
Publicado em 12/04/2010
Hungria: neonazis com o pé na porta
Por: Flavio Aguiar
Militante ostenta braçadeira com referência a "Magyar Garda", "Guarda húngara" (Foto: Divulgação Gábor Vona)
Domingo, 11 de abril, realizou-se o primeiro turno das eleições para o Parlamento Nacional da Hungria. Como era esperado, o Partido Socialista, que sustentava o governo do primeiro ministro Gordon Bajnai (sem partido), afundou: teve apenas 19,31 % dos votos, ficando com 27 cadeiras. Já a coalizão de direita, entre o poderoso Fidesz, liderado pelo ex-primeiro ministro Viktor Orban, e os pequenos Democratas-Cristãos, conseguiu uma expressiva votação: 52,75%, ficando com 206 cadeiras. Dia 25 de abril haverá segundo turno, nos distritos eleitorais onde nenhum candidato obteve 50 % + 1 dos votos, o que poderá aumentar a vantagem da coalizão de Orban. Se ela obtiver 2/3 das 386 cadeiras, poderá, sozinha, fazer reformas constitucionais.
Os socialistas afundaram em suas próprias contradições. Antes, o líder socialista admitiu ter forjado números para ocultar a crítica situação do país, e renunciou. Ao invés de convocar imediatamente novas eleições, os socialistas optaram por manter-se no poder através de alianças com pequenos e ínfimos partidos, o que levou o inexpressivo Bajnai à chefia de um governo desgovernado e periclitante. Para completar esse quadro complicado, os socialistas entraram pelo cano, quer dizer, caminho onde tantos outros partidos semelhantes naufragaram na Europa. Diante da situação crítica das finanças, emprestaram 27 bilhões de dólares do FMI, com a receita inevitável: arrocho orçamentário, cortes sociais e os etcéteras que conhecemos muito bem. Resultado: sua base social e eleitoral pulverizou-se.
Orban é um conhecido anticomunista de longa data e é descrito pela imprensa européia como um “populista de direita”. Seu programa de governo ainda está num estado difuso, senão confuso, pois ele, sabiamente, não assumiu nenhum compromisso explícito. Vagamente declarou que pretende trazer “investimentos de volta à Hungria”, reorganizar e re-equipar o sistema de saúde, combater o crime e “criar um milhão de empregos” nos próximos anos. Sua campanha foi marcada por sua ausência: até entrevistas para jornais, rádios e tevês ele se recusava sistematicamente a dar. Navegou no naufrágio dos socialistas, e teve sucesso.
Entretanto nem tudo são flores nessa marcha triunfal. O Orban de hoje é visto como um político que foi mais para a direita do que já era, e assim abriu caminho para a grande novidade dessa eleição nacional, chamada Jobbik, partido cujo nome é algo como “Movimento por uma Hungria Melhor”. O Jobbik é descrito como um partido de extrema-direita, que reuniu uma coligação de nostálgicos de uma “Grande Hungria”, anti-semitas e anti-romas* (também conhecidos como “ciganos”, “gipsies” - em inglês - , nomes que eles rejeitam). A “Grande Hungria” reunia territórios que hoje pertencem a países vizinhos, cedidos pelo Tratado de Trianon, em 1920. Reergue-se das cinzas durante a Segunda Guerra, quando o governo húngaro e seu exército se aliaram momentaneamente ao Eixo, que lhes prometia a recuperação daquele sonho (ou pesadelo). Em conseqüência desses movimentos, 440 mil judeus foram deportados – a maioria para Auschwitz, onde morreram – e muitos foram perseguidos e assassinados pelo movimento Cruz Flechada (Arrow Cross), também nazista. Milhares de romas também foram mortos na hecatombe nazista.
O Jobbik, numa moldura de desemprego (11, 2 %) crescente, e de retraimento da economia (6,3% negativos em 2009), atraiu uma votação jovem. Nas últimas eleições nacionais, os grupos de extrema-direita não conseguiram o mínimo exigido de 5 % dos votos, ficando fora do Parlamento. Já nas recentes eleições para o Parlamento Europeu, tiveram 15 % dos votos, e agora, 16,88 %, ficando com 26 cadeiras.
Um dos suportes do Jobbik é a chamada “Magyar Garda” (Guarda Magiar, que significa “húngara”). Usam fardas semelhantes às dos antigos nazistas, símbolos heráldicos medievais e têm treinamento militar. Foram proibidos, mas não se dispersaram. Seu fundador, o ex-professor de história Gábor Vona, de 32 anos, é o líder dos Jobbiks, que defendem a “deportação de judeus e romas para países vizinhos”, em meio a declarações tão fascistas quanto absurdas de que “há um complô de judeus para dominar a economia do país” e que os romas têm muitos filhos para conseguir auxílio financeiro do governo e assim quebrar o país”.
Essa ascensão da extrema-direita também era prevista pelos principais analistas políticos da mídia européia, que ainda discutem qual será seu peso na política do novo governo de Orban. Um peso muito grande, prevêem eles, poderia levar à Hungria ao isolamento na União Européia, coisa que aconteceu com a Áustria anos atrás, quando extremistas de direita ocuparam o governo. Por outro lado, a EU não quer agravar novas tensões internas, com a política do Euro posta na berlinda graças à crise na Grécia (ainda que a EU tenha acordado agora um auxílio de 30 bilhões de euros ao governo de Atenas, sob a forma de “bonds” de juros abaixo da média), mais a comoção polonesa com a morte de seu presidente em meio a uma política de reaproximação com a Rússia.
Os aspectos mais radicais da proposta dos Jobbiks, como a eliminação do Ministério de Relações Exteriores (!?), ou mesmo essa de deportação de judeus e romãs, certamente não serão levados a sério no novo governo. Mas seu peso eleitoral, além de mostrar o renascimento do espectro nazista, pode influenciar outras medidas, como um relaxamento em termos de proteção a direitos humanos, ou mesmo uma criminalização dos romas, como já acontece na Itália de Berlusconi.
Outra novidade foi a votação de 7 % dada ao LMP, partido recentemente fundado, que reúne verdes e militantes de direitos humanos, e que também surfou na débâcle socialista: um tênue bote salva-vidas em meio ao agitado oceano de bandeiras conservadoras.










