Publicado em 24/02/2011
A desinformação sobre o desemprego e a torcida pelo pânico
O noticiário matinal de grandes portais fez tudo que pôde para o melhor janeiro dos últimos tempos parecer notícia ruim
Em todos os anos o nível de emprego cai em janeiro em relação a dezembro. Isso pode ser constatado em qualquer pesquisa, de qualquer instituto e sob qualquer governo. É recorrente nos principais sites de notícias usar a comparação de janeiro com dezembro, período em parte das contratações decorrentes do período de Natal se desfaz.
Talvez seja a pressa de dar a notícia tão logo o instituto a divulgue – e logo cedo vemos as manchetes "desemprego sobe em janeiro". Talvez seja má fé, como forma de compor uma "soma" de fatores negativos que induzam ao pânico ou, no mínimo, a uma tendência favorável aos defensores dos juros altos e do freio na economia.
Isso aconteceu na manhã de quarta-feira (23), após a divulgação da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), do convênio Seade/Dieese. Uma análise mais correta seria permitida comparando-se o mesmo mês, taxa de janeiro de 2011 com janeiro de 2010. Na média geral das sete regiões pesquisadas pelo convênio, o desemprego caiu de 12,4% para 10,4%. Em Salvador, a melhora se aproximou de quatro pontos percentuais; em Recife, de cinco.
Estes dados existem na pesquisa – que aponta o melhor resultado do sistema Dieese/Seade em São Paulo dos últimos 20 anos e, na média das sete regiões, o melhor desde 1998 –, mas os títulos e o texto dos principais sites desinformam.
Na manhã de quinta-feira, após a divulgação da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE, foi a mesma toada nos principais sites: "Desemprego no Brasil sobe a 6,1% em janeiro" – ou seja, estava 15% menor que o desemprego de janeiro do ano passado, que foi de 7,2%. Os valores são diferentes porque o sistema Seade/Dieese tem metodologia que detecta uma proporção maior de entrevistados procurando emprego do que a seguida pelo IBGE. O que ambas têm em comum é o fato de se restringir a algumas regiões metropolitanas e não conseguir, portanto, captar tendências pelo interior do país.
Os dois medidores de desemprego nada têm a ver também com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho (Caged), que divulga todo mês a diferença entre o número de trabalhadores admitidos e de dispensados com base em informações fornecidas por empresas privadas de todo o país. Em janeiro, não por acaso, o saldo de contratações com carteira assinada foi positivo em 152 mil vagas.
Enfim, num aspecto as pesquisas e o Caged concordam: este foi um do melhores janeiros da história. O noticiário matinal dos grandes portais não fez questão de destacar esse fenômeno. E os comentários de boa parte de seus leitores, alguns sarcásticos, divertem-se com a desinformação. Como dizia Odorico Paraguaçu: "A ignorância é que atravanca o progresso".

Fonte: IBGE
Taxas de desemprego nas Regiões Metropolitnas (em %) - Seade/Dieese
|
|
Período
pesquisado
|
Variação
|
|||
|
Janeiro 2010
|
Janeiro 2011
|
Dezembro 2010
|
dez/2010
– jan/2011
|
Jan/2010
– jan/2011
|
|
|
Distrito
Federal
|
14,7
|
12,9
|
12,6
|
-2,3
|
-14,3
|
|
Belo Horizonte |
9,6 |
7,1 |
7,7 |
8,5 |
-19,8 |
|
Fortaleza |
9,7 |
8,3 |
8,5 |
2,4 |
-12,4 |
|
Porto Alegre |
9,7 |
7,2 |
7,3 |
1,4 |
-24,7 |
|
Recife |
17,9 |
12,8 |
13,5 |
5,5 |
-24,6 |
|
Salvador |
17,7 |
13,8 |
13,6 |
-1,4 |
-23,2 |
|
São Paulo |
11,8 |
10,1 |
10,5 |
4 |
-11 |
|
Média total das sete regiões pesquisadas |
12,4 |
10,1 |
10,4 |
3 |
-16,1 |
Fonte: Dieese/Seade










