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perto da tragédia

A Ucrânia naufraga num mar de sangue

Renascimento da guerra fria está redefinindo o desenho político do mundo com sangue do povo ucraniano, enquanto os falcões americanos contam com apoio retórico da Otan e de boa parte da mídia ocidental
por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual publicado 06/05/2014 11h35, última modificação 06/05/2014 13h11
Renascimento da guerra fria está redefinindo o desenho político do mundo com sangue do povo ucraniano, enquanto os falcões americanos contam com apoio retórico da Otan e de boa parte da mídia ocidental
EFE/Maxim Shipenkov
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Enterro de manifestante morto em conflito na Ucrânia: tensão e complacência da mídia aumentam

A maior parte da mídia ocidental continua a fomentar uma "russofobia" que aponta Moscou como a única responsável pela violência dos acontecimentos, através do apoio a grupos separatistas e da ameaça de invasão da Ucrânia.

Recentemente o comando da Otan alertou para o "perigo" de que a Rússia não necessita invadir o país para anexar as províncias do leste. Basta os separatistas ganharem a guerra civil que já corre solta, ou Kiev ceder diante de uma eventual ameaça de corte nas exportações de gás natural pela Gazprom, a estatal russa que controla o setor.

Porém até agora o que se tem visto é uma ação brutal – pela intervenção direta ou pela omissão – das forças do ou sob o governo de Kiev. Em Slavyansk o exército ucraniano está combatendo seu próprio povo. Há dezenas de mortos, inclusive de civis. Notícias de repórteres que estão no local (como do The Guardian) dão conta que a população está revoltada com a ação do Exército, e que estão se alistando junto aos rebeldes.

A única "força de invasão" que a Rússia enviou foi uma delegação para ajudar a convencer os separatistas a libertarem reféns em seu poder, que faziam parte de uma missão militar de observação sob auspícios da União Europeia.

Em Odessa, no fim de semana, a polícia local manteve um comportamento vergonhosamente omisso e criminoso, enquanto militantes do chamado "Setor da Direita", que é neo-fascista, massacravam manifestantes contrários ao governo de Kiev.

Até mesmo autoridades da capital ucraniana criticaram o comportamento da polícia, que limitou-se a deter os manifestantes que conseguiram escapar do prédio do Sindicato dos Comerciários, incendiado pelos fascistas, provocando a morte de pelo menos 46 pessoas. Na sequência um grupo de simpatizantes invadiu a delegacia de polícia local onde, sem encontrar resistência, libertou 67 detidos.

Os ministros do setor de energia da União Europeia estão reunidos discutindo o que fazer caso o conflito se agrave e a Rússia interrompa ou diminua as exportações de gás para a Ucrânia e para os países da União Europeia.

O ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Walter Steinmeier (SPD) propôs uma nova reunião de urgência em Genebra, entre Estados Unidos, Rússia, o governo de Kiev e a União Europeia, para ressuscitar o acordo de desarmamento e paz. O mesmo propôs o partido Linke , ajuntando que tal reunião deveria ser feita sob os auspícios da ONU.

Duas coisas são certas. O desenho político do mundo está sendo refeito, com este renascimento da guerra fria. Os Estados Unidos estão forçando a criação de um bloco antirrusso com a União Europeia, que ainda está recalcitrante, devido às implicações políticas e econômicas que isto pode ter no continente.

A Rússia está se voltando economicamente mais para a Ásia, e se aproximando mais da China, o que pode levar a uma aproximação maior com Brasil, Índia e África do Sul.

A outra coisa certa é que este redesenho do mundo está sendo traçado com sangue do povo ucraniano, porque os falcões estão ganhando, pelo menos em Kiev, com apoio retórico da Otan e de boa parte da mídia ocidental.