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Publicado em 13/07/2010

Spy vs. Spy: mais atual que nunca!

Spy vs. Spy: mais atual que nunca!

Tira criada por Antonio Prohías em 1961, mas seguiu sendo copiada por outros artistas (Foto: Reprodução)

Muitos anos atrás, eu costumava ler regularmente a revista MAD, dos EUA. Uma de minhas seções preferidas chamava-se “Spy vs. Spy”, que caricaturava a Guerra Fria. Nela, dois espiões, um completamente vestido de branco e o outro de preto (a revista era em preto e branco, exceto a capa), lutavam entre si, aprontando armadilhas, bombas que explodiam etc. A praxe era que eles se arrebentavam e nenhum ganhava de vez.

Bom, na vida real a situação foi outra: um deles – não sei se o de branco ou o de preto – ganhou. O comunismo caiu, a União Soviética se foi, os Estados Unidos e o capitalismo ganharam. Mas o jogo da espionagem continuou, e agora reapareceu no noticiário comuma força há muito não vista – como o frio aí no sul do Brasil e o calor nesta tórrida e tropical Berlim.

Na Rádio Brasil Atual, Flavio Aguiar fala sobre espiões, prostituição e o polvo Paul

Enquanto o polvo Paul encantava o mundo com as suas previsões infalíveis (melhor que o Papa), a paraguaia Larissa Riquelme com o seu celular, a seleção alemã com seu aspecto multiculti e o seu futebol vistoso, o mundo da espionagem e da contra-espionagem passava por convulsões há muito não vistas – exceto, talvez, nas telas de cinema, TV e livros do gênero.

No dia 11 de junho pp. o presidente Obama foi oficialmente informado que o FBI preparava-se para prender, numa só tacada, 10 supostos norte-americanos natos ou de adoção, em diferentes cidades dos EUA, acusados de serem espiões para a Rússia. A reunião se realizou no famoso Salão Oval da Casa Branca, e nela estava, além de representantes do governo, da CIA, do FBI, um dossiê de 37 páginas sobre os agentes, quem eram, o que tinham feito... mais ou menos nos últimos dez anos!

Os agentes tinham uma aparência comum: dos 10, oito eram casados e tinham filhos; viviam em geral pacatas vidas de subúrbio; eram jornalistas, professores, pequenos empresários, donas de casa. Estavam perfeitamente integrados no american way of life. Explicavam seus sotaques por diferentes origens no exterior: um dizia que era da Itália, outro do Uruguai, ainda outro do Canadá etc.

A mais notória tinha sobrenome Chapman, que herdara de um casamento desfeito no Reino Unido, era uma mulher bonita, com passaporte britânico, havia trabalhado no setor financeiro, circulava em meios empresariais e políticos com desenvoltura. Não sei se por despeito, vingança, ou outra razão, seu ex-marido divulgara um dossiê sobre sua intensa vida social nos EUA.

A anunciada prisão dos dez era uma solução e um problema. Dali a exatos 13 dias o presidente Dmitri Medvedev, da Rússia, desembarcaria em Washington para uma visita oficial à Casa Branca. A saia justa (ou a calça acima do tornozelo, para não sermos acusados de machistas) seria inevitável. Porta-vozes do FBI negaram, mas outras fontes afirmaram e confirmaram que ali já foi aventada e delineada a hipótese da troca de prisioneiros.

A partir dali as coisas funcionaram suiçamente, como num relógio. Os contatos foram feitos, telefonemas em aparelhos espaciais cruzaram o Atlântico e a Europa, os EUA enviaram o nome de quatro russos presos e condenados por espionagem em seu favor ou do Reino Unido cuja libertação lhes parecia interessante. Havia detalhes complicados. Os quatro russos tinham atividades notórias, já tornadas públicas; os russos presos nos EUA, não.

Não sei se para minimizar a história, ou se assim fora mesmo, as agências norte-americanas espalharam a versão de que, na verdade, os dez eram meio ineficientes, e não tinham conseguido transmitir informações de peso, ao contrário dos agentes presos na Rússia. Tipos assim: “os nossos agentes são melhores do que os de vocês”. O caso assumiu um ar de algo como: esses 10 agentes são ainda uma herança dos métodos da finada União Soviética, ineficientes, comprometedores, de má qualidade.

