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bonita festa

A Revolução dos Cravos segundo José Cardoso Pires

por Flávio Aguiar, para a Rede Brasil Atual publicado 22/04/2014 13h06, última modificação 22/04/2014 13h57
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Portugueses comemoram o fim da ditadura de Salazar, na revolução de 1974

Esta é a primeira vez em que ponho este relato no papel, quer dizer, na tela do computador. Em 1975, o governo português – formado logo depois de 25 de abril de 1974 – enviou uma missão de escritores do país às universidades e outras instituições afins brasileiras para explicar o movimento.

Então eu era um jovem professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo. Houve um encontro com os escritores nas chamadas Colmeias do Crusp, pois os cursos de Letras da universidade ainda estavam lá sediados, como uma “força de ocupação” para impedir o retorno dos estudantes, condição que só deixaríamos em 1983.

O encontro foi muito interessante, até porque os escritores, todos comprometidos com a democratização do país e com a movimentação decorrente do 25 de abril, tinham perspectivas e relatos muito diferentes entre si sobre o que estava acontecendo em Portugal.

Por apresentação de amigos comuns, marquei um encontro com o escritor José Cardoso Pires num bar do centro da cidade. Passamos uma tarde memorável juntos, tomando conhaque, quando ele me contou a sua participação nos acontecimentos do 25 de Abril.

Cardoso Pires, autor, dentre outros, do romance O Delfim (1968) é reconhecidamente um dos maiores escritores do país no século 20, coisa de ombrear com Saramago e Fernando Pessoa. Infelizmente faleceria em 1998, vítima de um derrame cerebral.

Mas naquela tarde de talvez agosto de 1975 ele brindou-me com uma narrativa inteiramente pessoal, temperada por seu bom humor e ironia. Desconheço se ele mesmo a pôs por escrito.

Começou contando que na noite de 24 de abril recebeu um telefonema de uma amiga que estava na clandestinidade fazia tempo. Ela lhe disse simplesmente: “José, chegou a hora”, e desligou. Cardoso Pires contou a conversa à mulher, que lhe perguntou o que aquilo podia significar.

“Certamente que vou ser preso”, disse ele, que já andara às turras com DGS, sucessora da famigerada Pide, a polícia política do país. Pediu que a esposa lhe preparasse uma maleta com um “kit/prisão” (escova de entes, muda de roupa etc.) e dispôs-se a esperar pelos acontecimentos. Mais tarde, já bem noite a dentro, bateram na porta. Surpreso, ele abriu, e mais surpreso ainda, deparou com dois militares, um oficial e um soldado, ambos armados.

Disse-me ele então: “Pensei: chegou a hora!”. Qual não foi o espanto quando o oficial entrou, abraçou-o (!) e disse: “camarada, chegou a hora!”. “Esta é uma revolução democrática”, continuou no oficial, “e viemos convocá-lo para fazer um pronunciamento na televisão”. Ele que estava proibido de aparecer na tevê, voltou-se para a esposa e disse “chegou a hora”, e saiu.

Na rua, deparou  com um caminhão onde estavam vários conhecidos, todos escritores e intelectuais antissalazaristas. Entrou no caminhão, e perguntou o que estava acontecendo. Ninguém soube lhe explicar direito: tinham sido arrebanhados pelos militares, e estavam indo – como foram – à estação de televisão.

Lá chegando, foram levados a uma sala, onde ficaram ao redor de uma mesa, onde havia uma garrafa de uísque que, ao que parece, ninguém tocou. Passaram-se as horas. Já amanhecendo, ele pretextou ir ao banheiro, e conseguiu escapulir do prédio. Telefonou à esposa, que ainda estava acordada, sem nada saber, e disse que ia dar uma volta pela cidade, para descobrir o que estava acontecendo. “Chego por volta das dez”, disse, e desligou.

Daí, disse-me ele, deparou com a torrente humana que saía às ruas para festejar a queda do regime de Salazar, confraternizar com os soldados dando-lhes cravos vermelhos que estes colocavam nos fuzis, transformando o golpe militar numa revolução democrática.  Contou-me que, entre outras coisas, acompanhou, lado a lado, Otelo Saraiva de Carvalho, um dos líderes militares do levante, quando este invadiu a prisão da Pide, libertando os prisioneiros e aprisionando os esbirros e carcereiros.

“Voltei para casa somente três dias depois. E a minha filha não voltou até hoje”, arrematou ele, naquela tarde de 1975, em São Paulo, no centro da cidade, deixando-me a centelha de esperança que o Brasil também poderia tornar-se uma democracia.