
Publicado em 05/01/2012
O lado (mais) feio da política alemã (2) - com PS.
Por: Flavio Aguiar
Christian Wulff na TV alemã: novos pedidos de desculpas e persistência no cargo (Foto: ©zdf.de/reprodução)
Na quarta (4) à noite, como combinado, as tevês públicas alemãs ARD e ZDF divulgaram vídeo com entrevista gravada com o presidente Christian Wulff, em edição conjunta.
O presidente fez algo em que está ficando especialista: admitir erros e pedir desculpas por eles.
E em dizer que não renuncia.
Desta vez, o pedido de desculpas maior ficou por conta de seu telefonema para o editor-diretor-chefe do jornal Bild, Kai Diekmann, sobre a então futura divulgação de reportagem sobre o empréstimo que recebeu de um amigo, o empresário Egon Geerkens, no valor de 500 mil euros para a compra de uma casa.
De resto, Wulff colocou-se na posição de quem está sendo vítima de uma vasculhação indiscreta de sua vida privada por uma mídia interesseira e sensacionalista.
E pediu que o povo alemão o apoie. Aliás, pesquisa recente do semanário Stern mostrava que 63% dos pesquisados o apoiavam, contra 30% que não.
Convenceu? Não. Pelo menos essa é a reação da mídia.
E mergulhou um pouco mais no dedal em que ameaça se afogar.
Wulff declarou que não pediu ao Bild que não publicasse a matéria, mas que a retardasse por um dia. Diekmann veio a público na edição de hoje, quinta (5), para dizer que isso era outra mentira. E escreveu um fax (publicado) a Wulff pedindo a concordância dele para publicar a íntegra da gravação do recado presidencial.
Pode ser um xeque-mate. Aguardam-se novos capítulos.
Entrementes alguns comentários e conjecturas:
Em primeiro lugar, para este blogueiro, a situação parece uma luta entre Collor e Carlos Lacerda. A atitude de Diekmann remete a um comentário de outro editor do Bild, tempos atrás, Mathias Düpfner, que declarou: "Quem sobe de elevador com o Bild também desce com ele". Mutatis mutandis, isso lembra aquela frase de um editor de Veja sobre o primeiro governo Lula: "eu vou derrubar esse presidente". É o complexo de Carlos Lacerda (contra Getúlio) em ação.
Por outro lado, como Collor, Wulff se enreda mais cada vez que tenta dar uma explicação. Periga ter que ficar dando explicações sobre o resto de seu mandato, se não cair desta vez.
Para mim a chave dessa questão toda está na pergunta - que provavelmente vai ficar sem resposta cabal - sobre por que o Bild, que apoiou Wulff ladeira acima, decidiu retirar o apoio. Terá sido apenas porque descobriu uma matéria sensacionalista sobre o empréstimo e avaliou que isso valia mais do que a lealdade para com o presidente? Qual a natureza da relação de Wulff com Diekmann? Favores de mídia? Será que foi isso que se rompeu?
Em parte sim. O Bild apoiou Wulff quando este se divorciou de sua primeira mulher para casar-se com a segunda. Católico que é, na religiosa Alemanha, isso poderia custar caro. Porém, o Bild – o jornal mais vendido no país – cobriu de festas, louros e elogios morais seu segundo relacionamento. Em troca, segundo a revista Der Spiegel, tinha um acesso privilegiado a informações de Wulff.
Entretanto, a ascensão de Wulff projetou-o – com seu estilo de vida marcado pela ostentação e um certo luxo nos hábitos – em outras publicações voltadas para "socialites", tipo a brasileira Caras, por exemplo. O Bild perdeu a primazia. Terá isso desencantado a preferência e a proteção?
Vá saber.
No restante da mídia – conservadora ou progressista – da Alemanha paira tanto uma crítica ao presidente, quanto uma crítica (em que não falta uma ponta de inveja recalcada) sobre seu relacionamento com o sensacionalista Bild.
O fato é que Wulff vem perdendo credibilidade, apesar do apoio manifesto nas pesquisas anteriores. Isso é grave, para uma Alemanha que tenta ser a rígida vestal diante da crise europeia das dívidas públicas, e, dentro dela, para a chanceler Angela Merkel, que vê seu segundo presidente (o primeiro foi Horst Köhler) em apuros.
PS - Na quarta-feira Wulff declarou que pedira para postergar a publicaçào da matéria, sem querer impedi-la. Na quinta-feira o diretor do Bild, Kai Diekmann, escreveu um fax para Wulff pedindo uma autorização para divulgar o teor da gravação, enquanto seu jornal dizia que Wulff de fato pedira para a matéria não ser publicada. Wulff negou essa autorização (necessária porque a ligação era privada e o caso não está sob investigação judicial nem policial). Na sexta-feira, informe de um dos poucos jornalistas que teve acesso à gravação dizia que Wulff falara a verdade, mas que se destemperou durante o telefonema. Ou seja, haveria termos e expressões incompatíveis com uma gravação presidencial.
A novela continua.










