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Publicado em 04/01/2012

O lado feio da política alemã

Entre as crises da zona do Euro, a intervenção no Afeganistão (impopular), a complicada questão energética com a projetada substituição da fonte nuclear pela eólica, a política institucional alemã parece sempre navegar em tranqüilas águas de ordem e progresso

O lado feio da política alemã

O presidente alemão, Christian Wulff, enredado em estranhos acontecimentos (Foto: Presidência da Alemanha/Divulgação)

O sistema político alemão foi montado em torno da ideia da resiliência, de que nada deve nem pode provocar abalos sísmicos ou mudanças bruscas de direção. Por isso, evita-se a concentração de poderes numa única pessoa ou mesmo num único partido. É claro que há aí uma dupla lembrança: tanto a do Führer, hoje taxado de maluco que enterrou a Alemanha na Segunda Guerra Mundial e no Holocausto, quanto a da disputa entre o Kaiser Wilhelm II e o chanceler Otto von Bismark, cuja queda é vista como algo que ajudou a enterrar a Alemanha (então um jovem país e império) na Primeira Guerra Mundial.

Mas isso não quer dizer que ele (o sistema) não seja infenso a crises pessoais. Vimos algumas no passado recente: o ministro Zu Gutenberg, estrela sucessória em relação à chanceler Angela Merkel foi forçado a renunciar, acusado de vexatório plágio em sua tese de doutorado; o presidente Horst Köhler, ex-diretor do FMI, renunciou, desgastado por suas declarações de que a presença militar alemã no exterior (novidade depois da Segunda Guerra) visava também garantir o comércio do país.

Agora a Alemanha enfrenta outra crise centrada numa só personalidade. Trata-se do sucessor de Köhler, Christian Wulff. No momento em que escrevo este post está anunciado que mais tarde, à noite, Wulff dará uma entrevista coletiva na TV, tentando explicar tudo o que "aconteceu".

Pois é. O que, afinal, "aconteceu"?

Tudo começou antes de ele chegar à presidência que, na Alemanha, é um cargo quase de magistratura mas que, por isso mesmo, funciona como uma das pedras basilares daquele equiíbrio resiliente do sistema como um todo. Tanto é assim que o presidente, por exemplo, se pertence a algum partido, deve dele se desligar logo que eleito.

Wulff era o primeiro-ministro (aqui tudo funciona no sistema parlamentar) do estado da Baixa Saxônia, quando foi questionado por um deputado do Partido Verde sobre se teria alguma ligação econômica com seu amigo, o empresário Egon Geerkens. Wulff negou.

Depois de chegar à presidência, veio à tona, em meados de dezembro, que Wulff recebera um empréstimo de 500 mil euros de Geerkens para comprar uma casa. A denúncia foi feita pelo semanário reconhecidamente sensacionalista e de direita Bild. Wulff negou de novo, explicando que o empréstimo fora feito pela esposa de Geerkens.

A seguir vieram à tona documentos (divulgados inclusive pela revista já não tão sensacionalista Der Spiegel) que comprovavam que o empréstimo fora de fato feito pelo empresário, não pela mulher dele. Ou seja, Wulff mentira duas vezes.

Importante: até então, e até hoje, não se comprovou algum tipo de favorecimento ilícito de Wulff para com Geerkens. Mas o caso estava lançado: o presidente alemão não pode mentir, tem que ser melhor do que (o norte-americano)  George Washington.

Uma série de reportagens, cada uma pior do que a outra, varreu a mídia alemã, explorando uma suposta (ou verdadeira) "vida luxuosa" de Wulff, com empréstimos de casas em resorts ricos, por amigos, para passar férias, um gosto por aparecer em cassinos internacionais (embora nada se comprovasse quanto a despesas excessivas) etc. Algo de um mau gosto exemplar (não me refiro às viagens de Wulff, isso é coisa da sua vida privada, mas às reportagens).

Wulff veio a público e, antes do Natal, se desculpou pelas mentiras. E disse que não renunciaria.

Porém aí as coisas começaram a se complicar. Para pagar o empréstimo do amigo, Wulff contraiu outro, com um banco público, o BWf, no mesmo valor, 500 mil euros. Mas a juros bem abaixo (mais ou menos 2%) dos praticados pelo banco, e até pelo amigo (que cobrara juros de 4%). Numa época de crise da dívida pública varrendo a Europa toda, isso pegou muito mal.

Para complicar, no começo de janeiro veio à tona uma gravação de um  telefonema (na secretária eletrônica) do editor do Bild, Kai Diekmann, em que Wulff o ameaça com represálias legais caso a reportagem sobre o empréstimo fosse publicada.

A mídia inteira voltou-se contra Wulff, acusando-o de ameaçar a liberdade de imprensa. Exagero? Sim mas, aliado a uma tal imprevidência da parte de Wulff, dá o que pensar.

Afinal é reconhecido o fato de que o Bild fora sempre um jornal aliado de Wulff. Promoveu-o. Vejam só: Wulff é católico, mas faz alguns anos se divorciou de sua então esposa para casar-se com outra mulher. O Bild, afeito a escândalos, dedicou-se (segund o Der Spiegel) criteriosamente a por panos quentes na questão e a expor o novo relacionamento de Wulff como dotado de todos os valores familiares tradicionais.

Ou seja: ao mesmo tempo em que é necessário meditar sobre o que terá levado Wulff a se enredar nessa tempestade em dedal - já nem copo d'água - é necessário pensar no que terá feito o Bild voltar-se contra seu antigo "protegido".

Há algo de estranho - senão de podre - e não é no reino da Dinamarca.

Aguardemos a entrevista. Amanhã darei notícias.

PS - Wulff deu a entrevista, e não renunciou. Amanhã discutimos o caso.

 

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Flavio Aguiar

Flávio Aguiar

É colaborador em Berlim. Toda semana traz suas análises nada convencionais sobre o que acontece na Europa e no mundo. Leia mais.

 
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