De todo modo, era necessário obter uma confissão de todos eles. Uma das agentes russas resistiu: era mãe, queria ter garantias sobre seu destino e o do filho. Nascida no Peru, fora para os Estados Unidos, casara com um dos agentes russos, dez anos mais velho do que ela, e se envolvera no esquema. Fez-se uma barganha: ela assinou a confissão, teve garantias de que poderia voltar ao Peru, se quisesse, o filho de 17 anos poderia escolher o seu destino, entre ir com ela ou morar com um irmão mais velho por parte de pai nos EUA, e de quebra ela receberá uma pensão vitalícia de 2 mil dólares mensais (isso é que é aposentadoria, pensei eu).

Uma outra complicação deu-se em Chipre, na Europa. No mesmo dia das prisões nos EUA (segundo algumas fontes, 21 de junho, segundo outras, 27), um décimo primeiro agente do esquema, aparentemente aquele que enviava dinheiro para os outros, foi preso naquela ilha do mediterrâneo, quando tentava embarcar para a Hungria. Inexplicavelmente, para mim pelo menos, ele conseguiu sair da prisão pagando uma fiança de 33 mil dólares, e desapareceu. Não é de todo desarrazoado pensar que ele pudesse ser um agente duplo, e que nele estaria a chave para o desmantelamento do grupo.

O fato é que no dia 24, quando o presidente Medvedev desembarcou em Washington, a situação estava completamente resolvida, e ele e o presidente Obama puderam dar continuidade à atual política de distensão entre as duas potências. E no dia 9 de julho, enquanto São Paulo comemorava a fracassada revolta de 1932, espanhóis e holandeses, a classificação de suas seleções para a final, e o polvo Paul fazia a sua derradeira e correta previsão, dois aviões pousaram em Viena, na Áustria: dez pessoas saíram de um e foram para o outro; quatro fizeram o vice-versa. Pouco tempo depois o primeiro retornou para Washington e o segundo para Moscou.

É claro que o caso está longe de estar encerrado. Moscou diz que vai investigar a razão da queda do esquema; os quatro russos libertados, alguns depois de vários anos de prisão, terão de decidir sobre suas vidas. Os filhos de todo mundo passarão por atendimentos especiais, pois poderão entrar em crise de identidade, sentimentos de traição e de rejeição.

Uma pergunta me ficou, aquela que não quer calar: por que o FBI, que monitorava o grupo há dez anos, decidiu efetuar as prisões justamente quando da visita de Medvedev aos EUA? A razão dada não é de todo convincente: diz a versão oficial que dois movimentos dos agentes russos deflagraram a ação. Uma foi a programada viagem de um deles à França, para este verão europeu-senegalesco que estamos vivendo; a outra foi um telefonema da sra. Chapman para seu pai, dizendo que suspeitava ter sido desmascarada.

A primeira razão, completada pela suspeita de que o agente russo poderia seguir para a Rússia e não voltar, é baseada, aparentemente, em suposição. A segunda – a do telefonema interceptado – é contraditória. A suspeita da sra. Chapman foi baseada no fato de que um agente do FBI, disfarçado de agente russo, entregou-lhe um passaporte ou outro documento, que ela deveria entregar para um outro agente supostamente russo, mas também, na verdade, do FBI. O pai, preocupado, disse que ela deveria levar o passaporte à polícia – e foi isso que a levou à prisão. Ou seja: foi um movimento do próprio FBI que deflagrou a situação usada para deter o grupo.

No meio de tanta confusão, uma coisa me parece certa: nos EUA (na Rússia deve haver também) há gente de alto escalão a quem a política de distensão com a Rússia não interessa. E tudo pode fazer essa gente para atrapalha-la. Si non e vera, e bene trovata, essa minha versão. Porque a oficial tem muito oco pelo meio.

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Flavio Aguiar

Flávio Aguiar

É colaborador em Berlim. Toda semana traz suas análises nada convencionais sobre o que acontece na Europa e no mundo. Leia mais.

 
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