
Publicado em 01/02/2010
Ir ao museu? É só clicar no mouse...
Por: Flavio Aguiar
Ir ao museu está ficando mais fácil. “Ir ao museu”: estou falando virtualmente.
A maioria dos museus da Europa e do mundo dispõe de páginas na internet. Exibem ali informações sobre horários, serviços, acesso e acervos. Um bom número deles exibe também seções de interatividade e multimídia. Nelas se podem ver algumas reproduções virtuais de ambientes ou obras, além de depoimentos de e sobre artistas cujas obras estão expostas temporária ou permanentemente. Isso acontece, por exemplo, com o MoMa de Nova Iorque (Museum of Modern Art – www.moma.org ), que no momento exibe um especial sobre o cineasta, escritor e artista norte-americano Tim Burton (1958 - ), cuja página na internet (www.timburton.com ) também mostra trabalhos seus de modo muito criativo, com uma espécie de besouro que guia o internauta através das telas “penduradas” nas paredes. Um bom exemplo brasileiro dessa iniciativa está na página do Museu Imperial de Petrópolis, Rio de Janeiro (www.museuimperial.gov.br ), onde, clicando-se sobre a opção “Tour”, é possível fazer uma “Visita interativa” ou uma “Visita guiada” sobre os pertences e espaços da família real.
Entretanto a maior parte dessas exibições pode ser descrita como uma “cópia” um pouco “desbotada” da visita original, em presença. Esta permite uma pluralidade de movimentos, ângulos de abordagem, closes, visões de conjunto, que a tela virtual tem dificuldade de dar acesso. Entrar de corpo presente numa sala de museu, dedicada a um artista ou a um tema, ter uma visão de conjunto, depois examinar quadro por quadro ou peça por peça, fazer comparações com o mesmo golpe de vista é, no mais das vezes, uma experiência insubstituível e irreprodutível de outro modo, que não seja o físico. Já não vou dizer entrar numa biblioteca que dá acesso aos livros nas estantes, tomar o livro nas mãos entreabri-lo, apalpar as páginas antes de lê-las, sentir a sua espessura, cheira-las... Êpa, dirá algum leitor mais conservador, isto está já parecendo perversão fetichista... Mas é a realidade. Quem ama os livros me entenderá.
Recomponhamo-nos depois dessa pequena aventura com alguma biblioteca guardada na memória, e voltemos aos vetustos museus. Vetustos? Já nem tanto. Uma das iniciativas que está tomando corpo é a de torna-los mais atraentes, mais acessíveis, mais ousados... na internet. Uma das melhores, senão a melhor iniciativa atualmente, está disponível nas páginas da Tate Gallery (www.tate.org.uk ), da Grã-Bretanha. A Tate Gallery é descrita como uma rede de cinco museus: o primeiro deles, Tate Britain, foi desmembrado administrativamente da National Gallery em meados do século XX. A este, juntaram-se três outros, com seus prédios, perfazendo quatro. E aí veio o quinto (a partir de 1998), que não é propriamente um prédio, é o, ou melhor, a Tate Online.
Inicialmente a Tate Online foi concebida como simplesmente a página on line da Tate Gallery. Mas foi ganhando vida própria, a tal ponto que hoje é considerada quase como “um museu à parte”, de direito próprio, com iniciativas cada vez mais ousadas.
Uma destas é a exibição especial, ora disponível, sobre o pintor vanguardista Francis Bacon (Dublin, Irlanda, 1909 – Madri, Espanha, 1992). Ao “visitar” a exposição, o internauta penetra num mundo semovente, como diria Riobaldo, o personagem de Guimarães Rosa, levado por diversas “salas” em que visões de conjunto, particulares, incursões por depoimentos históricos do artista, informações históricas e estéticas estão disponíveis conforme se mexe o mause e nele se clica, aproximando, afastando, revirando os olhos. Convido os leitores a experimentarem por si mesmos: www.tate.org.uk/britain/exhibitions/francisbacon/interactive
É claro que existe um suporte físico dessa exibição, na Tate Britain, a primeira da série inaugurada com o desmembramento meio século atrás. Mas acontece que a experiência virtual é tão dinâmica que não dá para dizer que ela é simplesmente uma “ilustração” da outra. Ela passou a ser uma experiência em si. Quem ver, verá.
A curadoria da exposição sobre Francis Bacon é de Chris Stephen e Matthew Gale com apoio de Rachel Tant, Bettina Kaufmann e Sandra Adler. Já a exibição online foi organizada por Bem Baylin, Kristie Beaven e Hanne Dahl, com apoio da BBC.
Além dessa exposição, a Tate Online oferece outras temáticas, como “I’ve just split up” (“Acabei de me separar”), ou “Rainy Day” (“Dia de chuva”), com diferentes quadros, de diferentes épocas, sobre tais assuntos.
É claro que esse tipo de desenvolvimento levanta dúvidas e perplexidades. Há quem diga que isso vai “retirar” público dos museus. Pessoalmente me alinho com os que não acreditam nessas ameaças, apesar de que é claro que para os “Viciados em internet” isso possa ser um prato feito, ops, quero dizer, uma tela feita, ou um download baixado, etc. Mas não será uma iniciativa dessas que irá viciar pessoas em internet: serão eventualmente deficiências ou carências na vida delas, e elas poderiam se viciar nisso tanto quanto em fazer compras ou trabalhar demais, conforme o temperamento e a história de cada uma.
Acredito que, pelo contrário, iniciativas como essa podem levar a uma maior democratização da consciência do patrimônio artístico nacional e mundial. Porque agora uma criança, numa escola ou mesmo em casa, levada pelo espírito aberto de quem lhe desperte o interesse (quem sabe o apetite?), em qualquer recanto do Brasil (por exemplo) poderá fazer uma visita guiada ao Museu Imperial de Petrópolis ou até quem sabe, numa aula de Educação Artística combinada com a de Inglês, ver as obras em movimento da Tate Online.
Boa navegação!













