, mais "macho", para usar uma boa expressão adequada ao personagem e à personalidade em que quer se transformar.

Neste esforço titânico, Trump e seu entorno entraram em confronto com esta coisa inteiramente superada: o "fato". Seu assessor de imprensa, Sean Spicer, acusou a mídia de falsear a imagem da posse do novo presidente como "vazia", graças ao "pouco comparecimento". Várias mídias reagiram, expondo fotos das ruas de Washington quase ao relento durante a posse de Trump (a não ser pelas manifestações contrárias), e as mesmas ruas tomadas por multidões feéricas durante a posse de Obama. Uma outra assessora de Trump veio em socorro de Spicer, dizendo que este se referia a "fatos alternativos". Mas o melhor socorro mesmo veio do próprio Spicer, que no dia seguinte afirmou que às vezes é necessário ir contra os fatos, e que isto não significa mentir. Haverá melhor definição e práxis da "pós-verdade"?

Bem, Trump deu uma. Agora atribui sua derrota no voto popular para Hillary Clinton a um suposto comparecimento às urnas de algo entre 3 milhões e 5 milhões de "eleitores ilegais". Diz que tem indícios, provas, mas não os apresenta. Fica assim o dito pelo dito, e é claro que haverá milhões de embasbacados pró-ativos acreditando na afirmação e repetindo-a até que para outros milhões ela vire uma verdade.

Como se costuma praticar em coletividades jurídicas que se põem alegremente sob o guarda-chuva – ou a canga – do hegemon norte-americano, sem provas, mas com muita convicção, mesmo que esta frase seja o amálgama de diferenças sentenças de diferentes personagens, mas unidos no esforço de, definido o criminoso para eles, encontrar a apresentar o crime que este cometeu – numa variante muito promissora para futuros romances policiais.

 Portanto, resumindo para @s leitor@s, aperte o cinto. Você já está vivendo plenamente a "era da pós-verdade", dentro e fora do seu país.